Entrevista

'Mais que sexo, gays estão em busca de encontros', diz empresário Douglas Drumond


Um espaço para que homens gays possam exalar testosterona, se renderem aos prazeres e curtirem a sexualidade com sofisticação, qualidade e bom gosto. Foram essas as referências que o empresário hoteleiro e jornalista Douglas Drumond [42] teve em mente quando viajou para diversos países do mundo, visitou inúmeros estabelecimentos e deu vida ao melhor e maior hotel para solteiros de São Paulo, o 269 Chilli Pepper, localizado no Largo do Arouche. 

Ousado, antenado e com faro e sensibilidade apurados para as necessidades do público, Drumond se tornou referência para a pegação da ala masculina paulistana, trazendo outro patamar para o mercado do entretenimento gay. Primeiro, com a bafônica sauna 269 [que ficou em atividade durante quatro anos e foi eleita o 3º melhor sex club do mundo pelo guia “Gay Cities”,] e, hoje, com o surpreendente Chilli Pepper, cuja diferença está nos detalhes. 

São 2,3 mil metros quadrados, 3 andares, 124 quartos de solteiro, 3 suítes presidenciais, 2 confort e vários lockers. Elegante e contemporâneo, o espaço conta ainda com aquecimento nos pisos, água filtrada nos chuveiros e jacuzzis, dois ofurôs, piscina de inverno e verão, sauna a vapor, sauna seca com bancos ergonômicos em peroba rosa, elevador, lounge, sala de cinema e música eletrônica do DJ Anderson Noise. 

Nas últimas semanas, o empresário tornou-se fonte do programa Morning Show, da RedeTV!, MTV Sem Vergonha, revista Istoé Dinheiro e acaba de estrelar um blog pessoal no site Mix Brasil. Ele também divulgou um novo e quentíssimo vídeo do modelo Bruno Camargo, que foi eleito o Gato Chilli Pepper. Apesar das inúmeras matérias que já saíram, nenhuma conseguiu decifrar quem é esse empresário, além do sucesso com o “pink money”. De onde veio? O que pensa? Como observa seus clientes? 
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Abaixo, uma conversa exclusiva de Douglas com o NLucon. 

- Você nasceu e morou em Belo Horizonte, antes de entrar no campo da hotelaria em SP. Como foi ser gay há 30 anos em Minas Gerais? 

Dificílimo. Para mim, pelo menos, foi dificílimo. Meu pai era um hétero convicto e dono de dois motéis héteros. Ele me apresentava a muitas mulheres e via que, ao mesmo tempo, eu estava ficando um pouco afeminado [risos]. Aos 15, com a intenção de que eu não ficasse gay, começou a me levar a lugares de prostituição feminina e eu nunca tive interesse sexual por mulher. Fui forçado a ter essa experimentação heterossexual, que sinceramente foi bem difícil, pois tinha a certeza de que nasci gay. Tenho essa ideia desde os nove anos, quando ia para a praia, para a escola e via que meu desejo interno era voltado para os homens. 

- Como conseguiu se livrar dessas tentativas de conversão?

Meu pai falava: ‘Não é que eu sou contra você ser gay, mas é que sou o seu pai, você tem que entender que eu tenho que pelo menos tentar [mudar isso]’. Eu morava na Pampulha e na época ela era um mundo à parte, assim como o Aphaville é aqui em São Paulo. Então, era difícil. Meus pais sempre me incentivaram a estudar, trabalhar, morar e fazer tudo o que eu quisesse em outras cidades, menos Belo Horizonte. Então, fiquei até os 19 anos e vim para São Paulo. Daí fui para o Rio, viajava muito e praticamente depois dos 19 não morei mais em Belo Horizonte. 

- Fora da cidade, como viveu sua sexualidade? Chegou a se casar? 

Gosto de viver paixões. Sou geminiano, meu ascendente é em gêmeos e minha luta também é em gêmeos. Meu relacionamento mais duradouro foi de oito meses e eu sou assim: Conheço uma pessoa hoje e caso com ela na semana que vem. É difícil conviver comigo, pois minhas certezas mudam a cada dia e as pessoas ficam sem saber como lidar. Hoje, tenho esse lado que o dinheiro proporciona, que são esses namorados que não chegam com o desejo do amor em si, mas tá ótimo também [risos]. 

- Acredita que seu pai, que era dono de motéis, contribuiu para esse olhar mais empreendedor, hoteleiro? 

Com certeza. Nasci com meu pai construindo motel. Com 15, ele me levava para a obra porque, como eu disse, tinha que ‘virar homem’. E eu aprendi muitas coisas ali e muitos empreendimentos que eu passo construindo, como o Chilli Pepper, eu lembro de todas as dicas que ele me dava, do jeito que ele cobrava os mestres de obra, os pedreiros, tudo aquilo foi um grande colégio para mim. 
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"Na Califórnia, entendi o projeto arquitetônico e as sutilezas do lugar"
- Como foi a experiência do seu primeiro empreendimento, a 269? Em qual viagem internacional surgiu a ideia da sauna? 

Existe uma [sauna] que inspirou chamada Steamworks, que é em Berkeley, na Califórnia, ao lado de São Francisco. Lá, foi o lugar mais feliz em toda a minha vida, vivi uma liberdade sexual durante seis meses e tirava medida de tudo. Morava com um grande amigo – o Renato [Riccio, empresário] e ele dizia: ‘Você é louco de ficar fechado neste lugar tirando medidas’. E eu respondia: “Louco é você. Estou aqui fazendo a minha pesquisa. [risos]. Em Berkeley,  entendi, não só o projeto arquitetônico, mas as sutilezas do lugar. Afinal, é um espaço voltado para a sexualidade e deve ter a atenção nos detalhes. Montei a 269 e o Renato também montou em Belo Horizonte um projeto muito parecido. 

- Conta como o público gay brasileiro recebeu de cara esse novo conceito de sauna...

A sensação do público foi a mesma que tive quando entrei em Berkeley. É a sensação de: “Que surpresa! Eu quero ir para um sauna, conhecer alguém e que esse lugar não seja um lixo, mas um luxo”. As pessoas querem que o espaço seja confortável, que tenha qualidade de toalha, que esteja tudo limpo... Quando voltei ao Brasil, visitei 48 lugares e só na For Friends tive coragem de tomar banho sem nenhuma aflição. Naquela época era difícil, mas hoje a concorrência melhorou bastante, ainda bem. 

- Muitos empresários, fascinados pelo pink money, investem na comunidade gay, mas desistem. Quais são as dificuldades? 

Dizem que, quando vamos lançar um produto, a melhor maneira de saber se vai dar certo é testar em Belo Horizonte, pois os mineiros são críticos. Eu acrescento mais: se essa pesquisa fosse feita com gays seria mais específica ainda, pois o gay é muito chato e exigente. Esse seria o lado bom. Mas, fora isso, os grandes empresários são perseguidos, são visados e eu mesmo vou a delegacia todo mês, mesmo sem saber o motivo. Querem fechar, correm atrás, fazem implantação de menores, drogas e produtos estragados, abusam nas cobranças. Eu, particularmente, tenho agradecido ao governo do Haddad, pois estou há seis meses com paz, não sou perseguido pela prefeitura de São Paulo. Antes, já respondi 30 processos ao mesmo tempo. 

- Com o fechamento tão repentino da 269, movido por perseguições e a venda do imóvel, o que você aprendeu? Como é sobreviver a esse mercado? 

Muita atenção e muitos companheiros espirituais. “Vira aqui” e eu viro e depois digo que não fui eu [risos]. Acho que é mais por aí, pela intuição sobre qual caminho ir, qual profissional contratar. Às vezes é desesperador. Vou dar um exemplo: Quando viemos inaugurar a Chilli Pepper, a empresa de gás disse que não poderia mais ligar o gás no dia. Daí meia hora vem outra e afirma que, por 60 mil, consegue ligar o gás para funcionar ainda hoje. Já ocorreu de tirarem automaticamente a minha conta de luz do débito automático e o fiscal chegar às 18h dizendo que vai cortar a luz, caso... 
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Bar da Chilli Pepper
- Após o fechamento, você pensou em desistir ou já foi atrás do hotel Chilli Pepper? 

Fui em busca de outro imóvel, imediatamente, no outro dia. Minha ambição maior passou a encontrar esse outro imóvel. Daí veio a questão de superação e, já que vou ter que refazer alguma coisa, então que seja melhor, maior, até porque eu já sabia da demanda. Não pensei em desistir, pois isso é o que eu sei fazer.

- Em oito anos e meio, já descobriu o que esse gay consumidor quer? 

Sexo! [risos]. Na verdade, encontros, né? Às vezes nem é o desejo do sexo em si, mas é o desejo pelo encontro do amor, a procura por um namorado. Então, essa procura é constante, eterna e diária. E o que a gente mais quer é e encontrar um namorado. 

- E é possível encontrar um namorado em uma sauna? 

Recebo convites para ser padrinho de casamento de pessoas que se conheceram na sauna e se casaram. A química, quando bate, pode ser na padaria, na delegacia, na sauna... Mas vou dizer uma coisa, é mais simples se encontrar em uma sauna que em qualquer outro lugar. Porque a cor do ambiente, o cheiro e o clima dá uma impulsionada para que a timidez seja deixada de lado. Um exemplo legal é de um hospede da Chilli Pepper que na inauguração me abraçou fortemente. Ele disse no meu ouvido: “Quero te agradecer porque já faz um ano que não namoro ninguém, desde que a 269 fechou”. Ou seja, ele ficou um ano sem ter relação amorosa, sexual, nada...

- Acha que ainda há preconceito da própria comunidade com quem vai para sauna? 

Existe bastante, mas já quebramos muito. Quando voltei ao Brasil, as pessoas diziam “Não quero namorar ninguém de sauna gay”. E eu dava completa razão, porque as saunas eram horríveis, logo quem frequentava não tinha bom gosto, então é melhor não namorar quem não tem bom gosto. Hoje, você encontra em uma sauna classe AA.
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"Não sou um perverso sexual, ao contrário, sou até romântico"
- Agora, vocês estão com dias temáticos para ursos, negros, estudantes, chaveirinhos... A Chilli já superou a 269? 

Na 269, tínhamos 16 mil homens por mês e, aqui, estamos em torno de 12 mil. Ainda não alcancei o sucesso da 269 por uma questão de endereço. Mas todas as sextas-feiras é recorde se comparada às sextas-feiras do mesmo mês do ano passado. O crescimento varia com os eventos da cidade, mas estamos batendo recorde um atrás do outro. Acho importante dizer que, para quem tem medo de transitar pelo Arouche, principalmente de madrugada, estamos com uma segurança ótima, tanto do hotel quanto da sindicância de rua. Cutucamos os usuários de drogas, encaminhamos moradores e não temos mais nenhuma incidência de assaltos ou violência. 
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- Em todas as reportagens que falam sobre você e o hotel, abordam que a estadia do hotel é de 12 mil reais para mulheres. Mas alguma doida milionária já se arriscou a pagar? 

Não, existiu que a [ex-BBB] Monique foi capa da Sexy e queria ser a mulher de 12 mil reais. Então, eles me ligaram para fazer as fotos aqui e eu respondi que deixaria, desde que ela de fato pagasse os 12 mi. E eles não quiseram [risos]. 

- Travesti e transexual pagam o preço de mulher? 

Depende, se ela tiver documentos masculinos, paga o preço normal [ de R$30 a R$50]. Agora, se ela já mudou os documentos, daí já paga os 12 mil.

- Por falar em trans, quem me apresentou a você foi a travesti multimídia Claudia Wonder [1955-2010]. Como se conheceram?

Nossa, fomos amigos de longa data, pois sempre gostei da noite de São Paulo. Era a época do clube Massivo [anos 90], Love e outras festas grandes, em que as pessoas passavam na casa do Heitor Werneck para se vestirem... Nós ficávamos muito loucos, a Claudia tinha tesão em mim,  ficava no meu pé, mas eu falava: “Me larga, sai daqui sua vaca [risos]”. Tanto que, no começo, ela me perturbava tanto que eu não gostava dela. Não entendia porque ela queria ficar comigo e toda aquela pegação no pé. Mas, depois de tanto ela insistir, a gente acabou ficando muito amigo. Aquele período foi demais, juventude... Chegamos a trabalhar junto e ficou um carinho imenso por ela.
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Sauna seca
- Aos 42 anos, o que mudou na concepção de festas, vaidade e mundo gay? 

Atrativamente, passei a desenvolveu o papel do pai. Eu, que sempre gostei de homens mais velhos, passei a me aproximar dos mais novos. Quando digo que queria voltar atrás, era para ter uma saúde física que me fazia aproveitar tudo. Hoje, se eu saio e faço uma noitada, não tenho ressaca, fico doente [risos]. Prefiro vir para o Chilli Pepper, onde me divirto escondido dos 56 funcionários... 

- O que as pessoas nem imaginam sobre você? 

Não sou um perverso sexual como as pessoas acham que sou [risos]. Não tenho esse ímpeto de sair transando com todo mundo, como já tive na adolescência. Ao contrário, sou até romântico, do tipo de conhecer alguém e ser mais precavido, devagar... Nunca convido ninguém para fazer sexo, convido para jantar, tomar uma cerveja...

- E qual é o seu maior sonho hoje? 

Finalizar o Chilli, deixar ele um brinco, pois ainda estamos ¼. O meu pai morreu faz um ano e existe uma briga familiar que me perturba e também sonho resolver. Enfim, quero dar continuidade ao meu trabalho e que as coisas continuem para frente. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Anônimo disse...

Será que ele namoraria um cobrador de ônibus com apenas o ensino médio de uma escola pública da periferia de Belo Horizonte?

K.I.M.B.E.R.L.Y disse...

O que uma Transexual ou Travestis iria fazer em um putero gay ? se a travesti não queira pagar o preço de mulher que é mais caro tem o direito de pagar menos caso assuma sua genitalia .. sei que é estranho .. quem não tiver conveniente a essa regra que não frequente o espaço .. se cobrar mais caro das travestis vão dizer que é preconceito.. como não frequento o espaço que não condiz com meu estilo de vida.. não tenho muito a opinar ....

Vou ser sincera não me senti ofendida com esse titulo da matéria, talvez seja porque me aceito com meu orgão sexual ou sou assumidamente Travesti, inclusive nesse hotel existe Travestis funcionarias, uma é até a chefe da limpeza, e o Douglas já ajudou muitas meninas também na época do Casarão Brasil ... Se eu fosse frequentadora do local, com certeza eu falaria que sou travesti para pagar menos não sou boba ;p

Lembrando que no ano de 2003 a Coordenadoria das Trans da Associação da Parada LGBT de São Paulo,lutamos e brigamos com as principais boates gays que sobretaxava nossa entrada, e as casas como Danger, Planet entre outras nunca mais ousaram fazer isso, e as saunas também nunca mais atreveram e barrar a nossa entrada, enfim prefiro me preocupar com assuntos com mais necessidades que puteiros dos gays ...

Isso é apenas uma opinião individual <3

Ricardo Aguieiras disse...

Gosto dele. Douglas pode ser uma pessoa muito difícil, mas é honesto consigo e com os outros. Eu o defendi muito, quando por questões ideológicas e partidaristas ele não pode nem entrar na Associação da Parada-SP, chamaram a polícia. E ele também foi humilhado e perseguido por boa parte da militância LGBT pelos mesmos motivos ideológicos. Era chamado de "burguês". Sinto que suas excelentes propostas no Casarão Brasil não tenham ido adiante, justamente por falta de apoios de todos os lados. Não gostavam da ONG por que ela era autônoma, não precisava de dinheiro nem de partidos nem do governo para seguir adiante. Outro ponto legal é realmente a questão do sexo gay e os clubes de sexo e saunas, neste país. Penso que devido à baixa estima provocada pela homofobia internalizada e pelos preconceitos ligados ao sexo, todos os lugares que conheci, clubes, saunas, eram realmente muito ruins, e muitos continuam assim, infelizmente. Isso começou realmente a mudar com a visão que o Douglas implementou e com o cinemão "Ponto Zem", na Av. São João, em Sampa, cujo dono quis também fazer algo limpo e bem organizado. Também houve mudanças no quesito atendimento e recepção, éramos muito maltratados por funcionários despreparados, burros, homofóbicos. Nunca entendi por que temos que falar "obrigado" e não ouvir um "de nada" em retorno. Lembro-me que na Station, outro clube de sexo de Sampa, uma vez fui reclamar da sujeira e de banheiros sem trinco nas portas e ouvi como resposta de um dos donos: "Tem que ser assim mesmo, sujeira vende! Gay gosta de cheiro de porra..." Nesse mesmo lugar tinha um níssei que ficou anos na recepção e maltratava todo mundo, tinham ódio mortal do cliente gay que chegava cedo. Ora, então por que a casa abria naquele horário? que abrisse mais tarde. No Ponto Zem temos um atendimento legal, guardam os pertences dos clientes em armários sem custo adicional, são gentis e sorridentes, não enxergam o cliente gay como inimigo a ser humilhado. Acusam o lugar de ser "brega", cheio de toalhinhas e luzinhas e enfeites, mas prefiro um local assim, onde somos bem tratados do que um local tido como "chique" onde somos discriminados e maltratados, como em muitas boates de Sampa, onde a discriminação contra gordos e idosos gays, ou pobres gays começa já na fila, selecionam quem pode entrar numa clara e evidente discriminação que muitos gays aceitam e ainda acham que "tem que ser assim mesmo". Enfim, desejo sucesso e felicidade ao Douglas Drumond e que essa "cultura do maltrato" com o público gay, que é quem sustenta esses estabelecimentos e paga os funcionários, mude.
Ah, outra coisa que concordo, como diz a belíssima canção de Kim Carnes,"Love Comes From Unexpected Places", o amor pode acontecer nos lugares mais estranhos e inesperados. Todos homens que eu amei e tive longas relações, eu conheci nesses lugares que a moral critica tanto. E nunca num cinema de arte, museu ou na Universidade de São Paulo. Portanto...
Ricardo Rocha Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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