Pride

Sabia que Ava Gardner visitou por engano a parisiense ‘Mansão das Lésbicas’ em 1951


Embora Marilyn Monroe seja o primeiro nome apontado ao falar-se sobre ícones femininos e beleza no cinema clássico, outra estrela fez história na sétima arte pelo inquestionável femme fatale e pela fascinante ousadia intrínseca. É a norte-americana Ava Gardner [1922-1990],  “o mais belo animal do mundo” [definição do poeta Jean Cocteau pelos olhos felinos], que está entre as 50 maiores lendas do cinema [AFI].

Ava nasceu na Carolina do Norte, e o fascínio que despertava estava muito além de sua consciência. Criada de maneira rígida pelos pais, ela demorou a entender que era um furacão. Aos 14 anos, foi se batizar na igreja batista e recebeu uma bata fina para vestir. Ao ser mergulhada na banheira, o tecido ficou transparente, o corpo ficou desnudo e mil olhares escandalizados caíram sobre ela. Uma vergonha absoluta e a saída definitiva da igreja.

Em sua autobiografia Ava – minha história, traduzida no Brasil por Celso Loureiro Chaves, a estrela revelou que nunca sonhou em ser atriz e que tudo começou quando o seu cunhado, Larry Tarr, a fotografou e deixou suas imagens na vitrine de um estúdio de fotos de Nova York. Foi então que Burney Duhan, funcionário do estúdio MGM, viu as fotos e, embasbacado com tanta beleza, aconselhou a enviar para os estúdios.

“É claro que eu adorava cinema, mas nunca tinha passado pela minha cabeça ser atriz”, descreveu ela, que fazia curso de secretariado e carregava um sotaque sulista muito forte. “Mr. Martin Shenk foi muito amável [no teste]. Ouviu atentamente as primeiras frases e uma expressão indescritível  foi se formando em seu rosto. Acho que não entendeu três palavras”. A solução foi enviar o teste mudo e dublar as cenas em que aparicia figura tão atraente.

OS SEIOS QUE CHOCARAM HOLLYWOOD

Estreou nos anos 40 em pontas e, em 17 filmes, seu nome sequer apareceu nos letreiros. Apesar de não se considerar atriz e da vaidade até então não domá-la, era o máximo respirar o mesmo ar de Clark Gable, com quem ela contracenou anos depois em Lone Star [1952], Mogambo [1953] e City on Fire [1979], e de Burt Lancaster, nos filmes The Killers [1946], Seven Days in May [1964] e The Cassandra Crossing [1976].
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No filme One Touch of Venus, da Universal, de 1948, Ava interpreta a Deusa do Amor, que vem à Terra aprisionada em uma estátua e que volta à vida após ser beijada por um comerciante. Para o filme, uma estátua real de Ava deveria ser criada por Joseph Nicolosi e a atriz, embora envergonhada, topou se despir inteiramente para a obra. Um verdadeiro escândalo nos estúdios.

“Quem tinha mencionado algo sobre nudez? Tetas! Será que ninguém tinha avisado que não permitiam tetas num filme de Hollywood? Não importava se eram bonitas ou não”, lembrou a atriz, que teve que outra estátua feita. Ainda assim, com os seios bem demarcados.

UMA CONQUISTADORA NATA

“Uma vez Rita Hayworth disse que o problema era que todos os homens se apaixonavam por Gilda, seu personagem mais glamoroso, mas na manhã seguinte acordavam ao lado dela. É uma sensação com a qual eu me identifico inteiramente. Sempre me senti prisioneira da minha imagem, percebendo que as pessoas preferem os mitos e que, no fundo, não querem conhecer o meu eu verdadeiro. Eu era promovida como uma espécie de sereia e interpretava personagem sexy e as pessoas cometiam o erro de pensar que eu era assim fora da tela”.

Logo quando chegou aos estúdios da Metro, Ava conheceu Mickey Rooney e se casou com ele em 1942. No ano seguinte, após uma série de brigas, se separou. Mas em 1945, casou novamente com o músico, compositor e regente Artie Shaw, a quem considerou culto, inteligente e que trouxe muita cultura para a sua vida. Um ano depois, se separou novamente, mas não desistiu do amor, se envolvendo com o aviador bilionário Howard Hughes.
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Mickey, Artie, Frank e Luis
Quando Ava conheceu Frank Sinatra, ele era casado com Nancy. Mas não foi motivo suficiente para escutar do cantor: “Hey, porque não te conheci antes de Mickey? Eu teria me casado com você antes dele”. Embora considerasse imoral e recebe pilhas de cartas como destruidora de lares, não rejeitou nenhum convite do artista, a quem dava o título de cantor do século. “A voz dele tinha uma qualidade que me dá vontade de chorar de felicidade, como um lindo pôr-do-sol”.

Frank se separou da esposa e casou com a atriz em 7 de novembro de 1951. Um romance conturbado. “Tanto Frank quanto eu éramos pessoas de pavio curto, tensas, possessivas e ciumentas”. 

Durante uma briga, o cantor ligou para Ava e disse: “Não aguento mais isso. Vou me matar – agora!”. Ela escutou uma explosão e saiu correndo para o prédio do amado. “E ali estava o corpo estendido na cama. Ah, Deus! Estaria morto? Me joguei sobre ele dizendo, Frank, Frank. E o rosto com um pequeno sorriso pálido se voltou para mim e uma voz disse: ‘Ah, oi’. Ele deu um tiro no travesseiro e colchão”.

As estrelas se separaram em 1957 e, embora Ava considere Sinatra o seu grande amor, se envolveu ainda com o toureiro Luis Dominguin e outros homens, inclusive um brasileiro que reza a lenda brochou ao ficar em choque com tanta beleza. “O amor é uma comunhão silenciosa”.

NA MANSÃO DAS LÉSBICAS

Uma das passagens mais curiosas ocorre durante a visita da atriz e da irmã Bappie a Paris, em 1951. Elas estavam em um hotel de turistas, mas queriam sozinhas e escondidas desbravar a cidade. “O motorista parecia não entender nenhum idioma, especialmente aquele francês vindo da boca de uma dupla de garotas da Carolina do Norte. Mas uma coisa ele entendia, era dinheiro e como éramos americanas, tínhamos que ter dinheiro”.
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Elas rodaram Paris de taxi por 45 minutos e foram levadas a um local no mínimo extremamente elegante. “Luzes sobre um toldo listrado e uma linda escadinha, levando para o que parecia ser uma adega subterrânea. Tudo pintado de vermelho. Muito chique, muito típico, muito francês. E dava para ouvir a música. A gente vai escutar um jazz lindo aqui, estou sentindo nos meus ossos”.

Ava considerou todos os convidados e funcionários bonitos. “Tudo era extremamente chique, com mesinhas contra as paredes, violonistas de casaca e gravata brancas tocando a toda, todos os garçons resplandecentes nos seus smokings. O maitre, mais um bonitão, sorrindo nos levou à nossa mesinha”.

A atriz logo notou que a reconheceram, mas não se importou, principalmente porque foi servida com as bebidas mais caras da época como cortesia e porque os violonistas chegaram a elas, com amplos sorrisos. Até que a irmã percebeu que não havia outras mulheres no local e que os músicos tinham peles tão lisas que não precisavam sequer fazer a barba.

“Compreendi o que ela queria dizer e dei uma boa olhada nos queixos lisos segurando os violinos. Polidos como se fossem ovos cozidos descascados. Naquele momento, o maitre voltou novamente para encher os nossos copos. Olhei direito para os lindos olhos profundos DELE. Jesus! Não! Os lindos olhos profundos DELA! Passei uma revista rápida por todas as mesas. Só homens. Não, não eram homens. Eram mulheres vestidas de homens. Os fregueses, a orquestra, o maitre, aposto que que até o porteiro do lado de fora era mulher”.

Elas estavam no que chamavam em Paris de Mansão das Lésbicas. “Eu tinha vinte e sete anos e sabia o que eram lésbicas. Não tinha certeza do que elas faziam, mas era mulher o suficiente para me defender se necessário. Mas o bom senso veio em meu socorro e todas tinham sido tão amáveis e charmosas... Procedemos como duas senhoras sulistas igualmente amáveis, igualmente educadas. Enfim, talvez as fizemos pensar que voltaríamos na noite seguinte para unirmos ao grupo”.
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Sem preconceitos, Ava admitiu que, de todos os elogios que recebeu – a mulher mais linda do mundo, o mais belo animal do mundo... – o que mais gostou veio de George Cukor. “Ele disse a coisa mais gentil sobre mim. Disse numa entrevista: ‘Ava é um gentleman. Um gentleman. Assim mesmo”.

O ADEUS

A atriz morreu de pneumonia aos 67 anos, em 25 de janeiro de 1990 em seu apartamento em Ennismore Gardens. Deixou na história mundial a beleza, a ousadia e a prova de que é possível se surpreender por meio da arte. Pelo trabalho de atriz – sim, de atriz, título que ela tanto relutou em 36 anos – foi indicada pela Academy Awards pelo filme Mogambo, três vezes pela AFTA Awards e marcou o cinema com o filme a A Noite do Iguana, em 1964, que a fez ser indicada como Melhor Atriz Dramática no Globo de Ouro e venceu a categoria de Melhor Atriz no San Sebastian International Film Festival.

Nos últimos anos de vida, teve um derrame, que afetou as pernas e inutilizou o braço esquerdo. "Eis uma lição que aprendi muito cedo na vida. A gente tem que ser perseverante. Aprendi a compensar, a ser feliz com visões, sons e situações que uma vez achei corriqueiras. Algo que sempre soube foi que o processo de tornar-se adulta, de envelhecer, de aproximar-se da morte, nunca pareceu assustador. E, sabem, se eu tivesse que viver de novo, viveria exatamente da mesma maneira. Talvez fizesse algumas mudanças aqui e acolá, mas nada muito importante. Porque a verdade é que aproveitei a minha vida me diverti muito".
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A foto mais famosa do animal mais bonito do mundo, da gentleman Ava Gardner

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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