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Saiba quem é (e o que pensa) o ativista que driblou a FIFA contra a homofobia


No último jogo da Copa das Confederações, realizado no último dia 30, uma corajosa manifestação quebrou o protocolo da FIFA e chamou atenção do Brasil. “Ser gay é... Mara...Aberração é o Preconceito!”, informava a faixa carregada, que atingia a recente declaração de Mara Maravilha e o projeto “cura gay”, que até então havia sido aprovado pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias.  

Mas quem seria o responsável por tamanha coragem e ousadia? Como conseguiu driblar tanta gente e manifestar-se contra a homofobia no Maracanã? E o que aconteceu com ele depois? O NLucon descobriu que trata-se do ator e diretor teatral paranaense Alex Tietre, de 35 anos, que já participava das manifestações de rua e que utilizou da criatividade para fazer história

“A ideia do ato foi minha. Coloquei a bandeira na cintura por baixo da roupa, pois sabia que não haveria revista e a expectativa era de que as pessoas vissem a manifestação de forma tranquila, percebessem que podemos nos manifestar com bom humor, sem precisar fazer depredação. Sabia que a causaria impacto por ser uma bandeira gay no Maracanã, mas confesso que não esperava tanta repercussão”, declara.

Da arquibancada, não ouviu vaias e nem aplausos, mas foi só sair do espaço que recebeu críticas dos próprios voluntários. “Disseram que foi ridículo o que fiz e que, se eu tivesse protestado contra a fome, eles me apoiariam. Disse: ‘Isso mostra que preconceito ainda é grande e que o meu recado foi dado. Fico feliz por ter defendido a causa”.

Alex conta que não foi retirado do local, pois ficou entre os cinco cantores que estavam no palco central e que não sentiu medo de agressão. O artista declara que, embora soubesse das agressões que manifestantes estavam sofrendo, sabia que no local que estava localizado não poderiam tirá-lo. “Estendi a bandeira no palco e corri pro meio dos outros voluntários, sem ser identificado. Os outros dois tiveram a faixa retirada e, como já estava no final da coreografia, saíram com os outros voluntários”.


AGRADECIMENTO A MARA MARAVILHA

Alex também estava entre os vários manifestantes cariocas que "acordaram" nas últimas semanas e foram para as ruas. Mas frisa que o espírito ativista vem desde a mais tenra idade. Tanto que na adolescência uma redação do ator foi publicada no jornal de sua cidade, Guarapuava, no Paraná, e o título da matéria era “Injustiça social revolta adolescente”.

“Sempre quis fazer parte de um momento histórico e dizer, futuramente, com um país diferente, que fiz parte dele. Alguns jornalistas disseram que entrei para a história, mas não tinha acreditado muito nisso até que um estudante de história me disse por meio do Facebook que discutiram o meu ato na faculdade e que todos estavam apoiando”.

Pelo feito, o ator agradece – vejam só – a Mara Maravilha, que declarou que considera uma aberração casais se beijando na rua. “Agradeço a Mara, pois ela me deu inspiração para a minha frase. Mas não acredito nela. É neste discurso que está o preconceito camuflado, assim com o distanciamento que existe com as travestis e o racismo são preconceitos camuflados. Dizer que tem amigos gays não anula o preconceito. É como dizer que aceita negros, pois tem uma empregada negra”, defende.

Para Alex, é claro que qualquer casal deve ter noção de onde está e como se comportar. “Mas qualquer namorado deve ter o direito de dar um beijinho caso sinta vontade ou andar de mãos dadas. Enquanto isso não for mostrado com naturalidade, o preconceito e a homofobia continuarão a existir”.


QUEM PRECISA DE CURA? 

 “É inadmissível o projeto de 'Cura Gay", pois nos agride. Por mais que saiba que o projeto não é do [Marco] Feliciano, não podemos admitir que o presidente da Comissão de Direitos Humanos seja a favor disso. A maior aberração para mim é o preconceito estar presente nos nossos representantes, os políticos. Se a pessoa quiser procurar um psicólogo, é direito dela, mas criar um projeto para dar margem às pessoas pensarem que gays podem mudar, é reforçar o preconceito".

Atualmente, o projeto aprovado pela Comissão de Direitos Humanos foi retirado mas outro semelhante voltou em pauta e Marco Feliciano declarou que em 2015 voltará com uma maior bancada evangélica para aprová-lo. “Precisamos continuar nos manifestando com inteligência e sem agressões para não gerarmos mais preconceito. Temos que acabar com a visão de que somos todos promíscuos, parar de pensar só em festa e lutarmos com seriedade por um futuro melhor”.

Recebendo apoio de várias pessoas do Brasil e inclusive de outros país, ele lamenta não receber incentivo de grupos LGBTs. “Até agora nenhum me procurou para discutir o assunto. O único político que me procurou para a reunião não é gay. Nós, gays, precisamos nos unir mais, desde que não seja para mais uma parada”, diz.

Na última sexta-feira [5], Alex desabafou por meio de seu Facebook para dizer que os últimos dias foram difíceis e que sua vida mudou após o protesto. "Não me arrependo, mas confesso que está sendo muito mais difícil. Foram dias corridos e ouvir dizerem 'ele é o viado' foi estranho. [...] Recebi o apoio de amigos, mas alguns se afastaram e houve até um comentário: 'Cuidado que vão te matar'" [...] Mais uma vez eu digo, aberração é o preconceito!".


SOBRE O MILITANTE ARTISTA

O ator salienta que não quer usar o manifesto para se promover profissionalmente. Mas – após o NLucon insistir sobre mais informações sobre ele – Alex revela que faz teatro amador desde os cinco anos, que se profissionalizou aos 16 e que já trabalhou por quase 18 anos na Cia de Teatro Arte & Manhã, uma das maiores do estado. Hoje, 
trabalha em uma agência de atores e dá aulas de interpretação, vídeo e teatro.

Ele também escreve peças de teatro, muitas delas infantis, acaba de escrever a peça Coma-me [sobre vegetarianismo e a relação entre homossexual e héteros], e prepara-se para dirigir um musical. Nas horas vagas, ele é “viciado em jogar futevôlei na praia”, em Niterói, onde é o único gay do grupo. “Mas sou muito bem aceito”.

Apesar da expectativa de quem o conhece, o artista afirma que não está programando nenhuma manifestação parecida com a do Maracanã. “Quero ser mais ativista agora, mas se começar a aparecer com bandeira gay em toda parte serei motivo de piada e acho que o gay já é mostrado de forma muito caricata na sociedade. Não quero ser mais um, pois é um assunto sério. Temos que ser lembrados com alegria e também seriedade”. 

Tanto nos palcos quanto nas manifestações, Alex provou que também é MARA!


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

ricardo Rocha Aguieiras disse...

Neto Lucon, em primeiro lugar, parabéns por que você é um dos poucos jornalistas investigativos que conheço. Achei ótimo você ter conseguido chegar até o autor de um protesto tão lindo e marcante. E Alex Tietre, parabéns vezes mil, é assim mesmo que se faz! Muita gente só enxerga alguma luta, principalmente a LGBT, só se for através de partidos ou de alguma ong. E estas acabam sempre, ou deturpando o que antes era ótimo (Sartre já falava disso...) ou querendo os trunfos, no caso são só seus! Reconhecer quem faz e valorizar também é lutar por Direitos. Muita gente que realmente mudou o mundo, fez isso sózinha! Continue, todos os aplausos para você!!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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