Pride

Grupo trans manifesta problemas e direitos a serem conquistados no Brasil

[crédito: filme Meu Amigo Claudia]

O gigante acordou! Vem pra rua! Fora Feliciano! Não são apenas 0,20 centavos! Os protestos tomaram conta do Brasil e movimentou o cenário político. A priori, falavam-se do aumento da passagem do transporte público. Porém, pouco a pouco outras questões foram levantadas pelos brasileiros.

Atualmente, a comunidade LGBT luta contra o projeto de lei que visa “curar homossexuais” e a favor de que o deputado federal Marco Feliciano, pastor considerado racista e homofóbico, perca a cadeira da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Mas e o que quer o grupo trans?

Qual é o principal direito a ser reivindicado por travestis e transexuais? Abaixo, as meninas do Trans em Debate respondem: 


Obs: A foto acima é do dia 21 de de abril de 1985, data em que várias travestis se reuniram - entre elas Claudia Wonder e as que ficavam hospedadas na Casa Brenda Lee - para pedirem liberdade sexual. Foi a primeira grande manifestação de trans no Brasil, mas a noite ficou marcada pela morte do presidente Tancredo Neves.


DUDA BARRETO: Acho que nunca se falou tanto em transexualidade, relações homoafetivas, sobre escolhas, condições e identidade de gênero na mídia. Mas, em minha opinião, tudo começa na vida escolar. É o momento em que a transexualidade se aflora e as escolas ainda não estão prontas para receber todas as transformações desses alunos.

Por não haver um trabalho geral nas escolas, a maioria das transexuais abandonam os estudos. São vítimas de pressão e preconceito de um ambiente que não aceita as diferenças, que o diferente é sempre motivo de deboche, que a trans não é levada a sério.

Penso que a escola seja a base de tudo e principalmente da inclusão social. Precisamos de leis mais específicas quanto ao tratamento ao nome social, o uso do banheiro, nas dinâmicas divididas por gênero, questões que façam a aluna trans se sentir a vontade no ambiente escolar.

Só assim conseguiremos mudar o quadro atual, em que a maioria recorre a prostituição para sobreviver. Na Argentina, existe uma escola apensa para transexuais, mas me pergunto: Viver em uma bolha? Isso é inclusão ou exclusão? Se a cada 1000 pessoas três podem ser transexuais, está mais que na hora de acordar para esse tema e essas necessidades”


 EDUARDA LOURENÇO SILVA: “São muitas as melhorias que precisamos, mas o que deveria ser facilitado é a mudança de nome dos documentos. Já sofri constrangimentos em locais públicos pelo nome social não ser respeitado, que até hoje me deixam com pé atrás no momento de ir a um hospital. 

Acreditem, sofri preconceito em um hospital por médico e enfermeiros gays!

Apesar de não ter a documentação com o nome feminino, consigo que alguns hospitais incluam meu nome social na ficha para evitar futuros constrangimentos. Porém, eu estava sentada na fila de triagem, quando chegou a minha vez e eles me chamaram pelo nome masculino.

Fui até lá, expliquei que já havia solicitado ser chamada pelo nome feminino, mas ele continuou me chamando pelo nome de registro com tom de deboche. Ao sair da sala e ir para a fila de espera para ser atendida, o médico não só chamou como gritou o meu nome masculino para todos ouvirem. Fiquei super chateada, pois todos me olharam.

Questionei o doutor por que não havia me chamado pelo nome social e ele simplesmente respondeu: ‘Aqui você está para ser tratada da sua conjuntivite, ok?’. Eu saí do hospital muito triste e desrespeitada. Quero mudar os meus documentos, mesmo sem a cirurgia, mas sei que é algo burocrático e que pode demorar”.


KIMBERLY LUCIANA DIAS: “Sou a favor de cotas para travestis e transexuais no mercado de trabalho, criações de projetos que venham dar empregabilidade. Não tem como ficar nesse de período a longo prazo, em educar a sociedade, pois precisamos de oportunidade hoje!

Já conheci esse outro lado e muitas vezes fui violentada de corpo e alma na mão desses clientes. E por isso ter um trabalho é um direito de dignidade para nós, ter o direito de encarar a prostituição como uma opção, não como a única porta.

Queremos ter respeito em um trabalho, mesmo que eles não sejam tão lucrativos como a prostituição. Somos seres humanos e precisamos de oportunidade. Espero que essa nova geração - e quem mais queira - consiga espaço desde a escola, para que não cheguem a conhecer esse mundo, muitas vezes sem volta!”


ALESSANDRA OLIVEIRA: “Muito tem se falado em direitos, protestos no Brasil inteiro e, agora, estão falando um pouco dos direito das travesti e transexuais. Penso que a bandeira principal a ser levantada é a do emprego formal para o grupo trans.

É claro que ele deve ser feito em etapas, e não como fizeram com a abolição da escravatura onde só foi assinado um documento, deixando os negros livres a própria sorte, sem o mínimo de ajuda, onde muitos acabaram sucumbindo ou voltando para as fazendas onde trabalharam para não morrerem de fome.

O que eu quero dizer é que não adianta só abrir a oportunidade, mas sim capacitar as mesmas para poder enfrentar o dia a dia do mercado de trabalho como, cumprir horário, regras de trabalho, uma profissionalização não só em profissões que são ditas femininas, mas fazer como as mulheres fazem... Preparar-se para ocupar cargos masculinos também. 

Acho que sindicatos, entidades do governo como o ministério do trabalho e emprego deveria olhar para esse publico que tem e muito potencial que estão perdidos as margens da sociedade, muitas até tem profissão mas por causa do maldito preconceito muitas portas são fechadas.

Eu por exemplo hoje estou na função de supervisora de manutenção eletromecânica, e estou a frente de uma equipe de 8 profissionais. Não é fácil ter que manter toda a rotina de uma estação, contato com clientes, manter a motivação de uma equipe, cuidar de papelada. Sem contar a vida pessoal.

Tenho orgulho de ser uma travesti, pois apesar de todo dia ter de matar um leão para manter o emprego e respeito dos companheiros de serviço e superiores, sei que estou representando todas ...e faço isso com maior prazer.


PATRICIA ARAUJO:O que devemos ter garantido é o respeito ao nome social e que condiz com a nossa verdadeira existência, seja ele na documentação ou simplesmente no tratamento. Se isso for assegurado em todos os locais públicos, já um grande passo, pois evita vários constrangimentos.

Afinal, quando se respeita ao nome social, consequentemente se respeita o gênero da pessoa e ela passa a ter o tratamento feminino, ter o direito de ir ao banheiro feminino, ter o respeito a identidade de gênero no mercado de trabalho...

Há muitas coisas para fazer e muitos direitos para irmos atrás, mas em minha opinião respeitar travestis e transexuais como pessoas femininas, assim como mulheres que já nasceram mulheres, é o primeiro passo”.


LIROUS K’YO FONSECAO direito ao nome vai além de ter um nome nos documentos de identificação, mas sim na própria identificação do indivíduo. Negar isso é negar a própria existência do ser humano, a negação amputa o ser social, impedindo de conseguir um emprego, de estudar e de não sofrer e nem promover o constrangimento no meio que circula.

O problema é que muitos profissionais responsáveis por esse processo confundem autoridade com “aquele que manda” e não é por ai. Deixam se levar pela vida pessoal, mesclando com o profissional e muitas das vezes carregando para dentro do trabalho algo íntimo que é a sua religião.

O nome social implica exatamente nessa questão, quando se ouve um parecer não favorável, ele cai na questão dos padrões de beleza que estipulam como é ser uma mulher, na questão da religião do machismo e da falta de respaldo ciêntífico.

O fato de inicialmente estarmos atreladas ao movimento LGBT nos limita colocando a categoria T como “tudo sendo gay”, e desta forma os direitos Ts acabam ficando para segundo plano, O T é a unica categoria que não vem da orientação sexual e sim identidade de gênero. O que eu proponho para a categoria é essa desvinculação dessa sopa de letrinhas que hoje não nos contempla mais, e tomo como base os estudos de gênero que giram em torno dessa temática T que firma que T não são gays, mas podem vir a ser, porque não?

Vivemos um momento de visibilidade T e são homens e mulheres trans com forças suficientes para ir a luta em prol dos seus direitos como cidadãos. O Brasil está passando por um momento histórico que no futuro será contado nos livros de história e nós seremos os protagonistas dessa história. Na onda dos movimentos, o negócio é se movimentar”. 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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