Entrevista

“A invisibilidade lésbica é a forma mais cruel de discriminação”, diz ativista Irina Bacchi


No dia 29 de agosto de 1996, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas, que se consagrou desde então o Dia da Visibilidade Lésbica. A conquista de ser visível socialmente é um anseio que todas as minorias e grupos discriminados buscam. Seja em um beijo na novela, em uma referência da MPB, na conquista de um direito, na peleja por políticas públicas voltadas para uma parcela que simplesmente não é vista. Pelo reconhecimento de sua união!

A visibilidade gera dignidade de ser, de se revelar, de querer, de sentir, de ser visto, de ser notado e respeitado. Tudo isso com legitimidade e não como perversão. No Brasil, duas mulheres lésbicas ainda são observadas como reles “amigas”, sofrem a sexualização da mídia para atender os desejos de homens heterossexuais e caem em estigmas que, em sua maioria, não corresponde à realidade. Hoje, há que se comemorar exemplos como Daniela Mercury, o filme Flores Raras e o "L" em destaque no LGBT, mas o processo  de visibilidade ainda é longo.

Pensando em todas essas questões, o NLUCON entrevista com exclusividade Irina Bacchi, lésbica, feminista e ativista. Ela, que esteve em frente de várias manifestações e já trabalhou no CRD – Centro de Referência da Diversidade – atualmente trabalha na Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Aqui, falamos sobre como as lésbicas são vistas [ou não] pela sociedade, lesbofobia e as conquistas que ainda estão por vir.

- Por que é necessário ter uma data específica para falar sobre a visibilidade lésbica? Acredita que, por conta do machismo, as mulheres são sublimadas até mesmo no meio LGBT?

Com certeza! As mulheres no geral, mesmo com tantas conquistas e avanços, ainda são “invisibilizadas” pelo machismo e pelo sexismo. Com nós, mulheres lésbicas, não é diferente. O mundo foi feito por homens e para homens. As mulheres ainda precisam romper a lógica, vencer as regras e se impor para serem respeitadas e usufruírem dos mesmos direitos. Essa lógica está estruturalmente na sociedade, mesmo no movimento LGBT. A data é necessária para que possamos demonstrar a nossa luta e romper o silêncio. É afirmar os direitos que nos são negados.

Campanha do Rio Grande do Sul contempla casal de lésbicas

- E quais são os principais direitos que as lésbicas estão indo atrás?

Nós buscamos os mesmos direitos de todo e qualquer cidadão, sejam eles héteros, gays ou com qualquer outra característica. Queremos o direito de não sofrer violência em razão da nossa condição, de ser respeitada na nossa orientação, no direito de ir e vir, na saúde, educação... Enfim, queremos o direito de ser quem somos, sem sermos discriminadas ou agredidas, na nossa condição de mulher e de lésbica.

- Escutei esses dias que é mais fácil ser lésbica que gay, tendo em vista que dois homens se beijando chocam mais que duas mulheres. Isso é real ou uma falácia?

Para esta sociedade, tudo choca - dois homens ou duas mulheres – e não vejo facilidades, mas sim diferenças de como a violência é para um grupo e para o outro. Para nós, lésbicas, a violência nos empurra para o silêncio, para a invisibilidade, a violência está no espaço privado. Para os gays, está no espaço que a sociedade diz que é deles, no público, na rua, por isso é mais visível, só isso.

- Mas o primeiro beijo “gay” da tevê foi um beijo lésbico, em filmes pornôs héteros é comum vermos duas mulheres e...

Sim, é comum ver duas mulheres, mas não duas mulheres lésbicas. Duas mulheres como nos filmes pornôs sensualizam e erotizam a partir da lógica machista e heterossexual, o que diferente de duas lésbicas. E é esse o ponto.

- Muita gente é machista e lesbofóbico sem saber. Dê-me exemplo de como as lésbicas ainda são vistas pelo preconceituoso?

Os exemplos são tantos e cotidianos que é difícil enumerar. Mas ele aparece no acesso à saúde da mulher, quando o profissional de saúde nos atende pela perspectiva heterossexual e nos recomenda métodos anticoncepcionais, mesmo sendo relatada a orientação sexual da mulher. Aparece quando, mesmo tendo a orientação sexual fora do armário, somos vistas como “amigas” das nossas companheiras, como a solteirona que pode cuidar de todos da família porque não tem compromissos. Aparece nas festas de fim de ano das empresas ou da família, onde nossas companheiras não têm o mesmo tratamento que esposas e maridos de nossos irmãos têm. E, por fim, aparece nas falas, nos termos que se dirigem a nós: rachas, nos diminuindo pela metade.

Primeiro beijo lésbico da TV, em Amor & Revolução/ Daniela Mecury/ Irina Bacchi / Angélica Morango, a primeira BBB lésbica

- A palavra ‘racha’ é ofensiva?

Não passa pela ofensa, mas sim pelo significado dela e de tantas outras. Tudo o que é associado ao feminino nos diminui, nos inferioriza. Racha nos dá um sentido de metade, de rachada, de incompleta.

- Assumir-se lésbica hoje é diferente de assumir-se lésbica há tempos atrás? Quais são as mudanças que você observa?

Hoje é mais fácil, porque muitas nos antecederam. Ao mesmo tempo, assumir-se traz mais responsabilidade, em minha opinião. Neste momento de obscurantismo, é preciso ter responsabilidade de cidadã e, ao afirmar a orientação sexual, é preciso afirmar o compromisso para mudar o nosso entorno. Ações como essas conjuntas mudam as estruturas e consequentemente podem mudar o mundo.

- Lembro que a Claudia Wonder frisava que as trans precisavam de visibilidade com dignidade. Você acredita que a visibilidade lésbica está bem representada?

É pouca ainda, mas a recente visibilidade da Daniela Mercury nos ajudou muito. E, sim, ela levantou a bandeira porque entendeu que tem responsabilidade nesse processo.

- Por outro lado, a Ana Carolina disse que não gosta de levantar bandeiras e que o maior exemplo é viver com “normalidade”... O que achou desse discurso?

É um discurso medíocre e covarde, de quem tem medo de assumir a responsabilidade de fazer diferente e melhor. Acho que muitas ainda estão no armário porque fomos criadas para ocuparmos o espaço privado, para não acessar o espaço público, para ocupar os espaços que são dos homens, por isso acreditam que não devem se expor e é exatamente por isso que lutamos para trazer todas as mulheres para o espaço público, que também é nosso direito.

Entrega das assinaturas para a aprovação do PLC122/06 para Marta Suplicy
- É preciso frisar uma coisa. O feminismo é contra os homens?

Não, nunca! O feminismo é uma opção política e filosófica no mundo, um discurso, uma escolha que nos fazer enxergar tudo com outros olhos e lutar contra as desigualdades, injustiças e violências. O feminismo não prega o ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens, feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre o outro. Feminismo não é contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais.

- O movimento das lésbicas, antes visto como beeem pequeno, aumentou de fato?

O mundo não está mais nos permitindo a focar em lutas específicas e muitas das ativistas lésbicas, hoje, estão inseridas em espaços de juventudes, nas manifestações, nas lutas pelo passe livre e também no movimento de lésbicas. Hoje, felizmente, temos um número bem maior de grupos e ativistas no movimento. Faz parte dessa consciência sobre o lugar que estamos e o lugar que temos o direito de estar.

- Existe algum exemplo de feminista que tenha te inspirado? 

Minha motivação para me tornar feminista veio dos homens e a minha inspiração é Audre Lorde, feminista negra e norte-americana.

- Você trabalhou no CRD – Centro de Referência da Diversidade. Como foi trabalhar com as lésbicas que estavam sujeitas à vulnerabilidade social?

Trabalhar no CRD me tornou uma pessoa bem diferente, me colocou frente a uma realidade muito dolorida e vivida principalmente pelas travestis e transexuais. A minha experiência com as lésbicas que acessaram o CRD só confirmou o que eu já imaginava: que a violência é cruel e que silencia, que a invisibilidade nas políticas públicas não torna os equipamentos públicos espaços acessíveis a nós lésbicas e que a invisibilidade é a forma mais cruel da discriminação, porque ela isola e tira o direito a voz, o direito de pedir socorro, o direito de se perceber cidadã.

- Qual é a mensagem que gostaria de deixar neste dia?

Não se cale, se indigne e não se envergonhe. Temos o direito de ser feliz e de amar!

Em encontro feminista no Chile, em 2007

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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