Pitacos

Barraco à parte, 'Amor à Vida' emociona e traz importante mensagem


No capítulo de Amor à Vida, da TV Globo, em que Félix, personagem de Mateus Solano, é retirado a fórceps do armário pela mulher, Edite [Bárbara Paz], uma cena me chamou mais atenção que o próprio barraco em si [e que os memes que caíram na internet]: a reação surpreendente da mãe Pilar [Suzana Vieira] e da avó Bernarda [Natália Timberg], que simbolizam uma mensagem importantíssima para os lares brasileiros.

Assim como a personagem que Suzana interpretou em A Próxima Vítima, em 1995 – Ana, a mãe do gay Sandrinho [André Gonçalves], lembra? - Pilar procura encarar com naturalidade a sexualidade do filho e dá um show de amor e cumplicidade, quando ele tenta insistir na mentira: “Vamos falar a verdade. Eu sempre soube, sempre achei que sabia, mas não tinha coragem de admitir. Você é gay, filho”, diz.

Na cena, a mãe se emociona e lembra-se de episódios de bullying que Felix sofria na escola e de uma conversa com uma orientadora educacional. “Ela disse: ‘Se o seu filho for gay, você deve ficar do lado dele, deve apoiá-lo, pois isso é uma orientação sexual’”. Porém, admite que enfrentou a resistência e incompreensão do marido César [Antonio Fagundes] toda vez que arriscava tocar no assunto da sexualidade do garoto.

Félix argumenta que tentou ser o filho “certinho” para que a mãe fosse feliz, mas ela o surpreende de novo. “Eu sou feliz, sou sua mãe e quero que você seja feliz. Acontece que não sou gay e não tenho conhecimento do mundo gay. Eu, que me julgava tão esperta, observava tanto o comportamento dos outros, nunca olhei de verdade para você”. A avó intromete e diz que, antes de conhecer um casal de gays, tinha um pensamento preconceituoso, mas que mudou.

A conversa acaba com Felix pedindo perdão. “Pelo amor de Deus, não usa essa palavra. Não mudou nada na relação que temos... Eu te amo, você é normal e, se alguém disser que você é anormal, eu dou uma porrada e juro que vou te defender”, devolve a mãe, iniciando provavelmente a redenção do personagem vilão. E também o que muitos e muitos gays gostariam de ouvir de suas queridas mães. 
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Para quem acredita que “mãe é mãe” e obviamente “sempre aceita”, a falácia nem sempre é aplicada na vida prática e muitos gays ainda hoje encontram dificuldade de serem aceitos no âmbito familiar. Há um período de luto e sofrimento da mãe, como bem escreveu Edith Modesto no livro “Mãe Sempre Sabe?”, e há reações diversas [e por motivos distintos, muitas vezes pelo preconceito do parceiro] de como lidar com a sexualidade. 

Há quem acolha, há quem aceite parcialmente [não querendo, por exemplo, que o filho receba o namorado em casa e "esfregue" em seus olhos o relacionamento], há quem expulse [ou exige que a questão seja absolutamente invisível], há quem tenha medo por tudo o que eles vão enfrentar... Afinal, como já ouvi certa vez, nesta sociedade “nenhuma mãe cria um filho para ser gay”, logo não se prepara para recebê-lo com o mesmo amor.

Que esta cena - clique aqui e assista - reflita um novo cenário ou que proponha mudanças. Que todas as mães e pais tenham assistido e que passem a querer ver os seus filhos verdadeiramente. Afinal, a mensagem de que a sexualidade não muda nada na relação de pais e filhos foi dada. É isso, não muda nada! Mas a aceitação e o respeito fazem uma diferença gigantesca, fazem vilões virarem mocinhos... 

Abaixo, cena de A Próxima Vítima, de 1995, também com Suzana Vieira

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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