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LGBTs brasileiros debatem e organizam beijaço contra homofobia na Rússia; Saiba por que participar


Um jovem gay de 23 anos foi torturado e morto em Volgogrado, na Rússia. O corpo estava nu, o crânio estourado e várias garrafas introduzidas na região anal. No site de relacionamento VKontakte, neonazistas publicaram vídeos em que coagem e obrigam gays a fazerem declarações humilhantes, a beberem urina e a manipularem pênis artificiais. Os casos chocam, mas são apenas alguns dos vários que vem ocorrendo no país, desde que Vladimir Putin sancionou em junho deste ano a lei que proíbe qualquer divulgação da “propaganda gay” para não “influenciar” as crianças– o que, na prática, proíbe qualquer menção ao direito civil de LGBTs, incluindo manifestações de carinho e as paradas do orgulho LGBT. 

Em solidariedade às várias pessoas que sofrem diariamente homo-lesbo-trans-fobia na Rússia, brasileiros LGBTs e simpatizantes se mobilizaram e decidiram promover na próxima sexta-feira [23], das 11h às 13h, um Beijaço LGBT em frente das Embaixadas e Consulados da Rússia, no país. O evento, que conta com a participação do ativista Beto de Jesus, da ILGA [International Lesbian, Gay and Trans Association], é uma articulação mundial, que ocorrerá em várias partes do mundo ao mesmo tempo e em vários estados do Brasil, onde possuem representações do governo russo. 

 “Trouxe a ideia das conexões que tenho fora do país e algumas pessoas se interessaram em participar e ajudar a organizar. Queremos denunciar qualquer governo que puna a homossexualidade, temos uma consciência coletiva, de comunidade global, de posicionamento no âmbito doméstico e internacional. Não podemos ficar fechados, olhando o nosso umbigo. Temos que ganhar os corações, denunciar a violência e o mau caratismo de Putin. Nossa agenda é pela erradicação da homofobia no mundo”, defendeu Beto.

De acordo com os adeptos ao evento publicado no Facebook, o beijaço vai ocorrer em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro [confira os endereços no fim da página], e a estimativa de participantes ultrapassa mais de mil pessoas. 
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Homofobia de neonazistas e da polícia amparada pelas vistas grossas da lei

Além de trazer o debate sobre a homofobia mundial e as agressões que as LGBT russos sofrem, ocorre em um momento oportuno, pois os Jogos Olímpicos de Inverno serão realizados na cidade russa Sochi, em 2014, e as manifestações prometem chamar atenção de órgãos internacionais com a finalidade de proteger os direitos humanos da população LGBT, seja ela local ou visitante. Até mesmo empresas que apoiam os Jogos e que são favoráveis aos direitos humanos LGBT estão sendo contatadas para se posicionarem sobre as leis “anti-gays” aprovadas e os acontecimentos recentes contra a população LGBT russa.

MAS POR QUÊ PENSAR NOS GAYS LÁ DA RÚSSIA, SENDO QUE TEMOS HOMOFOBIA NO BRASIL? 

O militante Hugo Fonseca, do movimento Honestinas, de Brasília, declara que a manifestação em prol dos gays da Rússia tem um viés pedagógico para os brasileiros, uma vez que é possível observar grandes argumentos para justificar medidas homofóbicas. “Para o governo russo, não se deve existir publicidade gay para a ‘proteção das crianças’e isso mostra que, para aquelas pessoas, ser gay é um mal a ser combatido”. 

O militante afirma que, apesar de não existir lei contra propaganda gay no Brasil, é possível notar que a sociedade brasileira também reprime as manifestações de gays e que muita gente não quer ver a manifestação de um amor entre iguais. “Basta notar que uma novela não pode ter um beijo gay, por exemplo, enquanto a violência é exposta diariamente. Por isso, a intenção do evento é mostrar que os gays e as lésbicas existem e que são pessoas, que também amam. É mostrar que a homofobia está na Rússia, está no Brasil, está no Feliciano, está em todos nós!”.

Inclusive, o Brasil vive um momento político em que os representantes se elegem com discursos considerados homofóbicos e que ferem os direitos LGBTs, trazendo projetos como a Cura Gay sob o pretexto de ajudar a ‘família tradicional’. Um discurso muito próximo das leis que recentemente entraram em vigor na Rússia. 
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Beto de Jesus, Gustavo Don e Hugo Fonseca

De acordo com Gustavo Don, criador da página Beijos para Feliciano e militante do Fórum Mogiano LGBT, reivindicar pelos LGBT da Rússia não exclui outras manifestações no Brasil. Ao contrário, elas conversam e se complementam. “Russos estão sendo presos por apenas estender uma bandeira do arco íris ou dar uma declaração para a imprensa. Este protesto não invalida outras manifestações contra a homofobia no Brasil, como o Feliciano. Aliás, quando estávamos manifestando contra o Feliciano, também haviam pessoas que reclamavam por que não protestávamos contra os mensaleiros. Enfim, toda manifestação vai ter alguém achando que não é importante, mas o mais importante é nos unirmos, não só protestar contra a Rússia, mas também contra o que acontece no Brasil”. 

COM A BOCA COSTURADA

Uma pesquisa feita na Rússia em junho mostra que 88% dos cidadãos locais apoiam a lei que coloca homossexuais como invisíveis. Em outra, concluída em abril, 35% dos russos acreditam que a homossexualidade é uma doença, 43% consideram-na um mau hábito e que é resultado de falta de educação ou abuso sofrido na infância. 

Beto defende que o argumento de que encarar a homossexualidade com naturalidade influencia na sexualidade crianças é uma grande falácia. “Simples: fui submetido desde que nasci à propaganda heterossexual, sou filho de pais heterossexuais, tenho dois irmãos heterossexuais. Todas as referências e modelos de família foram heterossexuais e eu sou homossexual. Ninguém influencia ninguém no quesito orientação sexual e identidade de gênero. Isso é descaso, preconceito e violação de direitos”. 

Hugo diz que existe muito preconceito em relação ao tema e frisa que não faz diferença para uma criança saber que há vários tipos de relacionamento. “É preciso ter em mente que a homossexualidade não é um dado novo, é tão recorrente quanto a heterossexualidade, trata-se de uma condição sexual e não escolha e, por isso, não faz diferença na sexualidade das crianças o fato de elas notarem que existem gays no mundo”. 
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Segundo Leandro Morais [foto], membro da Cia Revolucionaria Triangulo Rosa, as leis que ferem os direitos da comunidade LGBT não são frutos apenas do conservadorismo ético e moral que impera na Rússia. Mas principalmente de uma estratégia para desviar o foco da crise atual em que o país passa. “São ações situadas em um momento histórico de crise econômica e social naquele país, em que medidas de rigidez econômica são aprofundadas, privatizações ampliadas, incrementa-se o desemprego e eleva-se a insatisfação social”. 


Para ele, a “virada conservadora” também reflete a massiva propaganda nacionalista e religiosa em atentado ao Estado Laico. “Desde o fim da URSS, a Igreja Ortodoxa tem conquistado um espaço grande no cenário político, tanto que o Parlamento aprovou uma lei que considera “insultos a sentimentos religiosos” como uma ofensa que vale multa de até 7.500 euros. O primeiro sintoma se evidencia no plano social, em que neonazistas sentem-se encorajados a desenvolver uma verdadeira ‘caça às bruxas’ às comunidades sexodiversas, fazendo uso das redes sociais para atrair jovens em ciladas”. Enquanto no Brasil temos homossexuais apanhando na Paulista, por lá vemos jovens sendo torturados e humilhados por meio do uso das mídias sociais”.

O mais importante, conforme pede a maior manifestação contra a homofobia na Rússia, promovida pela drag Barbie Breakout, que trabalha em casas noturnas de Berlim e que costurou a própria boca em um vídeo, é que não deixemos que proíbam a nossa voz. “Abra a boca”, pede ela. E, na sexta-feira, beije muito nas embaixadas e consulados russos no Brasil. É pela Rússia, é pelo Brasil, é pelo fim da homofobia mundial. 

 NA RÚSSIA - CONTRA AS ATROCIDADES DO GOVERNO DE VLADIMIR PUTIN

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* Colaboração: Itã Cortez, Gustavo Don e Melissa de Miranda. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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