Entrevista

'Preconceituosos deveriam praticar suas perversões entre quatro paredes', diz 'ditador gay' Rafucko


Todo cidadão deverá fazer “vogue” na foto do RG! Hétero bonito pagará multa! Aniversário da Cher será feriado nacional! Antes de toda missa deve ser cantado Like a Prayer! E jogador que fizer gol deverá dar beijo em toda a equipe sob a pena de ter o gol anulado. Essas são algumas das leis [mais gays] que o chefe de Estadoditador Rafucko proclamou no Brasil, de acordo com o vídeo “Ditadura Gay – o Golpe”

A obra humorística do videomaker, radialista, escritor, diretor, ator e ativista Rafael Puetter, 27,é uma resposta inteligente, crítica e divertida aos inacreditáveis discursos homofóbicos, que são exibidos diariamente em cultos, na tevê e na política: de que a comunidade LGBT quer promover uma “Ditadura Gay” por reivindicarem direitos civis igualitários e serem contra manifestações de homofobia. 

Rafucko, então, desmembra as falácias, inverte as falas e mostra de maneira ácida o quão absurdo é o preconceito e, claro, o preconceituoso. 



No vídeo “Versões ”, ele traz o depoimento de mulher negra dizendo que até permite que seus filhos brinquem com os filhos de seus empregados brancos e que eles os tratam como se fossem iguais. Um gay dizendo que até respeita as héteros, desde elas que fiquem no canto delas. E de uma moradora do Vidigal dizendo que, embora haja pessoas boas, a maioria que mora na zona Sul é ladra. 

Dono de um humor respeitoso e ácido, Rafucko é hoje o melhor dos vídeos, do ativismo e das gargalhadas na internet e afirma que a melhor maneira de combater o preconceito é mostrando-lhe um espelho. Recentemente, ele surpreendeu ao aparecer na plateia do programa Na Moral, da TV Globo, vestido de ditador gay e observando atentamente as declarações do pastor Silas Malafaia

Em entrevista exclusiva ao NLucon, ele fala o que rolou no programa, preconceito, humor politicamente correto e um pouco sobre sua vida. Confira: 

 - Você foi ao programa Na Moral, vestido de “ditador gay”, um dos seus vídeos da maior sucesso. Como se deu a sua entrada no estúdio? 

Fui chamado pra fazer parte da plateia por causa dos meus vídeos e pedi para ir vestido com as roupas do Ditador Gay, porque achava mais apropriado. No estúdio, Pedro Bial perguntou por que eu estava vestido daquele jeito. Respondi: "sou o chefe de Estado da Ditadura Gay e vim acompanhar a gravação pra ver se tudo vai ser feito de acordo com as novas regras". Como a Rede Globo tem um histórico notável de apoio a ditaduras, não houve nenhuma objeção. 

- Ficar tão próximo de uma figura como Silas Malafaia lhe deu algum tipo de reação? O que diria para ele, caso fosse questionado durante o programa?

Não falaria nada pra ele. Silas Malafaia não é um homem com quem devemos discutir. Uma discussão é travada com quem segue uma lógica minimamente razoável, o que não é o caso dele. Silas argumenta com distorções, invenções e mentiras. Debater com ele é como jogar xadrez com um pombo: você pode ser um jogador melhor, mas nunca vai ganhar o jogo. Ah! Essa metáfora do jogo de xadrez com um pombo não é minha, mas não lembro onde li...
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Rafucko em três momentos: cumprimentando Jean Wyllys, vigiando Malafaia e dando uns pegas em Beto Malfacini
- Você já saiu em outro lugar ou manifestação com o figurino de “guerra”? 

Em todas as manifestações onde a Ditadura Gay precisa estar presente, vou com figurino de guerra. Eventos como o aniversário da Revista Vírus Planetário, a Marcha das Vadias RJ, Parada Gay de São Paulo e o programa citado aí em cima são bons exemplos. 

- Em sua opinião, os héteros deveriam ter algum tipo de preocupação com a questão gay ou dessa falácia da “ditadura gay”? 

A maior preocupação que homofóbicos (héteros ou não) precisam ter com a Ditadura Gay é que eles terão que mudar alguns de seus conceitos para viver bem em sociedade. É difícil e trabalhoso, mas se a transição for feita com carinho, ninguém se machuca. 

– Muitas pessoas, como a Mara Maravilha e Marco Feliciano, defendem “o direito de darem a opinião” sobre a homossexualidade. Isso é um direito?

Direito à opinião é diferente do direito à discriminação. Defendo que todos tenham o direito de serem preconceituosos contra quem quiserem, mas o preconceito deve atingir somente uma pessoa: o próprio preconceituoso. Mara Maravilha, Marco Feliciano e outros preconceituosos deveriam praticar suas perversões entre quatro paredes. Assistam ao vídeo Preconceituoso, sim. Mal-educado, nunca!



- Em seus vídeos, você inverte as realidades, muda o discurso e coloca a vítima com as falas do malfeitor. Como se deu essa concepção? 

Acredito que a maneira mais agressiva de se confrontar uma pessoa é mostrando-lhe um espelho.

- O beijo que você deu no vídeo “Beijo gay na novela – Não é Tabu, é Realidade” foi classificado como menores para 18 anos pelo Youtube e você recorreu a outro vídeo. Por qual motivo há tanta aversão a um beijo gay? 

Acredito que grande parte da aversão e do estranhamento é normal - muitos gays, que beijam outros gays na realidade, me escreveram pra dizer que ficaram surpresos ao perceberem que acharam a cena de certa forma agressiva. A maioria entendeu que isso se dá exatamente pela invisibilidade de beijos entre dois homens em mídias tradicionais. Quanto mais visibilidade, menor será a rejeição. 

- Para você, o que é e o que configura homofobia? Chegou a ouvir alguma crítica por conta da propaganda do Neymar, do tipo “ah, isso é coisa pequena”? 

Esse vídeo do Neymar foi o que mais recebeu críticas. A homofobia é tão internalizada que muita gente não vê quando ela se manifesta - e sim, é quase toda hora que você vê/ouve comentários e piadas homofóbicos.
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Engraçadinho você, hein? Engraçadinho...
- Como é fazer um humor politizado? 

Faço humor com temas que estão na minha realidade, no meu dia-a-dia. Política é um assunto com muita piada pronta, a realidade é mais engraçada que qualquer ficção. Eu apenas boto em outras palavras. Não considero meu humor como "politicamente correto", e sou a favor da liberdade de expressão. O respeito, entretanto, é necessário. 

- Qual é o vídeo que teve a maior repercussão até agora? Tanto de visualização, comentário? 

O Beijo Gay na Novela, a Ditadura Gay, o do Metrô Rio justificando o aumento na passagem têm os maiores números, mas o meu preferido é um dos menos visualizados: Cabral e os índios, ontem e hoje.





- Gostaria de falar um pouco sobre você.... Quando começou a sua carreira de ator? Imaginava que os vídeos no Youtube fossem tomar tanta repercussão? 

Não sei se tenho uma carreira como ator [risos]. Sou formado em Rádio e TV. Faço vídeos porque tenho necessidade de externar certas mensagens, portanto, espero que sejam vistas. Não crio expectativas e fico muito feliz com cada visualização. Adoro televisão, mas estou cada vez mais me distanciando da linguagem dela. A TV é feita com muito mais recursos, esta seria uma novidade interessante caso eu viesse a fazer algo lá. Por enquanto, não há projetos. 

- A questão da sexualidade sempre foi bem resolvida em sua vida? Com a fama, o assédio aumentou? 

Não foi sempre bem-resolvida, apesar de ser sempre bem sabida. O assédio até aumentou muito na internet, mas nem tanto na realidade. Às vezes percebo homens me olhando, eu flerto de volta, e eles vêm falar que me reconheceram, que gostam do meu trabalho… Muitos são héteros, até. Acho que o assédio partindo de mim aumentou, sim. 

- Você sempre foi politizado ou está “viciado” com a onda de protestos? Acredita que o “Gigante” permanecerá por muito tempo acordado? 

Sempre fui a protestos e acho que são muito importantes no nosso país. Recentemente, com a onda de protestos, eles ganharam corpo e aconteceram com maior frequência. Lembro de ir a protestos contra aumento do ônibus com menos de 100 pessoas e voltar pra casa decepcionado. Não tem como não se empolgar com os recentes protestos que têm acontecido. Não acredito em "gigante", acredito em indivíduos tomando consciência de sua importância para a construção do mundo que acreditam, e tenho certeza que as mudanças que estão ocorrendo agora não são passageiras, independente do tamanho dos protestos hoje e amanhã. É física: "A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original." Albert Einstein. 
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Rafucko ataca de vândalo e é flagrado jogando flores no batalhão de choque

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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