Entrevista

Felipeh Campos fala sobre AVC, famosos no armário e desejo por Luciana Gimenez e Neymar



Felipeh Campos [39] é jornalista, apresentador, empresário, ex-dublador do Qual é a Música e, segundo ele mesmo, o gay mais influente do Brasil. Embora a afirmativa soe um tanto egocêntrica – Felipeh admite que simplesmente a-do-ra aparecer – é sabido que ele já protagonizou momentos polêmicos, marcantes e hilários na história da televisão brasileira.

Em 2008, foi o primeiro gay a ter o casamento gay televisionado.  Em 2011, “tirou” Agnaldo Timóteo do armário durante a participação no Superpop [RedeTV!]. Ele também beijou o cantor no extinto Quem Convence Ganha Mais [SBT] e sentou no colo de ninguém menos que do deputado federal Jair Bolsonaro, conhecido por projetos contra os direitos da comunidade gay.

Neste ano, Felipeh surpreendeu os amigos ao sofrer dois AVC’s e se recuperar tão rápido quanto o susto que levou. Garantindo ter uma missão muito grande na Terra – ou seja, o seu próprio programa de tevê no estilo Ellen DeGeneres – ele encabeça, assina e comanda atualmente o site Cereja Fina, que fala sobre celebridades, comida e colunistas interessantíssimos. 


Abaixo, altas revelações...

- Neste ano, você passou por dois Acidentes Vasculares Cerebrais. Como foi que se deu essa delicada experiência e como conseguiu sobreviver?

É engraçado porque a gente acha que essas coisas só acontecem com o vizinho, né? Mas não... Comecei a trabalhar desde os 16 anos e, de 2009 para cá, vinha em uma vibe extremamente maluca de colocar o Cereja Fina em pé. E, no caminho, enfrentei uma separação, discussão, leões no mercado publicitário... Quando tudo começou a funcionar, quis fazer uma viagem e o meu organismo reagiu, como se dissesse “agora é você quem tem que descansar”. Tudo bem que veio com algo grave como um AVC, mas sabia que algo estava prestes a vir e sei que tenho uma missão grande ainda para cumprir.

- Mudou alguma coisa em sua maneira de ver a vida depois do AVC?

Ter esse acidente me fez enfiar o pé no freio, a pensar mais em mim, no Luís Felipe, nem é no Felipeh Campos. Eu tinha a visão de que, para a minha empresa andar, eu tinha que ser o primeiro a chegar – por exemplo, se todos chegam às 9h, eu chego às 8h30. Mas minha vida é agitada, vou dormir tarde, têm gravações que eu chego às 4h30 da madrugada e às 8h eu já tenho que estar aqui, bonito, pronto para uma reunião. Hoje, às vezes me dou o luxo de acordar umas 11h. Preciso descansar, levantar, tomar um banho, um café da manhã, pensar no que vou fazer.


- Ficou algum tipo de sequela?

A primeira vez que fui para o Sírio Libanês, fiquei paralisado do lado esquerdo. No segundo, quando fui para o [Albert] Einstein, fiquei com a mão esquerda completamente sem movimento, com a boca e rostos entortados... Quando saí, não tive sequela nenhuma. Quer dizer, a única coisa que ficou por uns dias foi que não conseguia ter uma visão periférica no olho esquerdo. Mas hoje não tenho mais nada. Deus é tão bom que quando me jogou na terra fez uma cruz vermelha para não me perder de vista [risos].

- Rolou na mídia que você iria para A Fazenda 6...

É mentira!

- Mas seu nome esteve em uma das listas. Não rolou convite?

Nunca me chamaram, isso foi plantado por uma blogueira e eu até enviei um e-mail para ela se retratar. Hoje, se você falar se eu quero A Fazenda ou o Cereja Fina ou a televisão, eu escolho o Cereja e a televisão, pois atualmente um reality show não é tão bem visto no mercado publicitário. Acho que só faria A Fazenda como o João Kleber fez, como se fosse a última coisa da minha vida. Ou se pudesse levar meus medicamentos [risos]. Aliás, as últimas coisas que vou fazer é um reality e um nu artístico.

-  O quê? Tem desejado de posar pelado?

É um nu artístico, que fique claro. É uma vontade, que eu vou fazer nem que seja para fazer uma revista só minha, por nas bancas, para todo mundo me ver pelado [risos]. Eu gosto de me ver no espelho, me olho, me admiro, mas não sou narcisista. Nem faço malhação...

- Você está com 39 anos. Como está a vaidade, tendo em vista que o meio gay é movido pela estética?

Estou numa pegada Claudia Raia versus Preta Gil, uma que se cuida e outra que não se cuida nada. Mas o meu olhar sobre tudo mudou. Não vejo mais o homem com aquela coisa de “preciso foder com ele”. São outros valores, hoje quero alguém para jantar, passear... E não pense que é fácil viver comigo. Sou daqueles que acorda às 3h da manhã, vai anotar ideias, acorda o companheiro e, se ele tiver de saco cheio, eu não gosto. Mas estou muito bem comigo mesmo.

- O novo visual com o cabelo branco é o reflexo dessa nova fase?

Estava vendo algumas tendências para o inverno, vendo aquelas horrorosas listras  e, em uma pesquisa, vi o cabelo da Miranda [personagem de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada]. Achei aquele cabelo uma coisa, não pensei duas vezes e liguei: “Quero meu cabelo branco”. Tem gente que fala que ficou ótimo, tem gente que fala que me envelheceu. Agora, vou deixar crescer e vamos ver... Acho que vai ficar meio Adele [risos].

Com Luciana Gimenez, no casamento com Rafael e no colo de ninguém menos que Bolsonaro

- Já encontrou o seu grande amor?

Ai, que difícil. Segundo a minha astróloga, tenho um perfil parecido com o da Elisabeth Taylor, que se casou oito vezes. Eu já me casei quatro, então faltam mais 4 para encontrar o meu grande amor [risos]. Mas o meu problema é que sou workaholic e o cara que casar comigo tem que casar com a minha carreira. Uma vez, um companheiro lindo e rico disse: Ou eu ou a sua carreira? E eu puxei o freio de mão na Alameda Santos e sai do carro. "Desculpa, querido, você chegou na minha vida ontem..."

- E como é a relação com o Rafael Scapucim, com quem você se casou e a cerimônia foi televisionada?

Ele virou uma espécie de irmão, mais que irmão, é um cara que eu levo na minha vida com grande respeito, amor e carinho. Nos separamos porque a relação ficou imaculada, a gente se gostava tanto que nem nos tocávamos mais. E éramos tão jovens que seria uma judiação não nos permitimos voar, ir em busca do nosso grande amor.

- Você já “tirou” o Agnaldo Timóteo do armário no Superpop, já deu um beijo nele em outro programa do SBT... Chegou a encontra-lo de novo?

Sabatinei ele no Mulheres [Gazeta] e foi muito engraçado, pois ele não quis me encontrar ele antes do programa. Nos bastidores, ele dizia: Cuidado com o que vai falar, hein? [risos]. O Agnaldo tem uma veia política muito forte e consegue deslizar pelos assuntos. Estávamos falando sobre homossexualidade e, de repente, ele diz que pretende colocar o busto do Michael Jackson no Parque Ibirapuera. Tudo bem que não podemos distanciar tanto o Michael da homossexualidade, mas não tinha relação com a discussão [risos]. Mas, quando falei que ele era gay no Superpop, achei mesmo que ele fosse assumido e bem resolvido. Não esperava a repercussão...

- Você gosta do Agnaldo?

Gosto, gosto. A Hebe é que virou a cara para mim na RedeTV!  e disse: “Que feio você fez com o Agnaldo”. E eu retruquei: “Ah, é? Já que está preocupada e magoada, leve ele para o seu programa e o convida para cantar, pois faz muito tempo que ele não vai”. De uma forma extremamente espontânea, eu o coloquei em tudo o que é lugar, inclusive na Veja.

- Você acha que os jornalistas devem tirar as celebridades do armário?

Independente de ser celebridade ou não, a questão da sexualidade tem que ser resolvida uma hora, seja para você mesmo, para a família ou para a sociedade. É triste quem não consegue sair do próprio enrustimento, pois ele é uma doença que deixa a pessoa amarga, arredia, maldosa... É só olhar para o Felix. Além disso, o enrustido tem ódio daquele que é assumido, porque se projeta no outro e não tem a mesma liberdade.

- Mas você não respondeu. Acha que devemos publicar fotos e anunciar que determinada personalidade é gay? Do tipo, tirá-la do armário a fórceps?

Lembro de uma capa da Contigo!: “Clodovil, aos 66 anos, assume a sua homossexualidade”. E precisava? É a mesma coisa do Ronaldo Esper que, na época, o Leo Áquilla tirou do armário. Por outro lado, qual é o papel do jornalista? É trazer a informação verdadeira aos leitores. Se você tem o material na mão, checou e é verdade... Taca o pau! Não tem problema se vai se queimar, se vai dar problema... Paciência!

Cabelo foi inspirado em Miranda, de O Diabo Veste Prada

- Em sua opinião, o que é uma aberração?

Aberração é quem faz sucesso e não consegue consolidar a carreira, como conseguiram a Xuxa, a Angélica, a Eliana. Gosto da Mara Maravilha, mas acho que surgiu alguma aberração que tirou ela dos holofotes... Na boa, a Luciana Gimenez, a Adriane Galisteu, a Sabrina Sato são mulheres que estão na mídia por causa do gay e que sabem disso. São os gays que levantam elas, compram, dão ibope. Sobre os casos da Mara e da Joelma, poxa, eu adorava dançar o Cavalo manco na Gambiarra... Penso assim, se não concorda com um grupo, fique quieta, não queira dar uma de intelectual, pois o seu negócio é subir no palco, dar o seu show, gritar Calypso e pronto. Não se coloque a falar aquilo que não sabe. Isso é uma aberração.

- Em sua opinião, quem é o gay mais influente do Brasil?

Eu!

- [Risos] Você é uma figura! E do mundo?

[Pensa...]. Acho que Elton John...  Vejo que a Rainha da Inglaterra abre as portas do palácio para ele, ele se casou, tem filho, é capa de revistas de todo o mundo, tem o respeito e o prestígio em todos os lugares também.

- A questão da sua sexualidade sempre foi bem resolvida?

Meu pai disse que, aos três anos, ele já sabia, pois me deu uma bola e eu comecei a fazer naninha com ela. Mas em 1970, minha mãe teve a primeira casa gay de São Paulo, levava o Dzi Croquettes para tocar e muitos empregados gays. A família dizia que me tornei gay por causa desse universo, mas eu achava aquilo o máximo, divertidíssimo!

- Mas se a questão da sexualidade foi tranquila, por qual motivo você se relacionou com uma mulher?

Ai, as pessoas vão achar uma putaria, mas vamos lá. Mais que me relacionar, eu tenho um filho, que está com 17 anos. E foi o seguinte: eu namorava o primo da mãe do meu filho. Quando terminei com ele, ela começou a me acolher, me chamar para ir a casa dela, falar para eu não ficar triste... E eu não desconfiava que ela gostava de mim e houve um aproveitamento da minha carência. Nos dois anos que me mantive com ela, não me relacionei com mais ninguém. Eu era um gay vivendo uma experiência heterossexual. Eu tinha só 20 anos, mas deixei bem claro: “Não quero te enganar, então você sabe que está fadada a um dia ser trocada por um homem”.

- Era uma relação de amor?

Era uma relação... Diferente! Mas era muito bom transar com mulher. Aliás, é bom, não vou falar que é ruim. Qualquer ser humano que se deitar com uma mulher ou um homem, começar a trocar carinho, vai acontecer. Mas não ficou amizade, pois ela se tornou evangélica e, imagina, sou gay, do candomblé e, para ela, virei um anti-Cristo... Hoje, a relação com o meu filho começou a ficar amistosa e eu preservo isso para que a gente tenha uma relação boa pós-18 anos. 

Felipeh revela quem mexe ou não com o seu coração no mundo das celebridades

- Você já disse no Superpop que só voltaria a se relacionar com mulher se fosse com a Luciana Gimenez. É real ou brincadeira?

Pegaria fácil a Luciana... O Mick Jagger e o Marcelo de Carvalho não são bobos, pegaram uma mulher fantástica. Luciana tem aquela coisa da mulher mulherão, é bonita, tem uma sensualidade natural, é uma mulher inteligente, porque de burra ela não tem nada... Ai, eu comeria a Luciana [risos].

- E qual homem famoso você iria para a cama?

Por muito tempo, o Cauã Reymond fez parte dos meus sonhos. Depois veio, o Matheus Nachtergaele...

- O Matheus, que está em Saramandaia? Que diferente...

Não gosto de homem com cara de boneca, daquela beleza perfeita, tanto que não vejo nada demais no Reynaldo Gianecchini. No Matheus, gosto daquele estrabismo disfarçado, que qualquer outra pessoa seria apontada como vesga, mas nele é um charme. Hoje, todos falam da bunda do Hulk, mas também não vi nada de atrativo. Prefiro o Neymar, que tem uma malemolência santista, do caiçara, apesar de ele não aparentar ser bem dotado.

- Tamanho é documento?

Não é documento, mas o Neymar deve ser sofrido.

- [risos]. Depois que o Sheik deu um selinho no amigo, levantou-se a questão da homofobia no esporte. O que achou da polêmica?

Tenho um projeto de montar a primeira torcida gay do Corinthians, pois sou corintiano roxo e muitos torcedores são gays. Em minha opinião, a maior manifestação homossexual ocorre dentro de um estádio de futebol. Pode ser piração minha, mas pense bem: são 50 mil homens, assistindo 22 homens correndo de shortinho curtinho e, quando o time faz gol, eles se apertam, eles se beijam, dão tapa na bunda do outro, páááá, ocorre um orgasmo ali. Eles fazem tudo pelo time, mas estão fazendo tudo aquilo “pelo time”. Depois, voltam tudo ao “normal”.

- Seu foco hoje é o site Cereja Fina. Como se deu a ideia?

O Cereja surgiu de uma maneira inusitada porque lancei uma revista, a F Magazine, e precisava colocar o nome de uma editora. E, tudo bem que eu me adoro, adoro aparecer, mais achei um pouco demais colocar Editora Felipeh Campos. Como sempre tive essa coisa com nome de comida, pensei em cereja, cereja, Cereja Fina! Mas colocar uma história em pé é muito mais difícil que idealizar. Tem uma história que sete pessoas no mundo tem a mesma ideia que a sua no mesmo segundo, mas que só uma coloca em prática. Talvez eu seja essa pessoa, pois sou movido a desafios.

E o conteúdo?

No início, queria concorrer com o Glamurama, mas foi uma bobagem. A Joyce [Pascowitch] tem todos os méritos possíveis, pois começou sem Instagram, sem redes sociais, de uma maneira muito própria. E quando você lança um produto às vezes ele acaba caminhando sozinho. Entendi qual é o meu público – C, D, E e um pouco de B. Por conta dos programas de tevê que faço, não falo para o público A e nem sei se quero falar. Hoje, temos colunistas, falamos sobre celebridades, misturamos um pouco de comida... Vamos deixar ele caminhar.

Qual é o seu maior sonho?

Não é só um sonho, porque vai acontecer. Quero ter o meu próprio programa de televisão. Sei que só não aconteceu porque de maneira inconsciente eu ainda não quis. Mas não sou como os apresentadores que querem ser a Oprah, como se só existisse a Oprah. Gostaria de fazer algo como a Ellen DeGeneres, até pela posição dela, pelo fato de ela ser homossexual e uma das maiores apresentadoras dos Estados Unidos. Este programa juntaria muita coisa, teria um misto de Casos de Família, pois gosto muito do desaconchego, de ver a realidade mais próxima.

- Você já trabalhou com o Clodovil na Gazeta e na Rede TV! Tem alguma curiosidade para falar sobre ele nos bastidores?

Clodovil sempre foi impecável, tanto que o programa dele começava com traço de audiência e ele só na abertura começa 0.5, 1 ponto, 1.5, 2.5, 3... Isso sem convidado, sem ninguém. Quando ele se propunha a fazer um arranjo, era O arranjo, que te deixava babando. Se alguém quiser comparar alguém à Oprah no Brasil, é o Clodovil. Ele era um excelente entrevistador, que arrancava o que queria, colocava as pessoas em saias-justas e fazia tudo com perfeição. Mas, como todo gênio, ele também tinha um comportamento difícil. Uma vez, presenciei ele chegar pelado na sala de maquiagem da Gazeta. Completamente nu, livre...

- Você também é livre?

 Com-ple-ta-men-te...

Felipe no hospital e, depois, livre, leve e solto...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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