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Anitta conquista universo gay e conta até com cover oficial trans. Confira

Anitta, Penelopy Jean e Camila Monforte [a Trans Anitta]

O hit
Show das Poderosas e a sua intérprete Anitta, 20 anos, tomou conta do universo LGBT neste ano. “Expulsando as invejosas”, a funkeira conta com versões [ainda mais] dançantes tocadas por DJs em casas noturnas, com drags e trans fazendo impecáveis dublagens e com fãs gays exibindo a dançante coreografia no Youtube. Isso sem falar que a cover oficial da artista é uma trans. Isso mesmo, a transexual Camilla Monforte, também conhecida como Trans Anitta.

Entre os números já realizados, estão o de Juliana Drag, que quebrou tudo na Subway, o da artista trans Mariana Molina [vídeo abaixo], que deixou todos babando na Blue Space e o da cantora Natalia Damini, que recentemente fez a sua versão na Flexx. No Youtube, as homenagens pipocam e alguns se destacam, como Os Provocantes, os Gêmeos Anitta e os Fashionistas, que também estiveram no Astros, do SBT.

Mas, afinal, o que Anitta, que na verdade se chama Larissa de Macedo Machado, tem de tão especial, fabricado ou inovador? O que fez dela arrancar 42 milhões de visualizações no Youtube, 50 mil discos e 30 apresentações mensais, com um cachê que pode chegar a R$ 120 mil? 
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Os Fashionistas, Mariana Molina e os Gêmeos Anitta

De acordo com a drag paulistana Penelopy Jean, que utiliza o Show das Poderosas em suas performances em baladas e também como DJ do Trio Milano, o sucesso atual de Anitta com a comunidade LGBT - principalmente para aqueles que saem para se jogar nas pistas - dá-se pela junção da letra, batida, coreografia fácil e da figura “diva” da funkeira. Ah! E o fato de "poderosa" ser uma expressão bem gay.

“Este conjunto fez virar fenômeno. A batida, que também aparece nas músicas de Major Lazer, Beyoncé e Naldo, anima qualquer pista, a letra é ousada e ‘gay’, a coreografia é fácil e todo mundo sai imitando. Anitta também é uma mulher gostosa, poderosa e diva, que todos gays gostam”, explica.

O frisson assemelha-se ao de Kelly Key nos anos 2000, ao da cantora Perlla, que em 2006 embalou o hit Totalmente Demais [com a letra ‘namora sempre gay, que nexo faz, tão sexy gay’] e que atualmente é evangélica e até apoiou pastor Marco Feliciano. E ao de Valesca Popozuda, que recentemente fez um show na Blue Space e uma música para a Parada LGBT.

Com Anitta, o discurso também é pró-diversidade e a poderosa já manifestou crítica ao projeto de “Cura Gay” em solidariedade aos vários amigos e até estrelou uma campanha de preservativos. “Não faço diferença entre gay, lésbica, negro, branco... Faço diferença entre pessoa boa e ruim, sabe? O que importa é o caráter”, disse em entrevista. Ela até garantiu que não se incomoda quando é assediada por fãs lésbicas [embora não chame nenhuma para subir no palco e ser 'vítima' de sua dança].

“Anitta é a personificação da minha alma”, diz cover trans

A carioca Camilla Monforte, 25, é cover oficial de Anitta há nove meses e diz que a admiração começou quando assistiu a funkeira em um show da Furacão 2000 e viu sua alma no corpo da artista. “Toda transexual se imagina como um tipo ideal de mulher e, quando vi Anitta, vi tudo o que eu queria ser. O cabelo, o corpo, o jeito, ela era a personificação da minha alma. É isso: Anitta é a minha alma”.

Trans Anitta arrebentando tudo em três apresentações

Anita e Trans Anita
A artista, que anteriormente havia colocado na internet o vídeo Travesti Quer Emprego e que faz questão de frisar que nunca se prostituiu, passou a querer fazer o cover, mas sentia medo de não ser aceita. “Pensei: ‘Será que a Anitta vai gostar ou vai odiar de ter uma trans como cover?’. Escrevi uma carta e entreguei a ela, dizendo que, se ela não gostar, eu não pararia. Mas ela adorou, incentivou e eu chorei”.
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Durante uma transmissão da Rádio Mania, perguntaram à Anitta oficial se ela foi fotografada no aeroporto em determinado dia, mas ela desmentiu e soltou “Me confundiram, então só pode ser a Trans Anitta”, para a realização de Camilla. A cover diz que sem a maquiagem não lembra tanto a sua musa, mas que, caracterizada, já foi confundida por vários fãs na internet. “Tem gente que compartilha minha foto jurando que é a da Anitta [risos]”.

Atualmente, Camilla diz que recebe de R$ 500 a 1000 por apresentação, tem corpo de balé e agradece Anitta pela renda que passou a ter nos últimos meses. “Com muito amor, fiz várias festas e boates do Rio e até o dia 14 de setembro estou com a agenda cheia. Anitta me deu a oportunidade de trabalho e eu tenho muito o que agradecer. Foi ela que me deu gás, que me deu fonte de rentabilidade e até um fã-clube de Caxias”, conta orgulhosa.

Sobre os fãs, a cover afirma que a maioria são fãs da Anitta e muitos héteros das comunidades do Rio de Janeiro. “A minha performance começa com uma frase em combate ao preconceito e as pessoas aplaudem. Durante o show, falo que vou embora e todos gritam ‘não’ e até me chamam de gostosa [risos]. Para mim, é a prova de que estou fazendo a diferença, de que sou uma transexual séria, cidadã e que não aparece só para falar bobagem”.



Camilla, que mora no Piscinão de Ramos com o marido, revela que seu grande sonho é ao Superpop, da RedeTV!, e mostrar o “outro lado das trans”. “Quero conhecer a Luciana Gimenez e levar na tevê outra imagem das travestis e transexuais. Sempre assisti aos programas e nunca me senti representada”, conta ela, que agradece o apoio de Heitor Martinelli e Gabriel Rodrigues. 

“Vou continuar com este trabalho, afinal se Madonna, Britney Spears e outras têm cover, por que a Anitta não pode ter?”, defende, que foi ao programa Astros, do SBT, na segunda-feira, 5, dublar e fazer a sua homenagem. 

“Anitta é antenada na moda e vem com tudo com os hot pants”

Já Penelopy diz que nunca havia ido a um baile funk e que só descobriu Anitta por meio de um amigo carioca. Segundo ela, foi só escutar a música pela primeira vez [e sentir todo o seu poder] que viu que seria sucesso nas casas noturnas e festas fechadas héteros.

 “O público recebeu muito bem, apesar de a primeira vez que eu fiz a música ela não era tão conhecida. Muita gente veio me perguntar de quem era, que tinham adorado... Logo notei que seria sucesso em todo o Brasil”, lembra ela, que ajudou a divulgar o nome da funkeira no início do boom.
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Hot pants é peça do guarda-roupa de Penelopy e Anitta

Sobre o estilo da cantora, a drag também declara aprovar e adquiriu várias peças para o show: “Ela é super antenada na moda, vem com tudo nessa moda de hot pants. Para a performance, foi tranquilo escolher as roupas, mas é claro que dei uma exagerada básica no brilho [risos]. Recentemente, adquiri um top de tachas igual ao que elas usa no clipe”.

Penelopy afirma que ainda não teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a musa, mas que “seria incrível” ter alguns minutos com Anitta ou ir a um baile funk do Rio de Janeiro. “Ela parece ser fofa, humilde e pé no chão”.

EU VOU FICAR?
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Depois do Show das Poderosas, Anitta também faz sucesso com Menina Má e outras músicas já começam a ultrapassar as rodinhas de fãs. O DJ carioca Nano Santana, que agita as pistas de todo o Brasil, diz que toda vez que toca Anitta em suas apresentações o público vibra. “Em uma festa de Fortaleza, coloquei algumas músicas remixadas e a galera se empolgou, pulou e não parou de dançar. Foi lindo”, diz. 



Ele conta que a música faz o estilo chiclete [aquela que não sai da cabeça] e que exalta a atitude da mulher fatal e poderosa. “É por isso que o gay se joga, pois muita gente tem esse lado feminino mais aflorado. Além disso, é nítida a inspiração em Beyoncé, que é outra diva gay”.

O DJ Serjô, residente e organizador da Wallpaper SP, afirma que a música de Anitta ainda hoje é o ponto alto da noite. “Começa a buzina da música e os gays se matam de gritar. Isso ocorre porque o funk está em alta em muitas festas pop/trash/funk e Anitta agrada por ser uma versão mais ‘limpa’ de tudo”. 

Mas será que tanto sucesso da cantora será contínuo ou ele irá sublimar como o de suas antecessoras brazucas? “Toda modinha passa. A indústria musical é cíclica: o funk vai, mas depois volta”, analisa Serjô. Ao mesmo tempo, em uma de suas músicas, Anitta diz: "Eu vou ficar" e já começa a dizer em entrevistas que não é uma cantora de uma música só. 

É aguardar, ba-ban-do...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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