Pitacos

Os prós e contras do programa 'Na Moral' sobre o tema transgênero

Maitê, Erick, Bianca, Letícia e Leo Moreira Sá
Se em 2011 Pedro Bial escorregou ao usar várias vezes o artigo masculino para falar sobre a transexual Ariadna, que acabava de ser eliminada no Big Brother Brasil, o jornalista e apresentador se esforçou ao máximo para falar sobre transgêneros no programa Na Moral, exibido nessa quinta-feira [22]. A atração deu luz ao tema no plim plim, emocionou pelas histórias, foi ovacionado pelo público LGBT, mas ainda assim cometeu algumas escorregadelas. Vamos aprofundar a discussão e, assim como o prefixo “trans”, ir além de...?  

O programa foi dividido em infância, adolescência, relacionamento e operação de redesignação sexual. E contou com a presença do ator Leo Moreira Sá, anunciado como homem transexual que se casou com uma travesti, Erick Barbi, que desde a mais tenra idade contou com o apoio dos pais sobre sua transexualidade, Maite Schneider, a atriz que tentou fazer a própria operação de redesignação, Bianca Figueira, que trabalhou na Marinha, e Letícia Lanz, que assumiu a identidade feminina depois de 27 anos de casamento e três filhos.

Apesar dos ricos personagens, senti falta de uma travesti entre os entrevistados - sim, travesti também é transgênero e corresponde a uma grande parcela deste grupo. Também considerei desnecessário revelar nomes masculinos e femininos não mais existentes, já que falamos em respeito à identidade de gênero. E achei desrespeitoso usar expressões como virou homem e artigo masculino para mencionar uma travesti – houve uma correção, mas fui informado que a edição cortou e deixou "o" travesti [que inclusive é reproduzido várias vezes no texto do site oficial do programa].

Além disso, questões importantes ficaram um tanto perdidas nos discursos de personagens que, comparativamente, são exceções. 
Digo porque a família não aparentou ser uma grande barreira na viagem transgênero. A entrada no mercado de trabalho não esteve como um complicador para quem é trans. As pelejas na modificação do corpo também não – Maitê chega a falar sobre a necessidade da operação, mas não fala de fato sobre ela. E o preconceito, responsável por matar inúmeras trans todas as semanas, também não teve um mísero destaque. 

Foi um pequeno pincelar de histórias – lindas e emocionantes, sim – mas que não aprofundaram a questão trans e nem deram a dimensão do que é ser transexual no Brasil. Tudo isso, talvez, porque o programa teve apenas 45 minutos.

Assoprando...

Desta vez, contudo, é preciso destacar que Bial aparentou ter se preparado melhor para tratar o tema. Tanto que considerou que falar sobre a transexualidade merecia a mesma “delicadeza que as mãos de um artista que tocam harpa”. Logo no início, ele explicou com importância o que é ser trans: “Sexo é o que o médico diagnostica no dia do parto. Identidade de gênero é o que você sente que é. Você pode se sentir mulher mesmo estando em um corpo masculino. [A transexualidade] não é um processo de transformação, mas de adequação ao gênero que acredita pertencer”.

No primeiro bloco, a mãe e o pai do cantor Erick humanizaram e serviram de exemplo positivo aos lares brasileiros ao mostrarem com naturalidade que desde a mais tenra idade sentiram que a [então] filha se identificava com o mundo masculino e que era na verdade era um filho. “[Eu mesmo dei a fantasia super-herói] para agradá-lo. Eu tinha em casa uma menina triste, infeliz, descontente com o corpo que tinha. Hoje, tenho um rapaz feliz, contente, amoroso, uma pessoa maravilhosa”. E-mo-ci-o-nan-te!



Também foi emocionante escutar a música Tudo que o Mundo vai Me Dar, cantada por Erick– um verdadeiro hino para as e os transexuais. Foi de importante reflexão o discurso de Bianca, que pede justiça por ser afastada da Marinha: “Não aceito a dicotomia de transtorno mental e ter a plena consciência da minha capacidade física e elaborativa. Ser colocada para fora como se fosse uma doente foi surreal”. E foi um choque de realidade os depoimentos dos filhos de Letícia, que buscou a felicidade após um enfarto, depois de cinquenta anos: 

“A gente descobre que tem preconceito de verdade quando ele bate na porta”, disse a filha. 

Outros discursos coloriam com maestria a quebra de preconceitos e finalizaram a discussão em grande estilo. “O que nos atrapalha são os padrões. Se cada um puder expressar o que é, nós não teríamos essa conversa tão diferenciada”, afirmou Letícia. “O universo é tão complexo e diverso para ser dividido em duas partes [homem e mulher]. Que loucura! Uma infinidade de possibilidades. Cada ser humano é um universo e todas as pessoas podem conviver juntos democraticamente”, defendeu Léo.

Se a ideia - como disse Bial - foi mostrar que transgêneros não se tratam de meros procedimentos estéticos, ponto para a Globo, para o apresentador e para a comunidade trans. Afinal, inserido os prós e contras na balança, as mordidas e os assopros, a atração marca positivamente o tema trans na TV Globo, pois humanizou as figuras e apresentou as questões. Foi mais uma PRIMEIRA discussão sobre o tema [que anteriormente esteve no Amor & Sexo] e que merece avançar nas próximas abordagens. 

Na moral, precisamos sempre transcender o debate!
.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.