Entrevista

'Respeito de Silvio Santos ao nome social é exemplo de cidadania às trans', diz Aleika Barros


Desde os anos 80, Silvio Santos recebe artistas transgêneros no palco de seu programa. Embora respeite principalmente o lado artístico e ressalte a beleza trans, o Rei da Televisão Brasileira insistia na pergunta envolvendo o nome que está no RG ou na "carteira profissional", um verdadeiro desconforto para as travestis e transexuais, que sempre lutaram pelo respeito à identidade feminina. 

Na última exibição do programa, para a surpresa de quem assistia ao dominical, o apresentador simplesmente passou batido pela temerosa pergunta. E, mais, tratou todas as candidatas pelo nome social, com artigos femininos, dando um verdadeiro exemplo para todos os apresentadores e comunicadores do Brasil. Sinal de que, mesmo aos 82 anos, nunca é tarde para aprender. 

Entre as artistas presentes, estava a belíssima pernambucana Aleika Barros, 33, trans conhecida nacionalmente pelos concursos de Miss, por ter estreado a bandeira brasileira no TOP 3 do tradicionalíssimo Miss International Queen, na Tailândia, e pelo trabalho como militante. Em entrevista exclusiva ao NLucon, ela fala sobre o nome social, concursos de beleza, preconceito, velhice e militância trans. Confira: 

- Como foi fazer parte dessa cultura de show de 'transformistas'?

Foi algo bem especial, pois em minha adolescência eu acompanhava sempre o show de calouros e observava bastante atenta as apresentações de Michelly X, Natasha Dumont, Marcinha do Corinto, Juliana Di Primo, entre outras. É importante essa oportunidade pela postura, talento e beleza, que levamos aos palcos e para o público, essa ligação das trans com o mundo artístico, que deixa o nosso coletivo em evidência. Em minha opinião, é esse tipo de exposição que deveria ser mais explorado pela mídia, ao contrário das tantas manchetes policiais que vemos pelo país diariamente.
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- Acredita que o Silvio Santos é um dos poucos comunicadores de TV que observa as trans como artistas – apesar de até pouco tempo ele ainda perguntar o nome do RG? 

O Silvio sempre abriu portas para as artistas da noite e deixou claro essa admiração pelo nosso trabalho. A repercussão é bastante positiva até hoje. Programas como o dele, como o do Ratinho, do Leão e até mesmo do majestoso Bolinha nos trouxeram oportunidades, abriram as portas para mostrar o trabalho artístico. Em relação ao respeito de gênero, foi uma das primeiras perguntas que fiz quando recebi o convite para participar. Notei que durante o programa, apesar de alguns tropeços, ele fez questão de chamar todas as trans pelo nome social e isso é extremamente justo. Afinal, é constrangedor chamar o tempo todo “Maria” de “João”. O fato de o Silvio passar a chamar trans pelo nome social é sinal de que estamos resgatando a cidadania, dignidade e respeito pela população. 

- Em sua infância, existia alguma referência, como Roberta Close, Thelma Lipp, que sempre estavam nestes programas, que você olhava e dizia: “É assim que quero ser”?

As duas têm um lugar muito especial em nossas lembranças. Mas não admiramos apenas pela evidente beleza. Roberta é um dos maiores símbolos de elegância, simpatia e educação. Poucas transexuais femininas e belas conseguiram repassar para a imprensa essa imagem de que, além de beleza, existe um grande conteúdo interior. A Thelma também colaborou dando visibilidade ao coletivo com suas apresentações. Mas, hoje, aqui no Brasil, são raríssimos os casos em que conseguimos visualizar uma linda trans na mídia fazendo, por exemplo, um comercial de perfume ou de cosméticos, como aconteceu com a Lea T. Pois a imagem das trans não é repassada de maneira justa e correta. Hoje, é difícil a nova geração conseguir bons exemplos, pois é só observar o grande número de transexuais em reportagens sensacionalistas. 

- Quando você se descobriu artista? 

Comecei fazer apresentações em casas noturnas e boates GLS de Recife aos 19 anos. Gosto de cantoras como Monica Naranjo, Lara Fabian, Lâam, e falo cinco idiomas, que ajudam na dublagem. Mas, hoje, faço menos apresentações nos palcos, por motivos particulares, entre os quais, a desvalorização das artistas trans e os baixos cachês que não compensam os gastos. Hoje, seleciono mais os locais onde vou me apresentar, visando principalmente a valorização do nosso trabalho. Um dos motivos mais gratificantes que ainda me fazem voltar é o carinho que recebo do público presente. 

- Calma aí, cinco idiomas?!?

Sim – francês, espanhol, inglês, português e italiano – e escrevo alguns mais fluentemente como Francês e Espanhol. Ultimamente, me dedico aos estudos da língua inglesa. É importante porque, quando consegui me comunicar e me expressar da maneira que desejei, dentro desses idiomas, passei a me considerar uma cidadã do mundo. É bacana repassar o que pensamos por meio de nossas próprias palavras. 
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Você já participou de inúmeros concursos de Miss. Conta alguns bastidores mais marcantes de um deles...

Depois de ganhar concursos no Recife a nível estadual e regional, participei do Miss Brasil Transex 2002, em São Paulo, e causei polêmica. Eu tinha seios muito pequenos e de hormônio e não havia feito nenhuma cirurgia plástica, mas chamei atenção pela feminilidade natural. Lembro que cheguei num domingo e recebi a premiação no dia seguinte. Fui a primeira pernambucana a receber o título neste concurso da Rosana Star, que era dos pioneiros do seguimento e já tinha elegido ícones como a Natasha, a Marcinha, a Fabíola Nogueira e a Patricia Araújo. Ou seja, ela teve um trabalho que deu boa visibilidade ao coletivo trans por meio desse evento a nível nacional.

- O ápice foi o Miss Internacional Queen, na Tailândia, em que ficou em segundo lugar? 

Com certeza, pois fui a primeira transexual brasileira a ficar no TOP 3, como vice-campeã mundial. Mais tarde, veio fazer parte dessa galeria a brasileira Daniela Marques, que ficou em terceiro, e a Jessica Simões, em segundo. Esses concursos são realizados para dar mais visibilidade ao coletivo, numa tentativa de levantar a alto estima das mulheres trans e mostra-las de maneira mais justa à sociedade. Na Tailândia, o concurso bate recorde de audiência, é transmitido em rede nacional e as misses são aplaudidas pelo público, que mostra tolerância à diversidade. Aqui, por outro lado, as misses trans pagam um preço alto por terem modificado os seus corpos, serem prisioneiras deles e da discriminação que é jogada sobre a população. 

- O que diria para a candidata brasileira neste ano, a  Miss T Brasil, Marcela Ohio, que vai participar do concurso na Tailândia? 

Ela tem acertado na postura e principalmente na elegância. Noto que ela sempre usa vestidos discretos e isso conta a favor, uma vez que um dos grandes erros cometidos por misses é sensualizar demais com as roupas, decotes e transparências. Um ponto significativo para qualquer pessoa que deseja representar um grupo é ter poder de comunicação em cena. Às vezes, a beleza associada a uma resposta eficaz nas perguntas pode ser a chave do sucesso. Precisamos de representantes que possam dar voz ao coletivo, nos representar em cena, que saibam falar dos problemas diários e que não vejam a vida como um conto de fadas. Isso sem contar que qualquer miss deve se incluir dentro das causas sociais que protegem e buscam garantir dias melhores ao coletivo...
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Aleika em um de seus primeiros concursos de Miss
Aqui, como segundo lugar do Miss Internacional Queen, em 2007
- A beleza abre portas... Acredita que tenha sofrido mais ou menos preconceito por ser bela?

A beleza abre porta, desde que você saiba aproveitar as oportunidades e conseguir mostrar que tem algo que vai além do físico, como exemplo, a inteligência, a sensatez, o equilíbrio e a gentileza. E engana-se quem pensa que a discriminação é somente para pessoas feias ou fora dos padrões, pois as belas também são alvos da mesma discriminação, com olhares tortos e de chacota na rua. Mas algo importante para qualquer pessoa é se sentir bem com quem você é. Neste sentido, a autoestima e a auto aceitação é uma arma importante para enfrentar os olhares estranhos e o preconceito. É preciso trabalhar o lado interior, pois muitas vezes uma conversa sadia e equilibrada poder render mais frutos que apenas ter um corpo lindo na multidão. 

- Vejo que você sempre escreve, participa de debates... Sempre foi politizada? Em qual momento viu que a beleza precisava ser acompanhada de um discurso firme? 

Sempre busquei estudar um pouco e fazer cursos para que pudesse ter opções de trabalho e capacitação, mas a minha história é semelhante à de muitas transexuais brasileiras – tenho que reconhecer que muitas pessoas já me ajudaram e que não cheguei até aqui sozinha. Mas faço parte, por exemplo, dos 10% das trans que chegaram ao ensino médio. Percebi, então, a necessidade do debate e a importância de as pessoas conhecerem o outro lado da nossa história, pois muitas coisas que são faladas não correspondem à nossa realidade. As pessoas reclamam que a prostituição é uma escolha das transexuais, mas é só conhecer algumas para ver que a busca por um mercado formal de trabalho é marcada por rejeição e escassas oportunidades. Mas não se trata de vitimização, pois muitas trans que já trabalham no ramo da beleza e da moda encontram dificuldades de se inserirem em outras empresas. Acredito ainda que, hoje, precisamos de mais ações e menos discursos. 

- Como foi a criação da AMOTRANS em Pernambuco? Você foi uma das que apoiaram há cinco anos, certo?

Sim, fui uma das trans que apoiou a fundação, mas estávamos apenas engatinhando e tivemos grandes parcerias como a Gleiciane Andrade, o Leões do Norte, GTP, porque não havia nenhuma ONG que pudesse trabalhar especificamente com essa população. Hoje, ela é formada pela Choppelly e a diretoria tem ajudado a criar novos trabalhos e metas. Participo de quase todas as reuniões do grupo trans da GESTOS e, para mim, continua sendo importante quando posso dar assistência para alguma trans na cidade que precisa de apoio moral ou até mesmo de socorro em hospitais. É triste perceber o abandono familiar em que muitas são submetidas diariamente, então também faço visitas a hospitais e reivindico para que sejam tratadas pelo nome social. Envelhecer com dignidade é uma questão que hoje se faz fundamental para todas nós.
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- Em sua opinião, qual é o principal direito que as trans deveriam reivindicar? Acredita que há uma união no grupo? 

Sempre vejo trans comentando que querem o nome social reconhecido, independente da cirurgia ou não, do uso ao banheiro feminino, problema de discriminação nas ruas, mas tudo isso fica somente na teoria. Na prática, muitas são convidadas e nem aparecem para discutirem o assunto nas Ongs. O que se pode perceber é que muitas só procuram as associações quando são violentadas ou vítimas de algum tipo de discriminação na rua, daí buscam soluções aos seus problemas pessoais e não pensam no bem comum. Por outro lado, o movimento das transexuais do Brasil ganha força com pessoas guerreiras, como a Cris Stefany, Keila Simpson, Adriana Sales, Andrea Lais Cantelli, Sissy Kelly e tantas outras que eu admiro pela luta.

- Aliás, enfrentou algum tipo de preconceito por ser pernambucana? 

Sempre existem algumas brincadeirinhas com as pessoas do nordeste, mas sempre encarei isso de maneira natural, pois gosto bastante da região onde vivo e admiro bastante as pessoas daqui. Nunca tive nenhum problema por ser pernambucana. Acho que quem faz o lugar são as pessoas que aqui vivem: grandes poetas, jornalistas, músicos, artistas e pessoas que engrandecem a nossa terra. 

- Agora, como você teve a consciência de que era uma trans? E como foi o processo inicial dentro de casa, já que sua família é evangélica? 

Meus pais me levavam ao psicólogo desde os quatro anos. Minha mãe notava que meu comportamento era diferente, que eu sentia grande dificuldade de fazer amizades com meninos, que não me identificava com futebol, que não queria brincar de carrinho... Ainda mais aqui em Pernambuco! Fui dando sinais de que era uma criança trans e que me sentia mais feliz dentro do universo feminino. Por minha família ser evangélica, já me senti rejeitada ou não tão bem acolhida como deveria. Afinal, se hoje temos tantos tabus quando falamos de transexualidade, imagine há quase 20 anos?

- E como a família reagiu?

No início da minha transformação corporal foi conturbado e difícil, pois as pessoas não tinham informação clara sobre o assunto e tudo o que é passado para as famílias é que ter um filho gay ou trans não é algo divino e nem saudável. Mas, graças a Deus, nunca fui expulsa de casa, pois minha família percebeu que havia em mim uma pessoa esclarecida sobre a minha condição e os meus deveres, como qualquer pessoa. A questão de gênero é importante para quem pretende ter um filho, pois as crianças não são acompanhadas de manual de instruções, não sabemos como elas vão funcionar durante a vida e se estarão dentro das normas impostas pela sociedade. 
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- Hoje, como é a sua relação com os evangélicos?

Minha família segue evangélica, vivemos juntos e todos me respeitam. Existem horas de conturbação, como em toda família, mas até nesses momentos existe o respeito entre nós. Nossa relação é bastante aberta e nos entendemos muito. Um dos maiores pecados de alguns grupos evangélicos é julgar as pessoas e se colocarem no papel de Deus. Certa vez, faleceu uma trans da cidade e um grupo de colegas foram ao sepultamento. Quando saímos, um evangélico veio em nossa frente e começou a falar coisas horríveis do tipo: “Vocês não vão para o céu”. Ficamos chocadas pela religião influenciar muitas vezes o julgamento de forma injusta, sendo que está escrito: “Não Julgais para que não sejas julgado” e “Amai-vos uns aos outros”. Penso que Deus é uma porta aberta para todos que desejam o conhecer. A minha última preocupação é quando, por puro fanatismo, religiosos começam a misturar políticas públicas com religião, quando não agilizam leis que precisam ser votadas e aprovadas com o argumento de que a religião não aceita ou que querem ‘proteger a família’. Esquecem que as leis devem beneficiar todas as famílias. 

- E como a sociedade recebe uma trans no início das transformações?

Me senti no limite do suportável no convívio, apesar de ainda passar por algumas situações constrangedoras, como na hora em que apresento o meu documento de identidade, já que todos me conhecem como Aleika Barros. O choque das pessoas é inevitável e acho, inclusive, que o governo deveria estar mais adiantado nessas questões de identificação de gênero, por meio da nossa documentação. Passando ou não por alguma cirurgia de redesignação sexual, a documentação deveria ser reavaliada de acordo com o gênero que identificamos. É para facilitar a nossa rotina e livrar as pessoas trans de possíveis situações de vexame, pois tem causado sérios transtornos quando precisamos nos integrar nas escolas e no mercado formal de trabalho.

 - Aos 30 anos, o que mudou? 

Mudou quase tudo, principalmente sobre o que é prioridade e o que já não é mais. As futilidades da beleza ainda tomam tempo, mas bem menos que antes. Tenho dedicado meu tempo aos estudos, a ficar com a família... Sinceramente, é um privilégio chegar aos 33 e poder nutrir, além da beleza, muito mais conteúdo e amadurecimento das ideias. A velhice é algo real, pois chega para todos, e a vaidade é boa quando se sabe mantê-la dentro do limite aceitável. Vaidade em excesso empobrece a nossa alma. Minha terapia tem sido escrever em meu blog. 

- Para finalizar, qual é o seu maior sonho?

Gostaria que as próximas gerações de transexuais brasileiras passassem por menos problemas,  tivessem maior apoio por parte do Governo e também encontrassem esse mesmo apoio a partir de pessoas que estão integradas dentro do nosso coletivo. Sonho que haja maior acesso e sensibilização das escolas e universidades e do mercado de trabalho. É isso, o nosso maior sonho basicamente se resumi em viver dias de menos transfobia e maior tolerância à nossa identidade de gênero, em que possamos, enfim, ser mais respeitadas.
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Após a entrevista, Aleika aceitou o convite para integrar o Trans em Debate. Aguardem...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

ALEIKA BARROS disse...

Agradeço o carinho de todas vocês ! E espero que saibamos enfrentar com sabedoria as nossas lutas diárias. Beijos e grande abraço. Aleika Barros

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