Pitacos

Selinho de Sheik em amigo é golaço contra torcedores homofóbicos e falso espírito esportivo

[Foto: Tom Dib / Lance! Press/ Reprodução Instagram]
Assim como fez José de Abreu, o jogador Emerson Sheik, 34, quis testar o preconceito que há no Brasil contra gays. Enquanto o ator disse que era bissexual, o atacante do Corinthians publicou no domingo [18], em seu Instagram, uma foto em que dá um singelo selinho em seu amigo, o chef de cozinha Isaac Azar, para celebrar a amizade sem preconceitos. E, de fato, assim como Zé, pode conferir de pertinho a gigantesca homofobia no país, a intolerância de torcedores, e a revolta diante de um gesto que rompe com o machismo no esporte. 

Sheik estava acompanhado da namorada e, para a tristeza de muitos, não é um membro da comunidade gay. Seu amigo também não – aliás, é casado com uma mulher e será pai pela terceira vez, tendo Sheik como padrinho. Nem mesmo o selinho – ato de afeto primário e que se popularizou com a apresentadora Hebe Camargo em homens e mulheres – configura uma relação sexual ou homossexual. Poderia ser dado na bochecha, na testa, estalado na relação entre pais e filhos, amigos e amigas... Aliás, o jogador já havia publicado fotos em que dava selinho em seu filho e irmãs.

Porém, mesmo assim, Sheik sentiu a [ainda] latente dimensão da homofobia no esporte, da caretice, da falta de confiança, tanto de torcedores de times adversários quanto do próprio clube. No CT, viu faixas da Camisa 12: “Viado não” e “Vai beijar a P.Q.P., aqui é lugar de homem”. Um dos líderes ainda argumentou, garantindo não se tratar de homofobia: “Representou na Libertadores, mas veado aqui, não. Dentro do Corinthians a gente não aceita veado. Não queremos que fique se continuar com veadagem”.
.

Alvo de ataques morais, que retratam que para muita gente o “gay” não deve se misturar, Sheik conseguiu sentir pele toda a saraivada que a comunidade LGBT sofre. O ídolo master desceu do pódio “ da Taça dos Pegadores” por solidariedade e vontade de própria – e não a fórceps, como Ronaldo Fenômeno e Richarlyson - e se colocou na arena da homofobia. Fez uma verdadeira revolução na cabeça dos torcedores machões, que observam nele uma referência. "Poxa, agora ele deu um selinho em outro homem. Isso é coisa de gay e, se eu quero ser como ele, ah... Não, não posso ser gay e ele tem que...". Houve um conflito necessário, apesar do resultado nem sempre positivo.

Hoje, Sheik sabe como ninguém que não se trata de ditadura gay, de exagero e nem de síndrome da perseguição. O preconceito bate com força na canela, vem com carrinho e comete uma grave falta sem penalidades - sim, não existe lei anti-homofobia. “O mundo do futebol é machista. Em nenhum momento desrespeitei ninguém e, se alguém sentiu isso, desculpa. Mas não concordo. Lá era a pessoa Emerson, não o atleta. É um preconceito babaca”, disse à Band. Ele só fez questão de frisar, para mal entendedor, que gosta mesmo de mulher, só não tem preconceitos e nem acha que uma bitoca fere a sua masculinidade.

Importante, o selinho não foi o primeiro no esporte – haja vista a icônica cena protagonizada por Maradona e Carlos Tevez – mas foi a primeira vez que um jogador brasileiro vestiu a camisa e pautou os principais sites de notícias esportivas com a temática da homofobia e do machismo. Todos os comentaristas machões, acostumados a se direcionarem para muitos brucutus, FALARAM sobre um selinho entre iguais e, pasmem, deram o seu apoio frente às críticas dos torcedores. Somente o debate, a foto divulgada e a defesa do jogador valem um campeonato inteiro. Afinal, Sheik não é gay, mas E SE FOSSE?
.
Em outras postagens antigas, Sheik dá selinho no filho e nas irmãs

Uma reflexão importante no país do futebol, no país em que se tem maior número de crimes por homofobia [GGB], no país em que vai sediar a Copa do Mundo em 2014, no país em que não temos nenhum jogador assumidamente gay no futebol profissional,  no país em que torcedores querem deixar o “viado” looonge e ao mesmo tempo não há lei que puna a homofobia, no país em que marcas e patrocinadores rejeitam um atleta gay, no país em que um selinho choca mais que a violência da torcida organizada.  E no país em que viado, bambi e similares são reproduzidos com tranquilidade nos estádios como forma de xingamento.

Será que, se Sheik fosse gay, o debate não estaria sendo colocado na necessidade de ele aposentar as chuteiras? De deixar o Corinthians? De quebrar contratos? Quem não se lembra do jogador de vôlei Lilico [1977-2007] que alegou ter sido cortado das Olimpíadas de Sydney em 1999 depois que se assumiu gay? 

“Não adianta só ficar falando, alguém tem que botar a cara, a gente fez isso para abrir a cabeça das pessoas, para defender uma inclusão social. Queremos defender a causa contra a homofobia que está se tornando algo absurdo", disse o jogador, marcando um verdadeiro golaço contra a intolerância. Esperamos que todos os héteros sejam como Sheik, Zé de Abreu, James Franco [leia aqui], que sabem que não precisam ser homofóbicos para serem homens. Que todos os jogadores, marcas, patrocinadores e torcedores sejam mais tolerantes e que tragam nos pés o tão comentado e desejado espírito esportivo.

+ Neymar recebe ofensa de uruguaio e manda beijinho como resposta
+ Anderson Silva se empolga e dá selinho em Chris Weidman
+ Jogador Raí é a favor do casamento gay

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Ricardo Aguieiras disse...

Maravilha o que ele fez, abriu espaço para uma discussão importantíssima que a nossa sociedade conservadora e heterossexista se nega a ter. No entanto, a reação dessa tal "torcida" me preocupa, pelos mesmos motivos que você coloca, Neto: Grave translesbohomofobia ao ponto de transformar o Brasil - há mais de duas décadas, já- no país campeão em assassinatos de LGBT's, que na verdade são muito mais do que os números revelam, já que assassinatos de trans* e de travestis são subnotificados, quando o são. O que leva esses torcedores a pensar como pensam e a serem, juntos com os fundamentalistas religiosos e os neonazistas, nossos maiores inimigos e promotores do ódio? Precisamos, urgente, de uma Lei que criminalize a homofobia equiparando ao racismo, por que o que esses torcedores fazem é apologia aos crimes de ódio. São tão limitados que acham que o gay masculino "não é homem". Possuem uma masculinidade tão frágil que um simples selinho entre dois homens é capaz de derrubar o edifício inteiro de suas masculinidades e sexualidades. É isso o que temem. Temem as mudanças, temem as revoluções do viver, temem o prazer e são meramente reprodutores do que o papai, o avê e o bisavô ensinou. Situação gravíssima que só uma lei efetiva conseguirá educar e controlar.
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Que delícia de selinho...!!! Êita morenos gostosos da hora...!!!Luiz(60)São Paulo,Cap.

Tecnologia do Blogger.