Pitacos

Toscoshop em campanha com Preta Gil revela que até moda plus size se baseia na gordofobia


A campanha de roupas plus size Special For You, da C&A em parceria com a cantora Preta Gil, virou motivo de piada nesta quarta-feira [14]. O motivo: a edição das fotos de divulgação, em que a garota-propaganda aparece com ombros, pescoço e braços assimétricos. Porém, depois de gargalhar com o desastroso toscoshop e as montagens da rede, parei para refletir sobre a razão de a marca querer emagrecer Preta Gil para uma campanha de roupas cuja proposta é contemplar os tamanhos 46 ao 56.

Será que não conseguimos aceitar com tranquilidade uma mulher com pneuzinho, barriga saliente, celulite, estrias e rugas - que é o mais natural e próximo da realidade? Será que ainda vamos colocar a "preocupação com a saúde" para condenar uma mulher gorda? Será que o mercado de roupas, apesar de já perceber o gordinho e o gordo como consumidor - quase 50% dos brasileiros -, ainda tende a enfiar a estética de corpos magros goela abaixo, mesmo quando se trata de campanhas, figuras e promoção plus size?

A gordofobia é perceptível nas peças das vitrines, nas imagens de divulgação gerais ou plus size, na mocinha virgem da novela, nos famosos rechonchudos que ganham destaque em alguma revista. Afinal, mesmo nas melhores intenções, a edição visa sublimar os contornos, disfarçar com efeitos o corpo real para que ele se assemelhe ao outro, ao padrão imaginado, sem barriga ou formas voluptuosas. Investem na gordinha como uma tentativa fake de ela parecer magra, como um truque de ilusionismo, photoshop, cintos modeladores ou com o famoso pretinho emagrecedor. 

Gabourey foi a única capa da edição especial que focou o rosto
Quem não se lembra da capa com Adele para a ‘Vogue’? Apesar de a entrevista questionar padrões de beleza, a artista foi exageradamente "emagrecida" pela edição, com os seios aumentados para que a cintura parecesse menor. Até as bochechas foram photoshopadas e chupadas. O efeito não ficou feio ou tosco, como o de Preta, mas certamente foge da real figura da cantora, que também é linda ao natural e dispensa a trabalhosa edição.   

Na revista Elle, a comemoração de ter a atriz Gabourey Sidibe [do filme Preciosa] em uma das quatro capas durou pouco. Tudo porque, enquanto as outras atrizes, tal como Megan Fox, apareceram de corpo inteiro, Gabourey foi a única a aparecer enquadrada com uma foto de rosto. Algo que me fez lembrar do “Você é tão bonita... De rosto!”, elogio que faz muita gente colocar somente a foto de rosto no Facebook ou se esconder atrás de amigos em fotos da balada. 

Outros exemplos ocorrem em as capas destinadas às modelos plus size, que simplesmente tampam onde a "fita métrica cresce" e revelam [quando muito] as coxas grossas e o bumbum avantajado, outro padrão, que supervaloriza partes do corpo consideradas eróticas - vide Mulher Melancia. Na espanhola “S Moda”, por exemplo, Candice Huffine aparece com as pernas de fora e o corpo complemente escondido. Já Tara Lynn esteve na revista Elle francesa com pernas de fora e figurino preto.

 Nenhuma gordurinha aparece, nada!
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Capas com modelos plus size que escondem as gordurinhas
Sombras em ensaio de modelo plus size dão efeito de cintura pequena
No Brasil, a revista TPM com a Gaby Amarantos trouxe a importante defesa “Eu não visto 38, e daí?”, mas estampou contraditoriamente a cantora com a região abdominal coberta. Hein? Nos vários ensaios sensuais de modelos plus size, a iluminação também surge como um efeito de silhueta menor. Neste sentido, elas podem ter pernas e bumbum à lá Melancia, mas barriga e braços, que de fato configuram uma mulher cheinha, não, nem pensar...

Em outras palavras, elas podem ser gordas desde que sejam um tipo de gordas. Uma gorda não tem ou não evidência a barriga. 


Sobre o caso atual, Preta ainda não se pronunciou e a C&A também evitou qualquer declaração. Mas não é preciso esperar muito para constatar que diminuir os braços, a cintura e outras partes da artista pelo photoshop nada mais é que desrespeitar a própria proposta e a musa escolhida. É dizer nas entrelinhas que ela [e toda consumidora] ficaria melhor se perdesse medidas e que precisa, sim, de um regime para servir à peça. Que pena que estamos na era da barriga negativa e que ainda não contempla diferentes formas de ser belo. .

Abaixo, a música Sou como Sou, de Preta Gil, que critica o sistema e os padrões, mas que curiosamente investe somente em modelos magros e fortes. Sempre há uma contradição...
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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