Trans em Debate

Trans rejeita grupo T e quer ser vista como mais uma mulher cis. Armário ou direito à invisibilidade?


Respeito ao nome social, cirurgias, hormonioterapia, referência ao feminino em lugares públicos, redesignações, mudança de documentos... As travestis e mulheres transexuais querem cada vez mais ser tratadas de acordo com o gênero feminino. A peleja pelo processo não é tão simples e algumas, ao alcançarem a chamada “passabilidade” – quando deixam de ser apontadas como trans e passam a ser vistas como mais uma mulher cis – rejeitam absolutamente o passado e o grupo T.


A mais nova reflexão ocorreu quando recebi o e-mail de uma profissional que ganhou mídia em 2009 por ser a 1ª trans na Câmara dos Deputados e pediu para que eu apagasse a entrevista. O motivo: “fiz a cirurgia de mudança de sexo e me arrependo de ter exposto minha intimidade. Quero a invisibilidade”.

Perguntei sobre outros motivos, uma vez que ela servia de exemplo positivo para novas gerações e abertura de caminhos, e ela respondeu: “Deixei isso [a transexualidade] para trás e não gosto de me lembrar. Não quero ser rotulada como trans, isso é apenas uma parte de mim e sou muito mais que isso. Exemplo: O Obama é visto como o primeiro presidente dos EUA, e o Joaquim Barbosa é visto como o primeiro negro presidente do STF, sendo que isso não representa 1% do que eles são. Como dizia Clodovil: ‘Eu não concordo com orgulho gay, pois não tenho orgulho de ser gay, tenho orgulho de ser quem sou”.

E agora, meninas? Em tempos que se fala da importância da “Visibilidade Trans”, o que falar sobre a vontade individual da invisibilidade? Existe tranfobia internalizada e o medo de ser uma mulher trans? Ou a invisibilidade seria apenas uma “recompensa” final depois de tantas transformações e desafios? Será ainda que não estamos comprando o binarismo de gênero e rejeitando as diferentes formas de ser mulher?

FERNANDA VERMANT, modelo

“É preciso respeitar quem não tem orgulho de ser transexual”

“No Brasil, ser rotulada como trans traz um peso enorme, pois o termo carrega muito preconceito, muita pressão. Além disso, se ela se sente 100% mulher, se a sua identidade é de mulher completa, então ela não se sente trans. Não estou dizendo que ela não é, mas ela não se sente como, e falar sobre a operação só a faz lembrar que é algo que não quer ser. 

A frase de Clodovil – não tenho orgulho de ser gay, tenho orgulho de ser quem sou - explica super bem o ponto de vista dela. Ela quer ser reconhecida como pessoa competente e não como trans. Concordo plenamente com ela. Ela não está negando a sua origem ou rejeitando a causa transexual. Ela está lutando pela causa dela, ela pessoa, e não a sua condição sexual, que infelizmente não foi o que ela queria. Olhando no direito da individualidade e das próprias escolhas, é preciso respeitar quem não tem orgulho por ter nascido transexual”. 

Kimberly Luciana Dias, recepcionista e artista

“Assumir a travestilidade e a transexualidade é assumir para o mundo a nossa dignidade”

“Dou parabéns às TTs guerreiras, que dão a cara, assumem o que são e lutam pela causa. Se hoje existe o benefício da cirurgia de readequação sexual pelo SUS e outras conquistas para as trans, é porque muitas deram a cara, sem esconder que são travestis ou transexuais, sem ter medo da visibilidade. Esse assunto mostra que minha alma é mesmo de uma mulher travesti e que a questão da invisibilidade ocorre em sua maioria com as mulheres transexuais.

Mas, mesmo que haja essa tentativa, elas devem ser 100% passáveis, pois a cobrança é enorme e não acredito que uma transexual consiga esconder por muito tempo a sua condição. Algo no segundo tempo pode entregar o passado e até mesmo o resultado da readequação sexual pode ser um peso. É por isso que preferi parar no estágio da travestilidade, pois, para esta sociedade, eu teria que nascer de novo para ser uma mulher biológica.

Ao mesmo tempo, nem todas têm a obrigação ou o mesmo sangue de militância para lutar ou abraçar as causas. Se elas acreditam nesse modo de vida, cabe a mim respeitá-las. Mas é importante dizer que muitas que não aceitam as suas condições tem problemas emocionais graves e psicológicos, principalmente quando o mundo não corresponde às expectativas do tratamento e definições. 

Nunca poderia sentir vergonha do meu passado, pelo que fui, e muito menos apagar tudo o que vivi, escondendo a minha travestilidade. Essa, certamente, não seria uma solução para o mundo em que vivemos. Assumir a travestilidade e a transexualidade é assumir para o mundo a nossa dignidade.

EDUARDA LOURENÇO, teleatendente

“Sinto orgulho quando vejo uma reportagem com uma transexual de sucesso”

Algumas pessoas não sentem orgulho de ser classificada como LGBT, não tem cabeça para suportar a pressão da sociedade e preferem esconder o passado. Mas às vezes tentam se esconder dentro de um armário que não se fecha mais, está escancarado. Lembro-me do medo quando assumi a minha transexualidade. Sentia orgulho e ao mesmo tempo transfobia, na preocupação de como as pessoas que conviveram comigo iriam ver um garoto vestido com roupas de garota. E se me atirassem pedras?

Tinha certo medo, mas o tempo foi passando e o meu orgulho de ser quem sou falou mais alto, esteve mais forte que qualquer julgamento. Existem pessoas que acham que não há benefício em abraçar uma causa, mas imagine como seria se nenhum gay, lésbica ou trans lutasse pela bandeira? Viveríamos em uma ditadura constante, sem direitos a nada, sem empregos, tratados como lixos humanos pelo resto da vida. 

Eu abraço a causa com muito orgulho, tenho orgulho de ser transex, pois isso não me faz melhor e nem pior que ninguém. Jamais abandonaria o meu grupo e sinto orgulho quando me vejo em matérias com o título “Transexual, atriz e diretora de escola”. Isso mostra que todas nós podemos alcançar um lugar ao sol, sem precisar recorrer somente ao mundo da prostituição. É claro que não precisam falar que sou trans a toda hora – eu sei o que sou – mas sempre tive a consciência de que poderia fazer algo diferente, independente da minha condição."

DUDA BARRETO

“Negação de ser vista como 'trans' é uma tentativa de fugir dos preconceitos”

“Compreendo que a negação de ser vista como transexual é uma fuga do preconceito e de todas as formas de violência sofrida pelo grupo. É uma fuga dos estigmas e a tentativa de poder viver uma vida ‘normal’. Não as condeno, mas esta conduta não se aplica à minha vida, pois sempre pensei no coletivo, na militância, de comprar briga para uma vida melhor para mim e para os meus semelhantes.

Acredito que a visibilidade transexual e a desmistificação de como a sociedade nos vê é muito importante. Se homens e mulheres podem se vangloriar-se de suas conquistas, por que nós transexuais não podemos? Hoje, me orgulho de levantar a bandeira e ser um instrumento que, no futuro próximo, possa fazer reinar a igualdade de direitos e paz entre os diferentes”.

ALEIKA BARROS, maquiadora e acompanhante

“Para muitas, entrar neste armário significa se machucar menos”

“Acredito que algumas mulheres trans entram no armário para não passarem por alguns pequenos constrangimentos e por conta da discriminação que também sofrem. Ao meu ver, ela acontece das duas partes, tanto da sociedade quando descobre que a garota é operada e fica questionando a sua identidade anterior, como também de algumas trans, que partem para satirizar e fazer piadinhas sem a menor graça, do tipo: 'Ela agora é castrada e acha que é mulher'.

Deve ser muito triste para as pessoas que passam pela resignação sexual não se sentirem respeitadas pelo próprio grupo. Repudio qualquer ação que discrimine as meninas que trilham esse caminho e concordo que muitas que passam por esse tipo de cirurgia buscam por uma nova vida, uma nova identidade e uma nova forma de se sentirem realizadas plenamente. 

Em alguns casos, entrar nesse armário significa se machucar menos. Tenho muitas amigas que passaram por essa cirurgia e boa parte cita exatamente este tipo de desconforto. As pessoas tocam no assunto de maneira desagradável e desrespeitosa.

Nesses casos, o armário não é somente uma forma de se esconder do mundo, mas uma busca maior por tranquilidade e paz interior. Afinal, ninguém pode ser feliz sendo tantas vezes questionada pelo mesmo fato e tendo que responder quase sempre da mesma forma sobre o seu problema. Portanto, a elas todo o meu respeito”.

LIROUS K’YO FONSECA, estudante de serviço social

“Ser pioneira é um caminho árduo, mas não podemos esquecer que estaremos abrindo portas”.

E mais uma vez retornamos ao binarismo, ou isto ou aquilo. Eu não digo que reforçamos sempre o machismo? Somos machistas, todas nós, mas temos que tentar deixar de ser um pouco menos todos os dias. Somos, porque fomos criadas machistas, racistas e homofóbicas. Essa questão atravessa o controle masculino que o homem tem sobre a mulher. Controle de como ela deve ser, que corpo ter, que pelos ter, o que pode vestir, como deve ser o físico, o rosto físico e inclusive uma sobrancelha. E reproduzimos isso, quando aconselhamos a nossa amiga a se vestir mais padrão heteronormativo. 

Existem as meninas, que hoje chamo de mulheres ou homens trans que são completamente invisíveis e invisibilizados. É como que para você poder sobreviver ao nosso mundo você devesse viver em estado de "stealth", invisível. Claro que por outro lado não podemos querer que todas as pessoas nessas condições sejam militantes ou que carreguem um conteúdo teórico rico apenas pela vivência, as pessoas são o que são e isso não as tornam experts no assunto. 

Sempre acreditei que o fato de você ser a pioneira é difícil, um caminho árduo e doloroso, porém, você nunca pode esquecer que estará abrindo o caminho para outras pessoas na sua mesma condição que talvez não tenham a mesma garra e resistência que você, além de ter um reconhecimento você se torna referência, e essa referência pode acabar sendo utilizada para a abertura de muitas outras portas, ou quem sabe deixar o seu nome registrado para a história. 

A respeito das lutas, nós não temos uma luta, nós temos uma demanda que necessita de um amparo, e este amparo que dizem que temos não nos contempla estando junto ao movimento LGBT que nos desfragmenta. Ainda é um movimento do binarismo imposto por uma norma que não deixa liberdade de expressar quem você realmente é, estamos em dias que parece que a homofobia e transfobia acabou, mas não. Sempre enxergo um erro gigantesco na fala de defensores das causas LGBT quando dizem que temos que acabar com a homofobia, mas pera, as trans e travestis não são necessariamente homossexuais, ou seja, o olhar do outro não chega até nós.

Volto a firmar que a classe de homens e mulheres T's devem se unir e sair de vez do movimento LGBT como aconteceu na Argentina, as T's se uniram, se fortificaram e tiveram grandes conquistas como a Lei de gênero e hoje ser quem você é, é muito mais do que um nome na carteira de identidade. Lá, a batalha é outra, aqui, passamos muito tempo e gastando muitas energias para conseguir a retificação de nome, e isso, que não é uma demanda nem L e nem G, fica quase que no esquecimento, quando as meninas T's vão as paradas, são convidadas para abrilhantar o espaço quando se enquadram nas normativas L e G, caso contrário, muitas das vezes, sofrem transfobia no próprio espaço que deveria representa-las.

Mas quando vemos uma discussão de políticas LGBT, aonde estão as T's discutindo? Porque muitas das vezes não chegam nem a ser chamadas? Esse lugar realmente nos representa? O T da sigla, serve apenas para ajudar nas estatísticas, nada e feito e o nosso sangue ainda é usado para dar legitimidades a parada. Não devemos esquecer o caso Stonewall, hoje a história é contada de uma outra forma, dizendo que a comunidade LGBT saiu em confronto e por isso, surge a parada, mas não foi bem assim, quem estava no confronto eram as T's que agregam as demais siglas que se apropriam do movimento e as exclui apagando inclusive a sua história. 

Repensem esse lugar e fortaleça os laços com homens e mulheres trans seja como elas aparentarem fisicamente, deixe a normativa de lado e vamos a luta, não podemos esperar que somente uma ou outra faça isso, temos que fazer por nós mesmas”.


Fabiana Oliveira, modelo e convidada especial

“A mentira tem perna curta, mas devemos respeitar todas as decisões”

“Conheço amigas que realmente não adicionam travestis e transexuais no Facebook, vivem em um mundo estritamente hétero, não vão a lugares gays... Apesar de respeitar todas as opções, comigo não é mais assim, pois estar em um mundo LGBT é absolutamente normal, mesmo depois da operação. Tem tanta mulher [cisgênero] com  amigas transexuais, travestis e que frequentam festas gays, não é verdade?

Em meu Facebook, tenho amigas trans, mas admito que não adiciono todas, pois muitas pensam que o Facebook é site de pornografia e sinceramente eu não acho bacana.

Sou modelo profissional, trabalho em muitos eventos e as pessoas sempre dizem ‘é uma transexual feminina’, ‘ela fez a cirurgia’... Bom, não gosto de ser rotulada, pois sou um ser humano, me considero uma mulher, sempre me considerei e muitos dos meus amigos me respeitam como uma mulher. Mas sempre vai existir um babaca querendo falar que sou trans, querendo dizer nunca serei uma mulher.

O mais importante é como me sinto e como meus pais me chamam – de filha! Quando alguém me rotula de trans, com o intuito de diminuir a mulher que sou, digo que não gosto e vai da pessoa respeitar ou não. É por isso que eu entendo quem se esconde, pois o mundo LGBT é muito duro e preconceituoso com eles mesmos. Nestes casos, pensando em ter maior respeito e anonimato, é melhor viver outra vida.

Respeito todos os caminhos que cada uma toma e procuro entender as motivações de cada trajetório, mas falo por experiência própria: a mentira tem perna curta. Quase me casei com um homem com quem não falei nada sobre o meu passado e a experiência não foi muito agradável. O que deve ficar claro é que independente da cirurgia, do meu passado e das escolhas individuais, me sinto uma mulher, sou uma mulher e vou morrer uma mulher”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

7 comentários:

Luisa Trans disse...

Kimberly sempre Arrasa no seu ponto de vista, me identifico muito com você!

Kamilla Mastrangelo disse...

EU ODEIO ESSA KIMBERLY, ELA QUER SER A MELHOR DE TODAS AQUI NO FACEBOOK! NÃO SUPORTO ELA NEM SUAS PÁGINAS EU SOU UMA MULHERRRRRRRRRRRR

K.I.M.B.E.R.L.Y disse...

Hellloooo Kamilla Mastrangelo, você me odeia, hihihihihihi pega a senha e vai para a ultima da fila, olha a minha cara de preocupada com vc honney :p

Priscilla Dion disse...
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dju disse...

Li esse texto num blog que tem tudo a ver com esta matéria: http://trans.parencia.com.br/2013/09/invisibilidade-trans.html

Vanessa Lopes disse...

Eu tenho sim orgulho de ser trans, tenho orgulho do que conquistei, de onde cheguei, mas esse orgulho eu guardo para mim. Só quem é trans tem a verdadeira noção do quanto nos negam o direito ao trabalho, do quanto nos negam o direito ao amor (quantos vocês conhecem que namoraria uma trans, apresentaria para a família, etc?). Entendo a importância e respeito muito quem milita, mas esse é um fardo muito pesado que eu não aguentaria carregar a vida toda. Quero ainda conseguir ser feliz nem que seja um pedacinho da minha vida, e recebendo preconceito de todo lado é que não vou conseguir isso.

M H disse...

Concordo c a resposta da modelo Fabiane Oliveira ois "o mundo LGBT é muito duro e preconceituoso com eles mesmos. Nestes casos, pensando em ter maior respeito e anonimato, é melhor viver outra vida."

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