Pop & Art

Transformistas e travestis dos anos 70 transgridem em exposição fotográfica em SP

Danton e Carlos, em 1973

Quem passa pela Estação República do metrô, em São Paulo, nem imagina que a elegante e tímida senhora que estampa a foto da parede do Museu da Diversidade é a responsável pela transgressora e emblemática obra fotográfica Crisálidas, que está exposta no interior do espaço até o dia 30 de setembro. "Dama do retrato brasileiro", Madalena Schwartz [1921-1993] fotografou de maneira sensível, tocante e chocante [haja vista a reação de algumas pessoas em pleno 2013!] travestis, transformistas e personalidades que ultrapassavam as questões de gênero nos anos 70 e faziam parte da efervescência cultural da época.

Das 16 mil fotografias da artista, tiradas na intimidade do 30º andar do edifício Copan, e que hoje fazem parte do Instituto Moreira Salles, 34 foram selecionadas para a exposição no Museu da Diversidade. Dentre elas, a de Paulo Bacellar [Paulete] maquiando Carlinhos, do Dzi Croquettes, em 1974. A de Reginaldo de Poly transgredindo com sua barba, batom, brincos e olhar profundo. E a de Ludmila [Danton], que aparece à lá Marylin Monroe desnuda, sobreposta à sombra de Carlos, que está de peruca preta ao vento. Um prelúdio ao bate-cabelo em 1973!

A cada foto, um mergulhar no passado, a imaginação nos bastidores, a reflexão sobre a transgressão, o questionamento das normas de gênero e a sensação de viver histórias. O retrato de Tony e Ricardo, paralisados, expressivos e vestidos de noivo e noiva, por exemplo, poderia tranquilamente inspirar um clássico, poema e livro de  um Clapin pós-moderno ou de uma Louise Brooks transexual... O resultado é fruto de um trabalho sensível da fotógrafa, considerada até coadjuvante, por permitir que  seus modelos expressassem com total liberdade e sem pressões o que julgavam ter de melhor.

Aliás, a aparentemente tímida Madalena era realmente fascinada pela magia do transformismo, do underground e da androgenia em plena época do regime militar e procurava retratar pessoas que, assim como ela, que nasceu na Hungria, passou pela Argentina e se radicou no Brasil, deixaram as suas vidas anteriores para seguir por caminhos desconhecidos. Transformou seus retratos em registro, manifestação e amizade que atravessou mais de quatro décadas. 

Paulo e Carlinhos
Reginaldo de Poly e Carlinhos Machado
Suzy Wong em 1974
Ludmila [Danton] e Carlos 'batendo cabelo' ao fundo em 1973
Madalena e Nu [1975]
Tony e Ricardo, em 1973

A curadoria do evento é feita por Jorge Schwartz, filho de Madalena e diretor do Museu Lasar Segall, e a exposição é assinada por Felippe Crescenti. Vale lembrar que ela é promovida pela Secretaria de Cultura em parceria com o Instituto Moreira Salles. Detalhe: a exposição termina no dia 30 de setembro e o espaço está aberto de terça a domingo, das 10h às 20h.

Uma boa oportunidade para falar mais sobre nós, sobre a cultura do país e de uma mulher que, muito à frente de seu tempo, fotografou com emoção e sutileza os artistas que fizeram história nos palcos paulistanos, inclusive os integrantes do grupo Secos & Molhados [com o icônico Ney Matogrosso] e a atriz Elke Maravilha, que infelizmente não contam com fotos na atual exposição, mas que estão no livro homônimo lançado em 2012. 

Crisálidas é o retrato da transgressão, dos pensamentos arcaicos transformados em poesias, em arte, em borboletas...  

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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