Pitacos

Daniela Mercury e Malu Verçosa estão exagerando na exposição do romance?


Em abril de 2013, a cantora Daniela Mercury decidiu pela primeira vez revelar ao público o relacionamento homoafetivo com a jornalista Malu Verçosa. A declaração, feita em Paris, por meio do Instagram, foi clara: "Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração para cantar". Porém, enquanto muita gente se surpreendeu positivamente com a revelação corajosa e até natural, houve gente [inclusive lgbts] que dissesse que Daniela era mais uma oportunista, que usou do relacionamento entre iguais para promover ou alavancar a carreira. 

De fato, a cantora de 47 anos alcançou um novo público que nos dias de hoje estava mais deslumbrado com as "novas" cantoras. De fato, depois de um jejum midiático, ela saiu na capa da maioria das revistas brasileiras, subiu em trios elétricos de Paradas do Orgulho Gay, beijou a sua esposa para o Fantástico e revelou aos quatro ventos o seu relacionamento, inclusive indo ao Castelo de Caras para anunciar a data do casamento: 12 de outubro de 2013. De fato, alcançou novamente a visibilidade e a atenção nacional, que talvez não conquistasse tão facilmente em outro caso.  

Porém, mesmo que Daniela colha louros e notas verdes, o feito de se expor [e olha que ela nunca precisou usar de sua vida particular profissionalmente] não pode ser desqualificado. Afinal, a artista se posicionou com altivez, respeito, seriedade, falando o que quis, como ou quando quis, se expondo de uma maneira que foge a caricatura ou aos rótulos. Tornou-se exemplo porque não se apresentou como uma mera defensora HT, como uma lésbica digna de programas sensacionalistas ou como uma bissexual [que nunca fica com mulheres] - como é o caso de artistas que se dizem gay-friendly no Brasil e que têm um discurso fantasioso da questão. Precisa dizer nomes?

Daniela - a rainha baiana e que fez escola para as demais - revelou-se como uma igual, com o discurso de quem realmente vive, sente e entende o amor. E se o manifesto de seu sentimento traz benefícios, inclusive profissionais e financeiros, que Ó-TI-MO! Antes de Daniela, revelar-se gay [mesmo no meio artístico] era motivo de vergonha social, de descrédito profissional e de medo. Se ela conseguiu transformar isso em causa social, referência e, por que não, money, é mais um motivo para nos orgulharmos dessa baiana arretada e de seu amor. 

Quanto mais ela aparecer, mais ela vai contribuir, mais a relação entre iguais se tornará comum aos olhos da sociedade – sim, os artistas criam referências e têm uma importância na quebra de tabus. Talvez essa seja a deixa para que todos os artistas gays saiam do armário e se exponham da maneira que quiserem na mídia. Até porque, em minha opinião, a questão principal não está em Daniela se expor demais ou de menos, está no olho do brasileiro e do consumidor de tais conteúdos estar ou não acostumado a ver apenas héteros fazendo de seus relacionamentos um assunto interessante. 

Afinal, se qualquer outro famoso hétero anunciar o casamento para a imprensa, há uma total naturalidade em engolir os noticiários. Mas quando uma lésbica famosa faz disso o que todos fazem, há um espanto medíocre e contraditório. Talvez seja por esse motivo que ainda não vimos Ana Carolina, Maria Gadú e até Pepê e Neném amarem publicamente ou fazerem um discurso nacional em prol dos direitos LGBTs. Talvez Pepe e Neném tenham feito, mas elas também foram “acusadas” de se aproveitarem da sexualidade para aparecerem... Oh, Good! 

Questionada por que decidiu expor o relacionamento, Daniela disse: " Porque, se eu sair três vezes com um homem, vão presumir que ele é meu namorado, mas se eu sair a vida inteira com uma mulher, jamais vão presumir que existe uma relação de amor ali. Existia preconceito". Que Daniela continue se expondo muito, em todos os veículos e mantendo sempre os mesmos princípios. E que, a partir dela, haja alguma mudança na mídia, nos lares brasileiros e de quem acompanha [e faz!] a mídia de celebridades...
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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