Pitacos

Fofocas sobre Raí e Zeca Camargo ferem direito à liberdade individual de ser, se assumir ou não


O ex-jogador Raí mais uma vez provou que não quer estar associado aos boatos de que teria um caso amoroso com o jornalista Zeca Camargo. Nesta terça-feira [24], o colunista Vinícius Segalla informou que Raí pediu que uma montagem humorística sobre ele e Zeca fosse tirada do Facebook e inserida no mesmo processo que o ex-jogador move desde julho de 2012 contra a colunista Fabíola Reipert, do R7, e contra o jornal O Dia. O pedido foi negado e Raí passou a ser visto como um homem com senso de humor frágil, exagerado e até homofóbico – uma vez que “deu a entender” que o fato de ser chamado de gay o ofendeu e que ser gay não é uma ofensa.

Ok, ok. É claro que não é ofensa. É claro que ele poderia simplesmente ignorar os rumores. É claro que não dá para ter controle sobre o que as pessoas pensam sobre nós. E é claro que um processo judicial pode soar exagerado em um primeiro momento. Mas não se trata apenas de um incômodo pelo questionamento de sua sexualidade - que também não deveria ser questionada. Trata-se, segundo o jogador, de uma resposta legal a uma inverdade sobre a sua vida. Uma boataria infundada, que envolve uma separação, nome de terceiros e piadas - estas, sim, debochadas e homofóbicas. 

Uma "notícia" que vai além da sexualidade, mas que conta uma história. 

Além disso, se você viu leu, riu e compartilhou a nota original, talvez não tenha percebido que ela não foi respeitosa, não foi pró-comunidade LGBT, teve aquela pontinha de maldade, deboche e, apesar de o nome dele não ter sido citado [como é o argumento de quem é a favor de conteúdos fantasiosos], todas as características foram explanadas. Se pararmos para pensar, esses boatos não são feitos para agregar. Mas para diminuir, desqualificar a imagem viril do galã, impulsionar piadas, promover julgamento moral e expor uma condição íntima e não consentida diante de todos. Sobretudo para colocá-lo no meio da roda e servir de graça e risinhos - há quem tenha humor com tudo, há quem não tenha e defina como bullying. 

Ser gay não é ofensa, mas o teor, momento ou como a palavra é usada, podem ser. Afinal, mesmo que Raí seja gay, ainda assim a notícia feriu a liberdade individual e intransferível de se assumir ou não, de assumir um romance ou não, de expor a sua vida privada ou deixá-la na intimidade. Afinal, podemos não concordar que as pessoas fiquem no armário, que não exponham os seus relacionamentos, que não levantem bandeiras, mas não temos o direito de tirá-las a fórceps ou forçá-las a uma coragem inexistente. É um tanto agressivo e desrespeitoso querer que a pessoa ASSUMA – aliás, a própria palavra "assumir" lembra-me um tribunal e não queremos que ser gay ou hétero seja uma condenação, certo? 

Rick Martin, Daniela Mercury e tantos outros exemplos só comunicaram a sua orientação sexual depois dos 40, o que nos leva a crer que todos têm o seu momento e que o processo deve ser algo natural, jamais forçado.


Além disso, o fato de rejeitar o rótulo "gay" não faz dele um homem homofóbico – as pessoas adoram colocar essa placa em qualquer pessoa que não dizem o que elas querem ouvir. Há quem se esqueça ou não saiba, mas Raí é um cara bacana, nunca se envolveu em polêmicas ou usou de sua vida pessoal para aparecer, se envolve atualmente em vários projetos sociais, já apoiou o casamento gay na campanha “Sim, eu Aceito” e já se manifestou contra a homofobia no esporte. “Espero que a situação de homofobia mude porque acho uma hipocrisia. A sociedade em si já é machista. O futebol é mais machista ainda.”, declarou o atleta para Fernanda Young.

É por esse motivo - pelo machismo - que ainda não temos um único jogador assumido no futebol brasileiro. Raí poderia ser o primeiro e entrar mais uma vez para a história. Mas não é, nunca revelou nada e nem quer ser capa da Caras com o Zeca Camargo. Raí define-se como hétero e merece respeito por ele ser quem sempre foi.

"Se fosse [gay], não teria problema nenhum em assumir. Entrei na justiça porque era mentira. Não fico saindo com mulher para afirmar nada, acho que isso só alimenta um preconceito. Tenho minha vida, tenho as pessoas que construí e isso é o que importa. Do resto, só não quero que falem mentira. Não existe polêmica, existe uma fofoca que as pessoas gostam de ficar compartilhando. Se um dia eu pensar e quiser mudar, não tenho problema nenhum em assumir", garantiu ao portal Terra. Esperamos que não! Quer dizer, é indiferente...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

P disse...

Se você ainda não se assumiu e quer compartilhar experiencias com outras pessoas na mesma situação conheça meu blog:

http://seassumirounao.blogspot.com.br/

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