Entrevista

“Minha identidade é 80% feminina”, diz a artista transformista Victoria Vipper


São cinco anos de carreira, oitos títulos de miss, incontáveis bate-cabelos e um sonho: o reconhecimento. Victoria Vipper é uma das artistas da nova geração que investem na beleza, na mensagem e na inovação a cada performance ou desfile. Tanto que, em participação no Miss Brasil Gay 2010, em Juiz de Fora, a transformista chocou e foi ovacionada ao concorrer com um vestido de seda pura e, pasmem, sem nenhum brilho.

No miss de 2011, deixou o vestido no guarda-roupa e apareceu, olhem só, com um macacão. Já no concurso Drag Danger 2010, aliou a tradicional dublagem à mensagem de combate a homofobia, trazendo inclusive a imagem de Nossa Senhora em um telão. Por suas inovações, beleza e provocações, Victoria será uma das misses a brilharem na festa Terça Trans, nesta terça-feira, 3, em São Paulo.  

Feliz com o reconhecimento que tanto almeja, a artista provou nesta segunda-feira [2] que o importante é mostrar a que veio. De vestido, faixa e coroa, ela circulou pelo centro de São Paulo, driblou as piadinhas, flertes e olhares, e posou para um ensaio exclusivo do NLucon. Abaixo, a drag-miss revela detalhes da carreira e mostra porque sua trajetória tem tudo para continuar sendo uma artista vic-to-ri-o-sa.

- Após vencer e participar de inúmeros concursos de miss, o que é ser bela para você?

Para um artista transformista, ser bela é um conjunto de fatores. É ser simpática, é estar bem maquiada, penteada, ter um bom comportamento e postura. Mas, sabe, nunca parei em frente do espelho e fiquei falando: “Ai, como sou bonita, perfeita...”. Também não vou ser hipócrita de dizer que me acho feia [risos]. Mas a questão é que me considero uma pessoa normal e que todas pessoas têm belezas diferentes e únicas. É só preciso saber explorá-la da melhor maneira possível.

- Quando foi a primeira vez que você se montou?

Saía para balada, assistia aos shows de drag, me encantava, mas não tinha coragem. Até que teve uma festa perto da minha casa e eu, aos 18 anos, fui montada. O pessoal começou a falar que eu estava bonita e eu já tomei gosto pela coisa. Penso que, caso você se monte uma vez, vai querer se montar sempre [risos]. Daí, comecei com o show de bate-cabelo... Hoje, toda a minha família me apoia e minha mãe até sobe no palco da Parada Gay de São Paulo.


- Acho que é sua a performance que falava sobre homofobia e que trouxe uma imagem da Ave Maria, né?  

Todo mundo comenta e já me convidaram para eu levar para outros estados. Naquele dia, estava com medo de não conseguir passar a mensagem em uma balada. Mas vi as pessoas chorando, pensando, refletindo... Quis dizer que, apesar de estarmos em uma festa, ser gay, lésbica ou travesti não é só ferveção. Temos que pensar na homofobia, nos nossos direitos, pelo nosso bem, até como uma auto reflexão de nossas próprias atitudes. Eu, por exemplo, ando bastante montada, mas nunca fui desrespeitada. Acho que isso é um reflexo do que a nossa comunidade está fazendo e de como eu me comporto.

- Como chegou ao concurso de miss?

Conheci o Sandro Hefner e ele começou a dar vários toques para o Miss São Paulo 2010, que eu fiquei em segundo lugar. Meses depois, participei do Miss Beleza Gay São Paulo. E fui participando de vários, inclusive duas vezes no Miss Brasil Gay, em que fiquei em quarto e quinto lugar. Para mim, é uma satisfação pessoal, mas tenho a consciência de que não dá para ser miss sozinha. Temos uma equipe que sonha junto, patrocínio, maquiagem, vestido... Você não representa apenas você, mas uma cidade e um sonho em conjunto. Comecei como uma brincadeira, mas hoje vivo exclusivamente do trabalho de transformista.

- Acredita que, desmontado, como Victor, você também venceria um concurso de beleza?

Não vejo nenhuma diferença entre o Victor e a Victoria, fora a maquiagem e a produção. Me considero muito bem das duas formas. É o mesmo sorriso, é o mesmo nariz, é o mesmo olho. Creio que, se tivesse que  participar de um concurso masculino e ressaltasse os meus pontos positivos de homem, sim, eu poderia vencer.

- Hoje, vemos muitas drags que estão assumindo integralmente a identidade feminina e inclusive colocando próteses de silicone. Você, que é muito elogiada estando de menina, já cogitou ser uma travesti ou transexual?

Me aceito dos dois jeitos. Não vou mentir e dizer que nunca pensei [ser trans], pois 80% da minha identidade é do gênero feminino e o meu lado feminino é muito mais forte que o lado masculino. Mas não é um plano para agora, é mais para o futuro. Se me dar na telha, coloco peito e pronto. Acho legal, interessante, respeito muito, mas agora não tenho essa vontade.

- E os namorados, preferem o Victor ou a Victoria?

Antes, os gays cortavam na hora quando sabiam que você se montava. Hoje, mudou um pouco, mas ainda é complicado. Já estou sem namorar há... Bom, há um tempo [risos]. Mas entendo as pessoas que não conseguem entender, pois nesta sociedade somos cobrados para ser uma coisa ou outra. Ou homem ou mulher. E estamos entre esses dois.


- No palco, o que conta mais, é a beleza ou a produção?

Antes, era a beleza, a postura, o sorriso. Depois, começou a contar mais a produção, o vestido incrível, os brilhos... Hoje, os organizadores perderam o foco e, em um concurso de transformista, ganham as pessoas que fazem mais plásticas e que modificam os seus rostos – o que esbarra nos concurso de trans. Isso sem contar as máfias, que fazem o título perder a credibilidade, quando você já escuta o nome da vencedora nos bastidores antes mesmo de o concurso começar. Mas não posso generalizar. Os concursos bons hoje em dia são organizados pela Paty Delli, do Luis Carlos e alguns do Rio. Eles ainda focam na beleza, no respeito e na credibilidade.

- Sobre os vestidos, as pessoas gastam aquele montante de dinheiro mesmo?

Realmente, o gasto é alto, mas não chega a 10% do que elas falam. Quem fala que gasta mais de 60 mil é mentira, a não ser em raras exceções. Eu já gastei, mas hoje sou vestida pela Antara Gold e o Bruno Oliveira, que são fantásticos e sempre gostam de inovar. Em 2010, participei do Miss Brasil Gay, que é conhecido como um concurso que pede investimento, brilho, riqueza... E eu fui com um vestido de seda pura com aplicação de renda francesa, sem nenhum brilho. Todo mundo levantou e me aplaudiu. Fui aplaudida por um vestido de alta costura, inovador e de bom gosto, que não gastei nem R$3 mil. Em 2012, desfilei com um macacão de pérolas e strass ao invés de um vestido. Temos que ter esse diferencial e não focar apenas na riqueza. É possível ter sofisticação, glamour e bom humor.

- Quem é o seu exemplo de beleza?

São várias, mas em primeiro lugar está a Layla Ken. Gosto da beleza natural, sem muitas plásticas... A beleza dela vem de dentro e explode para fora, está na pele, no nariz, então, para mim, é uma inspiração. Eu também sempre gostei dos concursos de miss, seja ele de gay, travesti, mister, miss, tudo. A miss que mais chamou a minha atenção foi a Natália Guimarães, que em 2007 reascendeu o concurso e até hoje continua sendo celebridade por ser Miss Brasil. Pena que ficou em segundo lugar no miss universo.


- Por falar nisso, os resultados são justos ou a beleza é muito relativa?

Sinceramente, acho que a maioria dos concursos atuais não está sendo justa. Vou te explicar: participei de um concurso esplêndido, de uma cidade maravilhosa e fiquei em segundo lugar. O problema é que a pessoa que ganhou o título tinha ficado, na verdade, em 5º lugar na somatória de pontos. Ou seja, os jurados estavam lá só para enfeitar e o que contou foi o que o organizador quis. “Achei que ela merecia ganhar e ela ganhou”, simples assim. Existe manipulação, existe o fato de a candidata ser amiga do organizador, de ela não sair da cidade dele. Comigo é diferente, quando eu concorro procuro não me envolver com ninguém da organização e muito menos do júri.

- Entrevistei a Natasha Dumont e ela disse que rola de tudo nos bastidores, menos amizade. Concorda?

Comigo não ocorre esse tipo de problema, pois o que eu procuro mostrar é sempre no palco. Mas já vi muitas candidatas olhando feio nos bastidores, nos ensaios, como se fosse uma luta mesmo. Muita gente tenta prejudicar desde o camarim e, se puder, pisa no seu vestido [risos]. Nem acredito que seja pela má índole, é pela vontade de vencer. Procuro me resguardar desde o momento em que chego, pois em eventos como o Miss Brasil Gay você é avaliada desde o momento em que chega ao hotel. Portanto, não é só estar maravilhosa, tem que manter o tempo todo...

- Pensa em participar de novos concursos?

O último que estive foi o Miss Rio de Janeiro Gay 2012, em que passei a faixa em julho deste ano. Mas não sei se vou participar de outros, pois algumas coisas que aconteceram me desmotivaram. É uma palhaçada saber o nome da vencedora antes de o concurso começar... Isso cansa um pouco. Mas talvez volte a participar de um concurso a nível nacional ou de um concurso que visa mina realização pessoal. Por enquanto, dei um tempo.

- Qual é o seu sonho?

É o reconhecimento. Não é tanto pelo dinheiro, mas é chegar aos lugares e ver que as pessoas conhecem o meu trabalho, gostam de mim... Isso é o que eu mais gosto. Na Terças Trans, por exemplo, me sinto muito feliz e a vontade, pois sei que muitas travestis e transexuais me admiram e gostam do que eu faço. Aliás, a festa é para isso: tem lésbica, tem gay, tem transex, tem reconhecimento. 


"Se me der na telha, boto peito".

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Alexandre Junior Junior disse...

Mto mto mto feliz amiga vc merece mto mto mto sucesso!!!

MERDA MERDA MERDA HJ & SEMPRE

Maisa Israel disse...

Vick me orgulho do seu trabalho e do seu sucesso que só tende a crescer mais e mais. Nunca jamais perca essa simplicidade, o sorriso iluminado que vc tem desde sempre.Sua simpatia é o que conquista a todos.
Sucesso hoje e sempre minha diva, luxo, saúde, e toda a felicidade deste mundo.
Te adoro!

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