Entrevista

Diva trans, Natasha Dumont revela bastidores dos 15 concursos de miss: 'Rolava de tudo, menos amizade'


Natasha Dumont é sinônimo de beleza, concursos de miss e sucesso com o público. Não seria por acaso que a entrevista que concedeu ao NLUCON no início do ano está entre as mais acessadas da história desta página. “Até hoje várias pessoas me ligam por causa desta entrevista, inclusive vários amigos de fora do Brasil. Fico feliz pela repercussão positiva e pelo carinho que recebo”, revela a diva.

Nesta terça-feira [3], a artista será uma das homenageadas da Noite do Glamour, da festa Terças Trans, que vai homenagear as maiores misses de São Paulo. Com nada mais nada menos que 15 títulos – todos merecidos, diga-se de passagem – ela é a artista que mais carrega faixas nacionais e internacionais do Brasil. Aliás, o título de diva foi conquistado por meio do concurso Miss Trans Diva, que ocorreu nos anos 2000, em Surique, na Suíça.

Em nova entrevista exclusiva, Natasha revela as curiosidades dos concursos de beleza. Será que o clima é de amizade ou de pura competição? Confira o bate-papo:

- Com 15 concursos vencidos na carreira, lembra-se do primeiro evento de beleza que participou?

Lembro! Foi um concurso na minha cidade, em Sorocaba. Mas, ao contrário dos outros, eu perdi nesta estreia [risos]. Vim para São Paulo, fui miss em um concurso da boate Segredos e conheci a Nana Voguel [conhecida como a eterna miss, que morreu em 2005, aos 58 anos]. Foi a Nana que me deu alguns toques, sobre postura, ser simpática, de sorrir sempre, sempre, até para a inimiga [risos]. Fui me aperfeiçoando, fui Miss Primavera, Miss Pantera e não parei mais...

- Onde conheceu a eterna Nana?

Foi nesta boate Segredos. Eu estava lá para participar do miss e ela estava no júri – e é claro que eu já havia visto em outros concursos. Depois que acabou tudo e eu venci, ela veio fazer amizade e eu disse que queria investir, pois naquela época eu nem estava formada completamente. Ela me apresentou para muita gente, me levou ao cirurgião plástico, foi me buscar, morei no apartamento dela... Foi uma pessoa bem atenciosa, um exemplo de pessoa e de vida. Foi uma das pessoas que marcaram a minha história, assim como a Lilian Paixão, que é uma amiga íntima e que viajamos muito juntas.

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- Ser miss significava o que? Era o reconhecimento de sua figura feminina?

Não, era mais que isso, era um sonho realizado. Quando era criança, amava assistir aos concursos de mulheres, que passavam pelo SBT. Assistia a todos: Miss dos Estados, Miss Brasil até chegar ao Miss Universo. Sempre fui fascinada pela beleza feminina e meu sonho era ser uma mulher. Não sabia como seria o futuro, mas sabia que queria ser uma bela mulher. Ver aquele monte de mulher linda foi uma inspiração...

- Existia alguma mulher que chamava a sua atenção?

Foram muitas as misses que eu admirei, mas a minha inspiração foi a Lynda Carter, que foi conhecida como a Mulher Maravilha, mas que também foi Miss [Mundo EUA, em 1972]. Admirava o conjunto completo e não via um defeito nela. Depois que assistia a série Mulher Maravilha, eu queria ser ela nas brincadeiras. E, de fato, era.

- O que rolava nos bastidores dos concursos?

Rolava de tudo, menos amizade [risos]. Por se tratar de uma disputa, muitas pensavam: “Que vença a melhor, mas que seja eu”. Comigo nunca aconteceu nada de negativo, pois a Nana me deixou arisca e eu nunca fui sozinha, mas já vi histórias de gente que colocou fogo na cortina, de rasgar vestido, sumir sapato... Mas tudo isso é uma grande bobagem, o concurso tem que ser disputado no palco. No último que fui, o Miss Trans Diva, em 2000, nem participei pensando em ganhar.

Como assim?

Eram candidatas belíssimas e eu, apesar de preparada, não queria me decepcionar e foquei apenas em conquistar uma colocação. O concurso era de Zurique, na Suíça, foi televisionado e cada miss representava uma diva de Hollywood. Eu queria, ser a Mulher Maravilha, né? Mas já existia outra e não deu. A Marcinha [do Corinto] foi de Carmem Miranda, representando o Brasil e eu fui de Carmen de Bizet, representando a Espanha. A Carmen era uma mulher devastadora e morreu assassinada... Olha, foi páreo duro e, quando eu fui anunciada no primeiro lugar, não me dei conta. Eu não entendia o idioma e só me dei conta quando vieram com a coroa [risos].


- Qual é a sensação de ser anunciada vencedora, receber a faixa e a coroa?

Para mim, que sempre gostei muito, é como ganhar na loteria. A sensação é mais ou menos essa, de ver que marcou os números certos e ganhou na loteria, principalmente neste último.

- E os trajes? Gastava-se muito?

Eu gastei no começo, quando ainda estava fazendo o meu nome. Depois, que fiquei conhecida, as pessoas me vestiam: Pedrinho Fernandes, Walério Araújo, Fernando Pires... Neste último concurso, fui patrocinada em tudo e não gastei nada. Lembro de um vestido do Valério no Miss São Paulo, que era de veludo, preto, com uma aplicação de strass em vermelho e com as costas toda nua. Lindo, lindo, lindo... Quando fui Miss Brasil, o Pedrinho fez um vestido preto de renda com strass, tule, bem bonito. E o último foi com uma segunda pele de renda, com aplicações de strass nele inteirinho.

- Você tem algum vício fashion?

Amo sapato, bolsa... Você sabe que eu não sou muito discreta, né? [risos]. No dia a dia, sou mais básica, mas quando saio de casa a noite, adoro brilho, adoro estar bem perua. Mas faço umas trocas. Se estou com uma roupa de brilho, coloco um sapato nude, opaco, sem brilho. Mas se vou com uma calça jeans, vou com um sapato mais chamativo.

- As pessoas sempre te elogiaram pela beleza?

Sim, quer dizer, as concorrentes não gostavam não. Já ouvi muita gente me elogiar e outra pessoa vir dizer: “Ah, prefiro outra”, “Tal é mais bonita”. A questão é que cada pessoa tem o seu espaço e a sua beleza. As candidatas que sempre tiveram a beleza, me acompanharam nos concursos e tiveram o seu espaço foram a Marcinha, a Amanda do Ceará, a Fabíola Nogueira e muitas outras.


- O fato de ser uma mulher trans atrai ou afasta os homens?

Atrai, é impressionante! Quando eles ficam comigo e sabem que sou, parece que ficam mais, mais interessados. Para mim é tranquilo. Quando vou a uma balada hétero, obviamente não escrevo que sou trans na testa. Fico com alguém e, quando vou embora, peço para ele me ligar daqui a 10 minutos. Daí eu falo: “Você já sabe que eu sou...”. E eles recebem muito bem, nunca foi um problema.

- O que é belo para você hoje em dia?

Continuo admirando a beleza, claro, mas o tempo me mostrou que a beleza tem vir com algum tipo de consciência, uma cabeça legal, uma inteligência mínima que seja... Se a beleza vier sozinha, ela não dura. Você consegue, mas não segura.

- Por ser um ícone da beleza, as pessoas te cobram muito para estar sempre bela?

Cobra, claro, diariamente. As pessoas me encontram no mercado e querem me ver como estou a noite ou quando fui coroada. Mas tem dia que você quer ficar totalmente zen, confortável... Muitas amigas e conhecidas sofrem com essa questão de estar sempre bela e de o tempo ser um fator que modifica a imagem. Tem gente que não aguenta, faz terapia, vai ao psicólogo para conseguir entender a transformação da beleza com o tempo.

- Essa é uma questão para você também?

Comigo não, eu sou de boa, brincalhona, levo tudo com muita leveza...

Foto: Eduardo Moraes e Claudia Guimarães

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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