Pitacos

Quadro do 'Fantástico' prova que afeto gay ainda incomoda muita gente em espaços públicos


Um casal gay troca carícias em uma mesa de um shopping carioca, quando um homem vai pedir para eles pararem com a demonstração de afeto, pois “não é normal ver dois homens juntos em um local público”. A cena de homofobia, até então corriqueira, trata-se desta vez de uma armação do quadro “Vai Fazer O quê?”, promovido pelo Fantástico no último domingo, 1, que visa saber o que transeuntes reais fazem diante de uma situação homofóbica, assim como já fizeram em situações em que um mendigo foi maltratado por pit boys, em que uma gordinha foi esculachada pela mãe e em que uma nordestina foi ridicularizada por uma cliente.

A atração, inspirada no programa
What Would You Do?", da rede norte-americana ABC, tem como objetivo questionar o papel de cada um como cidadão e ressaltar bons exemplos. Porém, neste caso, falou mais do preconceito internalizado de cada um [e de como ele é manifestado] que da compaixão por um agredido gay. Isso porque, apesar de todo e qualquer pré-conceito ser visto com maus olhos [não pega bem ser apontado como tal, né?], a homofobia passa por um processo de ações veladas, falsos discursos de integração e ausências de referências de amor explícito.

Tanto que, de todas as centenas de pessoas que passaram por lá e presenciaram o ato discriminatório, apenas duas se manifestaram e prestaram solidariedade ao casal - ainda assim não se dirigindo diretamente ao homofóbico, o que difere de outras manifestações do quadro. Para todas as demais, a ação homofóbica não incomodou, mas a presença em si de um casal gay trocando carinhos é que tomou conta dos olhares, risinhos e comentários. “Eu não achei justo ver as pessoas olhando, maldando o que eles estavam fazendo. O mundo é livre, precisa de amor”, declarou a policial militar Carla Cristina Santos.

Será que, por conta do amor gay não ser explorado em sua amplitude pelas mídias, a sua demonstração pública ainda é tratada como uma “nova e corriqueira aberração” pela sociedade?  

HOMOBOBIA NÃO É SÓ LAMPADADA

Apesar de o resultado do quadro não dar um panorama real da situação de um casal gay em ambientes públicos, ele acertou ao trazer um discurso aparentemente inofensivo, que agride o agredido e até o faz se sentir agressor. “Por gentileza, vocês podem parar de se agarrar. Aqui é um lugar de família”, disse o ator, em tom incomodado, ofensivo, mas polido. “Percebeu que ninguém senta ao lado? Está todo mundo incomodado. Não é normal ver dois homens juntos”.

Uma senhora escutou tudo e, ao invés de sentir-se ofendida pelo preconceito, foi se solidarizar – pasmem! - com o homofóbico. “Eu acho horrível [dois gays namorando em um local público], é uma falta de respeito. Vai pra quatro paredes abraçar e beijar. Aqui é um shopping, com crianças, senhoras.”, disse. Detalhe: no jogo de cena, seguindo os padrões da TV Globo, os atores sequer dão um selinho.

A questão é que, para muitos brasileiros, “o gay até pode ser gay desde que não demonstre que é gay, desde que ele não ame publicamente, desde que não dê pinta e desde que não exponha os seus afetos na sociedade”. Para essas pessoas, ser gay influencia crianças, choca idosos e não constitui de fato uma relação familiar - logo essas manifestações não devem ocorrer em um shopping, em um parque, em um ambiente em que “famílias normais” frequentam. É uma aceitação bastante frágil, pois coloca o indivíduo em uma caixinha de distante integração, que oferecesse risco à moral e os bons costumes. Como se todo mundo fosse virar gay.

Pessoas se assustam com casal gay e senhora diz que "isso é uma pouca vergonha"

Ah! “Mas isso não é homofobia. É direito de opinião”, dirão, salientando que nunca agrediram fisicamente um gay. Mas a agressão moral também causa graves danos à vida de um indivíduo. Talvez se trocarmos o discurso contra gays e adaptarmos para as questões raciais [considerando um relacionamento entre branco e negro] o preconceito torne-se mais visível.

“Por gentileza, gostaria de pedir para vocês não demonstrassem que são um casal inter-racial, pois aqui é um lugar de família e não fica bem ver uma negra e um negro se beijarem”. “Meu filho, que é branco, pode ser influenciado ao ver um casal de branco e negro”. “Nada contra vocês, negros, mas vá trocar carinhos com brancos entre quatro paredes”. “A união de branco e negro não é normal”. “Quero ter o direito de expressar a minha opinião contra casais de cores diferentes”. Captou?

O QUE VOCÊ FARIA SE...

O casal gay tivesse se beijado? O que aconteceria se, ao invés de um shopping [que todos sabem que existe monitoramento de câmera de segurança], o casal estivesse na rua, em um parque, em uma feira? E se os dois fossem efeminados ou estivessem com vestimentas simples? Será que o resultado não seria absolutamente inverso, negativamente explícito? Será que o fato de as pessoas não falarem e, ao mesmo tempo, não se posicionarem significa mesmo que estão mais tolerantes [conforme deduziu o jornalista Ernesto Paglia]?

Digo isso porque, se em muitos lugares à luz do dia as pessoas não se atrevem a deixar explícitos os seus pensamentos [certamente com o receio do maior esclarecimento da própria comunidade LGBT], na calada da noite as lâmpadas fluorescentes, chutes e pontapés aparecem e na internet os xingamentos e julgamentos ofendem. Hoje, não dá para saber claramente quem é homofóbico – tirando alguns pastores, artistas e deputado – porque ninguém quer ser apontado como preconceituoso. E aqueles que praticam os seus preconceitos, se escondem em discursos bem fundamentados ou na covardia de um comentário. 

De fato, não é nada agradável ver duas pessoas se bulinando em público [tem gente que gosta, mas não é esse o caso],  mas isso independe da sexualidade de quem esteja fazendo. Ou seja, é desagradável PESSOAS SE BULINANDO e ponto. E, mesmo assim, temos a opção de virar o rosto.

Casal se beija na Parada do Orgulho LGBT de 2009 / Crédito: Neto Lucon
ATUALIZAÇÂO: A necessidade de querer exemplos reais de afeto homoafetivo é o mesmo que os héteros sentem e retratam a todo o momento nas novelas, nas conversas de botequim, em um papo entre conhecidas, nas propagandas de perfume ou creme dental, nas histórias, nos dramas de família... Todos querem viver, falar e demonstrar os seus romances, que são fragmentos importantes de suas vidas, que não fazem mal a ninguém, que não são crimes. Que o amor não incomode, mas que o preconceito, o deboche e a hipocrisia sejam dignos de vergonha.  

A proposta é que todos os casais gays não tenham medo de expor os seus sentimentos e que tornem comum o amor independente de sexo. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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