Pop & Art

'Prefiro uma boa foto que uma boa foda', revela o fotógrafo Ronaldo Gutierrez

Ronaldo em fotos do cartaz da peça Cenas Obscenas, em que dirigiu

Imagens que provocam, iludem, emocionam e convidam para um mergulho numa atmosfera que verbaliza o mais puro exemplo de alma - termo que deriva do hebraico nephesh [vida, criatura] e do latim animu [aquilo que anima]. Nada surge como mera fotografia de um mundo já saturado de imagens. São verdadeiras obras de arte, pinceladas com o olhar de uma criança que queria desenhar, sensíveis como os passos de um jovem bailarino e confiáveis como o clique de um coreógrafo que se tornou fotógrafo.

 Ronaldo Gutierrez  é o refinamento da fotografia brasileira, da transformação das imagens teatrais e da valorização da beleza masculina. Traz retratos cheios de cores, olhares e personalidade, que remete à ícones do cinema pop art e da fotografia lúdica, como as do italiano Wilhelm Von Pluschow [1852-1930], as do francês Pierre Commoy e as do norte-americano David Vance [que curiosamente, assim como Ronaldo, também deixou o sonho de ser desenhista para ser fotógrafo]. É por isso que às vezes, nem parece fotografia, são pinturas.

Em 2011, tornou-se referência nacional ao promover a campanha “Nem Santo Protege: Use Camisinha”, com imagens de modelos seminus que reproduziam santos da igreja católica. As fotos estamparam a Parada do Orgulho LGBT, renderam processos, um pedido de Silas Malafaia para receber “um cassete dos católicos”, muitas gargalhadas e fama internacional. Mas ele quer mais: quer entrar para a história por meio de uma foto que simbolize o amor gay, a sexualidade de uma transexual ou simplesmente a beleza.

Abaixo, o fotógrafo concede uma entrevista exclusiva ao  NLucon  e fala sobre a sua carreira, contato com os modelos, fotos e estereótipo de beleza. O bate-papo foi realizado em um shopping de São Paulo e contou, por duas vezes, com a abordagem de lindos modelos. Confira:


- Bailarino, professor de balé, diretor de teatro, fotógrafo... De qual maneira a passagem pelas várias artes influência o seu trabalho de fotógrafo?

É uma pergunta que me faço até hoje. Certa vez, uma crítica norte-americana escreveu um texto sobre oito fotos minhas e afirmou, sem me conhecer, que eu era como um coreógrafo com os corpos dos modelos. Não sei se é exatamente isso, mas sei que a estética diferente deve-se pela minha história. Sei que não basta bater a foto no momento certo, tem que vir algo de dentro. 

- Como a fotografia te pescou?

Comecei no balé aos oito anos e na fotografia aos 20. Eu estava no Royal Ballet, de Londres e tinha que tirar notas acima da média para receber a bolsa. Comecei fazendo cursos extras para ganhar pontos, como modelagem medieval e fotografia. Quis fotografia porque sempre quis ser artista.  Na verdade, eu queria desenhar , mas era canhoto e apanhava para escrever com a mão direita, pois na época falavam que escrever com a esquerda era coisa do diabo. E eu infelizmente não consigo desenhar [simula desenhar com a mão direita]. Preciso de régua para fazer qualquer reta.

- Recorda-se do primeiro ensaio que fez para valer?

Eu tinha uma Minolta 50 milímetros e sempre quis ser Cartier-Bresson [1908-2004; considerado o pai do fotojornalismo]. Então, saía fotografando na rua, pois gosto de fotografar teatro e pessoas. Gosto de gente, pessoas. Mas a primeira foto que ganhei prêmio tem uma história curiosa. Estava com uma estátua de Cristo ao lado da cama, a luz do sol estava batendo nela e eu já fui regulando a câmera. Foi quando a minha cachorra passou atrás da imagem, espirrou e eu cliquei. Ficou uma coisa meio esquisita:  uma estátua de Cristo na frente de um cachorro gigante, que parece um demônio que estava engolindo a estátua. Depois, fiz um ensaio com mulheres de três etnias e ele foi capa de uma revista. Já comecei com prêmio e capa. 

Danniel e Renan Rosiak: alguns dos modelos que mais brilham nos ensaios de Gutierrez
As primeiras fotos da carreira de Ronaldo e a primeira foto de nu

- O que faz de uma foto boa?

É quando ela conta uma história. É quando você olha e sabe que ela quer dizer algo.  Às vezes, você mostra várias fotos e a pessoa diz “Nossa, que bonito”, daí ela vai passando, passando e, de repente, vê algo estranho e sente uma emoção. Muitas vezes, não é a foto mais bonita, mas é a foto mais interessante. Os clássicos são assim. Por exemplo, se você ver as fotos da Marilyn Monroe, pode dizer que ela é bonita?

- Com certeza, ela é um ícone da beleza.

Sim!   Mas a Marilyn não tem só beleza, ela tem brilho! Quando a beleza vem com aquele brilho, ela pode ser bonita, mais ou menos, pode chegar atrasada, pode fazer o que quiser [risos]. O que eu quero dizer é que só a beleza plástica, que é o que a maioria tem aí, não rola. Muitos editores falam: “Mas você vai fotografar tal pessoa de novo? Eu já tenho uma foto dele”. E eu insisto para tentar uma foto nova e ele não quer. Ou seja, a moda virou um mercado de carne. É por isso que somente os bons, aqueles que tem aquele brilho especial, ficam.

- Em sua opinião, dos modelos de hoje em dia, quem tem brilho?

Vai parecer redundante, mas não tem como não falar da Gisele [Bündchen]. Ela também não é tão bonita, mas é especial. É o mesmo caso do Tony Ward, que tem 50 anos, é feio, tem o nariz meio quebrado e ao mesmo tempo é do caralho! Depois de ter feito o clipe Justify My Love, da Madonna, cinema gay... Ele ainda é contratado da Dolce & Gabbana, faz um montão de fotos até hoje, faz sucesso e tem brilho. 

- Mesmo assim, você diz preferir fotografar teatro. Qual é o motivo?

Me sinto parte do teatro. Sei como é uma coxia, sei de onde vem a luz, sei falar com as pessoas e sei pedir para os atores fazerem coisas que, com outro fotógrafo, eles não fariam. Por exemplo, ficarem feios em prol de uma foto, de um personagem ou da história que eu estou querendo passar.  Os atores não têm vaidade para as fotos, porque sabem que eu também sou artista.  Já o modelo quer sempre estar bonito e aquelas coisas todas... Além disso, antes de  começar a fazer fotos de teatro, há oito anos, existia outro tipo de divulgação fotográfica. E eu tive a pegada “cinema”, comecei a fotografar como se fossem cartazes de cinema. Na época, diziam que nunca seria publicado, mas hoje é impossível abrir a Veja e não ver uma foto minha.

Alexandre Slaviero em cena / E Isaac Medeiros no editorial Circus
Cris Couto em Cabul e divulgação de Senhora dos Afogados
- E quando começou a fazer fotos de homens?

[Suspira]. Olha, vou te falar algo que nunca falei e que morro de vergonha [risos]. Eu aprontei! Comecei a fotografar homens nus porque olhava o corpinho do cara e pensava: “Isso pelado deve ser uma delícia” [risos]. Não tinha onde publicar e fazia para o uso próprio,   fotografava do jeito que eu mesmo queria ver e como eu achava que daria o maior tesão em mim . Era pessoal, pessoal, pessoal. Não me envolvia com os modelos, mas era uma maneira de tirar proveito. Sacanagem, né?

- Acho que dá para você relaxar [risos]. Os modelos se prontificavam bem quando recebiam os convites?

É engraçado que quase todo mundo que eu quis fotografar nu, fotografou. Fiquei até meio assustado, mas sinceramente não foi legal, porque acabei com a fama de que só fotografava nu e não era o que eu queria. Além disso, começou a rolar a história: “Ah, você fotografou alguém nu só porque trepou com ele”. E não é assim que acontece.

- Muita gente conhece o seu trabalho por conta das fotos dos ensaios masculinos. Isso te incomoda?

Incomoda, pois ao colocar o meu nome no Google vai aparecer um monte de foto de homem pelado. Certo dia, um editor disse para mim sobre outro fotógrafo: “Ele acha que é famoso só porque todas as fotos saem em todos os blogs. Foto de homem pelado e de graça, todo mundo quer. Agora quero o ver fazer uma boa foto e ela ser publicada”. Embora não fosse para mim, aquilo me deu um soco e eu fui ver a quantidade de fotos que eu tinha. Ufa! Aquilo não servia para o meu trabalho, mas me fez perceber que eu não era famoso, quem era famosa era a putaria de homens pelados. Fiquei uns dois anos sem fotografar homem nu e o meu site nos EUA caiu de 2 milhões de acessos por ano para 700. Hoje, penso em voltar a fotografar nu, mas  quero fazer um nu que dê para colocar na parede da sala e convidar a mãe .

- O JR Duran disse que os elementos para fotografar nu feminino são: peito, bunda e púbis. E nos homens, quais são os elementos?

Eu gosto das linhas do corpo, as linhas clássicas, alongadas, tipo bailarino, um torção... Gosto de rosto e de que o homem passe segurança e classe. Não pode parecer um gogoboy ou um garoto de programa – nada contra, mas sai dessa linha de arte que eu gosto. Agora, se você quiser algo sensual, o olhar deve falar mais alto. É verdade:  o elemento mais sensual que existe são os olhos , que faz você dizer: “Eu caso com ele!”. Bunda é linda, mas tem que tomar cuidado para não ficar vulgar. Pinto é muito difícil de trabalhar, pois é muito explícito, chocante. Agora, foto sem rosto me lembra uma estátua grega, sem tesão, sem nada.

Everton Passaia


- Noto que, ao contrário das mulheres, há uma grande exploração e fetiche dos pelos pubianos masculinos...

Nas fotos dos meninos da Manifestação, fiz uma [do Ed Garcea] com os pelos propositalmente aparecendo. Foi impressionante ver a visualização gigantesca por conta dos pelos. Teve gente que disse para tirar, outros para deixar. Eu deixei porque penso que tem campo para os dois. Quando fui fotografar o Everton [Passaia], disse: “Penso em um ensaio com pelo e barba”. Mas em outro ensaio o garoto era inteiro depilado. Não sei gosto de pelo ou sem pelo, mas  sei que só um tipo de beleza fica chato.

- Tem alguma estética nova que você esteja gostando?

Estou apaixonado por barbas e aqueles bigodinhos hipsters. Quero fazer um ensaio com vários modelos com eles.

- Em sua opinião, o que falta nas publicações gays?

O gay é tão artístico, mas ficou muito corpo, corpo, corpo, um bando de corpinhos que só mudam a cara. Mas cadê a arte? Cadê um motivo para a foto? Mesmo que seja uma arte pesada. Quando fiz o ensaio dos Santos, quis dar um motivo para aqueles corpos e quis ajudar na prevenção da aids. É uma motivação como a dos santos que falta. Hoje, até temos divisões como ninfetos, homens reais, peludos, mais velhos... mas ainda estão no padrão de sexo. O nu pode ser muita coisa além de sexo e, ainda assim,  uma foto com roupa pode dar muito mais tesão que uma foto sem roupa .

- Concordo.

Fui bailarino e todos nós usávamos uma malha que dava para ver o corpo praticamente nu. Uma vez, estava no vestiário e apareceu um bailarino novo, que já estava com a malha. Nossa, lembro que me peguei esperando ele sair, porque queria ver ele de calça jeans. Pensei: “Ele de calça jeans deve ser uma loucura”. Mas no dia ele estava de moleton – “Que ódio!” – e levei mais de um mês para poder encontrar ele de calça jeans. É que nos anos 70, a calça jeans era meio diferente, bem justa, deixava a bunda levantada a cintura fina... Voltando a falar das revistas, eu não compraria uma revista só para ver uns corpinhos, isso é besteira. Compraria uma revista que tivesse uma qualidade de fotos boa, que a gráfica fosse boa...


 .

- Do tipo da Made in Brazil e Mag? Mas elas são tão caras...

Isso! Pagaria R$50, 60, 80. A Mag tem arte e umas fotos que eu fico torto para fazer. E a Made in Brazil tem imagens que você diz: Isso é nu! Aliás, adoro uma foto do modelo Diego Miguel.

- E quanto à edição de imagem, qual é o limite?

 Edito o que você pode tirar com um banho e com uma boa noite de sono. Mas esta é uma briga que tenho com algumas revistas, pois é claro que temos que fazer tratamento, mas gosto de homem com poros, sem maquiagem, sem precisar chapar o rosto. Já fiz muito a contra gosto para vender para a revista, mas não mexo na estrutura óssea e procuro sempre trabalhar com luz e sombra. O problema é que existem pessoas não aceitam a própria imagem e isso é uma das coisas mais difíceis. Certa vez, um modelo pediu para eu fechar a orelha dele. Fiquei p..., mas tudo bem. Outro, de uns 38 e meio calvo, queria ter cara de 18 e cabeludo. Mas não dava, principalmente porque depois ele ia fazer um teste e ficaria ridículo. As pessoas precisam ter mais consciência, apesar de a fotografia não ser uma verdade.

- Como assim?

Mesmo sem manipulação, a gente procura um ângulo mais legal, trabalha uma luz que vai deixar o rosto um pouco mais fino. A sempre criou em foto, mas ela não pode ficar totalmente irreal. As pessoas têm que olhar a foto e lembrar da pessoa. Quando não reconhece, é foda.

- Você tem algum ritual para fotografar?

Não faço book de todo mundo, sempre chamo a pessoa para conhecer pessoalmente e vejo o que ela quer. Não vou tirar dinheiro dela para um material que ela não vai gostar. Sobre os ensaios no teatro, geralmente estudo, peço o texto, assisto a um ou dois ensaios. O [diretor] Zé Henrique de Paula me dá pontos. “Quero luz de cinema italiano”, ou “Quero [Roy] Lichtenstein, Andy Warhol e uma pitadinha de Irmãs Coen”. Gosto que as pessoas me dê um briefing, um norte, uma cor, uma palavra...

- Há amizade entre o fotógrafo e os modelos?

Sou muito amigo de vários modelos e alguns eu fotografo desde quando eles eram pequenos. O Dannielzinho [Danniel Navarro] eu fotografo desde que ele tinha 13 anos e dá para acompanhar a evolução dele ao longo do tempo. Ainda quero fazer um ensaio com ele em que vou dizer: “Do caralho!”.  Ele me chama de pai, eu dou bronca   e essa é a relação que tenho. Com outros, é a mesma coisa, me chamam de tio e mantenho amizade fora do estúdio.  Prefiro dar um trabalho para quem é amigo que quem chega querendo fazer sexo.

Danniel Navarro: aos 13 e atualmente


- Há pessoas que falam do assédio que modelos sofrem de fotógrafos, estilistas... Mas existe o outro lado da moeda: modelos que assediam fotógrafos?

Os modelos não são inocentes, ao contrário. Sem querer generalizar, mas ocorre muito, muito, e  chegam a ficar pelados e excitados no estúdio . Quando vou ajustar a luz, eles já colocaram pra fora e, quando volto, já digo: “O que é isso? É foto de ROUPA!”. Daí o cara esconde, fica envergonhado, mas saí falando mal, dizendo que era o fotógrafo que queria ir para a cama. Isso sem contar os bockers e agentes que mandam modelos para trepar com a finalidade de ter o fotógrafo na mão. Já tentaram fazer isso comigo duas vezes, mas eu descobri a armação e eles caíram do cavalo. Quase dei no agente [risos]!

- Mas como é para você, que é gay, estar envolto de homens belíssimos?

Vou abrir para você:  modelo não é o que me dá tesão . Gosto de gente comum, não gosto de homão. Às vezes, uma bichinha pequena, sem vergonha é que vai me atrair. Você já reparou que modelo tem cara de quem não trepa bem? Daí chega aquela filha da putinha e você sabe que ela vai te dar trabalho. Tenho tesão naquela bichinha. Agora, já fotografei com quem fui pra cama, já dei foto para essas pessoas, mas elas não trabalha comigo. Nunca fez uma revista, nunca participou de um trabalho... Eu não saiu com quem fotografo, mas já fotografei com quem saí.

- O que aconteceu de mais curioso nos bastidores dos ensaios?

Ao contrário do que as pessoas pensam, o ensaio é uma coisa tão sem graça que dificilmente acontece algo curioso. Um amigo foi me acompanhar em um que fiz na Chilli Pepper e estava todo alvoroçado para ver os modelos. Mas depois de meia hora, ele não aguentava mais. É chato, não dá tesão, é bobo e não tem graça nenhuma. Já fiz ensaio de 12h, com um modelo de cabelo branco. E outro com o Renan que fiz em 20 minutos.

- A sua exposição mais comentada foi a “Nem Santo te Protege: Use Camisinha”, que te rendeu vários processos. O que tirou dessa história?

Toda vez que tinha um processo, ficava cinco vezes mais famoso [risos]. O lado negativo é que a discussão não foi para o lado que eu gostaria: o uso da camisinha. Esqueceram que a mensagem era essa! Mas fiquei sabendo que  a Prefeitura não encontrou uma camisinha jogada fora  durante a Parada do Orgulho Gay [a embalagem vinha estampada com as imagens com os modelos]. Até os lixeiros, quando achavam, guardavam. Ou seja, foi um sucesso. Embora eu não quisesse dar entrevista para lugar nenhum, apenas para o Paco Llistó ela acabou me ajudando muito.

Qual foi o resultado desses processos?

Muita risada! A juíza pediu para eu levar as referências das fotos que eu fiz e, quando comparou, disse: “Mas você não poderia ter deixado o pinto de fora? Não poderia ter mais respeito?”. E eu: “Não, essas são as fotos do Vaticano, as minhas são as outras que não aparecem nada”. E ela respondeu: “Não entendi”. Pois é, eu também não. E tudo acabou se tornando uma piada. Quando o Malafaia pediu para que os cristão sentassem o braço em mim, houve uma manifestação dos gays contra esse discurso. Eu só me diverti em casa, pois sou a artista e a polêmica deve acompanhar a vida de um artista. Já corri da polícia, já fui preso, já apanhei, já me tiraram do palco.  O artista tem que assumir riscos. 


- Tem algum tipo de modelo que gostaria de fotografar?

Sou doido por ruivos, andróginos e transexual.

- Transexual? As meninas leitoras da página vão gostar de saber...

Você sabe a lenda dos transexuais, né? Que Deus fez o homem e a mulher juntos e cortou ao meio para que eles não fossem fortes demais. Então, para mim, os e as transexuais são seres divinos. Mas, apesar de saber que muitas não gostam da genitália, penso em mostrar o pênis no ensaio, nada ereto, nada explícito, mas bem natural. Fui para Londres e vi uma obra chamada O Hermafrodita e fiquei inspirado.  Penso em trazer uma transexual como uma vênus com um pênis discreto , sem tentar esconder. Uma imagem clássica, que chocaria, mas que ficaria linda.

- Qual é o seu sonho?

Já realizei todas as questões pessoais e profissionais. Queria ser um grande bailarino, ser solista do Teatro Municipal, fui. Queria dançar com o maior coreógrafo da Europa, e dancei. Quis amar e ser amado, e sou. Já estou nos livros de Português e História do MEC, já sou personagem de um livro, talvez seja personagem de um filme...

- Bom, mas não acredito mesmo que você seja um homem sem sonhos.

Realmente, não sou. O meu sonho é entrar para a história. Quero que uma foto minha seja e represente, por exemplo, “o amor gay” , “a sexualidade de um transexual”, “a beleza”. Quero virar verbete com uma foto minha. Ainda tenho muitos projetos para desenvolver: um caderno Tilibra com um casal gay se beijando com uma prancha, um pôster gay da Capricho, uma reprodução gay de beijos clássicos. Mesmo que isso não dê dinheiro, mesmo que não trepe com o modelo. Afinal, prefiro uma boa foto que uma boa foda.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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