Entrevista

Stefany di Bourbon fala sobre risos, sonhos e xoxos: 'Não sou a favor do humor que detona o público'


Há 16 anos, a humorista Stefany Di Bourbon - personagem do ator paulistano Ricardo Cavadas – é responsável pela arte do humor nas casas GLS de todo o Brasil. Com traquejo para o improviso, escola nos shows de transformista e expressões à lá Rowan Atkinson, a drag é motivo de alegria e boas vibrações para o público. Tanto que, certa vez, durante um número hilário na Blue Space, em São Paulo, a icônica personagem chegou a aliviar a dor motivada por cálculo renal deste jornalista que vos escreve.

Sobrevivente das transformações e perdas da noite gay, a estrela surge no palco com os olhos arregalados, gesticulações expressivas e divertidas performances - sejam elas atuais ou também clássicas, como I Will Always Love You, de sua diva Whitney Houston. Já dublou Lady Gaga literalmente gaga, deu vida a icônica Janete, do Zorra Total, He-Man, Chaves, incorporou os tropeços nacionalistas de Vanusa e até fez o eterno Enéas se transformar e Havanir em uma propaganda política. 

Mais que uma artista da noite, Stefany [cujo nome veio da cantora Stephanie Mills] é referência máxima de show humor ingênuo, respeitoso e cativante. Em alguns momentos, lembra Stan Laurel, outros Amácio Mazzaropi e traz, claro, a elegância de uma diva do transformismo. Aliás, foi interpretando a Miss Minas Gerais que ela cativou o público na peça teatral Miss Brasil Sou Eu, de Ronaldo Ciambroni, e vencia o concurso - que contava com votação real - em quase toda a apresentação!

A arte do humor - e do trabalho de Stefany - é fenômeno porque rir lava a alma, faz o público entrar em estado de graça, alivia as pressões e os problemas do cotidiano. Nos leva a abaixar a guarda, interromper o carão e se permitir ao ridículo, à identificação. Afinal, se a vida vale a pena pelo tempo em que perdemos o fôlego – e não pelos ponteiros do relógio - como são maravilhosos os momentos em que nos contorcemos no chão com uma boa gargalhada! Confira o divertido bate-papo:

- A primeira vez que você se montou foi em uma festa de apartamento de amigos há 16 anos. Como foi se ver de peruca e maquiagem pela primeira vez? 

A primeira imagem foi uma verdadeira decepção, pois ninguém começa maravilhosa, né? [risos]. Mas como personagem eu me achei, houve um encontro importante, que mudou a minha vida profissional. Apesar de saber que precisava de alguns ajustes e de amadurecimento, me olhei e me senti dentro de um personagem. Pensei: “É isso que eu quero para a minha vida”. 
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- E você já tinha esse lado humorístico? 

Não, não. O lado do humor aflorava nas brincadeiras que eu fazia durante a festa nos apartamentos, mas não existia a responsabilidade de fazer o outro rir. Comecei fazendo o que ocorria na época, os shows de transformismo. O que aconteceu é que, depois que terminava a apresentação, eu continuava na festa curtindo até de manhã. E aí rolava o humor, as brincadeiras e a coisa foi fluindo... Não era nada combinado, era tudo natural e no improviso. 

- Existiu alguém que falou: “Você é engraçada, parte para esse ramo na noite gay que vai dar certo”?

Algumas pessoas me deram toques, mas não tinham tanta intimidade para me abordar e dar esse direcionamento. Mas uma pessoa fez a cabeça para eu entrar na noite: Bárbara Diniz. Ela chegou e falou exatamente isso: “Você tem potencial de humor, de montar número e fazer performances na noite”. Eu não acreditei [risos]. Eu? Imagina! Que viagem! E ela insistiu e eu vi que estava falando sério. Filmaram uma performance nossa e mandaram um vídeo para o diretor da Nostro Mondo. Lá foi onde tudo começou, no dia 3 de março de 1997.

- Antes de começar, você tinha amizade com as artistas da época? 

Eu frequentava as baladas, curtia, gostava, mas não tinha amizade nenhuma com as artistas, pois morria de vergonha. Existia a admiração de assistir, de entender a linguagem, de haver identificação, mas não existia a troca direta. Assistir as performances foi uma escola de muito fundamento, que serviu como base para a minha carreira. Muitas vezes, somos jogadas no palco sem direção, sem nenhum toque.

- E quais eram as suas referências? 

Não houve uma influência direta, mas lembro que já havia o interesse natural por várias vertentes da arte. Na adolescência, fiz um curso de um mês de violão e aprendi o restante sozinho. Fiz nove anos de dança. E brincava de fazer teatro em casa com meus irmãos para apresentar para os meus pais. Analisando essa época, percebo que ainda hoje busco algumas referências daquele teatrinho, do improviso que a gente fazia, de maneira natural. Já era a base de um aprendizado que eu fui encontrar anos mais tarde. 

Como é estar em uma balada, que existe o famoso “carão” e a vontade de “pagar de bonita”, e se propor a fazer o outro rir? 

Foi um processo um pouco difícil no começo, mas consegui entender que é um personagem. Então, foco no contexto que é criado e em tudo aquilo que eu me propus a fazer antes. Não importa o que personagem vai ser, o que vai ocorrer...  É um desafio e eu me preocupo apenas no meu objetivo: o riso. E, atualmente, fazer o outro rir é muito mais difícil que qualquer outra coisa. Às vezes, criamos um número e a plateia ri em um momento que não estamos esperando. Para mim, isso é que é o gostoso.




- Conta algum momento hilário e de improviso que já aconteceu no palco...

O momento que mais me marcou foi a minha estreia na Nostro. Eu estava com uma peruca black e fazia uma performance com a Thalia [Bombinha] em cima do queijo. Daí a Pandora falou: “Se esconde ali atrás, deixa só a cabeça aparecer”. E no palco, de improviso, disse: “Olha gente, não lembra o comercial da Tortuguitas?”. Eu não entendi nada, mas a resposta do público foi imediata! Entenderam que, assim como o comercial, a Thalia havia “comido o meu corpo” [[risos]. Aquela cena e aquele imediatismo mexeram comigo, que mágica! É olhar, se jogar, fazer e pronto!

- Creio que sua performance de maior sucesso é com a música I Will Always Love You. Arrisca o segredo da popularidade do número? 

Talvez seja a simplicidade do humor, pois todas as idades e públicos se identificam. As pessoas gostam do humor singelo, inocente, conhecem a música e se identificam com a performance. Também há um carinho imenso que sinto pela Whitney Houston. Ela me pescou em janeiro de 1994, quando ganhei um concurso de uma rádio para assistir ao show no Morumbi. Eu estava muito próxima do palco e, no momento em que ela entrou, houve um resgate da realidade, uma nuvem e eu fiquei apaixonada. Comecei a curtir tudo, a pesquisar sobre a vida dela, a acompanhar tudo ... Realmente, esta música é meu carro-chefe há 16 anos. 

- Por falar em sucesso. A Miss Minas Gerais, da peça “Miss Brasil Sou Eu”, de Ronaldo Ciambroni, também rendeu muitos elogios. Como foi o processo para dar vida a uma personagem tão carismática? 

Descobri o carisma dela nas entrelinhas do texto, no traje típico e fui explorando e fazendo crescer cada vez mais. Este foi meu primeiro convite para o teatro, em 2004, e eu amei fazer parte desta sátira em cima dos concursos de miss. Faço a Miss Minas Gerais há oito anos e foi a partir dela que recebi outros convites para o teatro. Estive, por exemplo, na peça Herança, de Valter Cavalcante, que era praticamente a protagonista. Tenho um carinho imenso por essas personagens, foi um presente que recebi. 

- No palco, você veste maiô e revela que ainda hoje está com o corpinho de dar inveja. O que faz para manter as medidas de miss?

Nada [risos]!

- Estou falando sério! 

Acho que é genética, pois não sou uma pessoa que faz regime, não pratico nada, como de tudo, bebo refrigerante... Eu ando muito e sempre fui muito educada. Por exemplo: terminei de bater uma pratada, não vou deitar, né? Vai criar gordura localizada na região do abdômen, é obvio [risos]. 
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- Vou anotar essa [risos]! De onde surgiram essas expressões faciais tão marcantes? 

Descobri sem querer, pois tenho mania de gesticular muito quando falo ou dublo. Com o passar do tempo, vi que a expressão era um forte dos personagens, um diferencial e investi. 

- Tendo em vista que você investe em um humor singelo, qual é a sua maior preocupação quando monta um número?

Não sou a favor do humor que detona a plateia, que tira sarro do público que vai assistir ao espetáculo. Quando vou montar uma performance, tenho mania de me colocar no lugar do espectador. Penso nas pessoas que estão cheias de problemas em suas casas, que brigaram com o namorado e que saem justamente para se divertir, assistir um show criativo e esquecer os problemas. Daí ela chega à balada e é esculhambada? De novo? Ela vai embora e não volta mais. Penso que ela queira algo que alegre a vida dela e não que denigra. Foco em um humor em que dou risada com a pessoa e não da pessoa e que seja pautado em questões do cotidiano e de identificação.

- E o que te faz rir? 

São pequenas coisas, situações simples... Aquele humor muito rebuscado, com uma lógica muito grande por trás, não tem muita graça para mim. Me divirto com detalhes da vida. Geralmente, sou super bem humorada, levo a vida numa boa... Mas é claro que tenho altos e baixos, ninguém é 100% alegre ou 100% triste.

- Quem é a Stefany? 

A Stefany é uma atriz, que se encaixa nos personagens a cada número. Ela é uma base para eu fazer a Whitney Houston, a Lady Gaga e adentrar em outras vertentes. Tanto é que ela entra e muda a minha atitude completamente. A timidez vai embora, falo numa boa no palco, faço o que for preciso. Quando viajo para outros Estados, faço muita plateia, animo e consigo me virar muito bem na pele dela. 

- Em algum momento a Stefany tentou ocupar integralmente a vida do ator que a faz? 

Não, isso sempre foi muito bem esclarecido e resolvido na minha cabeça. Nunca tive essa preocupação ou essa indecisão. A Stefany é um personagem, é um trabalho, é o meu ganha-pão, é o meu meio de vida. Encaro ela como um personagem que eu visto para trabalhar e ela nunca invadiu o meu cotidiano. Claro que houve períodos que eu quase me montei a semana inteira, mas nunca deixei que ela invadisse a minha vida pessoal. É tudo muito bem dividido. 

- Como seria a sua vida sem a Stefany? 

Sinceramente, não sei. Antes, eu tentava fazer algo que eu amasse fazer. Tenho formação em administração de empresas, buscava trabalhos e sempre faltava alguma coisa. Às vezes, havia empresa com um diferencial, mas a atividade em si não me preenchia. Queria outras nuances, queria colocar outra coisa para fora. E com a Stefany eu descobri que posso fazer algo que eu realmente gosto. É com ela que tenho a realização profissional plena. Eu me achei fazendo humor, sendo um artista, um ator... Ela é a veia profissional que me faltava e que eu tanto buscava. 
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- Algum fã já se apaixonou pela figura feminina?

Que eu saiba não [risos]. Sempre tive carinho muito grande dos fãs, uns mais exagerados e outros não, mas nunca soube de nenhum interesse amoroso. Já me disseram no camarim que estavam apaixonados por mim, mas acredito que tenha sido uma força de expressão [risos]. 

- Como sua família lida com o seu trabalho? 

Minha família é fechada e não vem falar nada a respeito. Mas meu irmão, que sempre foi muito machão, veio me assistir. Foi mágico, pois não esperava que ele fosse aceitar tão positivamente como aceitou. Eu tinha certo receito, apesar de já ser bem estruturado profissionalmente e viver do meu trabalho, mas foi ótimo. Independente do trabalho, tenho uma relação muito boa e próxima com a minha família.

- O que você faz quando não está nos palcos? 

Assisto tevê, filmes – gosto de comédias e musicais. Cuido da casa, vou para a casa da minha família... Tanto que minha mãe cobra que eu vá para lá pelo menos uma vez por semana. E administro a minha própria carreira, pois sou eu mesma que cuido de tudo, administro tudo. Hoje, estou na Blue Space e em todas as casas que me chamarem. Faço Telegrama, festa, tudo o que chamarem... 

- Drag humorista fala sério, lê jornal, fala de política? 

Sou antenada nos jornais, noticiários, claro! Penso que tivemos uma evolução em muitas questões da sociedade, mas ainda há muito que fazer. Os políticos deveriam pensar no ser humano como ser humano. Hoje, vivemos em uma época em que as pessoas só pensam em si, no seu umbigo, todo mundo só quer se dar bem, SE dar bem... Outra coisa que fico louca é com os impostos. Você compra um produto e paga praticamente 60% só de imposto. Ou seja, o que você ganha vai tudo para o imposto e esse mecanismo gera outro mecanismo e outro mecanismo de desigualdade.

- E em relação aos direitos LGBTS? 

Não dá para comparar antigamente, em que as pessoas não tinham tanta informação, com agora, na era da internet. As lutas e as conquistas deram um efeito visível e essencial para a comunidade. E eu acredito que há uma evolução justamente por conta da informação. A internet é uma arma poderosa, que muita gente não sabe usar, e que dá dimensão para aprender, trocar ideias, dividir experiências e reivindicar. Foi um meio transformador da democratização da informação. 

Qual é o seu maior sonho?

É fazer um espetáculo grandioso, que desse para explorar tudo o que eu gostaria de fazer. Pois em um número ficamos limitadas para fazer uma história apenas e sempre falta alguma coisa. A minha vontade é ter um espetáculo no teatro ou em um show musical em que eu possa mostrar outras nuances e enriquecer mais com outras possibilidades. 

- Qual é a dica que você daria a um artista da nova geração? 

Se dedique e pesquise bastante. Pesquise, pesquise, pesquise, vá atrás, se dedique e saiba que nada vem de graça. Não vá na onda de febre, seja o diferencial. A partir do momento em que você descobrir a sua identidade, você passa a ser reconhecida pelo nome que você criou, pelo seu trabalho. Ninguém é igual a ninguém.

- E você, Stefany, é de fato única! 
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Fotos: NLUCON / Espaço: Danger Club

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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