Pride

Trans debatem: Mídia televisiva ajuda ou atrapalha no combate à transfobia?


Cada ponto no Ibope corresponde a 62 mil domicilios ligados somente na Grande São Paulo. Portanto é inegável a influência da televisão e de sua programação nas possíveis quebras de preconceitos e no retrato da sociedade atual. Quando se fala sobre o mundo trans, a representatividade caminha em uma mescla de apelos humorísticos, policiais, avanços, respeito e desrespeito.

Enquanto o programa Na Moral, da TV Globo, exibiu um debate esclarecedor, falando sobre a vida dos trans do Brasil, o programa Agora é Tarde, da Band, divulgou a primeira diretora transexual do Brasil, e a novela Salve Jorge trouxe a presença de duas atrizes trans, o grupo lamentavelmente deu alguns passos para trás em programas como o Casos de Família, do SBT, Domingão do Faustão, da Globo, Pânico na Band, da RedeTV!, e o Cidade Alerta, da Record.

"Viu uma mulher parecida com a tua? Pensa que é travesti e esquece", soltou Fausto Silva. "Travesti, vesguinho e esquisitinho", disse Marcelo Rezende ao falar sobre o assassinato de uma trans. "Homem que é homem não confunde mulher com travesti", era a chamada do Casos de Família. Já na novela Sangue Bom, o ator Luiz André Alvim voltou com a façanha de homens interpretarem trans.



Diante dos exemplos acima e da própria observação,é possível concluir que a mídia televisiva ajuda ou atrapalha no combate à transfobia? Como é assistir a um programa de tevê ao lado da família? O que falar para trans que se propõem a participar de programas que mais atrapalham que ajudam? 


Lirous K'yo Fonseca
"O plim plim coloca ora 'não cheguem perto, são perigosas' e ora 'existem as que trabalham direitinho'

"Alguns programas tem como base manter a ordem e o bom costume, o capitalismo e a extrema direita. A TV 'Plin Plin coloca ora como 'Não cheguem perto, são perigosas', ora 'Existem as que trabalham direitinho dentro do sistema capitalista, veja é tudo uma questão de escolha', romantizando a dura vida de uma mulher/homens T e esquecendo que a vida tem outras roupagens. Claro que o padrão heteronormativo reaparece. 

Vejo, sim, certa pressão dos autores de novela para tentar modificar um pouco esse cenário, mas uma coisa é o faz de conta. Novelinha é tudo mentirinha perto de um programa do Faustão, que acaba regredindo com todas as mínimas das mínimas conquistas. Por outro lado, ainda bem que temos o Jô que leva convidados e convidadas travestis e transexuais, assim como a Marília Gabriela, que trata dos casos com naturalidade como ela deve ser tratada.

O SBT, que já foi um grande colaborador, principalmente no quesito 'sou trans e artista', vem a cada dia regredindo muito. A humanidade está caindo bastante e o 'SBesTeiras' hoje em dia está com dificuldade até mesmo de se representar. A Christina Rocha em nome da audiência pisoteia em cima da integridade das mulheres Ts para tentar se manter no local que está, usa o típico discurso homofóbico e também transfóbico "Eu até tenho amigos gays.", que coloca na mesma caixinha Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais. 

Sobre o ignorante jornalista Marcelo Rezende, para mim, esse é o mais é boçal de todos os boçais. Sem conteúdo, é incapaz de estudar a pauta ou o que ocorre de verdade, ficando sempre do lado do estado. Quem são os criminosos de verdade? Os que vão contra o estado ou os que manipulam a maquina financeira do Estado em favor próprio? Todos os "criminosos" que temos hoje nas penitenciarias foram construídos ao longo dos anos pela nossa sociedade, e em momento algum tiveram uma outra oportunidade de vida por falta do amparo do Estado. 

Desde que me reconheço como uma pessoa que luta contra a alienação midiática, eu não assisto mais a televisão, estamos falando isso de 10 anos atrás até os dias atuais e me sinto muito feliz nesta posição. Em minha opinião, o papel da Globo é de servir os Estados Unidos e o seu capitalismo selvagem, que te convence a comprar o que você não quer, para exibir para alguém que você não gosta, uma pessoa que você não é. 

Só existe uma forma de combater o preconceito, não se deixando usar por essas mídias que se promovem através da construção de uma falsa realidade ou humilhando uma parcela da sociedade que também paga imposto, também se mantem em dia com os seus deveres não tendo assegurado nenhum direito" 


Kimberly Luciana Dias
"Se um dia tudo ficar politicamente correto, pode ficar muito chato"

"Não tenho o direito de julgar e condenar as mulheres travestis e transexuais que se propõem a irem a programas de televisão. Em minha opinião, elas estão lá representando elas mesmas, individualmente e não por um coletivo. O mais coerente seria que elas procurassem se politizar pelos direitos e deveres da nossa causa antes de irem a esses programas, independentes sendo de nível A e D, pois assim elas cometeriam menos gafes e sofreriam menos críticas. 

Muitas tem necessidade de mostrar o trabalho artístico e estão em busca de visibilidades, mas são poucos os espaços abertos para o nosso segmento - e não é todo o dia que a Rede Globo abre as suas portas de maneira digna. O que nos sobra são esses programas sensacionalistas, em que os heterossexuais também são humilhados. O lado positivo é que estamos presentes e mostramos para o Brasil que existimos.

Sobre os profissionais e apresentadores, penso que eles devem ser capacitados para falar e mencionar sobre o nome social e a identidade de gênero das mulheres Ts. Eles sempre nos referem 'o' travesti, 'o' transexual, mas o correto seria 'a' travesti'... E moderar as piadas ou frases transfóbicas, pois cabe eles sentirem na pele a realidade nua e crua de cada uma de nós. Sobre as novelas, não gosto de ver personagens travestis ou transexuais sendo interpretadas por atores homens. Se fossem feitos por atrizes TTs ou mulheres cis estarei mais bem representada". 

A televisão não vai mudar de uma hora para outra. Ainda estamos plantando uma sementinha e pouco a pouco as conquistas e respeito vem surgindo. Se um dia ficar politicamente correto pode também tornar tudo muito chato. Só vou me sentir 100% representada por uma travesti na mídia no dia dia que as mesmas tiverem o mesmo privilégio dos demais, sendo uma apresentadora, diretora, dramaturga, jornalista e tantas outras profissões que ainda não temos o direito de exercer no meio televisivo". 


Aleika Barros
"Se existem abordagem sensacionalistas é porque existem algumas trans dispostas a aparecer a qualquer custo"

A questão é de extrema importância para todas as transexuais e travestis brasileiras, pois quando recebemos uma proposta para gravar um programa de tevê, infelizmente somos obrigadas a analisar muito bem se a proposta é realmente válida. Vivemos e fazemos parte de uma população que até hoje é extremamente vulnerabilizada e estigmatizada, e existem certas abordagens fúteis que não contribuem em nada e que não somam para a nossa vida e muito menos para o coletivo. 

Em minha opinião, as reportagens sensacionalistas e desrespeitosas existem exatamente porque existem trans que estão dispostas a aparecer a qualquer custo e que nem se dão ao trabalho de refletir como tal exposição vai ser repercutida. Digo isso porque, se por um lado reclamamos das abordagens utilizadas nessas abordagens, por outro temos que avaliar que sempre tem algumas loucas dispostas a tudo para aparecerem, se tornarem mais 'famosas', não importando a maneira que seja. 

Me sinto profundamente envergonhada cada vez que entro no Youtube e vejo alguns vídeos de matérias feitas com trans brasileiras, em que a maioria dos comentários ridicularizam a nossa classe, baseando-se nos deslizes e nos micos cometidos durante algumas dessas abordagens. Mas se realmente lutamos por igualdade e respeito, também devemos nos preocupar em que situação vamos estar presentes nestes programas de tevê. 

Acho incrível a quantidade de profissionais - repórteres, âncoras, apresentadores, escritores... - que levam para a televisão cenas pura de transfobia, muitas vezes julgando todo o coletivo a partir de uma figura isolada. Com comentários ofensivos, relatos maldosos e cheios de preconceitos, eles esquecem que também temos uma família, que temos um lar e vida social. Esquecem que merecemos ser tratadas com mais respeito, pois nem todas compartilham da mesmas atidudes. 

Todas essas questões deveriam ser mais refletidas pelas pessoas em geral, com a finalidade de o erro ser corrigido e que no futuro não sejamos penalizadas por conta dessas abordagens da mídia e que refletem diretamente no comportamento da população e no respeito ao grupo. Já que vemos falar sobre travestis e transexuais, que tudo seja feito da melhor forma e de maneira mais justa, para que assim possamos minimizar as violências sofridas diariamente". 


Duda Barreto
"Um close sem consciência na tevê pode acabar em um xingamento ao dobrarmos a esquina"

"Fazer piada do diferente, do que não nos parece 'normal' sempre vai ser uma máxima na tv, mas quando essa "piada" é a nossa vida, tudo muda, deixa de ser humor. O que me pergunto é: Diretores, produtores, autores de tv, são pessoas inteligentes e com estudo, super bem informadas e bem relacionadas, tanto que ocupam seus cargos, sabem que debochar em rede nacional irá ferir, ofender, menospresar, irá incentivar o discurso de ódio contra esse grupo... Então, por qual motivo fazem e reproduzem o preconceito?

Será que sou sonhadora de mais em pensar na chance de abrir a mente das pessoas, de ajudar, de fazer o bem, de informar, de afagar o coração de quem está assistindo com mementos lindos, de incluir? Hoje, sinto vergonha ao ver as cenas e situações na tevê em que as próprias transexuais se rebaixam ao ponto de reforçar esse preconceito. Muitos programas preferem convidar essas pessoas sem conteúdo e que já sabem o que irão causar polêmicas e cenas engraçadas. 

Por outro lado, mesmo nesses casos, sei que quanto mais aparecermos na mídia, quanto mais o assunto for colocado em pauta, mais esclarecimentos serão feitos e será bom para a visibilidade transexual. Peço que tenhamos mais consciência política ao receber um convite, pois devemos ter a decência de pensar no coletivo e na nossa luta e não apenar em dar um close. Um close que acaba ao dobrar a esquina e ouvir um xingamento ou acabar morta por aqueles que antes riram da piada na tevê!".

Fernanda Vermant
"O que vemos é um espelho do que existe no cotidiano do brasileiro"

"A televisão brasileira é muito pobre, assim como o nível cultural e educativo do povo brasileiro. Nas novelas, eles mostram o que existe no dia a dia do brasileiro: traições e preconceito de todos os níveis. Mas, ao invés de mostrar o que já é visto fora da tela, poderiam usar o espaço de entretenimento para educar, ensinar o respeito, a diversidade... 

Não adianta fazer um programa de bom senso e respeito altas horas da noite, se no horário comercial ainda aborda o preconceito, traições e afins...Há maneiras bem engraçadas de entreter e educar, porém o que vemos é só o espaço do que realmente acontece e continuará acontecendo. Um espelho que talvez até ensine a refletir a mesma sociedade preconceituosa que já existe. 

CONFIRA ABAIXO ALGUNS VÍDEOS DE TRANS NA MÍDIA:










About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

May Scher disse...

Linda Kimberly sempre te achei uma pessoa do bem, e sempre concordo e me identifico com você !

Kelly Alves disse...

Todas as mídias são uma merdaaaaaa! Mas a pior e sensacionalista ainda é o SBT e a Band com aquele jornalista que mal sabe se portar como tal! Bem assisto, cada imbecilidade dessas tv's! É uma falta grande de respeito!

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