Pitacos

Crônica: A primeira e nada correta 'festa' de velório


Estava ansioso para ir ao meu primeiro velório. Não sabia exatamente o que era, não entendia o seu significado e sequer tinha noção do que se tratava. Talvez fosse uma grande festa, já que minha mãe mandou eu tomar banho, colocar uma roupa bonita e pentear os cabelos. Aos sete anos, nada parecia mais engraçado e empolgante que o velório de meu tio Gerson, um fazendeiro que vivia contando piadas para mim.

Faltei na escola, tomei banho, passei perfume e me preparei para encontrar a parentada toda, principalmente os meus primos. Mas, apesar de provavelmente ser uma festança divertida, o semblante da minha mãe revelava tristeza. "Coitada, ela não deve gostar muito dessas reuniões...", pensei.

No caminho, vejo de longe a família inteira: tias, tios, primos do primeiro ao nono grau, gente que eu nunca havia visto na vida... Alguns sorriam ao nos receber, outros estavam cabisbaixos e nos cumprimentavam com uma palavra esquisita e alguns lembravam das piadas que o Tio Gerson contava. Fizeram até eu reproduzir uma anedota do "leiteiro tarado", que ele havia me ensinado. "Ou seja, velório é uma festa badalada, que provoca um misto de emoções".

Em uma das portas, tia Ursula apareceu cochilando, babando e, como sempre, roncando - motivo suficiente para eu cutucar a minha mãe, apontar e gargalhar. Um beliscão na orelha, uma nova expressão fechada e eu, de fato, passei a não entender mais nada. Afinal, minha mãe também sempre dá risada da tia Ursula, quando ela dorme, baba e ronca nas quermesses,  festas de São João, casamentos, batizados ou qualquer outro lugar que tenha uma cadeira com encosto.

"O corpo" do tio Gerson já estava pronto, avisaram, mas minha mãe disse que é para eu procurar a minha vó e ficar com ela, pois sou muito pequeno para vê-lo ainda. Achei engraçada a expressão "ver o corpo". "Será que ele havia feito alguma cirurgia plástica?" Avistei a minha vó servindo pão, mortadela e chá no corredor. Corri, apanhei um lanche, dei um beijo e, comendo, fui xeretar a sala para ver o tão falado "corpo do tio Gerson". Alguém achava mesmo que eu iria perder uma performance do meu tio?

Esperei minha mãe sair e entrei em meio a nova leva de pessoas. Lá, havia uma caixa de madeira ao centro, pessoas em volta, flores e algumas velas gigantes. Como não conseguia ver o que estava dentro da caixa, me aproximei comendo o lanche e derrubando farelos pelo chão. Caminhei a passos lentos do amontoado e, do meu campo de visão, todos pareciam rir ao extremo, de soluçar, de sair água dos olhos. O que será que meu tio deve estar fazendo para ser motivo de tanta graça? 

Foi quando consegui enxergar por uma fresta: Tio Gerson sério, com algodão no nariz, pálido  vestido com terno e gravata e coberto por um cobertor de flores amarelas. E a boca, então... Sem dentadura, murcha, chupada pra dentro, como uma careta. Para mim, uma cena absolutamente... Hilária!!! Não me contive e, assim como as outras pessoas, comecei a dar risada, mastigando o lanche e apontando para o tio Gerson, esperando ele a qualquer momento se levantar e fazer a performance com o seu tão comentado "corpo". Mas antes mesmo de ele abrir os olhos, senti minhas orelhas queimarem. 

Levei uma surra da minha mãe sem saber o motivo e saí chorando de lá. A partir desse dia, nunca mais vi tio Gerson e nunca mais quis ir a velório. Para mim, perdeu a graça.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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