Realidade

Em 'Somos todos Amarildo', Marcelo Freixo diz que 'desaparecidos na democracia superam os da ditadura'


A pergunta "Onde está o Amarildo?" virou um grito de justiça para os moradores da Rocinha e por todos aqueles que acreditam num país mais humano e livre. O desaparecimento do ajudante de pedreiro que foi visto pela última vez na noite do dia 14 de julho de 2013, ao ser levado por policiais à sede da UPP, mostrou - além da exclusão e da indiferença em que passam aqueles que estão em situação de vulnerabilidade social - que o número de desaparecidos em tempos de democracia é muito maior que os desaparecidos em tempos de ditadura - informou Marcelo Freixo, presidente da comissão de direitos humanos - ALERJ. A diferença é que a denúncia ocorreu em meio às manifestações históricas do país. 

Nesta segunda-feira [7] foi publicado o vídeo jornalístico com depoimentos de familiares e amigos de Amarildo, e a presença da atriz Fernanda Paes Leme e Érico Braz. Produzido pela Mídia Ninja, o vídeo mostra a comunidade da Rocinha e a o pequeno lar em que Amarildo vivia com a mulher e seis filhos. "Durante o percurso todo que a gente foi fazendo, a família mostrava os lugares onde eles passavam a semana, mas que hoje não podem mais ficar, porque estão sendo constantemente ameaçados pela polícia. As pessoas fazem chacota com a viúva, a família e ameaçam: 'Vocês querem mexer com isso mesmo?". 

Na última semana, o inquérito foi entregue ao Ministério Público e pede o indiciamento de dez policiais militares da UPP da Rocinha por tortura seguida de morte e ocultação de cadáver. 

O Tribunal de Justiça reconheceu a responsabilidade do Estado e estabeleceu que a família ganhará uma pensão de alimentos, no valor de um salário mínimo. "São seis filhos e uma esposa, que já viviam em forma precária e que agora ganham um salário mínimo para toda a família. Não é um salário mínimo para cada pessoa, é para toda a família. Esse valor é atribuído à condição social que aquela pessoa já vive, ao grau de instrução, ao vínculo empregatício... Como se tem um cálculo que aquela família é pobre, se estabelece que o valor moral daquele desaparecimento é de um salário mínimo, o que é uma decisão imoral", diz Freixo. 

Diante do caso, músicos, artistas plásticos, empresários, juristas e cariocas de diversas áreas se organizaram e organizaram eventos públicos para cobrar rapidez na solução do inquérito, para levantar fundos para ajudar o recomeço da família de Amarildo [que viu a situação piorar, após o desaparecimento] e para dar assistência a outras centenas de famílias que passam por situações semelhantes. Afinal, como informamos acima, há muitos outros casos de desaparecimentos no Brasil e que a mídia e as famílias brasileiras sequer ficam sabendo. 

Filho de Jair Bolsonaro...

No vídeo, também é possível saber que a obra "Por uma cultura de Paz", feita por Carlos Latuff, e que mostra um negro crucificado sendo baleado por um policial, esteve no gabinete do juíz João Batista Damasceno, mas teve que ser retirada devido a uma solicitação do deputado Flávio Bolsonaro à presidente do Tribunal de Justiça do Rio. A obra foi resgatada pelo desembargado Siro Darlan e está manida em "asilo artístico". 

Abaixo, assista ao vídeo e confira a programação beneficente:
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No dia 8 de outubro, às 20h, será organizado um Jantar Beneficente, localizado na casa da empresária Paula Lavigne, onde será realizado um graned leilão de objetos e obras de arte. Artistas como Ernesto Neto, Marcos Chaves, Guga Ferraz, além de Caetano Veloso e Marisa Monte, contribuiram com doações de obras e objetos - inclusive a charge Por uma Cultura de Paz [ao lado], bateria completa do baterista do Jota Quest e um trompete da Alcione. 

No dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, haverá no Circo Voador o evento "Somos Todos Amarildo", com show de Caetano Veloso e Marisa Monte. Toda a renda será revertida para o projeto com o IDDH. O show inédito, que terá os ingressos vendidos a partir do dia 8 de outubro [R$60] está sendo desenvolvido especialmente para essa ocasião por Caetano e Marisa. 

E, no dia 30 de novembro, às 17h, será promovido por Ernesto Neto, Marcio Botner e Marcus Wagner, um Alalaô na Praia do Arpoador. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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