Realidade

Após vídeo indiano, brasileiras debatem e ironizam se 'estupro é culpa da mulher'


Publicado na rede na última semana, o vídeo "It's your fault" [A culpa é sua] procura denunciar com muita irônia o argumento de que o estupro é nada mais que culpa da mulher, que veste roupa sexy [ou qualquer outra roupa], que sai de casa sozinha e em horários inapropriados. Com mais de dois milhões de visualização, o vídeo mostra as atrizes indianas Kalki Koechlin e Juhi Pande reproduzindo o discurso: "Pesquisas apontam que mulheres que usam saias são a principal causa de estupro. Sabe por quê? Porque homens têm olhos".

A ideia surgiu depois que a trupe de humoristas "All India Bakchod"  leu os "estúpidos e odiáveis comentários" que indianos fizeram após o bárbaro estupro coletivo que culminou na morte de uma estudante dentro de um ônibus em Nova Déli, em dezembro de 2012. Embora houvessem protestos na Índia, houve quem colocasse a culpa na própria vítima, incluindo o guri Asaram Bapu, que disse que a estudante, ao invés de resistir, deveria ter "rezado e pedido aos estupradores, chamando-os de 'Bhaya' [irmão], que a deixassem em paz". 

Em entrevista à agência EFE, o comediante Gursimran Khamba disse que não sabia como o público iria reagir com o vídeo e o medo era de que as pessoas não captassem a ironia e estivessem "trivializando" um tema sério. Já Koechlin disse que "o humor é uma maneira fantástica de enfrentar um tema tão sério".

No Brasil, o vídeo também chamou a atenção com a versão legendada, chegando a quase 200 mil visualizações. Por aqui, também existem questionamentos em torno das mulheres que são vítimas de algum tipo de violência - seja ela uma cantada, uma abordagem ou um estupro. Como se a culpa de uma agressão pudesse em algum momento ser da vítima e não do agressor e como se, em alguns casos, fosse normal o homem manifestar o seu desejo sexual pela mulher. 

Abaixo, o Nlucon trouxe alguns depoimentos de mulheres sobre essas questões. Assista o vídeo e leia:




- Os brasileiros também chegam a culpar mulheres por crimes de estupro? De qual maneira você sente esses julgamentos? 

Érica Freire, jornalista, 29 anos >>>
Acho que existe este tipo de pensamento quando ainda ouvimos dizer que a mulher precisa evitar determinados tipos de roupa. De certa forma, é uma maneira de propagar que a roupa pode influenciar em que algo de errado que aconteça com ela, como se a culpa de ser atacada fosse da mulher. O que é totalmente errado, claro.

Priscila Virginio, jornalista, 27 anos
O Brasil passa a falsa impressão de ser bem resolvido, talvez por ser um país tropical, pela fama do carnaval... Mas os julgamentos estão por toda a parte, existem fiscais de roupa, de postura, de escolhas na vida. Somos oprimidas pelo conteúdo vinculado na tv, pelos padrões de beleza... É muito difícil romper com tudo isso, reconhecer a opressão e o machismo. Está introjetado, sabe? Precisamos ser solidárias e unidas matar o nosso próprio machismo, mudar de postura.

<<< Fernanda Bugallo, 27, jornalista e atriz
Dificilmente uma mulher que usa saia curta não vai ser criticada pela sociedade. Digo sociedade interna - dentro da própria casa, com pais e irmãos - e sociedade externa, que pode compará-la inclusive a uma profissional do sexo. As mulheres são seres estigmatizados em decorrência da própria história do Brasil. No entanto, não podemos ficar reféns da "nossa história" e utilizarmos ela como desculpa para casos como esses. Desse jeito, nada muda.

Diná Mendes, 24 anos
Não só em casos de estupro, mas em todas as suas variantes ocorrem esses julgamentos. O serviço da policia deixa muito a desejar, pois não dão credibilidade para as mulheres quando elas vão denunciar. Certa vez, fui assaltada durante a noite e, ao conversar com os policiais, eles só deram uma olhada e nada fizeram. Só pediram para eu fazer um B.O. no dia seguinte.

Ana Paula Amaral, 23 anos, jornalista >>>
Somos um país extremamente machista, com uma cultura patriarcal, baseada fundamentalmente em modelos éticos ditados pela religião. Sendo assim,  a mulher é a responsável pelo pecado original e todos os pecados do mundo e jamais é vista como vítima dos casos de estupro, sempre como a provocadora. Eu fico bastante incomodada com esse tipo de julgamento e me deparo com ele todos os dias, mesmo no meu círculo de amigos, que têm pessoas com posições e visões muito parecidas com as minhas. Acho que é nosso dever quebrar esse paradigma, oferecer um outro discurso. Sempre quando posso, inicio a discussão.

- O que diz para quem afirma que a roupa, o comportamento e o horário que uma mulher sai de casa facilita o estupro?

<<< Priscila: Não somos animais rendidos por nossos instintos. Não importa como uma mulher se vista ou a que horas ela está na rua, muito menos os lugares por onde passa.  Nosso corpo é nosso e não pode ser encarado como um convite, caramba. Nada, absolutamente nada justifica um crime contra a dignidade humana.

Ana Paula:  Tenho um caso recente para citar. Estava com cinco amigos, conversando em um bar, todos da minha faixa etária, do meu círculo e surge um comentário desses, de que a culpa é da menina, "porque hoje essas menininhas de 15 anos estão loucas pra dar". Eu digo que quem pode responder pelo crime é quem tem que pensar nas consequências dos seus atos. O maior de idade - que supostamente já tem idade para tomar decisões baseadas no mínimo de bom senso - é que tem pensar que não pode, que é ilegal e imoral abusar de uma menina de 15 anos ou de qualquer mulher. Eu não tenho que mudar a minha roupa, você tem que mudar a sua mente.  Criem seus filhos para que eles não estuprem, não as suas filhas para que tenham medo do estupro. 

Diná>>>: Nenhuma dessas atitudes, horários, roupas é desculpa para um estupro. Isso é um crime pior que qualquer outro contra uma mulher. Temos o direito de nos vestir e andar pela rua a qualquer hora sem ter uma placa escrito 'puta e vem me comer', a culpa é de alguns homens, que não podem ver nenhuma pele a mais aparecendo, são uns animais totalmente irracionais.

Fernanda: Olha, sinceramente, eu não sei se a pessoa que diz isso está certa ou errada. Acho que o grande problema que falta para o brasileiro é a educação. Educação de base. Se não formarmos bons cidadãos, nunca mudaremos o que está acontecendo hoje. Na verdade, vivemos em uma sociedade machista e incomodamos porque estamos sendo notadas. A mulher no decorrer dos séculos tem incomodado muita gente e o próprio sistema.

Marília Belucchi, 19 anos, estudante: "Tento fazer com que o indivíduo enxergue por meio de fatos e pesquisas que o horário, comportamento e roupas não são fatores relevantes. Que estupradores enxergam além das roupas curtas, já que têm uma visão distorcida e psicótica em relação a figura da mulher e os seus valores".

Érica: Na realidade eu nem saberia o que dizer para quem pensa dessa forma, porque é uma maneira tão retrógrada de se pensar que a gente tem dúvidas sobre como vai elucidar pessoas com esse tipo de opinião.  Afirmar que a mulher é culpada por aquilo que veste ou pelo horário que sai à noite é ir contra o senso de liberdade e respeito. Cada um deve se vestir da maneira que lhe convém e se alguém se sente incomodado, então o erro está em quem está incomodando e não o contrário. Tantos anos de luta para a emancipação da mulher pra que, pra nada? Isso tem que mudar.

- Apesar de sermos contra o discurso machista, você sente medo de sair sozinha a noite, de saia curta? Já sentiu acuada por elogios e uma quase violência? 


Priscila: Já senti medo, já me peguei na auto censura. Devo ou não sair com essa roupa? Estou me sentindo linda, adoro essa saia, mas será que é perigoso sair assim? O que irão pensar de mim? Todos os discursos que a gente escuta desde criança vem a mente nessa hora. Odeio cantada, acho um desrespeito, fico apavorada. Poxa, você saindo de casa para trabalhar ou estudar atormentada com tantas notícias de violência contra a mulher e se depara com um estranho falando sobre o seu corpo...  Eu nunca encaro uma cantada na rua como elogio. Sinto-me acuada, ameaçada. Procuro andar mais rápido, sair do ambiente.

Fernanda: Não fui acostumada a usar saia ou vestido desde pequena. Acredito que por essa questão machista que está impregnada na sociedade. Hoje em dia tenho a opção de usar, mas é algo que, dependendo do local ou horário, não me sinto confortável. Nunca me senti acuada por nenhum "elogio" e graças a Deus isso nunca me aconteceu.  Não tenho medo de sair sozinha a noite. Caso fizesse isso, estaria sendo conivente com tudo que está acontecendo. Não me resumo à regras pré-estabelecidas. Normalmente, faço as minhas.

Diná: Sinto medo sim de sair sozinha a noite, de roupa curta principalmente. Não me sinto uma modelo de beleza que os homens procuram, mas como só pelo fato de eu ser mulher, já posso ser vitima. Já me sinto acuada sim, as vezes só pelo fato de eu estar voltando pra casa depois das 10 noite, sempre que passa algum carro mais devagar, ou assobia, eu morro de medo.

Ericka: Olha, não tenho medo de sair à noite, de saia curta ou vestido. O motivo do medo não é exatamente esse. Mas tem vezes que a gente acaba ficando com medo quando se está na rua sozinha e em um lugar que não conhecemos muito bem, e isso ocorre devido à violência de uma maneira em geral. Aliás, acredito que isso deixa com receio a maioria das pessoas.  E sim, já me senti acuada. Por duas vezes levei um tapa na bunda, assim, do nada. Estava passando na rua e o cara simplesmente me deu um tapa na bunda. Me senti péssima, foi horrível. E outra vez a mesma coisa, estava em um estádio acompanhado de uns amigos e um cara sentou a mão em mim. Enfim, acho que toda mulher já passou por situações parecidas, de invasão ou de violência. Seja verbal ou física. As duas machucam muito.

Ana Paula: Tenho medo, todos os dias. Me sinto acuada e incomodada todos os dias. Acho que nenhuma mulher sai na rua sem se sentir humilhada ou subjugada de alguma forma por um homem. Os gracejos e o assédio são constantes e incomodam, não é legal de jeito nenhum. Só que jamais deixei de usar uma roupa que queria por medo de ser estuprada. Isso já ultrapassa os meus limites. Eu não vou me impor nenhum tipo de regra que restrinja a minha liberdade para que um homem não me estupre. Eu quero que eles aprendam que não podem estuprar, que nós somos seres humanos e não pedaços de carne.

Marília: Não, não tenho medo de sair com roupas curtas em qualquer ocasião ou hora. Apesar de toda essa violência de atualmente, acho que as mulheres devem se vestir como querem se vestir. É um direito nosso e que devemos usufruir. Se render ao preconceito é compactuar com essas ideias erradas.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Anônimo disse...

Eh soh começar que tdas quer, pq faz parte da cultura do homem e da mulher dar, queiram ou nao

Veronica Schinder disse...

Sou mulher e acho que a mulher tem que se dar o respeito para ser respeitada. O dscurso é muito bonto, mas a realidade está ai e nao da para fingir que nada acontece. Nao vou culpar a mulher mas se ela quer arriscar tem que saber o perigo que corre e se responsabiisar por ele Desculpeme sou sincera,

Anônimo disse...

Veronica, acho que você, pra começo de conversa, deveria aprender a escrever corretamente - desculpe, sou sincera -, mas importante mesmo é você entender que o seu discurso é que é bonito, mas pouco relevante. "se dar o respeito" é algo determinado por padrões muito divergentes, sejam eles padrões que o indivíduo segue porque um pequeno círculo social acha que ele deva, seja porque a sociedade determina um padrão. Ou seja, você, se não anda de burca, poderia ser violentada e estuprada em praça pública por quantos homens quisessem fazê-lo porque "não se dá o respeito" de acordo com diversas pessoas e culturas que estão por aí. Certamente você não vai concordar com essas pessoas que acharão que você é que não se faz ser respeitada. Ora, o que é se fazer respeitar então? Homem nenhum precisa, na nossa sociedade, primeiro provar a outro sujeito que é um homem de respeito para não ser estuprado. Então achar que você vai enxergar num estuprador - que vai enxergar em qualquer roupa que você esteja usando - um ser capaz de raciocinar a respeito da sua decência ou indecência e cujo julgamento deva de fato ser levado em consideração, é no mínimo, pura ignorância e falta de reflexão sobre o assunto. É obvio que se o sujeito quiser estuprar uma mulher, as roupas que elas estão usando não fazem a mínima diferença. Culpar a vítima é coisa de quem realmente vive ainda nas cavernas e que acha que a mera existência já é motivo para ser vitimada. Coisa de quem está acostumado, como já dizia acima a Ana Paula, a um pensamento religioso restritivo e a essa ideia de que seremos sempre as culpadas porque, bem, somos mulheres e isso basta.

Anônimo disse...

QUEM ACHA Q A CULPA É DA MULHER POR A ROUPA Q ELA VESTE, O HORARIO Q ELA SAI CHEGA SER UM INCENTIVO A ESSE TIPO DE CRIME MUITO COMPLICADO...

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