Entrevista

Após lei 'antipropaganda gay', russo revela como está a vida de LGBTs no país

Art tem 26 anos, mora com o namorado e diz que relacionamentos gays são invisíveis

Por Melissa de Miranda, Iris de Miranda e Neto Lucon

A sexualidade e a situação de gays na Rússia nunca esteve tão presente nos noticiários mundiais - e inclusive no Brasil - como nos últimos meses, desde que o presidente russo Vladimir Putin sancionou em junho a lei que proíbe qualquer divulgação de "propaganda gay" para não "influenciar" crianças. Na prática, a lei proíbe com altas multas qualquer menção ao direito civil LGBT, incluindo manifestações de carinho e as paradas de orgulho à diversidade.

Juntamente com o retrocesso nos direitos civis da população LGBT, uma série de atentados homo-trans-fóbicos foram impulsionados ao grupo. Em alguns deles, neonazistas publicaram vídeos em que atraem gays por meio de redes sociais e depois os coagem e os obrigam a fazer declarações humilhantes, beber urina e a manipular pênis artificiais. Há, inclusive, casos de homicídio.

Artistas como a cantora Cher e o ator Wentworth Miller, da série Prison Break, rejeitaram convites para ir ao país. Uma drag queen de Berlim chegou a costurar a boca em protesto. E, após uma rejeição de muitos turistas, a própria embaixada russa tentou minimizar a lei e dizer por meio de um comunicado que é contra qualquer manifestação de homofobia ou de discriminação. Mas o fato é que a Rússia e Putin já estão marcados com a imagem do preconceito. 

Em entrevista exclusiva, o  NLucon  [em parceria com Melissa de Miranda e Iris de Miranda, que fizeram a ponte, contribuíram com reflexões e traduziram as perguntas e respostas em alemão] conversa com o corajoso russo  Art Vakh , de 26 anos. Abaixo, ele revela como está a situação dos LGBTs após a polêmica lei no país, como observa as manifestações no Brasil e se é possível ter esperanças. Leia: 

- Atualmente, o mundo fala sobre a homofobia na Rússia. Isso é algo que ocorreu depois da lei que proíbe “propagandas de relações não-tradicionais” ou há tempos o preconceito contra o grupo LGBT vem se estendendo no país? 

Eu penso que esta lei iniciou uma discussão sobre os direitos LGBT no nosso país e possivelmente é a primeira vez que isso ocorre de forma séria. Claro que não justifica a lei, mas pelo menos serviu pra alguma coisa. Sociedades tão fechadas como a russa raramente falam sobre esse assunto, “se você se interessa pelo tema é porque também participa do grupo em questão”. É perigoso sair do armário? Sim, com certeza. Não apenas levando em conta suas  chances de ter uma carreira profissional ou permanecer no seu grupo de amigos, mas também por haver um risco real à sua integridade física.

- Chegou a presenciar algum caso homofóbico? Como está sendo a rotina de um cidadão russo e gay? Há uma sensação de temor ao sair na rua ou não é pra tanto? 

Depende o que você entende por homofobia. Tratando-se de violência física, só testemunhei pela televisão ou inúmeros relatos de amigos e conhecidos. Mas as pessoas também podem se expressar de outras formas, igualmente homofóbicas e muito agressivas, que te fazem sofrer emocionalmente, que machucam a alma. Isso acontece principalmente quando gays/lésbicas assumem uma postura mais aberta publicamente, mas pra falar a verdade também é o caso na Europa e outros países do ocidente. Por exemplo, eu moro com meu namorado: algumas pessoas desconfiam que não somos “irmãos” e até que somos gays, mas eu não tenho medo delas. As pessoas normalmente criticam esse tipo de relacionamento, mas se permanecer entre quatro paredes, ninguém faz nada.

- Como se dão as reuniões, encontros do público gay? Existe alguma balada, bar ou ponto de encontros?

Ah, nas cidades grandes tem diversos estabelecimentos direcionados para o público gay, como bares, saunas, baladas (com ou sem dark room), etc. Quanto menor a cidade, mais difícil fica de achar algo assim. Por isso, a maioria dos gays e lésbicas daqui se mudam para cidades grandes, como Moscou ou São Petersburgo. Você pode perceber isso quando usa apps destinados para comunidade LGBT (como, por exemplo, o Grindr): quanto mais distante de cidades grandes, menos gays você vai encontrar. Eu acho que aqui vale aquele ditado: “em meio a muitas pessoas é possível permanecer invisível”.

- Se algum estabelecimento comercial desconfiar que você é gay, você pode ser discriminado? 

Após a queda da União Soviética, pode-se observar grandes avanços por aqui. O mundo dos negócios está bem mais focado nos clientes agora e tenta moderar o que é dito para não afetar o próprio lucro. Eu acho que quando há discriminação é algo que ocorre mais discretamente.
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Manifestação em prol aos direitos LGBT na Rússia
As imagens que chocaram o mundo

- Você namora... Um namoro na Rússia é somente entre quatro paredes? O que poderia falar sobre a própria relação ou os relacionamentos de amigos gays? Um selinho na rua é algo impensado? 

É engraçado falar de relacionamentos amorosos. Eu ainda não tinha pensado a respeito e acho esta pergunta ótima. Eu acho que no dia-a-dia o afeto entre casais gays ocorre sempre de forma secreta e quando é testemunhado por alguém frequentemente leva à brutalidade contra eles. Claro que nós podemos nos beijar na rua, não há nenhuma lei que proíba isso. Mas isso é tipo um “beijo-atentado” [ele fez um trocadilho usando as palavras "Beijar" e "Amok". Em alemão, inglês e russo, existe a palavra "amok" para descrever os atos de pessoas que surtam e saem atirando em público e depois se matam, por exemplo]. Eu me lembro de eu e meu namorado termos nos beijado em público algumas vezes, mas estávamos um pouco bêbados. O que acho interessante é que a maioria dos gays e lésbicas tem dois círculos de amigos: um hétero e um gay. Os dois círculos quase nunca se encontram.

- Como os gays fazem para se informar, sendo que a mídia passa por um processo de censura? 

Na Rússia existem poucas fontes boas de informação, mas você consegue se informar relativamente bem sobre qualquer tema se realmente quiser. Dependendo do seu interesse você pode encontrar sites bons na internet. Tratando-se de política de um modo geral também existem canais de tv, rádio e jornais que são ligados ao governo, mas são meios de comunicação mais “marginalizados”.

- O que tem de mentira e verdade das notícias que saíram na mídia e que você acompanhou por aí?? 

Hm, esta é uma pergunta difícil. Ok, nos canais da mídia relacionados ao Estado existe uma certa tendência nas notícias: o presidente Putin é bom, o ocidente está decaindo, a igreja tem algo pra criticar, todas as leis são ótimas e claro que ninguém fala de corrupção, deveres, etc. Eu não aguento mais ver e ouvir esse tipo de coisa.

- A embaixada brasileira declarou que, apesar de a lei proíbir “propaganda de relações sexuais não-tradicionais”, é proibida a discriminação de qualquer gênero na Rússia a nível constitucional. E que eles não apoiam os atos radicais contra a pedofilia de grupos violentos. O que tem a dizer sobre esse discurso? Na Rússia, a homossexualidade é confundida com pedofilia? 

Eu acho difícil comentar sobre essa lei. Eu não a considero realmente uma lei, porque ela não regula nada. O texto fala de propaganda, homossexualidade e pedofilia. Ninguém sabe como seguir de fato esta lei. Não há uma definição de “propaganda”, ninguém sabe por que homossexualidade e pedofilia foram colocadas na mesma categoria. Pedofilia é crime, homossexualidade não. Durante a aprovação dessa lei o governo tentou encobrir muitas decisões e projetos de lei. No fim, a nova lei mistura tudo de forma confusa e ninguém sabe do que se trata.
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Gays chegaram a ser presos após manifestação contra a homofobia
Manifestações contra a homofobia na Rússia

- O discurso de que a “propaganda gay” influencia crianças é preconceituosa de qual maneira? 

Eu acho que “propagandas” prejudiciais são aquelas que sujeitam crianças a contatos sexuais, independente de este contato ser hétero ou homossexual. Mas acho, sim, que nós temos que educar crianças sobre amor e sexo e dizer que isso não é possível somente entre homens e mulheres, mas também entre pessoas do mesmo sexo. Se não fizermos isso, estaremos sujeitando crianças a exclusão e a se sentirem estranhas e doentias caso entrem em contato com a própria homossexualidade um dia. Isso pode leva-las a cometer suicídio na adolescência. É por isso que acho esta lei não só discriminatória como também perigosa para nossos jovens.

- O que as pessoas falam sobre os crimes contra homossexuais? 

Depende do nível de educação dessas pessoas. Pessoas ignorantes talvez sejam a favor, mas geralmente ninguém aceita violência, independente de quem é a vítima. 

- O que os seus familiares pensam sobre a questão? Você é assumidamente gay? Como foi o processo? Recebe alguma crítica atual? 

Apenas alguns poucos amigos sabem que eu gosto de homem. Esses amigos me aceitam, mas nós raramente falamos a respeito. Eu ainda não saí do armário pra todo mundo e não pretendo fazê-lo num futuro próximo.

- Assumir-se gay atualmente é algo impensado? É verdade que mais de 80% da população é a favor da lei contra “propaganda gay”? 

Dados sociológicos são sempre questionáveis e controversos. O número de pessoas que se declararam a favor da lei está relacionado à forma como a pesquisa foi feita. Eu teria que ler a pergunta feita para comentar a respeito.

- Como vocês observam manifestações como a drag que costurou a boca e o beijaço que fizemos no Brasil?

Eu sou muito grato pelo apoio! Na minha opinião é muito importante que as pessoas de todo o mundo não permaneçam indiferentes aos problemas dos outros. Essa ajuda é muito útil, como eu disse, pois nosso governo leva a sério a forma como é visto pelo mundo.

- Existe esperança para os gays da Rússia? 

Não existe outra alternativa para a Rússia: o governo e suas políticas devem se voltar cada vez mais para as pessoas. Após a queda da União Soviética surgiram gerações que seguem valores humanistas. Esperamos poder construir um futuro próximo com base neles.

- Qual é a mensagem que você deixaria para o Brasil e para o mundo?

Obrigado por mostrar interesse pelos nossos problemas e obrigada pelo apoio, nós realmente conseguimos senti-lo aqui.
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Beijaço em frente ao Consulado da Rússia [foto: Emílio Faustino, blog do Pomba]
Travesti brasileira, Kimberly Dias 'costura' a boca contra a homo-transfobia na Rússia
Beijaço no Brasil contra a homofobia na Rússia [Foto: Ben Tavener]

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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