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Fiscais do ENEM 2013 cometem erros e acertos ao receberem alunos trans


Apesar de o ENEM 2013 abordar os avanços dos direitos LGBTs na prova de sábado, 26, vários estudantes transgêneros afirmaram terem sofrido constrangimento ao apresentarem os documentos para fazer a prova. Em post na comunidade Homens Transexuais, no Facebook, um estudante alegou que foi impedido de entrar na sala porque seus documentos não condizem com a figura real, sendo acusado de falsidade ideológica. Outros garantiram terem a identidade de gênero respeitada e que não houve qualquer mal-estar. 

Nos comentários, Ana Luiza Cunha revelou que foi barrada e que, antes de conseguir fazer a prova, foi encaminhada para conversar com a coordenadora. “Tomaram todos os meus materiais e me mandaram para uma sala! Falando com a coordenadora, tive que explicar toda a minha situação e dizer que eu sou transexual. A mulher ficou questionando por que eu não tinha mudado os documentos. Como vou mudar se só tenho 17 anos? O governo não permite! Todo mundo da minha sala ficou me olhando”, desabafou. Em conversa com o NLucon, ela disse que só conseguiu fazer a prova porque chegou bem cedo. 

O estudante Hugo Silva afirmou ter perdido meia hora da prova porque a mulher frisou que não tinha plena certeza de que era ele mesmo no RG. “Foi muito constrangedor porque ela chamou mais três pessoas para poder entender tudo o que eu tinha explicado para ela. Até que uma quarta pessoa chegou e disse que estava tudo certo com o meu documento e que podiam me deixar fazer a prova. Foi mega chato ver a sala toda me olhando”, lamentou. O jovem João Pedro Rodes e Beatriz Marques Trindade também disseram que esperaram meia hora até a fiscal liberar a entrada.

Heitor Marconato, de 28 anosrelatou que houve demora para conferir os seus dados, mas que não foi necessário explicar nada para entrar na sala. “A mulher olhava para mim inúmeras vezes, mas não expliquei nada, ela não falou nada, deixou passar. Para prestar UNICAMP, preenchi um quesito de tratamento diferenciado aos deficientes físicos, já que não havia uma terceira opção de gênero na ficha de inscrição ou algo que acolhesse a transitoriedade de socialização, documentos. Ligaram perguntando qual seria a minha necessidade e expliquei as demandas [...] Foram muito atenciosos. No caso do ENEM, ainda dá tempo de fazer a prova na data alternativa para corrigir eventuais erros no processo. Vale insistir, sugerir e também jogar o tema ao debate”.

Em conversa com o NLucon, Heitor disse que a prova estava dentro daquilo que ele esperava do ENEM. "Existiu muita interpretação, com enunciados longos, mas associo a dificuldade ao cansaço, mesmo. São 90 questões". 

Conversa na comunidade Homens Transexuais

Steffan Carvalho declarou que não teve problemas para fazer a prova. “Fiz com meu RG original, não tenho medo do meu nome, não tenho medo de que sou um homem trans. Fui parar no meio dos adventistas e conheci uma menina, que me entendeu super bem”. E Isabelle Abrego, 19, conversou com o NLucon e disse que foi muito bem tratada pelas fiscais. "Quando parecia que ia ter problema, foi porque apresentei a reservista. A mulher disse que era válido e tudo foi tranquilo. O tempo todo me trataram pelo gênero feminino e não fizeram cara feia ao verem os documentos. População civilizada, pelo menos na sala em que prestei". 

Com acertos e erros, percebe-se a necessidade de melhor preparo de alguns fiscais e aplicadores das provas para as reivindicações e tratamento trans. Sobretudo, a urgência da aprovação do projeto de lei de identidade de gênero João Nery, em homenagem ao psicólogo e escritor brasileiro, e que visa dar o direito ao reconhecimento da identidade de gênero em todos os tratamentos e documentações. 

Nela, toda pessoa deverá ser tratada de acordo com a sua identidade de gênero e ser identificada dessa maneira nos instrumentos que creditem sua identidade pessoal a respeito dos pronomes, da imagem, do sexo com que é registrada neles. Certamente evitará possíveis danos e tratamentos equivocados. Para os que conseguiram fazer a prova, boa sorte neste domino, 27!

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

K.I.M.B.E.R.L.Y disse...

Eu mesma estava pensando em fazer essa prova do mais fiquei na duvida referente se o nome social seria respeitado!

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