Pop & Art

Na praça, cartunista Laerte lança livro 'Lola, a andorinha' para crianças e é tietada por famílias


Com vestido, unhas e óculos vermelhos, a cartunista Laerte Coutinho, 62, está sentada ao centro da Praça Benedito Calixto, Pinheiros, em São Paulo. Esconde-se do sol com chapéu de palha e é abordada por uma família – pai, mãe e uma garotinha, que olha com admiração para a autora, seus acessórios e o livro que carrega em mãos. “Lola, a andorinha” [R$40,50, Cachalote], obra de uma esvoaçante, curiosa e simpática ave que percorre ambientes inimagináveis e aventuras simples e ao mesmo tempo fascinantes. 

A dedicatória conta com o nome do fã em letra de forma, um desenho de Lola, feito com uma caneta preta, e do movimento de seu voo, com uma azul, além do tradicional autógrafo. Laerte entrega o livro, agradece a presença e é convidada para uma foto em família. A mãe clica, enquanto o marido e a filha posam abraçados e sorridentes à cartunista. Para os conservadores, a cena poderia ser mera exceção, mas garanto: além de ser ícone da transgressão, a cartunista contempla graciosamente o universo infantil.


“Longe de mim qualquer intenção didática, mas gosto da ideia de que exista uma leitura gostosa e simples para o público infantil. Histórias leves e instigantes, que estão dentro da minha proposta de trabalho, com o meu jeito de construir e com a preocupação técnica de um texto fácil e com referências que não são especificamente adultas. Não é para fazer disso uma égua de batalha”, declara a artista com exclusividade ao NLucon.

Engana-se, todavia, quem pensa que a “leveza” de Lola promove o entretenimento bobinho – que outrora estampou a literatura para crianças. A personagem é visivelmente provocativa e reflexiva. Um espelho da infância da artista, que lia cartazes de bonde a gibis e livros. Logo na primeira tirinha, Lola conversa com um morcego, experimenta inseto, pousa de ponta cabeça e volta para o seu habitat natural: no fundo do mar! Em outra, rejeita bandeiras do país, da cidade, do time e sobe outra personalizada. “Não tenho time, esta é a bandeira de Lola”, diz, fazendo todos os outros animais subirem a sua própria bandeira. 


Para Laerte, que desenha a andorinha na Folhinha desde 2010 [o livro é uma coletânea das melhores histórias], a amostras de livros infantis estão viciadas, apesar de existir mais crianças leitoras na era da tecnologia. “A gente sempre vê pais comprando e falando ‘Olha aqui, que bonito’. Eu espero que as crianças curtam, mas ainda não tenho um feedback. Não sei o que as crianças andam lendo, mas acredito que estejam se alfabetizando mais cedo, pelo menos aquelas que têm acesso ao computador. Acho a internet sensacional, mas a reação é inesperada, imprevisível. Estamos em pleno lançamento de Lola e não há filas aqui”.

Há, contudo, fãs fieis e presenciais! 


ANDORINHA INSPIRADA EM CACHORRINHA

Uma senhora de óculos aborda Laerte. Sorridente, pede para que ela tire uma foto ao lado da filha e, entre dúzias de cliques, insiste para que “o rosto de ambos deem uma ligeira caída” para que a imagem fique perfeita. Laerte acha graça e, com olhos doces, segue as orientações da “fotógrafa”, que voltou minutos depois com dois livros em mãos para o autógrafo. 

Em dado momento, a cartunista observa um cachorrinho lhasa apso esbaforido e corre para improvisar uma vasilha e servir água de sua garrafinha pet para o animal. Alivio para o cachorro, motivo de graça para quem observava a fofa cena na praça.

Lola, curiosamente, é inspirada em uma cadelinha com pintas, Pimpa, feita pelo cartunista italiano Altan [foto ao lado]. “Gosto do jeito que ele faz os diálogos, leva a história, propõe a conversa do bicho com humanos ou com outros bichos... As frases são legais, simples, diretas, tem humor. Esse é o astral que eu queria”, declara Laerte, que admite que a criação também se deu depois da diminuição do espaço do jornal. “Decidi fazer pintinhos, que são umas bolinhas amarelinhas, mas para não usá-los, já que os criava em outro contexto, resolvi criar o passarinho, que é uma forma gráfica muito simples e adequada para a história”.

O encontro da personagem com Pimpa ocorre na obra e ambas discutem quem entrou na história de quem. Após a briguinha, elas resolvem brincar e Laerte esboça sobre a inspiração e divulga o site italiano. Quem tiver curiosidade, pode clicar e conferir clicando aqui

DOMINGOS E TRANS

- O que você estaria fazendo se não estivesse nesta praça hoje?

Para mim, domingos e segundas são equivalentes. Não gosto da ideia de feriados. Se não estivesse aqui, estaria trabalhando, aliás, é o que vou fazer quando voltar para casa. Mas não quer dizer que eu trabalho o tempo inteiro, sabe? Eu distribuo. Não tenho um emprego com a rigidez de performance e posso distribuir de uma maneira que eu considere boa. O resultado é que a pessoa não se autoriza a ter folga, nunca [risos]. 

- Gosta de praças? Costuma a ir?

Gosto, com certeza. Infelizmente minha casa não fica perto de nenhuma praça, mas gosto deste ambiente aqui. É muito bom, tranquilo, inspirador. 


- Apesar de estarmos no lançamento de um livro infantil, sente que o público LGBT e principalmente o trans aumentou nos últimos anos?

Trans exatamente... Espero que sim! Tenho recebido bastante resposta do público LGBT e eu gosto muito. Era o que eu queria mesmo, era essa a minha intenção.

Laerte volta a autografar e a conversar com os presentes, quando um senhor transeunte pergunta para quem está na pequena fila: “Quem é? É escritora?”. Uma moça resposte, “Sim, é Laerte”. O senhor faz cara de apaixonado, tropeça, se equilibra, não cai e diz: “Laércia?”, sorri, “Que linda...”.

De fato, que linda a sutil quebra de barreiras por meio do bater das asas da arte. Que lindos os naturais abraços, sorrisos e gestos de admiração que visualizei. Que linda a liberdade promovida por Laerte, por meio de suas roupas, de sua identidade, de seu trabalho, de seu público [também formado por crianças] e, claro, de Lola, a andorinha. 

Voa, mas antes me dá um selinho?

O famoso selinho de Laerte

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.