Trans em Debate

No Dia das Crianças, travestis e transexuais revelam experiências da infância


Apesar de os anos terem passado e de já não dar mais para comemorar a data com presentes e brinquedos, o Dia das Crianças - comemorado neste sábado, 12 -  inevitavelmente provoca uma auto-reflexões nos adultos e traz à memória tudo aquilo que vivemos quando garotinh@s, que ficou guardado na caixa de boas recordações [e das más também] e o que vai permanecer em nossos espíritos.

No universo trans, a infância tem o prazer e a mágica de driblar as diversidades por meio da imaginação aguçada, das crenças do impossível e da criatividade. É possível ser Sereia, princesa e até a cantora Sandy e a vilã Paola Bracho [confira nos depoimentos abaixo]. Por outro lado, as amarras do preconceito tendem a ser mais estreitas, devido ao padrão sexista e heteronormativo imposto: "Meninos brincam de bola e veste azul" e "meninas..." vocês já sabem. 

Neste Trans em Debate especial - e com direito à participação especial da querida Alessandra Oliveira, que nos acompanhou em tantos outros debates - as meninas revelam detalhes da infância, as maiores recordações e até abrem o baú de fotos antigas. Confira:

Kimberly Luciana Dias
"Adorava imitar para o meu pai as bailarinas do Fantástico"
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"Aproveitei a minha infância da melhor maneira que pude. Sou do interior de São Paulo e, como a maioria das histórias de trans, brinquei de boneca e sempre rejeitei os brinquedos de menino - tanto que quase todos continuam intactos na casa dos meus pais. Um fato importante é que, na época do meu nascimento, não se tinha tanto acesso ao ultra-som e a gravidez da minha mãe foi voltada para uma menina, com enxoval rosa. Quando nasci, não teve outra alternativa se não usá-las, aliás, fui batizada com nome feminino - tenho certidão de batismo para comprovar isso.

Como não ganhava bonecas de presente, pegava aquelas que eram jogadas no lixo, sem braço ou alguma parte do corpo. E era com elas que me entregava nas melhores brincadeiras. Adorava a época de milho, porque a diversidade das bonecas de milho era grande e elas se tornavam tudo o que eu queria ser. Minha mãe sempre me repreendia, jogava tudo fora, mas meu pai sempre me apoiava e dizia: "Se ele gosta de brincar de boneca, deixe ele brincar".

Adorava imitar para o meu pai as bailarinas da abertura do Fantástico e era assim todos os domingos. Meus pais se separaram quando eu tinha sete anos de uma maneira não muito amigável e isso foi muito dolorido em minha vida. Fui criada pela minha mãe e avó materna, minha avó tinha a mania de passar pó compacto no meu rosto para ir à escola, mas eu odiava isso porque não queria que nenhum coleguinha de escola percebesse que eu era diferente. Fazer educação física era uma tortura e os professores sempre reclamava para a minha mãe que eu fugia da bola de futebol, passava o jogo inteiro sem tocar na bola. O único gol que fiz na vida foi contra!

Sou de geração Xuxa e ela foi a minha musa inspiradora. Meu sonho era ser uma das paquitas e, como não poderia faltar, a She-Ra foi um dos desenhos preferidos para mim. Adorava me transformar de maneira imaginativa e ainda carrego essa heroína dentro de mim. Já a questão trans foi marcada pela Roberta Close, Thelma Lip e outras que sempre apareciam em programas de televisão, revistas, jornais e no Show de Calouro do Silvio Santos. Viajava naquele universo dos shows sem ao menos ter a certeza que seria mais uma entre tantas.

Neste dia, quero reforçar que todas nós, travestis e transexuais, um dia fomos crianças, bebês, amadas pelas nossas mães, pais e família. Portanto, antes de uma pessoa transfóbica querer agredir, matar, pelo simples fato de não nos aceitar, pense nisso. Quantas crianças neste exato momento estão presas em corpos errados porque as famílias ainda não estão preparadas a lidar com esse fato..."

Alessandra Oliveira
 "Vesti escondida um vestido da minha mãe e vi como eu realmente era"
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"Não tenho muito do que reclamar da minha infância. Alguns momentos me deixaram marcada, porém outros são situações que devem permanecer no passado. Fui uma criança aparentemente 'tranquila', passei muitos momentos bons, brinquei muito com os meus primos de futebol, pião, bolinha de gude, carrinho de roleman, bicicleta... E é óbvio que, com tantas brincadeiras, vinham os machucados, tombos, esfoladas na mão quando o roleman passava encima dos dedos.

Também adorava brincar com as minhas primas, pois gostava e era fascinada por aquele ambiente feminino: passa anel, casinha [mesmo acabando sendo o marido] e bambolê - mas, apesar de adorar bambolê, morria de vergonha e muitas vezes brincava escondida [risos]. Em outros momentos, juntávamos um monte de criança e assistíamos Pica Pau, Tom & Jerry, Pernalonga, desenhos que me fizeram sentir o verdadeiro sabor da infância e que são bem diferentes dos de hoje em dia.

A minha geração foi a que esteve no início da era da computação, dos video games, em que quem tinha um Atari 2600 era 'o cara'. Sempre tive vontade de ter um e depois de um tempo acabei ganhando.

Desde aquela época eu já sabia que era diferente, mas não sabia o quanto. Às vezes olhava no espelho e imaginava como seria se eu tivesse nascido uma menina. Olhava os vestidos da minha mãe, achava muito lindos e ficava muito admirada quando a minha mãe colocava um deles. Ela ficava muito linda. Certa vez, escondida, entrei no quarto da minha mãe e, com muito medo, me vesti com o vestido e me olhei no espelho. Me senti um máximo, mas rapidamente tirei. Sabia naquele momento que me vi diferente, que me vi como eu realmente era.

Mas recolhi aquele fato para mim e nunca toquei nesse assunto com ela e principalmente com o meu pai. Lembro que, quando iniciávamos alguma brincadeira de menino, mesmo sendo um, eu me sentia uma estranha. Era como se eu não pertencesse àquela turma, às vezes até fazia questão de ser a última escolhida e às vezes não fazia nem questão de ser escolhida. Na escola foi sempre assim, tanto que não lembro de ter participado de algum torneio de futebol, tinha poucos amigos meninos... Mesmo assim, sinto saudades daquele tempo e das lembranças felizes que ficaram. São elas que importam".

Aleika Barros
"Na infância, a psicóloga perguntava se eu tinha um grande segredo para contar"..
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"Tive momentos divertidos e de brincadeiras, mas a maior parte da minha infância foi marcada por pequenos conflitos devido à minha condição trans, que já era totalmente presente e fácil de se perceber. Visitinhas aos psicólogos acompanhada da minha mãe eram frequentes e existia por parte da minha família a preocupação em relação ao meu comportamento e atitude, que era bem diferente das outras crianças.

Eu adorava brincar com as meninas e me sentia mais completa ao lado delas. O convívio com os garotos nunca foi harmoniozo, pois não havia da minha parte uma identificação com eles. O mais incrível durante a minha infância é que minha psicóloga perguntava toda vez se havia um grande segredo para contar. Mesmo sendo tão pequena, já imaginava sobre qual segredo ela estava se referindo, mas nunca contei nada referente à minha sexualidade.

Amava a Xuxa e me identificava com o programa dela, com os desenhos e as atrações. Por outro lado, passava por um sentimento de conflito, pois às vezes nem eu mesma conseguia identificar o porquê desse comportamento e desejos diferentes dos outros garotos da minha idade. Isso me fazia sentir muito triste e faziam ocasionar brigas entre os meus pais.

Acredito que a infância da maioria das crianças transgêneros é marcada por pequenos conflitos em família e pela falta de esclarecimento sobre o assunto, que ainda hoje é um tabu dentro das casas e em boa parte das famílias".

Eduarda Silva
 "Adorava brincar de imitar as personagens de A Usurpadora. Me sentia a Paola Bracho"
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"Tudo o que lembro da infância é o quanto mulher me sentia. Sempre fui uma criança mimada e cheia de amores por ser a filha caçula da família. Tinha todas as festinhas de aniversário até os 12 anos, com direito a painéis decorativos, bexigas coloridas e o som de É o Tchan. Também adorava girar bambolês, brincar de bonecas e imitar personagens de A Usurpadora com a minha prima, mas tudo escondido da minha mãe, é claro. Eu me sentia a Paola Bracho [risos]

Desde cedo, já sabia que reinava uma garota dentro de mim e nunca gostava de brincar com garotos. Lembro que um dia minha mãe tentou me colocar em uma escolinha de futebol: foi o tempo de eu entrar e sair chorando porque não queria ficar, não gostava. O que eu gostava era de brincar de pular corda, amarelinha, esconde-esconde, vôlei, brincadeiras mais tranquilas e consideras femininas. Eu era mega delicada, mas não gostava que me chamassem de bichinha na rua.

Teve um dia que me chamaram de bichinha na rua e a minha mãe disse: "Mostra a bichinha para eles", referindo-se a eu abaixar a calça e mostrar... Mas eu disse: "Eu não, mãe, não consigo fazer isso" [risos]. Como fui criada com as minhas primas, me sentia menina como elas e não era nada com maldade, não tinha noção do problema que eu enfrentaria na minha vida, no problema que me faz ser eu mesma e neste sentimento que vai além de mim e que toma conta do meu ser.

Hoje, com 21 anos, sei que sempre fui a menina da minha infância, a garota da minha adolescência e a mulher dos dias de hoje. Não tenho do que reclamar de tudo o que já passou, porque se não tivesse passado por tudo isso, não saberia o incrível sabor de ser eu mesma. Feliz dia das crianças!".

Fernanda Vermant
"Sonhava que era a Sandy, que cantava e que tinha os cabelos iguais ao dela"

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"Na medida do possível, a minha infância foi incrível. Como mencionei em outro Trans em Debate, seria ótimo se tudo fosse como a vida da garotinha Jazz [que recebe apoio dos pais desde a mais tenra idade],
mas a minha realidade também foi boa. Lembro de receber muito carinho da minha mãe, muito carinho mesmo ao ponto de não sentir o preconceito que estava a minha volta e que poderia me abalar.

Lembro que brincava com meu irmão de video game e de ficar no computador. O meu jogo favorito era o da Sailor Moon e eu ficava entretida toda vez que o animé passava na televisão. Sonhava que era a Sandy, que cantava, pois sempre amei cantar, e de ter cabelos longos iguais ao dela. Lembro de todos os dias antes de dormir pedir para o Papai do Céu para eu acordar menina e, quando acorava, me decepcionada.

Com 15, 16 anos contei para a psicóloga que desde uns 4 anos fazia esse pedido a Deus e ela ficou chocada e me explicou que não era uma "opção" eu que a identidade feminina vinha antes mesmo da minha sexualidade. Ou seja, aos quatro eu já percebia quem eu era na sociedade e o que teria que passar. Mas daí a minha mãe chegava, me dava tanto carinho que isso não me afetava tanto".

Duda Barreto
“Em um sorteio da TV, eu queria o prêmio das meninas: o Bebê da Estrela” 
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“Caçula de duas irmãs e um irmão, sempre fui muito mimada. Morava em uma cidade pequena, na fronteira com a Argentina e estava inserida em uma família religiosa com um pai muito conservador e rígido na educação. Tenho memórias boas da minha infância, pois, embora fôssemos pobres, a família era grande e eu tinha muitos primos, com quem brincava e fazia artes maravilhosas. A nossa casa funcionava como ponto de encontro entre os primos e primas, então estávamos sempre com a casa cheia.

Me recordo que um programa de TV estava sorteando no Dia das Crianças dois presentes para quem enviasse cartas para a produção. Para os meninos, um ferrorana – um trem com trilhos – que era um sonho para o meninos. E, para as meninas, o Bebê da Estrela, o queridinho de todas as meninas. Quando minha mãe se inscreveu, teve uma surpresa: eu chorava que queria o prêmio das meninas, que me identificava com o universo feminino e que só queria brincar com minhas irmãs e primas. 

Na minha pré-adolescência, as coisas começaram a ficar mais nítidas, pois nunca sonhei com coisas masculinas. Eu sempre era a princesa dos contos de fada, buscava ficar sozinha em casa para vestir as roupas da minha mãe das minhas irmãs, fazer lençóis se transformarem em vestidos longos, que davam asas à minha imaginação... Claro, tudo de uma forma tão inocente... Até que a adolescência chegou, a rejeição do mundo externo veio à tona, mas não apagaram meus doces sonhos da infância”. 

Lirous K’yo Fonseca
 “Nunca gostei das brincadeiras de menina, pois me pareciam muito mal intencionadas” 
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“Lembro-me da minha infância como se fosse ontem. Calma! Eu ainda estou na infância, pois se levar em conta os novos estudos da área de psicologia eu saí da adolescência há seis anos. Aliás, uma das coisas que me fez amar o meu marido é o fato de ele ter o espírito infantil, de uma criança e esse olhar é bem parecido com o meu. Temos pouca diferença de idade, apesar de ele ser mais novo, e eu sempre digo para ele nunca perder o jeito natural de ver o mundo, pois é a forma de mostrar que a humanidade ainda tem salvação.

Como boas crianças que somos, assistimos a desenhos juntos, somos fãs de animes, mangás e videogame, nos vestimos com roupas e elementos desses personagens do nosso passado. O que me chama atenção é que sempre que toco esse lado nas pessoas percebo que muitas têm vergonha de assumir, como se ser adulto fosse um sinal de status. Já ouvi que o fato de eu ser assim é o que vem conservando junto a minha juventude, mas acho que isso está nos olhos de quem a vê.

Lembro-me do fato de detestar brincadeiras ditas como femininas e de brinquedos femininos. Ser livre sempre me fez optar a estar ao lado dos meninos, pois vejo as brincadeiras ditas de meninas muito mal intencionadas, levadas para o machismo e a garantia do bem-estar do homem. Jogo videogame desde os três anos. Meus presentes eram sempre voltados nessa área, um jogo novo já me trazia felicidade por meses, e os jogos que não tinha eu alugava ou trocava com amigos. Tive uma infância tranquila, como sempre é com quem joga videogame e o meu casamento se consolidou pelo amor ao vídeo game.

Changeman, Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Caverna do Dragão, Betty Boop fizeram parte da minha infância, assim como os heróis da Marvel e da DC e seus respectivos e luxuosos vilões. A primeira vez que eu vi uma trans, mas que só fui saber na adolescência, foi a personagem Shima dos Changeman. Para nós, crianças da época, era muito natural a presença dela, pois não a vimos como diferente. Era apenas mais uma dentre muitas. Já no videogame, com certeza foi a Poison, que ano que vem vai integrar o elenco de Street Fighter.

Na infância, nunca tive desejo em ser do sexo oposto e essas coisas nunca passaram pela cabeça. Elas ocorreram em uma hora que eu não estava preparada, por isso não houve influência, nem pela TV e nem por nenhuma referência. Essas coisas são naturais e não forçadas, mas as coisas acontecem porque tem que acontecer. Ninguém opta por ser diferente, apenas é. Mas, para encerrar, vivem as suas infâncias sempre e prolongue-as sem medo de ser feliz. Essa é a maior pressão que enfrento até hoje: que eu seja mais adulta. Lembrando que adulta e madura são coisas diferentes. Madura eu sou e nem por isso preciso deixar o meu lado criança de lado.

O céu é das crianças, concordo com isso, pois vivo no meu paraíso quando estou com os meus amigos e as minhas coisas”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

K.I.M.B.E.R.L.Y disse...

Amey essa edição do Trans em Debate !!! Beijinhos ...

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