Pride

Aluna trans que reivindicou o uso de banheiro feminino em reportagem da Globo, SBT e Record deixa escola

Isabelle em reportagem do SBT e atualmente

Isabelle Abrego foi pauta de reportagens do SBT, da Record e da Globo no início do ano porque enfrentava a dificuldade de usar o banheiro feminino e ter o nome social respeitado em uma escola estadual de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Mulher transexual, a aluna de 19 anos, que cursava o 3º ano do ensino médio, dizia que muitos professores apresentaram resistência e a direção da escola a orientou usar o banheiro masculino dos professores. Na reportagem, várias colegas diziam que não sentiam à vontade com a presença dela no banheiro.

Em conversa exclusiva com o Nlucon, Isabele revela o que aconteceu nove meses depois da reportagem e, infelizmente, o resultado reflete uma realidade para muitas trans: Pela segunda vez, ela abandonou os estudos e lamenta a falta de acolhimento à população trans no ambiente escolar. “Nunca fui uma das alunas mais aplicadas, mas cheguei ao terceiro colegial. Depois de tudo o que aconteceu na escola, tentei resistir mais um pouco, mas havia professores que torciam o nariz. Tive algumas ‘indicações’ para usar o banheiro feminino, mas ainda não utilizava banheiro algum para as necessidades. Foi complicado”.

Para chegar à escola, Isabelle traçava um trajeto de 15 km de bicicleta e diz que passava a maior parte do tempo sozinha, sem a companhia de alunos ou funcionários da instituição. “Não sei a repercussão das matérias porque não conversava com ninguém. Depois de tudo, tentei me esconder e passei os intervalos em frente à sala da diretoria, que considerava um local seguro. Mas não posso dizer que sofri transfobia por parte dos alunos – pois eu mesma demoro para fazer amizades, sou tímida – mas da administração”. 

Ela chegou a escrever uma carta, solicitando o respeito ao nome social, mas não teve sucesso. Tudo porque ainda não existe nenhuma lei que obrigue o respeito ao nome social de uma estudante travesti ou transexual nas escolas ou o tratamento de acordo com a sua identidade de gênero. Mais um motivo para que seja aprovada o projeto de Lei João Nery.

Trecho do pedido de Isabelle à direção pelo respeito ao nome social

Entre alguns dos constrangimentos que ela passava era na chamada feita pelos professores. “Pedia para usar o nome social, mas muitos professores não respeitavam. Em um dia, o professor de física começou a fazer a chamada pelos nomes e, quando me viu, automaticamente passou a fazer pelos números. E é claro que todo mundo percebeu que era por causa de mim”, afirma a ex-aluna. “Acho que o primeiro direito de uma aluna trans é o respeito ao nome social e ao gênero. E uma regra quanto ao uso do banheiro, pois só falar não resolve, tem que estabelecer uma regra”.

Outro motivo que facilitou a sua saída foi a perda do emprego de cinegrafista, que tinha durante a tarde. “Eu tinha um ‘trabalho’ e fui despedida por motivos internos da produtora, que não daria continuidade ao programa. Até então, eu ia animada para a escola de manhã porque sabia que teria um trabalho a tarde. Quando me despediram, fiquei muito desanimada. No dia 1º de abril foi demitida e no dia 4 parei de ir à escola”.

Após abandonar os estudos, Isabelle afirma que não foi procurada por ninguém para voltar. “Um político disse que se prontificaria a me ajudar no que fosse necessário, mas ninguém veio atrás de mim. A família vem com aquele papo de que tenho que parar de frescura”, lamenta ela, que mora com o pai. “Ele me trata no masculino, mas me dá abrigo, comida... Minha mãe mora em Três Lagoas e conversamos por telefone. Infelizmente, durante vários momentos, penso em suicídio. Tenho medo da morte, mas também da vida”.

Apesar das dificuldades, Isabelle planeja completar os estudos pelo EJA em 2014 e futuramente prestar vestibular para Radio & TV ou Jornalismo. “Este é o meu sonho", diz ela, que espera, desta vez, que as portas estejam abertas. Boa sorte!

Confira abaixo as reportagens:



About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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