Entrevista

Travesti de barba? Cantora Conchita Wurst diz: “Sou lady no trabalho, mas amo ser homem”

Conchita quer, por meio do seu trabalho e figura, que pessoas se aceitem mais

Desde que foi anunciada como a representante da Áustria no concurso Eurovision Song Contest 2014, na Dinamarca, a cantora Conchita Wurst, de 25 anos, se tornou conhecida no todo o mundo e causou polêmica pelo visual andrógino, barba grossa e vestidos à lá Kim Kardashian. No Brasil, as manchetes a definiam como uma “travesti de barba”, o que fez surpreender membros da comunidade LGBT, sobre tudo das travestis e transexuais, e provocar a ira de muitos conservadores.

Porém, em entrevista exclusiva ao NLucon, Conchita nega que seja membro da comunidade trans, apesar de ter afinidade com o grupo. Para ela – que na verdade é uma personagem do cantor e performer gay Tom Neuwirth - a produção é apenas para o trabalho. E, assim como outras artistas que adoram se caracterizar para o palco, vide Lady Gaga, a maior definição para a sua elegante e transgressora figura é “obra de arte”. Uma releitura astral e bem mais ousada de "Masculino e Feminino", de Pepeu Gomez, nos anos 80.

 "Sou uma lady em meu trabalho, mas um cara normal - e um pouco chato -  em meus dias de folga!”, declara Conchita, que sabe a diferença de sua identidade com o grupo trans por conta da amizade que nutre com várias. “O que eu faço é arte e, no caso delas, sentir-se pertencente ao gênero aposto do sexo que nasceu é algo totalmente sério. Quando estou trabalhando, sou uma mulher. E, se não estou, sou apenas o Tom”, explica. “Não penso mesmo [em colocar silicone ou tomar hormônios]: Eu amo ser homem”, continuou. 

Questionada se é mais difícil manter a barba perfeita ou se equilibrar em saltos altíssimos, ela diz com bastante autenticidade: “Tudo apareceu com muita naturalidade para mim. Eu apenas amo o meu trabalho, então não poderia dizer que algo é mais fácil ou menos exaustivo”. E é por essa naturalidade que provoca tanta confusão e transgressão nas normas...

"MÃES ME AGRADECEM POR AJUDAR SUAS CRIANÇAS”

Vítima de preconceito por conta da sexualidade, principalmente quando era adolescente, Tom diz que criou Conchita  depois que fez de tudo para se incluir e ser aceito – como integrar a boy band Jetzt Anders, neste caso “um tempo divertido”, diz. A personagem, então, significa a sua liberdade e o seu grito de aceitação para o mundo. 

“Foi difícil enfrentar a homofobia, especialmente sendo adolescente. E isto é porque eu faço o que eu faço. Estou lutando todos os dias por mais tolerância e aceitação. Quero que a próxima geração cresça sem medo”, defende.



Sobre as inspirações para o visual e união de uma figura feminina com barba, ela garante que não buscou ninguém em especial. “Faço somente o que amo e isto é realmente o que eu sinto. Não tive nenhuma inspiração sobre a barba. Esta era a única coisa de mim que eu quero dizer: Não é sobre o look e sim sobre o ser humano. Bem, meu objetivo é o que todos querem, apenas ser aceito”.

E o trabalho, que fala especialmente de aceitação, como a música “That’s What I Am” [Isso é o que eu Sou],  já começa a ter resultado. Além Eurovision, Conchita já é seguida por vários fãs apaixonados. “Sempre encontro adoráveis pessoas que ficam muitos contentes em me abraçar. Além disso, a comunidade LGBT da Áustria é como uma grande família. Eu amo ir para festas produzidas por minha gente. Todos os lugares são lindos e eu os amo!”.

Porém, os elogios que mais surpreenderam e emocionaram a artista até o momento surgiram das várias mães de seus fãs: “Já recebi vários elogios de mães me agradecendo por ajudar as suas crianças a se expressarem sem medo”.

O BRASIL E OS HOMENS BRASILEIROS?

“[risos] Os homens? [risos] Eu infelizmente não tenho amigos brasileiros, mas acho que todos são radiantes de felicidade. Todos do Brasil que eu conheci até agora sempre foram muito positivos e estavam sempre sorrindo. São ótimos!”, afirma.

Depois do Eurovision, ela só quer saber de férias e, quem sabe, vir ao Brasil para algumas apresentações. “Ainda não sei o que vou fazer, mas quero continuar cantando, talvez em todo o mundo”, entrega.

Um novo sonho? “Ser feliz... Isto é fácil, certo?”. Isto é Conchita!

Tom e Conchita são trans, sim, de transgressores! 
Sem os aparatos de Conchita, Tom também é muito gatinho!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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