Entrevista

'Admitir os próprios preconceitos é admitir que somos humanos', diz feminista transmulher Daniela Andrade

Daniela defende que, se grupo LGBT preocupasse em desconstruir as questões de gênero, automaticamente solucionaria os preconceitos e problemáticas da orientação sexual nesta sociedade

Militante atuante das redes sociais [e também fora delas!], a analista de sistemas e professora de literatura Daniela Andrade, de 30 anos, esconde por trás da aparência frágil e do olhar quase inocente a força, a coragem e a sabedoria de uma feminista transmulher heterossexual. Por meio de suas denúncias e observações, bate, apanha, rebate, polemiza e traz luz ao já percorrido “Labirinto de Creta”– local onde ficou enclausurada por anos luz, sem internet, referências na mídia ou apoio familiar.

Percorreu caminhos intrincados e por vezes unidirecionais. Não tinha amigos, não conhecia a palavra “transexual” e, a cada porta, o discurso dos Minotauros a faziam entender-se como falha: “Não é mulher! Não é homem! Não é gay”. Seria o que, então? Debruçou-se sobre os livros, viveu os romances dos personagens de Cecília Meireles, Virginia Woolf, James Joyce, e se tornou uma nata questionadora – característica que triplicou após encontrar a saída pelo céu e finalmente se entender e se identificar como mulher.

Na internet, criou a fanpage Transexualismo da Depressão,  faz parte moderação das páginas Transrevolução –RJ, Feminismo Sem Demagogia, Jean Wyllys me Representa, Cartazes & Tirinhas LGBT, Liga Humanista Secular e Transfobia Não. Ajudou na criação do elogiado TransEmpregos, página de anúncios que visa ser mais uma possibilidade para a entrada de travestis e transexuais no mercado de trabalho. E é sempre convidada para debates e palestras em universidade.

Hoje, Daniela está bem longe dos labirintos que a querem jogar. Mora em um apartamento no centro de São Paulo com dois gatos e se coloca como uma nova possibilidade de ser humano. Inevitavelmente, faz lembrar um poema de Meireles: “Renova-te. Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica-se os teus braços para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, Para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo.”

Confira a entrevista exclusiva:

-Você é uma das pessoas mais engajadas em prol dos direitos trans na internet. Sempre foi assim ou a conscientização e politização veio com o tempo? 

Não existiu um momento específico em que quis me engajar, foi um crescente; mas penso que só existem duas formas de você ser uma pessoa trans dentro dessa sociedade atual: Ou se engajando ou assumindo que todo mundo vai nos discriminar e vamos ser engolidas pelo sistema. Ao meu ver, mesmo aquelas pessoas trans que não queiram fazer parte dos movimentos sociais e políticos, já estão fazendo política. O simples fato de dizer que é travesti, transexual, transgênero é um choque para os demais, o que lhe obriga a lutar o tempo inteiro contra os estigmas, os preconceitos, as ridicularizações, as criminalizações, as imposições violentas de regras de gênero. 

Você sabe, estão o tempo todo nos dizendo que não somos pessoas bem vistas, que não podemos existir reivindicando uma identidade transgressora de gênero, que ser travesti ou trans é invariavelmente ser criminosa ou doente. Ser uma pessoa trans no Brasil é praticamente poder ingressar com uma ação judicial todos os dias, caso você queira, em virtude de tanta discriminação que sofremos. Quem ignorar as respostas de ódio que a sociedade está o tempo todo nos dando, com certeza já não está lidando de forma consciente com a realidade.

- Concordo que o fato de uma travesti existir já faz dela uma manifestação política. Porém, nem todas estão preocupadas com os direitos, com as informações, em se politizar. O que ocorre? 

Infelizmente o nível de escolaridade desse grupo ainda é extremamente baixo, em que pesem as exceções. Muitas pessoas trans precisam se evadir da escola em função de tanta violência institucional, verbal, psicológica ou mesmo física que sofrem cotidianamente por serem quem são, não completam sequer o ensino fundamental e, de modo geral, acabam por precisar se prostituir, dado que inclusive o mercado de trabalho formal acostumou-se a nos ver como problema, não solução. A Antra diz que 90% das travestis e transexuais no Brasil estão se prostituindo... Então,  como uma menina trans vai pensar em fazer política se o prioritário é conseguir cliente para saldar a dívida com a cafetina amanhã, por exemplo?  Ela está lutando por um direito básico, que é o direito de sobreviver, e veja, não é apenas sobreviver, mas sobreviver até amanhã. Uma luta que recomeça dia após dia. 

-E como você sobreviveu a todas essas pressões? 

Passei a infância e adolescência sendo agredida de variadas formas pela minha família, mas aguentei, estou aqui. Não consegui chegar a uma conclusão por qual motivo específico consegui esse feito, talvez por uma vontade enorme de viver. Passei muito tempo sem sequer ter ouvido a palavra transexualidade, sem amigos, referências e acabei me dedicando integralmente aos estudos. Era a mais dedicada na sala, tirava 10 em todas as matérias. Então, muito dessa bagagem cultural que eu tenho foi porque não tive amigos de carne e osso, transformei os livros em meus amigos e eles me serviram como válvula de escape, para esquecer das minhas tristezas.

 Meu pai era pedreiro e a minha mãe semianalfabeta e, apesar de todos os defeitos que tinham e em detrimento de não terem tido acesso aos estudos formais, sempre me incentivaram energicamente para que eu estudasse, como forma de escapar àquela realidade de pobreza material. Se tirasse menos de 9, era surra na certa. Mas também apanhava por motivos banais: para aprender a “andar como homem”, para “me consertar” a fim de que não mais me gritassem bicha na rua... Foi tudo muito difícil.

Daniela em palestra e ao lado da cartunista trans Laerte/Sônia

-E o que você lia?

Não era nada relacionado à transgeneridade, porque os livros que eu tinha acesso eram os da biblioteca da escola. E a seção de “educação sexual” nas prateleiras era vista como setor proibido, e quem fosse lá folhear os livros era espiado de soslaio pelos demais como se fosse uma pessoa criminosa. E, das poucas vezes que tive contato com esse tipo de literatura, o que se “ensinava” era a educação sexual para pessoas cisgêneras e heterossexuais: “o corpo do homem é esse aqui com pênis, saco escrotal e próstata, o corpo da mulher é aquele ali com útero, ovários e vagina; então, o pênis encontra a vagina, acontece a ejaculação que libera os espermatozoides que nadam até o óvulo e enfim, a mulher fica grávida”. 

Se não tinha nada específico sobre as relações homossexuais, imagina se iria ter algo sobre transexualidade. Transformei-me em uma devoradora de romances, literatura intimista, em que eu tentava me transpor para a história das incríveis personagens desses livros. Clarice Lispector, Virginia Woolf, James Joyce eram meus autores preferidos, e o que me atraia também neles todos eram suas vidas pessoais cheias de tristeza e melancolia, e perceber como a tristeza poderia gerar tanta beleza materializada nas páginas dos romances que eles produziam. 

-Você disse que sequer sabia da existência da palavra transexual. Como foi a sua infância e adolescência, no ponto de vista de sua identidade?

Não existe a lembrança mais remota da minha vida em que eu tenha me visto como homem. Mas,  no começo, a maioria esmagadora das mulheres trans acaba acreditando que é um homem gay muito afeminado, porque é assim que a família geralmente se refere e é assim que a sociedade coloca . Na minha época, não existiam as facilidades da internet, que permite você alcançar essas informações muito rapidamente de hoje em dia e tem prestado grande contribuição ao conhecimento e reconhecimento das pessoas trans. Eu sabia que o universo masculino não me atraía e rejeitava o rótulo que tentam me impor de “homem”, e percebia que o fato de eu ter nascido com um pênis levava a sociedade a dizer que eu não era uma “menina”, e ao mesmo tempo as pessoas me chamavam de “bichinha”, “viadinho”; negando a mim uma identidade masculina, negando que eu fosse “homem”. 

Então, ficava muito claro que ser gay não era ser homem para esta sociedade. Você pode reparar que tem muita gente que diz: “Meu filho não é gay, ele é homem” ou “Ele é homem ou ele é gay?”. De certa forma, terem me identificado como gay, anulando-me como homem, deu um certo alívio àquela altura: não era identificada como mulher pela sociedade, tampouco homem. Ao mesmo tempo, tinha um medo muito grande de desabafar com alguém sobre o assunto, pois meus pais eram aquele tipo de religiosos bem preconceituosos, e isso com certeza poderia ocasionar uma nova surra. Passei uma vida em silêncio, desabafando e chorando sozinha para o travesseiro.

-Mas nesta época a Roberta Close já estava na televisão, não? 

Ela foi o máximo que eu vi, mas a imagem dela era vendida para mim como hermafrodita, hoje referenciada como intersexual. Eu recebia a informação de que ela tinha nascido com os dois genitais e, admito, morria de inveja, pois também queria ter nascido assim [risos]. Era um bem inalcançável, pois a sociedade não a via como um gay safado que quer ser mulher, como geralmente vê as mulheres trans, e sim como: “É uma pessoa doente, coitada, é alguém que precisa do acompanhamento de um médico”. E o fato de eu ter nascido com um único genital: um pênis, e transgredir as regras do que a sociedade convencionou para alguém que nasça com esse genital, levava grande parte das pessoas a me verem como uma bicha muito safada que queria ser mulher.

-E como foi viver parte de sua vida como um gay afeminado? Sofreu discriminação?

Antes dos 17 anos eu nunca tive contato com nenhuma pessoa declaradamente gay. Então, com essa idade pisei pela primeira vez em uma balada GLS (como se referenciava o público LGBT) e, em um primeiro momento foi a oitava maravilha do mundo. Pensava: “Poxa, vou estar entre pessoas com quem vou poder dividir as minhas frustrações, os meus medos...”. Mas acabei caindo dentro de um mundo em que percebia também discriminações em função de feminilidade e masculinidade:  os gays considerados mais femininos sofriam invariavelmente com o preconceito dentro do grupo. Logo de cara descobri que eu só poderia ser respeitada como gay se me encaixasse dentro de um padrão. Eles me diziam: “Você pode ser gay, mas para que desmunhecar?”. 

Como se eu tivesse acordado um dia, olhado no espelho e dito: “Vou desmunhecar, é tão bom, isso em hipótese alguma me fará sofrer discriminação”. Esse mundo em que eu vivi era feito para se legitimar os homens másculos, brancos, jovens... E o fato de eu fugir desse estereótipo, comportando-me de forma tida como feminina, levava os demais a me colocarem o rótulo de ”bicha caricata”, “bicha pintosa”: “Ai, você é tão divertida, alegre, está o tempo todo fazendo todos rirem”. Frequentando esses espaços, percebi que os gays mais femininos eram vistos como alguém que tinha como única função pleitear vaga de drag queen em concurso da Tunnel. 

-Quando você era vista como gay afeminado, chegava a ficar com alguém? 

Imagina... Eu sentia-me um patinho feio que não pertencia ao grupo. Nenhum cara chegava em mim, e eu pensava: “Meu Deus, devo ser a pessoa mais horrorosa do planeta” [risos]. Quando ia para uma balada do tipo The Week, com um público de gays mais masculinos, bombados, que encarnam essa figura do homem musculoso da academia, as pessoas olhavam para mim até com rancor: “Quem colocou essa pintosa aqui dentro?”. Nos bate-papos gays, as pessoas perguntavam logo de cara: “Você é afeminado? Se você for, eu não quero”. 

Nossa, parece que é um pecado mortal ser afeminado dentro desse grupo. Cheguei em uma fase que não queria mais frequentar espaços gays, pois a minha visão de mundo, meus interesses e objetivos diferiam drasticamente dos demais: eu queria por exemplo, experimentar a maternidade: algo que eles não partilhavam...  Perguntava-me: O que sou? Não sou homem. Não sou mulher. Não sou gay. Não sou nada. Falhei para o mundo, falhei para mim, não há solução: sou uma pessoa sem identidade. 

"Travestis não tinham interação com homens gays e os gays comuns não sabiam da realidade das travestis"

-Que agonia! E quando você finalmente se deparou com as travestis e transexuais e se identificou? 

Meu pai comprou um computador com muito sacrifício e ao custo de inúmeras prestações quando eu tinha 22 anos, foi quando pude pesquisar na internet se havia alguém como eu, se outros gays mais femininos experimentavam realidades como a minha, foi quando descobri o “fantástico mundo das travestis”. É claro que eu já as tinha visto nas baladas, mas elas eram encaradas como donas de uma identidade marginal, que viviam para causar escândalo e confusão, uma bicha muito feminina que deu um tropeção e virou travesti – como um Pokémon. Os gays com quem eu convivia morriam de medo das travestis, quando uma aparecia, eles mudavam de calçada, e apesar dessa visão estigmatizada e preconceituosa bem solidificada no grupo, eu as admirava, pensava comigo: “Gente, que coragem...”. 

E, nestas pesquisas, conheci travestis históricas e que fugiam desse estereótipo limitador, como a Brenda Lee, cuja história me arrancou lágrimas. Ou as duas mulheres trans históricas: Sylvia Rivera e Marsha Johnson, que construíram uma associação que ajudava travestis em situação de rua. Foi então que passei a perceber que travesti é um ser humano, com dores, sentimentos, frustrações, rancores, afetos; e que eu também poderia ser travesti. Assumi a minha identidade feminina não só interiormente como externamente, e com isso, fui obrigada a sair de casa: meus pais jamais permitiriam que eu me vestisse como uma mulher, que eu externasse de forma tão radical o que meu interior sempre gritou.

-O que você descobriu dentro do universo das travestis? 

Parece que entrei no mundo de Nárnia. Travestis não tinham muita interação com homens gays e os gays comuns – exceto alguns militantes - não conheciam a realidade das travestis... Refletindo o pensamento social acerca das travestilidades, o homem gay que não é ativista da causa, de modo geral tem medo das travesti. Descobri que, embora eu tivesse me identificado, agora fazia parte de uma realidade ainda mais excludente, com muito mais discriminação e, muitas vezes, ainda que a travesti tenha um baita talento, frequentemente o mesmo é desperdiçado.

Canso de ver travesti que sai para procurar emprego e dá com a porta na cara e, precisando se sustentar, é fadada à prostituição. Muitas se drogam para aguentar essa realidade, que é muito agressiva, levando muitas vezes a pessoa ao suicídio. Quando entrei em contato com esses paradigmas, pensei: “Meu Deus, onde fui colocar os meus pés?” Mas não havia mais jeito, pois ainda que essa realidade se delineasse de forma tão violenta, era isso que eu tinha que enfrentar, pois a outra opção seria negar-me como ser humano: e isso não estava mais em cogitação. 

-E o que teve de positivo?

Comecei ir mais à Planet G, à Danger e, apresentando-me de forma feminina, com um nome feminino, vários homens demonstravam interesse. Naquela ocasião, pensei: “Meu Deus, como passei tantos anos da minha vida desconhecendo o que é viver sem despertar desejo em ninguém?” [risos]. Um universo diferente despontou-se para mim, uma outra forma de pensar e encarar a sociedade de repente começou a fazer sentido. Sempre quis ser essa pessoa que eu sou, e passei anos sendo castrada pela sociedade e pelo meio social em que eu vivia.  Os primeiros a me tratarem como mulher foram os homens que encontrei nesses lugares , que me viam não mais como uma bichinha pintosa, mas como uma mulher; isso começou a construir em mim uma grande realização interior: o encontro comigo mesma, com a mulher que sempre fui.

-Você foi bombardeada pelo preconceito de diversos grupos, inclusive dentro do grupo “GLS”, como você define. Por que grupos, ainda que discriminados, também discriminam? 

Muitas vezes a gente acha que o fato de compartilharmos de uma característica em comum automaticamente cria em nós o amor e o respeito aos demais do grupo, e não se dá dessa forma. Por mais que estejamos num mesmo grupo, por exemplo, por conta de uma identidade de gênero não aceita socialmente, somos muito diferentes uns dos outros, com vivências únicas.  Mas penso que, nestes casos a discriminação ocorre pela vontade de ser aceito por um grupo hegemônico e pela negação brutal a si próprio .

Porque é mais fácil ser aceito dentro daquele grupo que não sofre o preconceito de ter uma orientação sexual e/ou identidade de gênero deslegitimadas socialmente se, ao perceber que eles discriminam, eu também discriminar. O que acontece muitas vezes seguido da negação, porque a pessoa não consegue olhar no espelho e admitir para si própria quem de fato é. Já vi muitos gays mais femininos que não admitiam de forma alguma que eram assim, e se caricaturizavam a fim de se camuflar e se caracterizar como uma figura mais masculina. 

-O que fazer com este preconceito interno, entre LGBTs, sendo que cobramos respeito de pessoas que não fazem parte dele? 

As pessoas LGBTs deveriam começar admitindo que há preconceito dentro do grupo, porque raramente se admite. E, admitir que tem preconceito é admitir que é humano. Parece que só quem não tem a identidade representada por essa sigla é que tem preconceito e que, a gente não pode ter, pois se tivermos nos transformamos automaticamente em todos os odiadores do universo LGBT. E não é assim.

'Não especifico que sou trans no currículo, mas nas entrevistas faço questão de dizer'

-Conta, como você lida com os seus preconceitos? 

Tento me policiar o máximo possível, pois observando o meu passado, percebo que já reproduzi muitos chavões machistas. Por exemplo, antes de conhecer o movimento feminista, sempre perguntava que roupa a mulher usava quando sabia de um caso de estupro. Culpabilizando a vítima ao insistir na tese de que a roupa que uma mulher usa é que causa o estupro, e que, portanto, a mulher é a culpada pelo crime que ela sofreu, o que leva na maioria das vezes a esquecermos ou não nos darmos conta de que não é a roupa que causa o estupro, mas sim os homens misóginos e machistas, que encaram as mulheres como objeto sem vontades a ser possuído. Somos adestrados para reproduzir pensamentos, muitas vezes sem querer, no automático.  E de qual maneira que você combate os seus próprios preconceitos? Além de identificá-lo, é preciso estar sempre estudando, permitir-se conviver e aprender com pessoas muito diferentes, e se questionar sempre. 

Durante um bom tempo, reproduzi um pensamento comum e equivocado no mundo trans, o de que somos gradações: “Homens héteros que viram homens gays, que viram homens gays afeminados, que viram crossdressers, tomada quase sempre como sub-travestis, e que ao injetar silicone viramos travesti. E que, se quisermos falar que somos transexuais, temos que ter laudos, fazer a cirurgia e não se prostituir”. Poxa, será que ser travesti é ter silicone no corpo? Será que ser travesti é ser sinônimo de prostituição? Será que ser transexual é precisar de uma cirurgia, ter um laudo? Temos que estar sempre questionando tudo quanto definíamos como certo e imutável quando falamos de seres humanos.

-Noto que algumas trans também tem preconceito com o gay afeminado. Depois de sua experiência neste universo, o que pensa sobre eles?

Como fui muito discriminada por ser vista como um gay afeminado, seria ridículo se eu reproduzisse esse preconceito. Quando você fala em movimento gay, ao meu ver as ditas bichas pintosas fazem parte do batalhão da frente. São elas que dão a cara para bater diariamente, que são apontadas nas ruas, que são discriminadas e espancadas por transgredir a heteronormatividade de forma muito contundente. Que estão esfregando o tempo todo na cara de todos que há a possibilidade de ser homem sem se aprisionar dentro da camisa de força de gênero que dita de que forma alguém precisa se comportar e aparentar para ser lido como homem. 

-Você tem curso de técnica de informática, fez análise de sistemas e também concluiu a faculdade de Letras. O mercado de trabalhou mudou depois que você assumiu integralmente a identidade de Daniela?

Durante muito tempo, mandei currículo como homem para a área de informática, recebia muitas propostas de emprego e era entrevistada como homem. A partir do momento em que comecei a enviá-los com o nome feminino ficou muito claro que o mercado de trabalho nesse segmento muitas vezes rejeita as mulheres. E olha que nunca deixei informado no meu currículo que sou trans, pois o que deve ser evidenciado é quem eu sou profissionalmente e não qual minha identidade de gênero. Com um nome feminino no currículo, passaram a me ligar muito menos, a fazer menos entrevistas e nas entrevistas, ficava muito evidente que o fato de eu ser trans se sobrepunha a qualquer capacidade profissional ou bagagem escolar que eu tivesse a fim de me excluírem do processo. 

-De qual maneira sentiu a transfobia no trabalho?

 Já aconteceu de me mandarem embora porque a gerente disse que não gostava de pessoas estranhas na equipe. Ela dava “bom dia” e “até amanhã” para todos, menos pra mim. Chamava todo mundo para almoçar, menos eu. Tinha bastante facilidade para se comunicar com todos, menos comigo. Fiquei um ano na empresa e nunca tive um feedback negativo. Quando fui demitida, o profissional enviado por ela para me dar o motivo da demissão argumentou que era corte de custos, mas no outro dia a minha vaga já estava preenchida de novo. Fica evidente a discriminação, né? Na área da educação, atuei dando aula de língua portuguesa e literatura em um curso pré-vestibular para pessoas carentes. E, embora os meninos demonstrassem um certo desconforto com a minha presença, nunca fui desrespeitada. 

-Hoje, apesar do seu currículo, você não está empregada. Pode contar o que acontece em uma entrevista de emprego? 

Embora não especifique no currículo que sou trans, sempre deixo claro na entrevista para não ter que contar depois e aparecer alguns dos problemas de sempre: a vaga desaparece misteriosamente ou de repente você não tem mais o perfil da vaga. Quando conto, geralmente escuto o bater das asas de uma mosca na sala. Silêncio total e, depois de um minuto, muitas vezes a pessoa diz: “Ah, não tem nenhum problema”, e em seguida você descobre que a vaga foi congelada, está em stand by ou foi cancelada. 

Eu gosto deixar claro que sou trans para não precisar participar das diversas etapas do processo seletivo e assim que chegar a última, descobrindo que você é trans, você ser cortada, gerando uma perda de tempo e enorme frustração. Se houver problema em relação a isso, não vai ter segunda etapa. E se não houver na primeira, não terá nas outras. Já aconteceu de o entrevistador perguntar o que significa ser uma mulher trans e eu explicar: “Sou uma mulher, porém ser mulher não significa necessariamente que nasci com determinado órgão genital. Qual é a diferença do tratamento? Nenhuma. Veja uma mulher dentro da empresa e, assim como ela é tratada, eu gostaria de ser tratada”. 

Na campanha contra a presidência de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e Minorias

-Muita gente vai perguntar: Não tem nenhum problema colocar apenas o nome social do currículo? 

Realmente recebo essa pergunta frequentemente. O grande mal é que as pessoas desconhecem as leis.  Muitos acham que estão nos fazendo um favor ao respeitar a nossa identidade de gênero, e outros partem do princípio que você não conhece seus direitos.  É muito frequente ouvirmos as pessoas dizerem: “Nossa, os viados agora estão até querendo usar o banheiro das mulheres!”. Mas não estamos infringindo nenhuma lei ao enviar o currículo com o nome social. Podem dizer: “É falsidade ideológica”. 

Caros, falsidade ideológica se dá quando se faz uso de documento falso para se identificar; o que não é o caso aqui. O nome social está respaldado por uma série de decretos em órgãos federais, estaduais e municipais: é o estado reconhecendo que o que está grafado no documento não é de fato o que se dá na realidade, não é de fato como somos conhecidas e reconhecidas em nosso meio social. Se mando um currículo com o nome Daniela posso apresentar várias pessoas que me conhecem assim, ou seja, não estou me fazendo passar por alguém que eu não seja. 

-Atualmente você está inserida em um movimento feminista. As mulheres cisgênero recebem bem as mulheres transexuais?

No meu caso, fui melhor recebida que nos movimentos LGBTs, e o coletivo feminista que faço parte me respeita bastante. Os feminismos tendem a respeitar as mulheres trans como qualquer outra mulher, ainda que com suas particularidades e especificidades. Mas existem problemas? É claro. Não dá para falar sobre o movimento feminista, mas sobre os movimentos feministas. Em um dos Congressos Feminista América Latina e Caribe, por exemplo, debateu-se se travestis e transexuais poderiam participar. Ou seja, uma votação para decidir se somos mulheres. 

Há feministas que dizem que não passamos de homens vestidos de mulher. Houve o caso, durante uma semana feminista em determinada universidade que o coletivo que integro convidou-me para que eu as representasse. Argumentou-se que estavam cansadas de verem mulheres brancas, cis, classe média ocupando esses espaços que também são das mulheres negras, trans e pobres. Porém, fui vetada logo que descobriram que eu era trans. Enfim, mas também há outras feministas que defendem a interseccionalidade das opressões, que não consegue-se destruir o machismo sem acabar com a transfobia, com o racismo...

-Por falar em mulheres cis, tem amizades com elas? Há essa troca de confidência aparentemente comum entre as cis? 

Quando era vista como uma bicha afeminada, era comum mulheres dizerem que queriam minha amizade, e também frequentemente consideravam: “Ai, os gays são animados, divertidos, queria ter um amigo gay. Para poder me fazer rir, para me ensinar como me maquiar, para me ensinar os truques do sexo anal, para confidenciar os problemas com meu namorado sem ter medo de perdê-lo”. A partir do momento em que assumi uma identidade de mulher, grande parte se apavorou. Suponho que muitas devem ter pensado: “Se este ser na minha frente, que nasceu com pênis, está dizendo que é mulher, eu sou o quê?”.  O problema é que de modo geral a sociedade acostuma-se com um estereótipo do que é ser mulher: a que menstrua, que tem uma vagina, que quer ser mãe... 

E muito frequentemente não conseguem lidar com a existência de uma mulher que fuja a isso, não conseguem e/ou não querem entender que há muitas formas de ser mulher, pela dúvida e pelo medo do diferente, evita-se muitas vezes a companhia. O que geralmente não nos damos conta é que a sociedade impõe um padrão de mulher que não existe, sempre irá lhe faltar algo para alcançar essa perfeição feminina imposta: que controla quando a menstruação vai aparecer, que não tem celulite, estria, que a vagina é toda cor de rosa e perfumada (...) E elas observam uma travesti ou uma transexual, que muitas vezes não tem nenhum desses problemas que a cis têm, e habitualmente não nos vêem como “fazendo parte do grupo”, mas sim como alguém suspeita, indefinida ou um homem camuflado.

-Rola inveja ou competição de ambas as partes?

Existe o mito de que toda mulher transexual tem o sonho de ter nascido cis, ter a mesma vagina das mulheres cis... Eu não invejo essas mulheres por elas terem nascido com uma vagina. Tudo o que eu sou é porque enfrentei toda a discriminação por ser quem sou, quem fui. Muitas mulheres cis, mesmo sabendo de todas nossas dores, não vão conseguir imaginar do que se trata. Tenho muito orgulho de mim e, além disso, ser mulher, para mim, é um constructo biopsicossocial. Não tenho por que ter inveja, todas nós somos seres únicos, muito diferentes umas das outras, ainda que todas mulheres, e essa individualidade é que nos torna tão especiais. 

No nosso caso, mulheres trans, de modo geral moldamos nosso corpo por meio da aplicação de hormônios, que refletem em mudanças tanto do ponto de vista externo como psíquico, e não vejo isso como tentativa de competir, mas de se enquadrar dentro do que a sociedade também estipula, que inclusive divide os comportamentos em feminino e masculino.  Acho importante me definir como mulher, por motivação política e para conseguir participar de uma sociedade que, querendo ou não está completamente construída pensando no binário homem/mulher : das políticas públicas aos cortes de cabelo... Se você quiser desconstruir isso e demolir os rótulos identitários todos, vai ter que implodir a sociedade como está e começar do zero. 

-Já ocorreu de me criticarem porque utilizo “professora travesti”, “advogada transexual” em títulos e textos. Qual é a sua sincera opinião sobre isso? 

Faz diferença dizer que se é transexual, travesti, transgênero; pois é o fato de identificar-se dessa forma em que se transgride regras de gênero que nos leva a sermos pessoas discriminadas, invisibilizadas, que nossos direitos sociais inexistam ou sejam diuturnamente desrespeitados. Faz diferença dizer que por exemplo tal pessoa se identifica como transexual e está concluindo seu curso de graduação em uma universidade, para que a população saiba que nem todas as pessoas trans estão confinadas à marginalidade, que muitas de nós lutamos bastante contra o sistema extremamente opressor e transfóbico. Eu me defendo e reivindico a identidade de transexual, e o farei ainda depois de me submeter à uma cirurgia de transgenitalização, encaro esse ato como estratégia política de visibilização desse grupo tão estigmatizado e desumanizado.

Daniela e a página TransEmpregos: "Existem trans que tem o talento desperdiçado"

-Você criou a fanpage "Transexualismo da Depressão". Como surgiu essa ideia? 

Primeiramente, é um título irônico, pois sabemos que a transexualidade ainda é tratada com esse sufixo –ismo que denota doença, uma vez que o consenso psiquiátrico ainda nos vê e nos trata de forma patológica. Traduzo da seguinte forma: tratar a transexualidade como transexualismo, como uma patologia, dá depressão. Já a ideia nasceu do desejo de levar informação sobre as transgeneridades para o público leigo, dado que a maioria das páginas sobre essa população visam comunicar-se apenas com esse público, de modo geral, apenas dando espaço para as pessoas trans já transicionadas e fielmente encaixadas dentro do estereótipo de mulher ou de homem: bem feminilizadas ou masculinizados. Olha, existe travesti que tem barba, sabia? Nem todas têm dinheiro para pagar sessões de laser e há as que realmente não se incomodam com isso. 

E de modo geral essas travestis são ridicularizadas e encaradas como um “viadinho que quer pagar de travesti”. Em grande parte das páginas sobre esse grupo, é difícil encontrar uma travesti negra, uma transexual em início de transição, um transexual que não tenha o corpo malhado e lapidado pela testosterona e mesmo assim diga estar bem. As pessoas trans que fogem às camisas de força de gênero, acabam sendo negligenciadas invariavelmente. A sociedade não está preparada para isso, outro dia publiquei a foto de um transhomem que dizia estar muito bem com o corpo que tinha, que não pretendia se submeter a uma cirurgia de mamoplastia masculinizadora, e as pessoas reagiram de forma muito violenta, com repulsa e preconceito. Por que não um homem que tenha seios?

-Você está envolvida em debates calorosos. É muito ofendida nas redes sociais? 

Eu já fui ofendida de todas as formas, já me disseram que eu era um viadinho, um fake fazendo me passar por trans [risos]. Outro dia uma trans que mora na Europa disse-me que faço uma militância de ódio, que tenho que parar, que sou arrogante... Penso que tenho a minha a opinião, a pessoa tem a dela e todas devem ser respeitadas. Uma vez que publicamos algo, temos que estar prontas para a crítica: isso é certo, mas não sou obrigada a aceitá-las, a engolir tudo que me dizem, a me modificar por conta de qualquer dito de um estranho ou estranha. As pessoas podem criticar a minha opinião? Podem, mas uma coisa é criticar a minha opinião e a outra é criticar a minha pessoa. Há muita gente fazendo ad hominem, achando que assim é que se promove um bom debate.

-Uma de suas opinião mais forte é a despatologização da transexualidade. Muitas transexuais defendem que, se despatologizar, vão perder o benefício do SUS...

A Organização Mundial da Saúde diz que saúde não é tão somente a ausência de doenças ou enfermidades. Saúde é um completo bem estar físico, mental e social. Isso significa que, posso ter um desconforto social e não estar doente. Assim como gravidez não é doença e o SUS garante todo o atendimento às gestantes, as especificidades das pessoas trans também devem contar com toda a atenção do SUS.  Porque eu, mulher transexual, seria doente só por vivenciar a minha identidade de gênero em dissonância com o que a maioria da sociedade deseja? Quer dizer que só não sou doente se eu seguir a maioria? E o interessante é que quem definiu que a transexualidade é doença não foram as pessoas trans, pois essas não detém poder e privilégios para impor regras e condições. O que quero dizer é que são pessoas cis que olham para nós e dizem: “Vocês são doentes”. E nós que engulamos isso, né? Transexualidade não é doença, a doença social é o preconceito que sofremos apenas por sermos quem somos.

-Já pensou em entrar para a política?

Eu sou muito receosa quanto a isso, em um país de grande maioria de analfabetos políticos. As pessoas geralmente escolhem em quem vão votar na fila da urna. Muito frequentemente só sabem em quem votaram para presidente e governador. Outro ponto que considero é o peso que se tem sendo honesta em um lugar em que a maioria que entrou para a política acabou se corrompendo, pois o sistema está estruturado de forma a proporcionar e incentivar isso, há muita gente vivendo de extraviar verbas do governo, por exemplo. Outra dificuldade é o fato de os partidos não investirem em candidaturas femininas. Apenas 8,72% da Câmara Federal é composto por mulheres, 12 dos 81 senadores são mulheres, e geralmente as candidaturas que os partidos investem são de pessoas que estão cotadas para ganhar: filho do senador, neto do prefeito, esposa do governador: há muitos feudos políticos pelo Brasil. 

Dificilmente se aposta em mulheres, e ainda há muita gente machista que só votaria em uma mulher caso essa fosse recomendada por um homem, as mulheres via de regra são desacreditadas na política, imagina a dificuldade de se ganhar uma eleição sendo uma mulher sem recursos, sem padrinhos políticos e com o agravante de ser transexual em uma sociedade calcada na transfobia. Quem vota em candidato declaradamente LGBT?  Vamos lembrar que a maior representação LGBT dentro do Congresso Nacional –Jean Wyllys - não está lá diretamente por conta dos votos que recebeu , mas por que foi privilegiado por conta da grande quantidade de votos que recebeu seu colega de partido. Caso o sistema eleitoral fosse outro, não teríamos nenhum deputado LGBT. Preciso falar mais alguma coisa? 

O que te dá depressão?

Ai, tanta coisa [risos]. O preconceito, sobretudo. Eu tenho depressão, potencializada por causa dos hormônios, mas faço tratamento com anti-depressivo. Mas, responda-me, há como não ficar com depressão em uma sociedade em que as pessoas trans não são vistas como gente, como sujeito de direito?  Tem como não entrar em depressão ao deparar-se com a dura realidade que as pessoas trans precisam enfrentar na busca por um emprego ou mesmo por uma pessoa para dividir a vida?

-O que pensa sobre as trans que estão na mídia? Elas contribuem com a causa ou reforçam o estereótipo? 

Já ouvi de vários grupos de transhomens que a Tereza Brant é alguém que atrapalha a causa trans, pois as pessoas se confundem e acabam achando que ela também é um transhomem, ainda que ela reinvidique ser tratada como Teresa e como mulher, pautam-se pela aparência considerada masculina. Quando falo que sou trans, as pessoas respondem: “Ah, igual o Leo Áquilla?” Ou: “Já sei, como a Rogéria, né?!”. É natural que se lembrem dessas figuras para fazer comparações, mas não posso dizer que elas representam o grupo inteiro de pessoas trans.

Ao mesmo tempo, acho que qualquer ser humano tem o direito de fazer o que quiser do seu corpo e da sua vida. Se a Ariadna se vê como uma mulher cis, não quer fazer parte da militância, é direito dela. Se a Tereza só pretende uma vaga na novela da Globo, é direito dela. Mas não me sinto representada por nenhuma delas, até porque a única pessoa que pode me representar sou eu mesma. Quando falamos de um coletivo trans, parece que só falamos de travesti, transexual e transhomem, como se não existisse nenhuma outra identidade. Quando falamos de identidade de gênero, penso que existem 7 bilhões delas: uma para cada habitante no planeta, e que não precisamos nos encaixar em uma específica para ser feliz, para poder viver. 

-Embora obviamente cada pessoa seja única, as referências, comparações, representações e identificações existem – assim como essa referência faltou em sua infância e adolescência. Como você avalia a mensagem que as novas gerações recebem dessas pessoas expostas na mídia? 

O público é extremamente leigo, pois não se fala sobre identidades trans, transgeneridade.  É um assunto tabu e, quando se fala, é pelo viés do exótico ou do patológico: “O homem que virou mulher” ou “Nossa, gente, essa pessoa está doente, está querendo até se castrar”. Essas personagens que estão sendo evidenciadas pela mídia estão sendo pinçadas do grupo e colocadas para todo mundo à medida em que elas se propõem a fazer parte do picadeiro, de se submeterem como atração de circo. Não há uma preocupação política por parte dos donos da mídia, somente de retorno financeiro e da exploração do freak show.

 De que forma eu, consumidora deste produto, vou digerir isso? Sinceramente, se nem dentro do nosso grupo as pessoas se entendem e se aceitam, o que vou esperar em um país em que grande parte das pessoas são analfabetas funcionais, que desconhecem ou não conseguem entender tudo aquilo que fuja ao básico, ao arroz com feijão?! Amigos transhomens deram uma entrevista para um jornal de Minas Gerais e explicaram a diferença entre cisgênero e transgênero, mas a repórter disse que não poderia colocar isso, pois o público não iria entender, acredita? Se nem explicando estão entendendo, fica difícil.

-Acredito. Em um site de celebridades, a editora mudou o texto e colocou que uma atriz transexual é homem... Quando alterei e coloquei de uma forma mais respeitosa, fui descartado...

Poxa, quer dizer que a gente sempre vai ver na matéria aquilo que o público entende? Nunca pode colocar um termo novo, explicar aquele termo novo, dar uma informação a mais? Se a gente seguir isso, estaríamos até hoje dizendo que homossexualidade é homossexualismo, transtorno mental. Se seguirmos isso, continuaremos eternamente a dar eco ao discurso hegemônico que diz que a travesti é um gay que virou mulher. Não vejo muito esforço das pessoas – e nem dessas pessoas expostas na mídia – para superar isso. 


"Ser trans coloca as pessoas para repensar o que é o ser humano'

-O que tem de bom em ser trans? 

A palavra trans representa revolução. O lado bom de ser trans é que essas identidades se apresentam para a sociedade como uma quebra total de paradigmas e nos coloca para repensar o que é o ser humano. Caso os movimentos LGBTs priorizassem as questões que perpassam as identidades trans, como a lei de identidade de gênero (PL 5002/2013 – lei João W Nery), o direito de exercer o gênero que eu posso, que eu me identifico, que eu vivencio, de quebra também resolveríamos as questões relacionadas às homossexualidades. 

Pois quando se expõe a problemática em torno das identidades de gênero, se propõe: "Quebre tudo isso que você construiu e definiu como homem ou como mulher". E,  se desconstruímos a forma como o gênero é entendido dentro da sociedade, não vamos ter mais problema com as relações homoafetivas . O bom em ser trans é estar o tempo todo colocando as pessoas para pensar o que é gênero, o que é ser homem, mulher, como se estrutura ou como se deve estruturar a sociedade fundamentada em opressão e submissão de um gênero pelo outro, como diz a Berenice Bento: “Não somos prisioneiros da nossa anatomia, dos nossos hormônios ou genital”.

-Qual é o seu sonho? 

Tenho um sonho utópico: que a Lei João W Nery, lei de identidade de gênero, seja aprovada no Brasil. Ela resolveria um dos grandes problemas da pessoas trans no país, que é o documento de identificação. Pessoas que são barradas em balada, no restaurante em que mulher paga x e o homem y... O documento não resolve todos os problemas referentes à discriminação transfóbica, mas alguns dos mais práticos no dia a dia são solucionados. Caso por exemplo sejamos barradas em um banheiro, munidas de um documento que confere a nós a validação do nosso gênero vivenciado, podemos exigir com mais facilidade: “Prova que não tenho o gênero adequado para estar nesse banheiro”. 

E aí não há como o outro se opor, dado que estou amparada por um dispositivo legal reconhecido por todos, dispositivo esse que me foi concedido pelo judiciário – socialmente considerado uma instância de saber, de extremado poder, se o judiciário diz que sou mulher, encara a sociedade que é por que de fato eu sou. Esse poder quase que onipotente pode me dar a vida ou a morte, quando o judiciário indefere uma alteração de gênero, de nome de uma pessoa trans, não está apenas indeferindo um pedido, mas está matando essa pessoa em vida ao lhe negar uma cidadania plena.

-Por qual motivo você acha que é utópico? 

Quantas pessoas se mobilizam para este projeto ser aprovado? Quantas já saíram às ruas para isso? Quem sabe do que se trata? Em quantos lugares esse projeto de lei foi exposto ou está sendo debatido? 

- A cirurgia de redesignação sexual não seria um sonho? 

Sim, mas costumo falar que  a cirurgia vai mudar apenas uma coisa na minha vida: o meu genital. Sabe por que? Porque eu já sou mulher. Eu não tenho o pensamento, como algumas meninas que eu conheço tem, que o dia em que tiverem uma vagina, automaticamente os problemas serão solucionados. Não, eu não preciso de uma vagina para me legitimar como mulher, para me reconhecer como mulher. 

-Se não me falha a memória, você disse lá no começo da entrevista que tinha sonho de ser mãe...

Não tenho mais. Naquela altura do campeonato eu não sabia que se identificar publicamente como trans era tão difícil e que nos fazia angariar tantos problemas. Eu não consigo cuidar nem de mim... Por exemplo, perdi a última consulta com a endocrinologista na segunda-feira porque estava compondo uma mesa de debates, agora tenho que resolver isso que é de suma importância quando se é uma pessoa trans em processo de hormonioterapia, tenho que pensar na alteração judicial dos meus documentos, tenho que descobrir se realmente estou na fila da cirurgia de transgenitalização como me foi passado... Para ter filho você tem que ter disponibilidade, uma situação financeira estável e ter um projeto de vida bem consciente; não digo que você não deva ter problemas, mas ao meu ver, precisa estar muito bem resolvida consigo mesma e com seu entorno. Eu tenho problemas muito básicos, muito urgentes para resolver antes disso.

Dani, para finalizar, aonde você quer chegar? 

Quero me colocar para as pessoas como mais uma possibilidade de ser humano. Até então, as pessoas haviam visto somente a possibilidade do homem com pênis e da mulher com vagina. Agora, tem mais uma: A mulher com pênis. Se eu conseguir modificar a cabeça de uma pessoa, fazê-la refletir e pensar de que forma ela observa a sociedade, de que forma ela se relaciona com as imposições de gênero, para mim, naquele instante consigo uma grande realização.


"A cirurgia vai mudar apenas uma coisa na minha vida: o genital. Afinal, eu já sou uma mulher"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

8 comentários:

Katrina disse...

Ela é muito individualista não aceita ir ao contrário do ponto de vista dela, e isso não é aceitável para uma pessoa que se julga militante, particularmente não aprovo imposição dela, não será assim que chegaremos em algum lugar!

Anônimo disse...

Não tiro o mérito da sua luta, mas ela polemiza por demais algumas questões e não se abre tanto a opinião do outro, de uma maneira impositiva. E nem tudo é como ela deixa transparecer que é.
Laila Mendes.

Anônimo disse...

Como as outras trans e travestis são falsas... As conheço e vejo que criticam a postura da entrevistada em seus grupinhos fechados e descaradamente vem aqui rasgar elogios. Quanta falsidade e hipocrisia...

Carmen Soares disse...

Curioso é que essas pessoas que criticaram a Daniela certamente sequer leram a entrevista. Queridas, entendam quem é a Daniela nesta entrevista e depois comentem. Essa é uma das melhores entrevistas que já vi. Beijos.

Anônimo disse...

Curioso é que mesmo após ler a entrevista e sabendo exatamente quem é quem eu não tenho o livre direito de dizer o que quero.
Beijos, Carmen.

Carmen Soares disse...

A questão é que você é tão covarde que nem coloca o seu nome no comentário e se esconde no anonimato enquanto ela dá a cara para bater. E, assim como Daniela disse, você não está criticando os argumentos, está criticando a pessoa. Se tivesse lido a entrevista, não teria repetido o discurso...rs

Jorgana disse...

Parabenizo ao autor da entrevista e a Daniela pela militância. Penso ser uma grande bobagem de algumas feministas não aceitarem a Daniela por ser transmulher.O gênero perpassa nosso sexo biológico e como identidade e papéis sociais, o feminino sempre é desvalorizado, humilhado e tido como objeto de posse e satisfação sexual. Assim, creio que necessitamos nos unir em prol de uma sociedade mais justa, igualitária e que respeite a nossa liberdade de expressão para concosco e com o mundo externo. P.S: sou cis.

Anônimo disse...

A Daniela é incrível, uma militante incrivelmente forte, com muita opinião e articula bem o que tem pra falar. Por ser muito crítica ela incomoda bastante gente, por causa disso eu acho que ela tá no caminho certo...

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