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Em filme, Lufe Steffen reconta noite gay dos anos 60, 70 e 80 em SP: 'Freddie Mercury ficou de sunga na HS'

Elisa Mascaro e Elke Maravilha, Lufe e a entrada da Corintho

Um convite para visitar e percorrer os espaços das casas gays mais badaladas e requintadas dos anos 60, 70 e 80, em São Paulo. No documentário "São Paulo em Hi-Fi", que estreia no dia 10 de novembro, às 20h, no Cinesesc, Rua Augusta, 2075, em São Paulo, o cineasta Lufe Steffen, 38, retoma o cenário da "Era de Ouro", as estrelas, frequentadores, os donos das boates e proporciona um verdadeiro mergulho na história da cultura LGBT noturna.

Por meio da obra, é possível sentir o glamour das boates Medieval e Corintho, que chegavam a receber espontaneamente estrelas da televisão e que cujas artistas  tinham até carteira assinada. Ou então, se emocionar com as ousadias da Noite da Broadway, que parava a Rua Augusta para que cada frequentador pudesse brilhar na entrada da festa. E até mesmo nos concursos de stripper masculinos da Nostro Mondo. 

Para os gays da época, as casas noturnas eram os espaços de maior liberdade sexual e artística, e representavam a verdadeira transgressão e contato com a diversidade. 

Décima primeira produção da carreira do cineasta, o documentário é um complemento de "A Volta da Paulicéia Desvairada" [2012], que fala sobre o cenário atual da noite gay. Agora, Lufe quer mostrar para as novas gerações o percurso que a geração passada traçou para resultar na liberdade atual. "Espero que essa geração seja reverenciada como merece, porque tudo o que foi contruído é muito importante", reflete ele, em entrevista exclusiva ao NLucon
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Confira abaixo o bate-papo:

- Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre a noite LGBT de SP nos anos 60, 70 e 80? 

A ideia surgiu enquanto fazia o documentário anterior, A Volta da Pauliceia Desvairada. Como aquele filme retratava a noite gay de SP nos dias de hoje, achei que seria interessante fazer um contraponto, mostrando a noite gay de SP nas décadas passadas. Assim, os dois filmes podem se completar, e é interessante comparar os dois períodos. Muita coisa mudou, sem dúvida.

- Quem participa do filme e quais foram os critérios de escolha? 

No total, são 25 entrevistados, pessoas de várias origens e que tinham ligação com o universo da noite. Por exemplo, Miss Biá e Gretta Starr, que atuaram como estrelas nas boates. Elisa Mascaro e Celso Curi, que foram donos de casas noturnas... O critério foi a partir da pesquisa histórica e é claro que alguns nomes eram inevitáveis, pois sabia de antemão que queria entrevistá-los. E, conforme eu pesquisava, surgiam outras indicações. 

- Da sua pesquisa, o que mais te surpreendeu na história das casas?

Não fiquei exatamente surpreendido, porque já tinha algum conhecimento do assunto e já sentia simpatia por essas casas e esse período. Posso citar os shows da Corintho, que até então só tinha ouvido falar. Para fazer o filme,  assisti a vários DVDs com shows da casa e eles realmente são fantásticos.  Não sabia que eram tão bem produzidos, tão bem realizados e com um corpo de bailarinos incríveis. Fora as transformistas, que demonstram um preparo, inclusive corporal e de dança, que realmente me impressionou. 

- O figurino de quem frequentava a noite nos anos 60 e 70 era realmente elegante? Terno, gravata, sapato...

Depende da casa, pois cada uma tinha um estilo, ou melhor, cada pessoa tinha um estilo. O que dá para ver é que na Medieval, por exemplo, o clima era mais sofisticado, então as pessoas se arrumavam mais para sair. De modo geral, nos anos 60 e 70 ainda havia esse conceito de "se arrumar" para sair, ou seja, botar uma camisa, sapato, calça com cinto, ajeitar o cabelo... A partir dos anos 80 isso começou a descontrair, foi ficando mais casual, mais street wear. E, nos anos 90, essa coisa "desleixada" tomou conta de vez. 
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Rogéria e Wanderléa comemoram aniversário na Medieval / Acima, a Nostro Mondo
Elisa Mascaro recebe convidados ilustres na Medieval

- Já existiam os descamisados?

Não, jamais, mesmo porque não era permitido tirar camisa em boate, somente em carnaval ou em festas especiais. E, se pudesse, ninguém tinha um físico malhado, porque esse padrão bombado também não existia. As pessoas tinham corpos normais, sem os excessos de hoje. Então, acredito que ninguém tinha vontade de tirar a camisa para exibir o físico. 

- Conta como eram os ambientes das boates...

Cada uma tinha o seu jeitão. Alguns eram mais finas e requintadas, como a Medieval, e outras mais simples, como a Nostro Mondo, que sempre foi mais popular. Fora os locais "under" mesmo, tipo inferninhos, como Val Improviso, que vivia em obras. 
- Dizem que a proposta de quem ia a uma balada gay era diferente e que prevalecia o interesse pela arte. É isso mesmo? 

É, um pouco, mas tinha um misto de tudo. Havia o público gay básico, que ia como hoje em dia o povo vai: para beber, dançar, paquerar, se divertir, ficar - embora não existisse essa expressão "ficar". E havia o lado digamos cultural, do tipo "Vou para ver o show, curto o show das travestis". Era bem mais descompromissado, pois não tinha tanto essa coisa de ir com objetivos definidos, calculados. Havia mais espontaneidade. 

- Quem eram as artistas que faziam sucesso na noite? 

Havia as travestis no estilo diva, que faziam a linha glamour. Divonas mesmo, no estilo mulher fatal, como a Mona e Erika, no Medieval, e a Gretta Starr na Nostro. Outras eram mais dançantes, mais "show business", como a Margot Minnelli, que fazia shows fantásticos e que hoje mora em Milão; ou a Giselle, que dublava Dionne Warwick com maestria e ficava igualzinha à original. No setor das caricatas, havia a própria Miss Biá, que sempre tendeu para o lado do humor, a Meize e Veneza, na boate Homo Sapiens;  e a Maquiba, que era a Silvetty Montilla da época - negra, hilária, irreverente, debochada e tal. Entre muitas outras. 

- E os gogoboys? 

Não existiam e vale a mesma estética para os descamisados. Não havia esse padrão, com gogo boys dançando em cubos, queijos, não tinha nada disso. Eles só foram surgir nos anos 90.  

- Artistas da grande mídia, como Eva Wilma, Raul Cortez, eram frequentadores das casas. Quais são as histórias mais curiosas envolvendo eles? 

A Medieval foi muito frequentada por famosos, como Chiquinho Scarpa, a Eva Wilma com o John Herbert, Wanderlea, Rogéria, Denner, Dercy Gonçalvez, o cabeleireiro Sylvinho, Marina Montini... E a história mais famosa é a da Wilza Carla, que em 1976 chegou em uma festa montada em cima de um elefante. Ela "estacionou" o elefante na Rua Augusta e entrou na boate. Em outra fase, a Homo Sapiens também começou a ser frequentada por famosos.  Diz a lenda que o Freddie Mercury foi lá uma vez, bebeu um pouco, tirou a roupa e ficou só de sunga preta. Aí o povo colocou ele nos ombros e foi um fervo, claro [risos]. Todas essas histórias estão no filme, entre outras. 
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Nostro Mondo acima à esquerda/ E as apresentações da Corintho


- Assim como o Gala Gay, existia uma noite em que a entrada era praticamente mais importante que a festa, onde todos se vestiam e tentavam chamar atenção com limusines e carruagens... 

Essa era a Noite da Broadway, na Medieval. Ela acontecia todo ano no dia 19 de agosto, porque foi nessa data, em 1971, que a casa foi inaugurada. Depois, na Corintho, a Elisa Mascaro inventou a Noite Hollywood, que era uma versão modernizada e o esquema era o mesmo. O povo se produzindo muito para chegar, para arrasar na porta. 

- Embora sejam dirigidas pela mesma pessoa, a Elisa Mascaro, houve transformações entre a Medieval e Corintho?

Basicamente tem duas grandes diferenças entre elas. Primeiro, a Medieval era uma boate mais mista, frequentada por gays e por héteros, pessoas da sociedade, artistas... A Corintho já foi mais boate gay mesmo, sem tanta mistura. Os shows ficaram muito mais grandiosos. O palco era muito maior, tinha uma escadaria com luzes, ficou tudo mais profissional. Os shows tornaram-se muito Broadway mesmo.

- Aliás, como está a Elisa Mascaro atualmente? 

Ela está bem, está ótima. Lembra de tudo com precisão, continua com uma inteligência e uma perspicácia notáveis. Ela é uma das principais entrevistadas do nosso filme, contribuiu bastante para o projeto. 

- Chega a abordar a partir de qual momento o estilo das baladas mudaram? 

As décadas 60, 70 e 80 tinham um jeito de ser, uma aura de glamour, que foi se desgastando ao longo do tempo.  Na década de 80 foi mudando mesmo, se alterando e o que era chique começou a ficar antiquado. Aí, nos anos 90, surgiu outra linguagem, a coisa despojada, clubber, enfim. Dos anos 80 para os 90 foi uma grande transição.

Eva Wilma e John Werbert com a travesti Erika na Medieval

- Pela sua observação e pesquisa, quais são os pontos que mais mudaram na noite gay dos últimos anos? A droga química teve alguma influência nessa transformação, no sentido de as pessoas não terem paciência para assistir aos shows? 

Não sei responder porque não tenho frequentado muito. De 2005 pra cá, tenho diminuído o meu envolvimento com a noite. Mas, na minha opinião, as drogas não interferiram na noite nos últimos tempos.  Creio que a grande interferência é da internet, das redes sociais, dos aplicativos de celular. Essa, sim, modificou a noite, modificou as paqueras, o sexo, o modo como as pessoas se portam na noite...

- Você gostaria de estar nesta época e vivenciar a experiência dessas casas? Chegou a ter algum sonho durante as gravações? 

[risos] Não tinha nenhum sonho, mas gostaria de ter estado nessas épocas e nessas casas. Gostaria de poder visitar pelo menos por uma noite cada uma delas. Infelizmente é impossível. 

- Quando você sai para balada atualmente?

Saio às vezes, mas muito raramente. Frequentei muito a noite entre os anos 1991 e 2005. Foram muitas noites, muitos lugares, muitas experiências. Hoje em dia não tenho tanto interesse. Mas continuo achando a noite fascinante, tanto que fiz o "A Volta da Pauliceia Desvairada" e agora o "São Paulo em Hi-Fi". 

- Qual é a mensagem que gostaria de passar com o filme? 

Gostaria que o filme ficasse para a história, como referência até para futuros realizadores, pesquisadores, historiadores... E que o filme consiga deixar imortalizada essa época de glamour, mostrando  a garra das pessoas, que conseguiam se divertir e vivenciar a vida noturna enfrentando todas as barras: ditadura, polícia, preconceito, aids, falta de dinheiro, enfim. Eram tempos heróicos e acho bacana registrar isso. Às vezes percebo que as novas gerações gays, o pessoal que tem 20 anos agora, demonstra certa arrogância, certo esnobismo, ignorando o passado da comunidade gay. 

Muitos agem como se tudo tivesse sido do jeito que é hoje. E não sabem que, para que hoje o povo possa se beijar na rua, andar de mãos dadas e até ferver em shoppings, bares... Foi preciso que muita gente desse a cara a tapa numa época perigosa. E o cenário da noite gay, no passado, era a principal, senão a única trincheira onde se podia fazer isso. Você só tinha a noite para poder se expressar e ser gay livremente. Então espero que essa geração antiga seja reverenciada como merece, porque pode parecer bobagem, mas o que foi construído é muito importante. Espero que o filme tenha conseguido deixar isso explícito. 
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Turma de frequentadores da Corintho
Animação na Corintho nos anos 80

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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