Entrevista

Maite Schneider diz que olhar da sociedade não muda após cirurgias: 'Se te viam como traveco, continuam'


A atriz, depiladora, webdesign e ativista Maite Schneider sabe as dores, as pelejas e as delícias de ser desbravadora, pioneira e mulher transexual há 41 anos. Nascida em Curitiba, capital do Paraná, soube desde cedo que se identificava com o universo feminino - embora não houvesse referências de outras mulheres transexuais [além de Roberta Close] e tampouco informações sobre o assunto [pelo menos na ponta dos dedos, como o Google, Facebook, Twitter e afins]. 

Percorreu um caminho solitário, iluminou por si só a existência, fez loucuras com o corpo que vestia [experiências traumáticas num período em que sequer era possível esperar a criticada fila do SUS] e sofreu violências [morais e físicas] de quem a observava. Por fim, com muita coragem e sensibilidade, conseguiu transformar as dores e cicatrizes em arte, em informação e em gritos de militância: um deles, na charmosa Casa da Maite, um site com clipping de notícias, colunistas, ajuda psicológica e jurídica. 

Atriz e diretora, também está envolvida em projetos transgressores. Interpretou Maria [a mãe de Jesus, e não a Madalena] em uma peça, e Deus em um editorial de moda [antes mesmo de Lea T]. Falou sobre a sua vida na novela Viver a Vida, em 2010, e quase entrou para o BBB11. Recentemente, esteve em um filme ao lado de três atrizes transexuais. E, claro, está sempre atuante em campanhas e manifestações políticas que acredita.

Com grande parte dos seus sonhos realizados, como a mudança dos documentos e a operação de redesignação sexual, Maite poderia muito bem viver no anonimato - como a maioria. Porém, investiu na visibilidade de sua condição e se tornou um exemplo para o grupo. Ela agradece, mas diz ser um anti-exemplo. Concordamos mais com Jô Soares, jornalista que a entrevistou em 2011: "É uma pessoa vitoriosa e uma mulher corajosa". Também uma das mais importantes ativistas do cenário LGBT brasileiro: 

Confira entrevista exclusiva!

- Atriz, poetisa, escritora, depiladora, web design e militante... Quais dessas funções ocupam maior parte do seu tempo e quais delas traz maior prazer? 

Ai, que difícil! Varia muito de época, pois às vezes estou focada no teatro, com os ensaios, apresentações... Em outras, como agora, estou focada em um longa. E a clínica e a militância ficam encaixadas entre essas funções. O único trabalho que eu mantenho sempre é o site. É um filho, que faço há 15 anos e que me proponho a continuar – sempre! Mas gosto de tudo e encaro cada função com a sua peculiaridade. Amo teatro, pois amo estar em cena e tenho a sorte de trabalhar com diretores bem legais. Porém, não dá para viver de teatro em Curitiba, infelizmente. O cinema não é um verdadeiro caso de amor, pois não é a minha área, mas vou de curiosa, pois envolve arte e estou aprendendo a achar seus encantos e paixões. Agora, a depilação, além de profissão, é um bem que eu faço para a humanidade, pois detesto pelo [risos].

- [risos] Por conta dessa agenda cheia, ficamos meses marcando esta entrevista. Você consegue encaixar a sua vida pessoal em meio aos diversos trabalhos?

Claro! O meu foco é a minha vida pessoal e procuro trabalhar principalmente com aquilo que tem relação comigo. Não distingo o meu trabalho da minha vida, pois quando recebo uma proposta tento sempre unir o útil ao agradável. Quando criei a Casa da Maitê [site e clínica de depilação masculina], por exemplo, quis que ela se tornasse uma casa para não ficar tão distante de mim e das pessoas. Quando não estou bem, digo que não estou boa e tento seguir o meu ritmo. É claro que tenho responsabilidade, seriedade na profissão, mas já aconteceu de eu não estar bem e, por exemplo, desmarcar uma cliente de depilação, que voltou em outro dia. Portanto, quem me ver em um projeto, já sabe que eu estou 100% envolvida nele.

Trabalhos de Maite na moda, cinema e teatro

- Você disse que o projeto atual é um longa. Pode adiantar alguma novidade dele pra gente? 

O título provisório é “As Feras”, é dirigido por Serge Barroso e Wesley Conrado e fala da história de uma mãe, em que eu interpreto, e a sua filha de 17 anos, que eram milionárias, mas que atualmente sobrevivem da pensão do ex-marido, moram em um buraco e ainda acreditam que são divas [risos]. Quando o ex-marido dela diz que está em outra relação e que não vai mais depositar o dinheiro, elas saem enlouquecidas na rua com um revólver e passam a assaltar igrejas, matar e a mãe acaba cafetinando a filha... É um filme muito bacana de uma turma de 60 pessoas, das mais variadas áreas, que se formaram em Cinema na FAP [Faculdade de Artes no Paraná]. Deve estrear no fim de 2014.

- É mais uma personagem que foge do óbvio. Lembro que em sua estreia você chegou a interpretar a Maria, mãe de Jesus, e que recentemente foi Deus para um trabalho de modelo. Como repercutiram esses ousados trabalhos? 

Curiosamente, esses dois trabalhos foram do Alexandre Linhares, que trabalhou no teatro e, depois, se tornou designer de moda.  Na peça, ele me convidou e disse: "Maria engravidou virgem do Espírito Santo, então uma transexual também poderia engravidar". Eu achei o máximo, mas foi um boom polêmico, pois uma das Assembleias falou mal da peça em uma reportagem e disse que faria até uma manifestação no dia da apresentação. Acabou que todos os ingressos foram vendidos e eles, que fizeram toda a divulgação espontânea, nem apareceram por lá [risos]. Já, na grife, as pessoas também acharam um desrespeito e abarrotaram o site da Veja. Falaram mal, mas nem se deram o trabalho de ver o que se tratava, pois não era ofensivo. Eu representava Deus como uma unidade cósmica.

- Incomoda o título de atriz trans?

Não, porque hoje em dia pouca coisa me incomoda - inclusive me chamar de Alexandre não me incomoda, desde que não seja de maneira pejorativa. Também não me sinto ofendida quando falam que eu sou travesti, pois a referência que eu tenho hoje da terminologia e da vivência  é positiva. É um processo de maturidade, contexto e foco.

- Você tem DRT de atriz, já estrelou inúmeras peças de teatro, esteve em filmes... Acha que a televisão, embora tenha alguns casos, ainda não está preparada para uma atriz, que é transexual? 

Mas quem disse que não tem trans lá? É lógico que tem. Acredito que não tenha trans públicas que trabalhem e que comprem essa ideia. Mas com certeza existem trans lá dentro, que já passaram pelo processo há muito tempo e que sabem que, se falarem [sobre o passado], podem enfrentar dificuldades. Para mim, essa dificuldade é pior porque tenho uma vida pública e militante. As pessoas acham que estarei com a Constituição embaixo do braço, como se fosse uma evangélica ao contrário, só que com a Constituição [risos]. É claro que milito quando vejo determinada cena de preconceito, quando alguém manda o negro sair do elevador e ir no de serviço, mas nunca vesti uma camiseta 100% trans.  É curioso esse cenário no Brasil porque a militância não é vista com bons olhos pela mídia, ao contrário de outros países. A Angelina Jolie, por exemplo, é reverenciada pelo trabalho de militante, mas aqui ela seria vista como barraqueira.

Maite acredita que várias atrizes transexuais já estão figurando na telinha da tevê: "Elas só não são públicas"

- E por qual motivo não temos essa representatividade trans nas novelas? A arte não deveria ser mais aberta com as artistas e a diversidade?

Temos artistas competentes, como a [Maria Clara] Spinelli, que já ganhou prêmio [no cinema, pelo filme Quanto Dura o Amor?]. Mas isso tem que partir do diretor, autor e roteirista. O Miguel Falabella já poderia ter colocado há séculos uma trans, já que ele é uma pessoa acessível e que traz essa possibilidade em seus trabalhos. Agora, talvez seja uma limitação da emissora ou dos patrocinadores. No teatro, por exemplo, um diretor disse que eu jamais poderei fazer Julieta, embora o Romeu seja feito por um gay. Já houve peças em que o patrocinador, após ver o meu nome no elenco, dizer que pagaria, mas que não queria o nome da empresa no material.

- A maioria das mulheres transexuais vive no anonimato e prefere renegar o passado depois da cirurgia de redesignação sexual. Por qual motivo você sempre bateu na tecla da visibilidade trans?

Sinceramente, não tive escolha. Quando comecei, há 15 anos, não havia muita opção na internet, só existia a BBC do Mix, um chat, não tinha Google, não existiam livros ou teses acessíveis sobre o tema. A única referência era a Roberta Close, que dava entrevistas na televisão, mas que vivia em um mundo diferente, de glamour... Ao mesmo tempo, quando passavam os debates no programa da Sílvia Poppovic, as meninas davam o depoimento de costas, com voz de pato, como se ser transexual fosse uma coisa suja, maldita, errada. Até entendo que era para preservá-las, mas parecia que era errado. Então, quando criei a Casa da Maitê não quis ficar de costas, quis ficar de frente. Decidi criar o site depois de teclar com várias pessoas no chat e elas sempre me perguntarem as mesmas coisas. Para facilitar, escrevi todas as dúvidas na página e, a partir delas, eu conversava sobre outros assuntos. Acabei sendo a única que falava de frente e de maneira bastante tranquila. Para mim foi ótimo, pois, me conhecendo, fui conhecendo outras pessoas.

- Em nenhum momento pensou em acabar com a Maite e passar a viver como mais uma mulher? 

Quando fui trocar o nome dos documentos, a [jurista] Maria Berenice Dias perguntou se eu não queria usar outro nome feminino, tirar as fotos do meu site, ser Maria... Naquele momento, cogitei. Na época, estava namorando uma pessoa que não subia na empresa, mesmo tendo todos os pré-requisitos e que descobrimos posteriormente que o motivo era por estar comigo e ter essa condição pública naquela empresa familiar. Então, pensei que havia deixado de ser uma questão minha, particular, para ser algo que afetava outras pessoas. Além disso, achava que já havia feito a minha parte para o grupo...

- E o que te fez continuar nessa caminhada? 

 A transexualidade é uma qualidade inerente e quem gostar de mim vai ter que gostar do jeito que eu sou. Mas vou tentar explicar porque continuei: Fiquei até os 23 anos sem sair de casa, não queria, não conseguia. Tinha medo das pessoas por já ter sofrido dois casos de violência, com exames de corpo de delito, hematomas e o descolamento do nariz de tanto apanhar. Por mais que eu tivesse muita sorte, que a minha família estivesse do meu lado, foi difícil, não foi algo como "ai, que delícia, sou menina e vamos lá". Estava na dicotomia entre homem e mulher e achava que passaria a vida na marginalidade, me entupindo de hormônio, tendo que lutar contra a sociedade e não queria ser mártir ou a salvadora. Quando o médico falou sobre a cirurgia, disse: "coloca um cérebro que converse com o meu corpo". Não tive paz e neste período tive dois relacionamentos afetivos com casos de violência... Foram anos e anos de terapia. Comecei a me reerguer quando vi outras pessoas passando por aquilo e que eu era uma felizarda por ter uma família como a minha. Comecei a fazer militância e estar em projetos e palestras que achava legal. E percebi que isso era importante, que as pessoas me escreviam contando as suas dificuldades e que eu poderia ser bem mais útil. Eram meninas dizendo que apanhavam, que não conviviam bem com os pais, que eram vítimas de preconceito... E eu fui conversando, ajudando e percebendo que o trabalho de formiguinha tinha resultado.

Trabalho de João Evangelista Souza

- A Casa da Maitê é o maior site voltado para o grupo trans e certamente você deve ser bombardeada por muitos pedidos de ajuda e dúvidas. Consegue se envolver com os casos? 

Me envolvo com todas as dúvidas, pessoas e histórias, porque tudo é muito pessoal. Recentemente, estive próxima de uma menina de uma cidade pequena do Nordeste com quem eu trocava e-mails e que dizia que a família era preconceituosa, que havia muita violência e estupro, inclusive feito pelo próprio pai. Ele dizia "que ser mulher era se submeter àquilo". Bom, conversamos durante seis meses e eu chegava a ligar para ela, que sempre chorava muito. Até que ela parou de mandar e-mail, ninguém mais atendia os meus telefonemas e eu recebi um e-mail da mãe dela, dizendo que ela havia se matado. Poxa, fiquei pensando: Será que eu não poderia ter feito mais coisas por ela? Será que era mesmo a mãe dela ou era ela que entrou em uma crise e quis acabar com a conversa? Então, não tem como não se envolver.

- Que triste. Me conta uma experiência de ajuda positiva...

Tive contato um transexual masculino, que conheceu a minha sobrinha, de 12 anos, e que a minha irmã chegou dizendo que os dois estavam tendo um caso lésbico. Chamei a minha sobrinha para vir em casa, coloquei um documentário sobre a minha história e disse: "Eu não acho justo eu entrar na sua vida sem que você entre na minha". E ela me contou que ele era um amigo, que gostava de conversar e que ele era um piá [homem]. Eu chamei ele  para vir em casa e ele apareceu com a mãe, uma advogada, que contou que desde cedo ele tinha excesso de testosterona, que já usava faixa no peito e que tinha o corpo todo tatuado aos 11 anos... A minha irmã, que é psicóloga, separou os dois e, tempos depois, ele apanhou dos próprios inspetores de alunos. Entramos com um processo contra o colégio e demos todo o apoio para ele. Hoje, ele  tem 16 anos, me liga, traz a namorada nova para eu conhecer e o mais legal é que ele, que só tirava nota baixa, passou a ser um dos melhores alunos. Já fez, com a autorização da mãe, a retirada dos seios. Aos 18, vai fazer a histerectomia. Sabe, eu não tive isso, mas acho legal e importante fazer parte de outras realidades, com menos sofrimento, com menos dor.

- Como é ser exemplo para o grupo? 

As minhas experiências não são bons exemplos, são loucuras. Não quero ter uma seita de Maitês, pois sou mais um anti-exemplo. Já testei muita merda, já fiz muita cagada no meu corpo tentando me operar. Sabia que silicone líquido fazia mal e fui lá, com a bombadeira drogada, aplicar. Já fiz merdas com hormônios, testes com o meu corpo... Mas, por ter essas experiências, aprendi e sei falar dos outros caminhos...

- Você venceu uma dura batalha para conseguir a cirurgia de redesignação sexual [popularmente conhecida como mudança de sexo]. Ela muda em quê na vida de uma mulher? 

Para cada pessoa muda alguma coisa. Mudou muito para mim porque eu não era uma pessoa que tinha vínculo com o meu corpo. Não gostava, não limpava e tive até problemas, como um início de câncer peniano. Mudou porque, como poderia ser uma pessoa sexual se não me sentia tranquila em me tocar? Nem sabia o que era trans, mas tinha um caso de ódio e tentei suicídio aos 11 e aos 15, achando que eu tinha um problema e que teria que acabar com esse problema. Poderia ter um buraco para fazer xixi, mas não queria aquilo. Tive uma série de erros e fui atrás de eu mesma fazer. Vale lembrar que não existia esse bando de hospitais fazendo, era outro mundo. Hoje, reclama-se de uma fila de 2 anos, mas e antigamente, que não tinha fila alguma?

- Mas o que muda definitivamente na vida prática? 

 A cirurgia é vendida como um pote de ouro, mas o que muda mesmo é o olhar de você sobre você. O olhar do outro, da sociedade, sobre você não vai mudar com a cirurgia. Se o outro te via como mulher, vai te ver como mulher. Se o outro te via como traveco, vai continuar te vendo como traveco.  É por isso que muitas se escondem e vivem uma vida infeliz, com medo de serem "descobertas". Várias colunistas do meu site me escrevem pedindo para tirar do ar os textos e que não querem mais contato comigo. Tem uma que foi morar na Europa, vive um casamento e ficou super infeliz quando um amigo, que não sabia nada sobre o passado, comentou que a boca dela era meio de homem. Na verdade, as pessoas acham que a cirurgia é o grau final e faz parte do processo evolutivo para ser mulher. É vendida como uma maravilha e o caminho para a felicidade. Pode realmente ser o caminho, quando é o caso da pessoa. E esta é pergunta que ela deve fazer para ela mesma. Não é um médico e nem o meu site que vai dizer quem ela é. É só a própria pessoa. Tem gente que acha que só porque é passiva é transexual. Tem gente que acha que só porque estuda não é travesti. E tem quem acredita que é transexual só porque é bonita. Mas você pode, sim, ser transexual e prostituta. Pode ser travesti e ser passiva e ser bonita. Tudo pode, mas a única pessoa que pode saber quem você é, é você.

Nos curtas Palmeyra e  Quatro Fíntchy

- O que você teve que descobrir sozinha depois da cirurgia? 

Na verdade, você tem que aprender a se descobrir.  E começar a descobrir aos 30 o que uma menina descobre aos nove . É diferente uma punheta de uma siririca e é diferente uma siririca de uma neovagina, assim como é diferente cada vagina. E ninguém te explica, só falam: "dilata, senão fecha, dilata, dilata". Parece que a única preocupação é que o canal não feche. E não é bem assim. Eu estava com o discurso da mídia, que é lindo, e com as palavras de pessoas como a Roberta Close, que só falavam coisas lindas. E eu estou indo para a minha 14ª cirurgia. A última, eu espero!

- Você está prestes a completar 41 anos. Como se sente? 

Fisicamente me sinto super bem. Devo fechar o ciclo das cirurgias e me sinto com tudo, inteirona, gostosa, sexy. Estou empoderada de todas as coisas e vivo a plenitude de tudo isso. Quis viver os 20 e não pude, quis viver a infância e não pude, então os quarenta anos é a primeira idade em que eu posso viver plenamente. É claro que dá uma câimbra que eu não tinha, que fico cansada às vezes e que não fico na balada até altas horas, mas estou vendo tudo com mais lucro que revés.

- Hoje, qual é a sua luta? 

 A minha luta é contra o discurso único, é contra a determinação "Ser trans é... ".  Sou contra as definições, pois, mesmo que eu mande um link geral falando sobre elas, vão surgir novas questões. Infelizmente, os grupos antigos de militância querem um discurso único, da ovelhinha seguindo a cartilha. Mas, em minha opinião, devemos ser mais libertadores. O [escritor e jornalista] João Silvério Trevisan diz e eu concordo: "Eu quero ter o direito de ser anormal. Afinal, o grupo LGBT poderia estar um passo a frente nessas amarras sociais, mas estão voltando ao clichê". Não acho ruim, mas desde que seja por vontade própria e não porque foi imposto ou porque seremos mais aceitos. Muitas trans querem operar para ter o direito ao nome feminino e para serem mais aceitas, como se fazer a cirurgia fosse curar todas as dores do mundo. Mas nem sabemos se ela quer realmente fazer e, às vezes, nem ela sabe se quer e está carregada desses preconceitos.

- Em tempos de Felicianos e Malafaias, você esteve frente a frente com Jair Bolsonaro em um debate do Superpop (RedeTV). Como foi esse encontro? 

Primeiro, as pessoas devem, sim, colocar as suas ideias, inclusive o Bolsonaro. Afinal, ele foi votado para estar no lugar em que está por causa daquele discurso cruel. Logo, não dá para mandar ele se foder, pois aquele discurso representa uma grande parte da população, que pensa que o pai deve sim bater no filho gay. Fiquei chocada em ver essa sociedade-família-evangélica que só fala de ódio, mas sabia que a melhor maneira de se combater um discurso preconceituoso é tentar entendê-lo e jogar o próprio discurso contra ele mesmo. Perguntei se o Bolsonaro acreditava em Deus, disse que ele estava incitando a violência com aquelas palavras e que recebo e-mails de gays que apanharam de seus pais por causa dele. O que me deixou triste é que o programa chegou ao fim e todo mundo começou a dar o contato para shows e afins, e eu falei: "Quero é deixar o site da ouvidoria da Câmara para denunciar esse deputado".  E, quando acabou, ele pediu para tirar uma foto comigo. Respondi: "O senhor só pode estar brincando, né?". E ele disse que não era brincadeira, que tinha “até tirado a foto com a sapatão”, no caso a Thammy, e que não via problema. Virei e fui embora, claro.

Maite vive atualmente, aos 41 anos, a sua primeira fase plena

- Já esteve filiada a alguma Ong ou grupo? 

Uma vez entrei no grupo Dignidade só para cuidar da questão das Paradas, que não existia em Curitiba. Estive na frente das cinco primeiras Paradas da Diversidade até ela se tornar o boom que é hoje. Saí porque, enquanto houver demanda, a Parada não pode ter uma cara só e ela estava muito veiculada a minha imagem. Além disso, a Parada era da Diversidade, tinha o movimento do catador de papel, do cigano, do negro e o Dignidade passou a dizer que teria só o gay. E eu não concordei porque o movimento gay é um grande presente, pois dá a possibilidade de conversar com outros movimentos, promover uma ponte com outros grupos. Então, não participo mais do trio, não subo no palco, mas continuo indo porque considero importante. Também ajudei a fundar o Trans Grupo Marcela Prado, que foi o primeiro grupo unicamente trans do Sul do Brasil, e depois que o grupo foi instituído, eu saí fora. Quando o grupo começou a andar por conta propria, sai, deixando para que outras pessoas cuidassem, mas continuo ajudando como voluntaria em todas as ações feitas pelo TransGrupo Marcela Prado e que eu acredite. Assim como eu outras ONGS.

 - Durante muito tempo, você quis entrar para o Big Brother Brasil, da Globo. Tem ainda essa vontade? 

Em 2011, fui até o fim da seleção ao lado da Ariadna. Mas eles queriam uma que fosse solteira, que não fosse conhecida e, na época, já havia ido ao programa do Jô. Eu também estava namorando e frisei que não havia possibilidade de me envolver lá dentro. Já faz dois anos que eles não colocam, então quem sabe role dessa vez.

- Acha que rolou preconceito com a saída da Ariadna na primeira semana? 

Não. Foi um jogo que ela fez e que não deu certo. Ela sabia exatamente o que eles queriam, pois você sabe se vai ser a santinha, o vilão, só pelas perguntas que eles fazem. Ela jogou, não quis falar sobre o passado, jogou e não conseguiu. Mas se ela tivesse ficado com alguém lá dentro ela ficava até o fim do programa.

- Qual foi o seu momento de glória? 

Foi na minha formatura, a minha primeira faculdade. Até então, fiz Direito e parei. Fiz Letras e não me encontrava. Voltei para a faculdade aos 36 anos e fiquei quatro anos focada nos estudos. Pegar o certificado foi um orgulho, sabe, de ter conseguido concluir, de ter o nível superior, de ter ido todos os dias para a aula, de exercer essa vida acadêmica. Foi a prova de que não tem idade para a gente fazer tudo a qualquer hora. Foi um respiro de vida, para um 40 anos mais poderoso.

Vamos torcer! E, hoje, qual é o seu sonho? 

Quero morar em São Paulo, poder viver plenamente de arte e das coisas que eu gosto. Gostaria que meus sonhos fossem mais possíveis e que eu pudesse participar de mais testes. Poderia até não passar, mas que me servisse de incentivo para eu me aperfeiçoar e correr atrás de uma nova oportunidade.

Vamos torcer por Maite no Big Brother Brasil!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Ricardo Rocha Aguieiras disse...

Gosto muito dela, conheço-a desde o comecinho do "Casa da Maitê" e da Lista GLS, embora só a tenha visto uma vez. Ela é importantíssima, talvez nem saiba quanto. Ao contrário de outras trans* mulheres, hoje, ela nunca se afastou dos gays e nem os acusa sem parar, ela não gera afastamentos. Sempre a vi amorosamente, falando em amor e em Justiça, abrindo portas, não as fechando. Quero muito que ela seja feliz, imensamente. Fico triste com tanto sofrimento com relação ao seu corpo, acho que já passou da hora do Brasil e do mundo "tratarem" a transexualidade bem mais cedo, isso evitaria um monte de dor. As fotos estão lindas!!!!!!! Obrigado, Neto!!!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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