Entrevista

'Não me defino como mulher e nem como homem', diz o ator e ativista Leo Moreira Sá

Leo Moreira Sá não acredita em conceitos ou categorias / Foto: André Stéfano

Aos 55 anos, Leo Moreira Sá é ator, iluminador, transhomem, ativista e, acima de tudo, sobrevivente de uma cultura binária, sexista, machista e preconceituosa com pessoas que desafiam as normas. Nasceu e foi registrado como Lourdes, do sexo feminino, mas com o tempo e, diga-se de passagem, muitas cicatrizes encontrou a identidade masculina que verdadeiramente o completou. 

A sua rica e ousada história, que tem passagem pela banda de pop rock feminista Mercenárias, o relacionamento com uma travesti e a vida dentro de uma penitenciária feminina, virou um espetáculo teatral, Lou & Leo, dirigido por Nelson Baskerville, que emociona o público e dá luz ao tema desde junho de 2013. [ confira a crítica clicando aqui.]

O NLucon acompanhou dois ensaios, a estreia de peça e assistiu outras três vezes. Em uma delas, entrevistamos o ator nos bastidores. Devido ao horário de fechamento do teatro, a entrevista foi interrompida e, por excelência de conteúdo, combinamos uma nova conversa, que ainda não aconteceu.

Como nesta quarta-feira [6] será exibida a entrevista de Leo no programa Gabi Quase Proibida, do SBT, reavaliarmos o rico conteúdo da primeira conversa e resolvemos introduzir o debate, disponibilizar com exclusividade a entrevista e salientar o quão rica é a história de Leo.

Abaixo, a nossa primeira conversa:

-          Você conta a sua história e exibe as suas marcas em uma peça de teatro. Como está sendo essa experiência?

Mais que um desejo, era algo que eu precisava fazer. Sempre tive essa vontade na minha cabeça de contar a minha história. Escrevi algumas partes de um futuro livro, que é um projeto simples, e quando surgiu o ProAc LGBT, falei: “Posso fazer um monólogo”. Chamei o Nelson e deu tudo certo. E é claro que não conto tudo, mas as principais partes. O mais importante para mim foi colocar os fantasmas, principalmente os da cadeia, para fora. O meu objetivo com este trabalho e com os outros que faço é levar informação, pois passei muitos anos da minha vida assumindo discursos que não condiziam com o que eu queria e sentia.

-          Discursos que não englobavam a sua essência masculina, o discurso do Leo?

É. Passei pelo movimento feminista, das lésbicas, mas é claro que não fazia parte daquele grupo, porque eu não era uma mulher e não sabia. E ao mesmo tempo eu queria me libertar, fazer parte daquilo e não conseguia. As Mercenárias foi uma experiência incrível, foi legal, mas eu assumia aquele discurso e não conseguia me encaixar nele. Demorou muito para eu entender em qual lugar eu me encaixava e acredito que as pessoas devam ter informação para poderem entender quem elas são. E eu quero levar essa informação para todos que assistem.  
  
-          Em qual momento que você teve as informações necessárias e o "start" de que é, na verdade, Léo?

Quando entrei na cadeia em 2004, já estava totalmente transformado. Tinha tomado muito hormônio, estava com a Gabriela e era um monstro, cheio de músculo, barba, uma loucura. Tanto que entrei como homem e as mulheres ficaram doidas por mim. E foi um homem trans lá de dentro que me batizou de Leo.

-          Me explica: E a passagem de que você é agredido e se vê homem em uma poça de sangue? É só uma passagem cênica?

É uma jogada do Nelson, apesar de eu ter questionado muito. Pareceu-me algo meio Lacan [psicanalista francês], que dizia que a transexualidade é uma esquizofrenia, quando a personalidade se divide por algum trauma. Aquela cena me pareceu bem Lacaniana, pois o Leo aparece no trauma [ele é agredido por uma presidiária e se vê obrigado a se defender]. Mas o Nelson me convenceu de que era cênico e eu concordei. A Lou era uma parte de mim e o Leo sou eu inteiro. Sou a pessoa integral.

Leo e o elenco da peça Lou & Leo, encenada em São Paulo

- Durante a peça, a palavra transexual não aparece nenhuma vez... Apesar de querer levar a informação, não gosta dos rótulos?

Não me defino nem como homem e nem como mulher, porque não quero entrar em categorias. É claro que estou no universo masculino. É claro que me defino como transhomem como uma forma solidária aos meus pares, como uma forma política. Mas esse espetáculo mostra exatamente quem eu sou. Não acredito em conceitos ou categorias, pois homem e mulher são categorias que foram construídas ao longo do tempo e que só existem porque a sociedade falou que existe. Quem está forma da norma consegue ver melhor e refletir que só existe a norma porque existe aquilo que chamam de anormal. Só existe a saúde porque existe a patologia, o antagonismo. E o que é saudável? É ser hétero, é a reprodução, é o homem ou a mulher? Para eu poder me definir, diria que sou um transqueer, porque tenho uma visão queer, mas “transqueer” também é uma categoria. Então, eu sou o Leo e essas são as minhas vivências.

     -      Como foi mexer nessas feridas durante os ensaios e o processo de criação?

Puta, cara, foi foda! O Nelson, que não tem muita paciência, teve que ter paciência pois houve épocas em que eu travei. Essa cena do Rodrigues [em que Lou é estuprada pelo cunhado em alto mar], Nossa Senhora, eu não conseguia dizer aquele texto. Não conseguia e não tinha jeito. O Nelson brigava comigo e eu dizia: “Você me entende?”. E ele: “Não quero saber”. Depois, falou para eu ir a uma psiquiatra amiga dele, mas eu não quis. Passei 15 anos fazendo terapia, não quero [risos]. E eu enfrentei. Mexer nessas feridas foi muito difícil, foi muito sofrido, mas eu consegui superar.

-          Você ainda hoje chora com o texto?

Não choro mais. Fazia certas cenas que eu não conseguia parar de chorar, por exemplo, quando eu saio da cadeia e não tenho lugar para ir. É verdade isso! Eu via os carros na frente e me perguntava: “Para onde eu vou?”. Chorava como um louco, mas hoje não. O Nelson me dizia: “Você quer fazer uma peça para deixar as pessoas constrangidas? Você não pode chorar, quem tem que chorar é o público”. Eu tive que aprender a estar no palco e passar a mensagem sem que ela estivesse contaminada. Esse processo foi basicamente de encarar as minhas fraquezas, olhar para as minhas feridas e tentar conviver com elas. É claro que não dá para expulsar os demônios, mas você consegue conviver com eles [risos].

-          Com o pensamento queer, você acredita que conseguiria, hoje, ter sido um homem com seios e não ter feito a cirurgia?

A única coisa que eu não consigo conviver é com os peitos. Não adianta, não consigo, é um negócio que não tinha nenhuma condição de dar certo. Desde criança, eu achava que tinha um pinto, que tinha um corpo condizente com o que eu pensava. Com o passar do tempo, foi crescendo o peito e era algo muito visível e eu não conseguia conviver. Foi difícil eu me adaptar e achar uma persona – no caso a Lou - que conseguisse andar de peito. Mas, hoje, estou satisfeito com o meu corço. Não vou mexer na parte de baixo e inclusivo acho que vou conseguir conviver bem. Até ficaria pelado na peça.

-          Existiu essa possibilidade de você ficar nu em cena?

Eu falei que toparia uma cena que não fosse gratuita. Mas o Nelson é um cara tão sério que disse que esse não era o foco, que o foco é a narrativa, a história que eu tenho para contar, não é o corpo pelado. Tanto que no final aparece todo mundo nu na projeção, mas picadinho...

Leo e o diretor Nelson: processo de ensaios e criação foi doloroso, mas impecável

-          Se pudesse escolher, teria nascido como Leo ou Lou?

Viria como Leo. Queria nascer um homem lindo [risos].

-          Mas não sente orgulho de sua trajetória como Lou e Leo? Ela é fantástica!

Sim, porque consegui sobreviver muito bem. A Lou foi uma artista, conseguiu muita coisa. Ah! Quando eu falo Lou, sou eu mesmo. Sou eu em um espaço de tempo diferente, que tinha esse nome. Assim como sou eu o Zezinho, a Lurdinha... Até porque não me incomodo com essa história de “a”, “e”, “o”. A minha irmã chegou aqui na peça e disse: “Você está linda”, “Adorei minha querida”, “ela não mentiu em nada” [risos]. Juro por Deus! Ela é católica e é assim. Ou seja, sinto orgulho por ter sido um sobrevivente.

-          Não te como não perguntar... A travesti Gabriela, com quem você chegou a se casar, é o seu grande amor? Não teria como retomar o romance?

Gabriela sempre será o maior amor da minha vida. Aliás, acho que ela é o amor da minha vida, mas o nosso tempo já passou. Não tem como viver com ela, principalmente porque a droga nos separou.

-          Com tantas experiências fortes, a cadeia é a que traz os maiores fantasmas?

Cara, houve época em que eu pensava que a cadeia nunca fosse sair de dentro de mim. É um negócio muito marcante e eu fiquei muito sequelado. Agora, estou tendo muitos amigos, mas fiquei uma época muito fechado.

Gabriela e Leo: casal que chocou até mesmo a comunidade LGBT

-          Qual era a sua relação com as presas?

Nossa, uma loucura! Sobrevivi lá porque tinha muita mulher e, Meu Deus, eu era o único que tinha barba. Então, imagina um homem dentro de uma cadeia de mulher? Só as grandes bandidonas ficavam comigo. Tive três mulheres que eu casei e morei junto. Bandidonas, mesmo, tudo bocada [risos]. E lindas, as mais lindas. E elas me protegiam, né?

-          Daquele ambiente, acredita que pode haver redenção? Qual é o principal problema?

O problema é a infraestrutura. O Estado não dá assistência suficiente, não dá assistência médica, dão pouquíssimos empregos... Para mim, o sistema carcerário é um depósito de lixo. Jogam tudo ali e, claro, as pessoas não têm outras possibilidades. Como eu praticava o crime e não era do crime – porque existe essa diferença – eu sofri muito até conseguir me adequar. No primeiro ano, quase morri, como aquela briga com a Tia Carioca. Era tirado de otário para todos os lados e, por isso, peguei as mulheres mais bandidas para me proteger.

-          E como era a rotina?

As pessoas em geral tem uma visão distorcida do que é uma cadeia. Ela é um lugar extremamente organizado, tem ética, tem regras, principalmente se for do PCC. Quando Estado falha em dar infraestrutura, o crime dá o seu jeito. Tanto que o sistema carcerário negocia e... [Leo conta alguns detalhes em off].

-          Depois de ser preso, qual é a sua opinião sobre as drogas?

Não tenho nenhuma opinião moralista. Para mim, não serve. Sou uma pessoa muito intensa, me jogo de cabeça, me mato, vou até o fim. A coisa mais louca é que não morri – mas fui preso. E o mais engraçado é que sai da cadeia sem a menor vontade de ir para noite. Eu quero construir a minha vida e olha o trabalho todo que estou tendo. Você acha que eu tenho tempo de ir para noite, de querer usar droga? É claro que não.

-          Hoje, como ator, o que muda?

É meio atípico um ator contar a própria história no teatro, mas o Nelson me falou desde o início: “Você não é um ator, você vai contar uma história para as pessoas”.

-          Longe de mim contrariar o Nelson, mas, para mim, que assisti Lou & Leo e Hipóteses para o Amor e a Verdade, fica óbvio que você é um ator e que poderia interpretar qualquer outro personagem, além da própria história...

Além disso, acredito que quando a minha história vai para o palco ela deixa de ser minha. Ali é outro espaço, outra dimensão. É claro que as minhas emoções ajudam, mas não sou exatamente eu ali, não mesmo...

Leo Moreira Sá

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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