Pride

Xô competição! Travestis e transexuais falam das amizades que fizeram dentro da comunidade trans


Certa vez, disseram-me que a união e a amizade entre travestis e transexuais é praticamente impossível, pois o grupo representa e reproduz a cultura da ultra feminilidade, que por sua vez carrega o fardo da ultra "vaidade" e da ultra"competição". Quando uma conquista algum destaque, ganha-se ainda o plus do "recalque", com comentários negativos e desmotivadores. Há o embate das definições e, para completar, há ainda quem não se diz pertencente à massa e rejeita qualquer possibilidade de amizade ou um simples adicionar nas redes sociais.

Mas será esta uma realidade absoluta para o grupo, que já é tão discriminado por outros grupos?

Tendo contato com várias e visualizando algumas fanpages no Facebook, como a Hormônios Para Transgêneros, é possível encontrar pessoas preocupadas com a causa trans, em fazer amizades e dividir experiências com outras que contemplam vivências semelhantes. Aqui, no NLucon, também trazemos entrevistas, reportagens e depoimentos de pessoas que estão preocupadas com o bem estar do grupo e que abrem as portas para o orgulho de suas diferenças.

E é por este motivo – criar novas e positivas referências para o grupo, principalmente paras as novas gerações – que o Trans em Debate desta semana abordou um tema aparentemente óbvio, mas absolutamente necessário: amizade no universo trans. Há exemplos de amizade para o grupo trans? Quem são as suas amizades? E qual é a importância de se ter uma amiga que divide algumas experiências em comum?  

Leia abaixo e reflita. Afinal, como diz um provérbio chinês, "antes de iniciares a tarefa de mudar o mundo, dê três voltas na tua própria casa". 

Kimberly Luciana Dias: 
“Carrego lema: travestis e transexuais unidas jamais serão vencidas”

Tenho grandes pessoas que passaram pela minha vida em diversos momentos. No início do mundo T, tive duas grandes amigas que, hoje, infelizmente não estão mais entre nós: a Nayara Moretti, que começamos juntas a transição, e a Amanda do Mustang, que me ajudou muito em minha chegada em São Paulo. Lembro que eu e Nayara pegamos carona com um caminhoneiro às 2h da manhã para vir a São Paulo e chegamos às 9h para realizar os nossos sonhos. Aqui, foi a Amanda que me mostrou o lado bom e lado mal da cidade.  

No percurso dessa vida na metrópole, outras três foram importantes: Thalia Mexicana, que fez eu me apaixonar pelo glamour dos palcos, e Bianca Mahafe, amiga de todas as horas, que conheci na militância em uma manifestação T na Avenida Paulista e que hoje é minha eterna companheira de militância, festas e eventos. E a Aline Belinelo, com quem eu compartilhei o período em que morei na Espanha. Apesar de não ter mais tanto contato, a Aline terá sempre o meu carinho como irmã, pois aguentou muito das minhas chatices quando dividimos o apartamento.

Esse contato é importante porque somos do mesmo gênero e semelhantes. Nunca tive uma grande amizade com uma mulher biológica e não sei se seria possível. Carrego o lema “Travestis e transexuais unidas jamais serão vencidas”. Por experiência própria, esse  espírito de competição que costuma aparecer em nosso meio, não nos leva a nada, somente à derrota . Poderíamos até andar separadas do movimento LGB, porque somos fortes, mas infelizmente ainda temos que nos submeter a eles que são números maiores dentro da causa.

Hoje, a Brenda Oliver é a minha companheira de trabalho. Divido com ela a recepção da SP Escola de Teatro há dois anos, de segunda a sexta, e posso dizer que aqui também nasce uma grande amizade.

Bianca Mahafe acima, Aline Belinelo, Nayara Moretti, Amanda e Brenda Oliver abaixo


Eduarda Silva: 
“Nos conhecemos na adolescência e, hoje, trabalhamos juntas”

Tenho uma amiga trans que conheci na época em que éramos pré-T. O nome dela é Samantha, uma pessoa super extrovertida, legal e com quem trocamos experiências, falamos das questões hormonais, brincamos e conversamos de tudo, não somente com o foco trans. O primeiro contato ocorreu no período escolar e ela já era famosa, mesmo não tendo se transformado.

Ela já tinha aquela charme e glamour e eu tinha vontade de conhecer. Comecei a andar no grupo de amigos dela, onde fiz outros amigos, e todo mundo que já desconfiava de mim passou a ter certeza. A Samy representa só coisas boas, pela vivência de adolescente, pelos sonhos em sermos meninas transex, pelas nossas musas inspiradoras... Para você ter uma ideia, ela me deu a primeira cartela de hormônio [risos]. Hoje, trabalhamos na mesma empresa, logo estaremos sempre ligadas uma na outra.

No caminho ao trabalho, vamos conversando, comentando do universo trans do que vivemos.  Trocar essas experiências com outra pessoa trans é importante porque ficamos mais seguras , sabemos que a pessoa é do mesmo gênero, então muitas coisas que acontecem com você também acontece com ela. A união do grupo seria linda, mas infelizmente não são todas que dão abertura para que isso aconteça. Assim como qualquer pessoa, nem todas são amigáveis, confiáveis, sem contar no famoso recalque que uma sente pela outra.

Mas é importante valorizar todas que passam por nossos caminhos e levar essa mensagem. Um brinde a amizade! 

Amigas viveram a adolescência unidas e, agora, trabalham juntas e trocam confidências 

Lirous K’yo Fonseca:
 “As nossas conversas sempre colaboraram para construirmos quem nós somos hoje”.

Amizade é algo tão simples e tão caro que os poucos amigos que temos devem ser chamados de família. Afinal, família não é aquela que necessariamente nascemos e temos sangue, família é aquela que construímos a cada dia de nossas vidas. Mães, pais, avós, primos e irmãos, o que os faz ter uma papel de destaque não é o titulo que eles carregam, mas sim a importância que essas pessoas têm nas nossas vidas, se prender a titulo por causa de sangue é o mesmo que se amarrar a um animal morto.

Mesmo eu tendo uma relação fantástica com os meus pais, nem sempre eu morei ao lado deles. Em um momento conturbado da minha vida, tive que tomar uma decisão difícil que contribuiria e muito para a pessoa que eu sou agora. Não acredito que exista o acaso, o nosso encontro não foi algo que aconteceu e percebo isso com os sinais que a vida nos mostrou pelo caminho que trilhamos juntas.

Quando tivemos o nosso primeiro contato, nasceu uma ideia de um projeto em conjunto e trocamos algumas palavras, logo em seguida estávamos frequentando a casa uma da outra e nutrindo afinidades sem saber das coincidências que tínhamos em nossas vidas e das pessoas em comum. Se eu for definir a nossa trajetória em uma palavra, acho que seria fervo. Era uma época em que não tínhamos ainda os compromissos com a universidade, o que nos dava mais tempo para sair e tocar o terror pela Trindade (bairro de Florianópolis).

Mas não passamos somente glórias. Aguentamos muitas barras juntas, desde problemas afetivos até os financeiros, mas uma sempre segurou a outra como pode. Uma sempre puxou a outra sempre com o intuito da gloria, apesar de muitas vezes estarmos nos metendo em situações engraçadas e inusitadas. Lembro-me que conversávamos muito sobre “o rito” de passagem, e do medo que tínhamos de isso afetar negativamente o nosso futuro, é uma decisão muito difícil aceitar quem somos e como nascemos. As nossas conversas sempre colaboraram para construirmos quem nós somos hoje.

 A união de todas é de extrema importância, não só para as conquistas políticas por direitos, mas para servirem de apoio uma para a outra sempre e ajudar a combater o preconceito. É preciso legitimar um lugar, e esse lugar, não cabe mais no meio de uma sopa de letrinhas que pouco está interessado no resto que compõem a classe, temos uma letra dominante, uma que acredita que domina, a nossa esquecida e uma inexistente e isso tem que mudar. Temos um rico exemplo na Argentina, que mudou essa realidade quando deram um basta e disseram:"Nós não somos gays”

Isso acabaria com esse preconceito bobo e essa confusão que ainda existe nos dias de hoje. Assim como em outros países essa revolução tem que chegar ao Brasil, isso não deslegitima a luta, apenas mostra que queremos ocupar outro lugar, mudou o contexto histórico e não devemos mais estar presas ao passado, a idade das trevas modernas que permanece pela falta de união.O que eu posso dizer é que nãos ei o que teria sido de mim se a Patrícia Aguillera não tivesse sido mandada para compor o elenco da minha vida, mais de uma amiga, ela é a minha irmã. E eu a amo muito.

Momentos de glórias e dificuldades marcam a amizade dessas duas guerreiras

Aleika Barros:
“Foram as amigas trans que me ajudaram com informações que fizeram a diferença”

No meu caso, 92% das minhas amizades são com pessoas trans. Ao longo da vida, fui semeando grandes amizades e procuro conservá-las na base do respeito e da boa ação com o outro. Sei que cada nova amizade conquistada é mais um ombro de apoio com que poderei quem sabe contar num futuro próximo. Citar apenas dois ou três nomes seria injusto da minha parte, pois sempre busquei ter relacionamentos de proximidade com muitas colegas trans, porque elas sempre foram o meu porto seguro.

Desde muito novinha, foram elas que me ajudaram com orientações, informações que, para mim, fizeram toda a diferença. É claro que também podemos contar com o apoio de nossas famílias em alguns casos, porém questões mais particulares, como a necessidade de mudar corporalmente e a busca de ser feliz à nossa maneira, seguramente é com elas  que sentimentos mais confortáveis,  principalmente na juventude.

Muitas pessoas ainda acreditam que só podemos ser amigos de verdade quando podemos contar com um amigo em algum momento de extremo sufoco ou dificuldade.  Para mim, amizade é um campo de apoio até mesmo moral quando for necessário. Nunca julguei as pessoas como sendo ou não meus amigos, partindo de uma troca de favores nos momentos de minhas necessidades. Amigo [a], para mim, é a pessoa que me respeita, que me apoia em coisas simples, que me chama para uma conversa, sorrir, brincar durante a tarde,  trocar ideias e se ajudar no que for preciso e quando for possível. 


Graças a Deus tenho muitas amizades com quem posso contar e esse é um dos maiores presentes que ganhei durante a vida.

Michelly X, Thara Wells, Claudia Cuba, Aleksia, Michelly Ursula, Gabriela, Samantha e Bianca

Fernanda Vermant:
“Falei para ela se vestir como menina, ela tomou coragem e ficou mais bonita que eu”.

Tenho uma amiga que se chama Amanda e que, para vocês saberem de antemão, esteve representando São Paulo no Miss T Brasil 2013. Hoje, ela mora no interior e por isso estamos um pouco sem contato, mas quando ela morava perto de mim, fazíamos ligações diárias, falávamos de hormônios, vida pessoal e eventos de cultura japonesa, que adoramos!

Na verdade, falávamos sobre tudo: dicas de músicas, rolinhos, namoros, essas coisas de amigas, sabe? [risos]. Realmente, é a minha melhor amiga trans. Teve uma vez que olhei para ela vestida de menino e disse: “O que é isso, menina, você tem que se vestir como menina, não está combinando com essa roupa”. E foi aí que ela pensou e tomou coragem a respeito e começou transicionar.

Íamos juntas às consultas de terapia hormonal e acabou que ela ficou mais linda que eu [risos]. Mesmo estando longe, eu a adoro. Sei que mudamos muito, que crescemos e nos tornamos adultas, mas eu continuo te amando, Amanda.

Também tenho outros
amigos desta época que eu adoro, como Alexandre, Thomas, Maurício e minha best biológica Veronica, que está passando um tempo na minha casa. Lembro que íamos juntas nas baladas, ficamos uma com o boy da outra, tínhamos namoradinhos juntas e, com ela, eu me sentia 100% eu, uma mulher com outra amiga mulher, saindo e se divertindo. 

Modelos eram amigas antes mesmo dos concursos de Miss

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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