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Em Paris, Valéria Houston emociona brasileiros, grava documentário e manifesta contra transfobia


Glamour, música brasileira, surpresas e ativismo. É assim que poderia ser definida a turnê da cantora transexual Valéria Houston em Paris, na França. A artista, que esteve na terra de Édith Piaf, Danielle Darrieux e Carla Bruni entre os dias 14 e 28 de novembro, conta ao NLucon que fez vários shows, que participou de uma manifestação em prol dos direitos das travestis e transexuais – em que se sensibilizou com a morte da trans Lady Butterfly - e que ainda esteve em um documentário francês.

‘Paris é linda e a viagem foi exatamente como eu imaginava. Passei o tempo todo acompanhada de uma jornalista trans [Christine Rougemont], que está fazendo um documentário sobre trans com diversas profissões. Visitei os pontos turísticos e lugares exóticos – o bar do ursos é o que há por lá – e o melhor para mim foi cantar com uma artista de rua”, diz.

A cantora se apresentou na festa Lavagem da Madalena, no Aches de le Marais, e na danceteria Escualita, no Banana Café. ‘Fui muito bem recebida e o show pôde matar a sede deles por música brasileira. Me senti muito feliz pelos shows e principalmente quando compararam a minha voz com a da Elis Regina – é claro que achei exagerado, mas fiquei muito feliz [risos]. Posso dizer que os brasileiros foram saudosos e os parisienses foram gentis, por incrível que pareça’.
 
Após os shows, Valéria firmou parceria com a cantora francesa Lena Ka [foto ao lado], que já vendeu mais de 200.000 cópias em um único disco na França. ‘Lena é maravilhosa, é apaixonada pelo Brasil e eu sou apaixonada por ela. Nos conhecemos por intermédio de um amigo e, depois desse encontro, existe a possibilidade de gravarmos juntas uma música. Ela já acenou positivamente para isso e eu também estou dentro”, comemora.

QUEBRANDO PRECONCEITOS

Durante a viagem, a cantora gravou várias cenas para o documentário de Christine, que fala sobre travestis e transexuais que estão inseridas no mercado formal de trabalho e artístico, e que será vendido para a TV francesa. Além de Valéria, que é a única brasileira a participar, o filme traz médicas, atrizes, políticas e uma guitarrista trans. ‘Ela, inclusive, tocou Garota de Ipanema comigo, informa a artista, que fez questão de frisar que o Brasil ‘não é só futebol, carnaval e mulher pelada’.  

Look para o show e cartaz de musical em Paris

Valéria também participou do evento anual T-Dor Day Of Rememberance, em que trans se reúnem para lembrar e sensibilizar a respeito das mortes por transfobia. Ela lembrou do assassinato da brasileira Lady Butterfly – dançarina travesti que foi morta a facadas em 17 de outubro deste ano. ‘Como representante do Brasil, falei da transfobia e dos assassinatos que vemos ser noticiados diariamente. Foi uma linda homenagem, em que pude sentir que as trans francesas são mais unidas e que estão lutando pelos seus direitos'. 

Valéria diz que as francesas ficaram surpresas quando souberam que os e as transexuais do Brasil tem o direito de usar o nome social e alegaram que o respeito à identidade de gênero nem sempre é respeitada na França.

De volta ao Brasil, a cantora diz que passou a nutrir ainda mais amor pelo palco, por seus fãs e principalmente por sua terra. ‘Hoje, dou mais valor ao meu país, pois foi incrível ver o amor das pessoas que moram fora pelo Brasil. Um amor que a gente às vezes nem dá muita bola’, reflete a artista, que revela a cena mais linda de Paris: ‘Passei pela Torre Eiffel e ela se iluminou diante dos meus olhos. Foi lindo! Detalhe: a torre só se ilumina de hora em hora, então foi muita coincidência. E é claro que chorei!’ [risos].

Vale lembrar que em 2012, Valéria venceu a etapa gaúcha do 5º Festival de Música Francesa, realizado pela Aliança Francesa de Porto Alegre. Ela interpretou a música 'Quelqu'un m'a dit', de Carla Bruni.

Valéria participa de manifestação e lembra assassinato de Lady Butterfly
"Brasileiros foram saudosos e franceses foram gentis", diz Valéria Houston

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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