Entrevista

‘Levanto a bandeira LGBT, mas não para a vulgaridade dela’, diz Thalita Zampirolli, a trans amiga do Romário


O ex-jogador de futebol e deputado federal Romário foi visto saindo de mãos dadas com uma morena depois de um show na madrugada de sábado, 14, e obrigou o paparazzo apagar as fotos, informou o jornal Extra. Nada teria tanta repercussão se, na terça-feira, 17, o jornal O Dia não divulgasse que a morena era a modelo Thalita Zampirolli, 24 anos, uma belíssima mulher transexual.

Thalita classificou o affair como “amizade íntima”. Romário alegou que a modelo era gente boa, camarada,  mas zombou que “não rolaria casamento” e que gosta mesmo é de mulher. Chateada, Thalita disse que é sim uma mulher e que, por viver em outro mundo da maioria das trans, não apoia sequer as manifestações LGBT e que considera beijos na Parada do Orgulho Gay uma falta de respeito. 

O discurso pegou mal para ele e, por sua vez, para ela.

Disposto a entender melhor a modelo e as palavras utilizadas anteriormente, o NLucon conversou com exclusividade com Thalita e deu a oportunidade para ela falar tudo o que pensa. A bela, que nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espirito Santo, e que mora no Rio de Janeiro, fala sobre a repercussão da exposição do caso, a atual relação com Romário, preconceito e movimento LGBT. Confira:

- Como você vem sentindo a repercussão da exposição de sua “amizade íntima” com o Romário?

Muitas pessoas estão me apoiando, mas outras estão me criticando, dizendo que eu aproveitei dessa amizade para ter dias de fama na mídia. Mas não é bem assim. Se eu quisesse me promover em cima de alguém, já teria feito há muito tempo, pois conheço e já saí com homens que estão em alta na mídia. Se eu quisesse armar, já teria feito isso há muito tempo. O que aconteceu foi que um paparazzo fotografou a gente – eu ainda estava de costas na foto – e o jornalista me ligou depois para conversar comigo. Eu só expliquei o que aconteceu, porque não devo nada e nem achei que teria essa polêmica toda.

- Mas você já trabalhava como modelo, tinha certa exposição e sabia que a história ia dar pano pra manga...

Eu sabia que ia gerar uma repercussão, sabia que poderia gerar uma piadinha ou outra, mas jamais que seria dessa forma. Nunca fui de expor a minha vida pessoal, mas a maneira como caiu na mídia não foi muito bacana para ninguém. O preconceito existe, sempre vai existir, mas nunca deixei que ele batesse na minha porta.  Sei do meu potencial de mulher e de profissional. Sei também que a minha família, que é a estrutura da minha vida, os meus amigos e parte do público estão me apoiando. Como ninguém sabia da minha vida pessoal e que agora ela se tornou pública, não sei como isso pode repercutir. Se vão querer saber mais do meu trabalho ou se as portas vão se fechar.

Thalita no flagra com Romário e mostrando o belo corpão

 - Como está a sua vida de lá pra cá?

Sinceramente, estou esperando por uma coisa melhor e também algo pior. A minha vida mudou muito esses últimos dias. De terça para cá, não tenho mais vida social, não podia sair nas ruas, o meu condomínio ficou cheio de jornalistas e fotógrafos, fiquei sem privacidade alguma. Só hoje é que consegui voltar aos pouquinhos ao meu ritmo. Fui à praia, fiz um treino aeróbico...

- Bom, não é de hoje que jogadores se encantam por belas travestis e mulheres transexuais. Arriscaria dizer por que vocês despertam tanta atenção nos homens?

As transexuais são muito vaidosas, se cuidam muito e acabam despertando essa atenção no público masculino em geral. Além disso, eles ficam curiosos: Como pode ter nascido de um jeito e ser uma mulher? O que mais escuto é o seguinte: “Você é mais bonita que muita mulher que nasceu mulher”.

- Romário declarou que gosta é de mulher, dando a entender que você não é uma. Como está o seu relacionamento com ele hoje?

A minha amizade e da minha parte não mudou em nada. Vejo o Romário da mesma forma, como a mesma pessoa, de um coração ótimo. Depois da repercussão, eu enviei uma mensagem, pedindo ajuda de como eu deveroa agir na mídia, pois não foi uma armação. Mas ele respondeu dizendo que eu deveria agir com inteligência, só. Eu estou sozinha, sendo que existem várias pessoas e assessores por trás dele, que o orientam. Fiquei um pouco chateada com a declaração, mas por mim a amizade continua.

 - Por outro lado, há quem disse que você também reproduziu o preconceito ao dizer que, por não viver neste mundo, não é a favor das manifestações LGBT e que não apoia sequer o beijo de um gay na rua... Não acha que pegou mal essa declaração?

Pegou mal, sim, pois muita gente veio falar comigo sobre isso, perguntando se eu levantava ou não a bandeira. Mas foi um mal-entendido, que vou deixar bem claro para você: Eu levanto a bandeira LGBT, da forma social, honesta e digna que muitos de nós vivem. Mas não apoio a vulgaridade dela e não faço parte da vulgaridade em que muitos LGBT vivem. Eu me excluo dessa parte e não quero ser reconhecida como tal. Por exemplo,  as pessoas têm que parar com essa ideia de que todas as transexuais são garotas de programa. Eu estou sofrendo com esses apontamentos agora, dizendo que eu sou garota de programa, generalizando e deduzindo só porque sou transexual. A gente tem que mudar o pensamento da sociedade que todas as pessoas são iguais.


 - Você citou na entrevista que há muito desrespeito na Parada do Orgulho LGBT. Você já frequentou a Parada? Onde viu o desrespeito?

Já fui a algumas manifestações LGBT e, antigamente, as famílias não tinham tanta participação como hoje. Hoje é uma festa, as pessoas querem curtir e muitas famílias vão assistir. Muitos vão para pedir respeito, dignidade, manifestar contra a homofobia, de forma diferenciada. Mas outros partem para este lado da vulgaridade. A última vez que fui a uma Parada foi no ano passado e vi algumas pessoas homossexuais praticamente nuas, vi pessoas transando na areia, vi pessoas se beijando na frente de crianças, idosos e famílias, agindo de forma vulgar. Só estou falando que não apoio a vulgaridade e que isso é algo que vi com os meus próprios olhos.

- Concordo que há excessos, assim como o carnaval também tem os seus excessos e muitos homens e mulheres [cis] héteros se amassam, ficam nus e transam – o que nos faz perceber que não é uma característica apenas de LGBT. O que pega é quando você coloca um beijo no meio disso tudo. Para você, um beijo gay em público é desrespeito?

Você quer saber o que eu acho de ver, por exemplo, dois homens se beijando em um shopping, com crianças e senhoras vendo? Não acho legal. A sociedade é preconceituosa e eles vão se tornar motivo de piada. Não pega bem para ninguém  e nem para o casal gay, que poderia se reservar. Mas quem quer dar, tudo bem. Eu só acho que existem lugares apropriados para isso e acho que seria um pouco agressivo para os idosos e crianças.

- Thalita, mas a questão está aí. O seu discurso de que as pessoas devem dar um beijo em locais apropriados é o mesmo que muita gente usa para te atacar. Muita gente diz que não pega bem para um jogador famoso ser visto publicamente com uma mulher transexual. Você não acha que, quanto mais as pessoas se acostumarem com um beijo gay, com o affair de uma personalidade com uma mulher transexual, a diversidade passa a ser encarada como comum, parte do ambiente, “normal”?

Sim, acho, porque nós vivemos em um mundo que está passando por um processo de mudança e, mesmo assim, há pessoas que ainda não aceitam esse tipo de relação homoafetiva. Não é que eu não aceite que pessoas homossexuais fiquem se beijando em público. O problema é ficar se esfregando, se agarrando de forma que não há necessidade. Este, sim, é um problema que temos que mudar, porque da mesma forma que um casal heterossexual faz isso e é feio, um casal homossexual se enquadra na mesma maneira. 

- Você tem convivência com homens gays?

Eu tenho amizade com gays, inclusive, o meu maquiador, cabeleireiro e várias pessoas que trabalham com moda, que é o mundo em que eu vivo, são gays. Eu tenho contato com eles e...

- E com outras mulheres transexuais?

Com outras transexuais, não. A única que conheci agora foi a Ariadna [ex-BBB], que me apoiou e escreveu um recado para o Romário. Já travestis, sim, pois no salão aonde eu vou também vão algumas travestis.

"Não acho legal um casal gay se beijar no shopping"

 - Em algum momento você teve alguma referência de mulher transexual? A Roberta Close, por exemplo, nunca foi uma inspiração?

Sempre olhei a Roberta mais como fã. Mas sempre fui de uma família de mulheres e minha maior inspiração foi a minha irmã mais velha.

- Por que muitas mulheres transexuais, depois que fazem a redesignação sexual, evitam falar sobre o passado?

Vou falar por mim. Depois da cirurgia, eu renasci, me tornei uma nova pessoa. O meu passado fica no passado e não vem mais ao caso. Eu sou uma mulher, quero ser vista como mulher e o que fui no passado fica no passado. Eu vivo o presente e sempre me vi como uma mulher.

- Para você, ser uma mulher transexual é um motivo de orgulho ou algo que você prefere esquecer?

Tenho orgulho pela pessoa que sou, por ter batalhado tanto para ser quem eu sou e conseguido realizar todos os meus sonhos. No começo, antes de a bomba estourar, eu não gostava de tocar no assunto, pois mexia muito com o meu psicológico. Mas hoje tenho orgulho de falar do meu passado. Passei por psicólogos, endócrinos, psicanalista e tinha 18 anos quando fiz a cirurgia. Sempre afirmei que era o que eu queria e que era a realização para me sentir mulher.  

- Você disse que é diferenciada porque não é garota de programa. Qual é a sua opinião sobre a prostituição no universo trans?

Não sou contra, pois cada uma escolhe o destino que quer traçar. Muitas não tiveram a vida que eu tive e uma família que as apoiassem. Para mim, a prostituição é um trabalho e nós não somos ninguém para julgar. O grande problema é quando generalizam que todas as transexuais são garotas de programa. Eu não sou, mas respeito quem é.

"Sou mulher, quero ser vista como mulher e o que fui no passado, fica no passado"

- Qual é o seu objetivo profissional?

Gostaria que as pessoas me vissem o meu lado profissional como modelo.

- Bom, é verdade que foi convidada para posar para a revista Sexy e que foi vítima de um golpe?

É verdade! Dois meses atrás me ligaram, falaram que era da revista Sexy e eu mesma negociei, pois não tenho assessor – o meu assessor de hoje é um amigo. Assinei o contrato, eles fizeram o pagamento e foi uma fraude. Eles pegaram a minha foto, que disseram que seria para a capa da revista, e jogaram na internet. Foi complicado porque eu divulguei o ensaio, todos pensaram que eu seria capa para nada... Entrei com um advogado contra essas pessoas, pois causou vários danos para mim.

- Hoje, você toparia um novo ensaio? Faria algo mencionando o futebol?

Se aparecer essa oportunidade, sim. Negociando tudo direitinho, eu faria as fotos, claro. E faria um ensaio sobre o meu time do coração. O Flamengo.

- Gostaria de deixar alguma mensagem para os LGBT que leram esta entrevista?

Quero dizer que todas as pessoas são dignas, que a beleza abre portas, mas não é tudo. A humildade, o coração e a dignidade devem estar acima de tudo. Que tenhamos respeito para sermos respeitados.

"A beleza abre portas, mas não é tudo", diz Thalita

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

6 comentários:

Anônimo disse...

ai ai cada coisa . tudo pela fama deixa eu continua como to mesma sendo 1 trans mas sem pença e titulos so pensso em subir cm estudo e olha q tenho beleza em rsssssssssss 1 capixaba mestiça cm india ....

Melinda- A cdzinha Do Blog disse...

As pessoas ainda vivem em um mundo arcaico e os glbts também bjs

Kimberly Luciana disse...

Vejo mulheres cis, fazendo coisas piores então direitos iguais nisso também, não cabe a mim julga-la, e em nenhum momento a elegi minha representante portando ela representa a si só e não um coletivo, isso na minha opinião individual!

Justiceira disse...

ELA É SUPER VULGAR EM FOTOS, ALÉM DE SER UMA GP, ENTÃO SE TOCA GAROTA!

Walter Gomes disse...

QUE CARA DE PAU! FAZIA PISTA NA AUGUSTO SEVERO E ANUNCIAVA EM TODOS OS SITES DE ACOMPANHANTES E VEM DIZER QUE NÃO É GAROTA DE PG! QUE PAPELÃO! RIDÍCULA! NOJO DELA!

Paulo disse...

Nunca se prostituiu?

http://180graus.com/entretenimento/transex-de-romario-aparece-em-site-de-acompanhantes-veja-as-imagens

kkkkkkk

Tecnologia do Blogger.