Pride

‘Marilyn Manson ajudou a minha transição’, diz a performer e maquiadora transexual Cássia Azevedo

"Ame ou odeie é a mensagem que levo de Manson", diz a artista

“O rock pode representar muito bem a vida de uma mulher transexual”, afirma  Cássia Azevedo , 24 anos, maquiadora, performer e ex-cover do icônico e inacreditável  Marilyn Manson , o Rei do Metal Industrial. De acordo com a artista, o rock and roll tem a sonoridade pesada e agressiva, assim como a vida de muitas travestis e transexuais do país, mas carrega em suas linhas a letra doce e motivacional. Além disso, seja no rock ou no grupo trans “todos julgam pela aparência ou pela vestimenta, mas perdem a oportunidade de conhecer pessoas extremamente capazes, repletas de valores e de adjetivos”.

Cássia entrou na carreira artística aos 15 anos. E admite que a priori utilizou do rock  para transitar com mais tranquilidade no universo feminino. “Meus pais diziam: ‘Esse menino é diferente, não gosta de futebol, parece uma menina... Só que os góticos falavam que o meu jeito e a minha androginia eram legais para uma banda. Fiz um teste e inacreditavelmente passei para ser vocalista da Mechanical Animals, uma banda cover do Manson. Se antes me via como um E.T. e sentia medo de tudo, passei a ser vista como artista”, relembra. “Foi a escapatória que tive para a transição e para me sentir aliviada.”

Com shows agendados praticamente todas as sextas, sábados e domingos,  Cáhh Manson  [esse é o nome artístico] sentiu a magia do palco, a valorização de sua androginia e o poder de sua voz – inclusive indo ao programa Astros, do SBT, Tudo é Possível, da Record e participando de uma propaganda de aparelhos celulares na televisão. “Quando estou no palco, me sinto anestesiada, alegre e satisfeita por tentar fazer o meu melhor. Para mim, o melhor cachê e o melhor reconhecimento são os aplausos e os gritos do público. É o que me motiva”.

Ela afirma que sempre teve uma boa convivência com os outros músicos – “o baterista e o guitarrista também são gays", embora não fosse algo revelado na época  – e que só enfrentou preconceito quando dividia a noite com outras bandas de heavy metal.  "Os cabeludos morriam quando viam o Manson toda feminina [risos]” . Olhares tortos eram inevitáveis, mas Cássia tinha seus fãs e também despertava paixões. Mesmo antes da transição, ela era flertada por vários homens e, vejam só, por mulheres.

“Já beijei várias mulheres, mas foi mais por querer viver um amor puro e verdadeiro. Tanto que sempre deixei claro que gostava de homens e nunca transei com elas”, pondera. Durante um show, conheceu o atual namorado, que na ocasião estava acompanhado de outra garota [acompanhe essa história abaixo...] e chegou a ser agredida por um fã com navalha. "O cara estava assistindo a apresentação bem perto do palco e, do nada, me cortou. Foi tão fundo, que tenho a cicatriz localizada próxima do peito até hoje, mas foi tão rápido que eu nem percebi na hora. Tudo bem, faz parte do show..."
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Cássia durante show e atualmente, em ensaio de Klay Kapp


“ELE NÃO TIRAVA OS OLHOS DE MIM”

- Cássia, são 2h da madrugada! Tudo bem continuarmos a entrevista? 
- Fica tranquilo, também sou uma morcega [risos].  
- E quando viu Manson pela primeira vez?  
- Foi aos 12 anos, na MTV. Amei, fiquei doida e comecei a procurar CDs e informações... Notei que ele usa o choque para as pessoas refletirem e pensarem antes do julgamento... 

Além de Manson, a performer garante escutar outros estilos e, se o roqueiro despertou a androginia, Mariah Carey - sim, a própria - é a responsável pelos momentos românticos, delicados e ultra-femininos. "Tudo a ver ela, né? [risos]. É que eu também sou uma eterna apaixonada". 

Atualmente, Cássia namora há seis meses e, segundo o seu perfil no Facebook, já está noiva. O candidato ao coração da bela morena a conheceu antes mesmo da transição e infelizmente estava comprometido. “Ele assistiu ao show e não tirava os olhos de mim, tanto que a própria noiva da época percebeu. O tempo passou, ele terminou o noivado e... Veio atrás de mim! Se apaixonou mesmo me vendo uma única vez, com toda aquela maquiagem no rosto. Fiquei besta”, se emociona, mencionando a história do filme  Soldier’s Girl  [2003], em que um soldado se apaixona por uma artista transexual no palco.

“Foi um anjo em minha vida, que me ajudou a livrar de vários traumas”, salienta.  

A cantora começou a transição hormonal e se assumir mulher transexual em 2010, curiosamente o ano em que a banda se desfez. “Ficamos cinco anos na estrada, fizemos vários programas de televisão. Terminamos porque o guitarrista precisou sair e desandou, mas até hoje sou reconhecida pela banda, movida pela música e faço algumas apresentações”, conta. A identidade feminina foi o que chama de “libertação da alma” e a principal mudança nos últimos três anos. 

A voz grave à lá Manson ainda existe e incomoda tanto que ela pensa em se submeter uma tiroplastia – uma delicada cirurgia nas cordas vocais. “É uma mudança bem louca, mas muito necessária. Mesmo com fono, tenho a voz muito grave. Aprendi a falar em um tom mais baixo, mas ainda quero mais. Como toda cirurgia, tem os seus riscos e ainda estou pensando”. Uma decisão séria para quem almeja voltar ao cenário artístico em breve cantando darkwave, eletro-rock e synth.
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As transições de Cássia no rock: "Marilyn Manson faz as pessoas refletirem antes de julgar"
"Estou mais realizada comigo mesma, mas as oportunidades de trabalho reduziram 98%"

 “MANSON ME DIRIA: ‘AME OU ODEIE’”

Vivendo a identidade feminina 24h, a artista afirma que passou a se enxergar de verdade, que tornou-se elogiada pela beleza, mas que o som de suas batalhas ficou mais pesado. “Apesar de estar feliz comigo mesma, as portas do mercado de trabalho começaram a se fechar, as oportunidades se tornaram nulas e a luta é diária para não me render à prostituição”, afirma que ela, que está disposta encarar novos desafios. Hoje, é maquiadora, faz apresentações em baladas LGBT, ganhou o concurso de Miss Diversidade e iniciou um curso de cabeleireira

“Adoro modelar, mas estou indo para a área da estética, mostrar que sou boa, que tenho caráter e força de vontade. Mesmo assim as chances diminuem 98% só porque sou uma transexual”.

Recentemente, participou do programa “Quem Convence Ganha Mais”, do SBT, para tentar convencer a família de que precisava realmente se submeter à cirurgia de redesignação sexual, popularmente conhecida como mudança de sexo. Apesar de ter vencido o debate – e levado para casa mil reais - ela admite que o resultado não foi positivo. “A mídia ainda confunde a transexual com o gay  e, por mais que eu tenha tentado explicar que se tratam de histórias distintas, eles editaram e cortaram, reforçando o estereótipo. No Brasil, as pessoas deveriam começar a respeitar o grupo trans, já que aceitar é uma algo somente para os sábios”. 

- Bom, Manson ficou no passado? 
- Serei sempre fã dele, foi uma fase incrível, mas a história cover passou. A luta é outra...
- E o que Manson diria para você nesta nova luta? 
- O que ele sempre fala. “Ame ou odeie!” Ou seja, é para amor ou o ódio que temos que estar preparadas...
- Que venha mais amor e oportunidades... 
- Espero! Olha, já está de manhã... Sweet  Dreams! 
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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