Pride

Reginaldo Rossi morre aos 69 anos; cantor era a favor dos direitos LGBT e se encantava pelas trans

Reginaldo Rossi e a modelo Viviany Beleboni e a drag Nicole Cuscus

Considerado o Rei do Brega, Reginaldo Rossi morreu aos 69 anos nesta sexta-feira, 20, em Recife, depois de ser diagnosticado com câncer no pulmão. Pernambucano e dono de sucessos como “Garçom” e“Em Plena Lua de Mel”, o artista deixa uma legião de admiradores com saudade,  marca a música brasileira com a irreverência intrínseca, com as eternas canções de amor, o jeito machão. E também – vejam só - o discurso em prol de gays, lésbicas, bissexuais travestis e transexuais.  

Em inúmeras entrevistas, o cantor afirmou ser a favor da diversidade LGBT e elogiou a beleza de várias trans. Em um show realizado em Goiânia, em abril de 2013, o cantor disse que procurava uma mulher para subir ao palco e apontou com toda a convicção para uma travesti. Ele ainda mandou um beijo para Joelma, deu um beijo no rosto da trans e foi ovacionado pelo público. “Acho que todo mundo tem o direito de fazer o que quiser. O importante é respeitar e ser feliz”, defendeu ao site Pernambuco.com.

Em entrevista a revista “Veja” de 1999, Rossi declarou que considera “muito legal” o casamento gay. “Cada pessoa tem prazer do jeito que gosta. Se um sujeito é gay e encontra uma pessoa que acopla com ele, não tem pecado nenhum nisso. Ninguém é menos capaz por causa disso. Veja o caso do Elton John. Ele agora assumiu que é gay, e nem por isso suas músicas deixaram de ser maravilhosas.  O casamento homossexual seria até melhor para a sociedade. O sujeito iria sentir menos culpa, menos medo, e passaria a produzir melhor ”.

Já em 2010, o artista aceitou a indicação do seu produtor de incluir no DVD o sucesso I Will Survive, música imortalizada na voz de Gloria Gayner. “Por que não? É um sucesso mundial, hino dos viados. E você sabe o que vai acontecer, né? Vai todo mundo soltar a franga. Quando eu começar, todo mundo vai cantar”, declarou ao jornal O Dia. Durante a música, ele convidou várias vezes membros da comunidade LGBT para subir ao palco, dançar, dar beijinhos no rosto e, e de quebra, sem medo de parecer politicamente incorreto, dar várias broncas nos mais assanhadinhos. 

Assista a performance abaixo:
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Uma verdadeira prova de que um machão hétero, bem resolvido e casado há 40 anos com a mesma mulher, Celene Neves, não se preocupa demasiadamente com a sexualidade alheia ou na possibilidade de brincar com a própria.

“TIVE UM PRIMO-IRMÃO GAY”

Reginaldo disse que o primeiro contato com a diversidade ocorreu com um primo, que ele considerava um irmão e que faleceu vítima da aids nos anos 80. “Eu gostava muito e ele me tratava com o maior carinho, o maior respeito do mundo. Mudou-se para São Paulo, provavelmente para ter mais liberdade”, salientando, na época, que também bancava todo o tratamento para o filho de sua empregada, que era soropositivo. “Pago os melhores remédios, os melhores médicos e nunca olhei para ele com o mínimo de discriminação. Jamais”.

“SOU O MAIOR MACHO”

Em 2012, a modelo Viviany Beleboni participou do programa Astros, exibido pelo SBT, e, na ocasião, Reginaldo estava no júri e ficou encantado com a beleza da trans. Tanto que se levantou, pediu para ver as medidas da bela beeem de perto e soltou: “Moça maravilhosa. Olha, eu já fui gay, mas depois que eu vi essa mulher eu sou o maior macho de Pernambuco”A frase virou destaque do portal do SBT. 

Ao relembrar o momento, Vivi diz ao NLucon que o encontro marcou a positivamente um momento de sua carreira. “Ele foi mega querido comigo. Me elogiou muitas vezes, dizendo que nunca havia visto uma trans tão bonita. Fiquei muito feliz no dia e muito triste ao saber de sua morte, por se tratar de um artista querido e por ter sido extremamente educado comigo. Que ele esteja em paz”.

Assista Reginaldo Rossi e Viviany abaixo:



“NUNCA ESCUTEI ALGUÉM CANTAR SOBRE PERNAMBUCO TÃO LINDAMENTE”

<< A ativista e segunda colocada no Miss International Queen 2007 Aleika Barros , que é pernambucana, comentou que está com o coração apertado por perder o conterrâneo. “Nunca escutei alguém cantar e falar sobre o Recife e Pernambuco tão lindamente em suas músicas como esse pernambucano. O dia foi tão triste, pois Pernambuco perdeu um grande filho. Todas as homenagens ao Rei Reginaldo Rossi... Nossa cultura e a nossa gente irá sentir muito a sua falta, pela sua garra, pelo seu talento e por toda essa alegria e irreverência que sempre foi ímpar”. 

A atriz e humorista Nany People também lamentou a perda: “A música romântica está triste... Vá brilhar no céu, querido mestre! #ReginaldoRossi #luto”, escreveu em seu Twitter.

<< Já a artista Gretta Star relembrou em seu Facebook da performance de Ira Velasquez, em 1978: “Imaginem, praia do Itararé, São Vicente, sol a mil, eu com 22 anos. De repente, no palco improvisado aparece uma boneca verde limão, de peruca loira branco, de óculos escuros, entoando Christophe – Les Marionettes. A plateia muda, passada e, como se não bastasse, ao final da apresentação, a boneca se transformava num ‘boy magia’, entonando Reginaldo Rossi, em Mon Amour Meu Bem ma Femme. Aos prantos, me lembrando...”. 

Bianca Mahafe, que também é de Pernambuco, disse ao NLucon: “Eu cresci ouvindo Reginaldo Rossi e desde sempre as suas músicas me encantavam. A admiração era tão grande que elas foram as primeiras que eu aprendi. A que mais marcou a minha vida foi “Mon Amour, Meu bem , Ma Femme”, que diz “Esse corpo Meigo e Tão Pequeno”... Tristinha com a perda, mas ciente de que o céu ficou mais colorido por receber um ser amado e feliz”. 

O LEGADO

Extravagante, alegre, machão, brincalhão, apaixonado, idolatrado, galanteador, artista, importante e, acima de tudo, autêntico. Além das músicas românticas e de várias composições que marcaram "centenas de casos de amor", Reginaldo deixa o legado de não ter medo do que se é, independente do que se seja. Em seu caso, assumidamente e com muito orgulho O MAIOR REI DO BREGA DO BRASIL - e do mundo.

De algum lugar, escuto-o dizer rápido e rasteiro: "Garçom, fecha a conta". Missão cumprida!


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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