Entrevista

‘Sofro transfobia por tabela’, diz jornalista Neto Lucon para revista de ursos; entenda



A atual edição da revista virtual Bear Mais Magazine, voltada para o público gay ursino, traz uma entrevista exclusiva com o jornalista Neto Lucon, 26 anos, homem cisgênero criador da página NLucon – conteúdo sem preconceitos. Realizada pelo editor Marcelo Gomes de Andrada, a entrevista de sete páginas fala sobre os bastidores das entrevistas, vida pessoal, preconceitos e direitos LGBTT e revela que, por conta do trabalho que desenvolve com travestis, homens e mulheres transexuais, Neto é vítima de homofobia e transfobia por tabela. Como assim?

“O grupo trans é um dos mais discriminados do país. O preconceito passa pela dificuldade de aceitação familiar, da intolerância da sociedade, da baixa escolaridade, da baixa inserção no mercado de trabalho, sem falar dos estigmas da marginalidade e da prostituição. Como sempre pensei no jornalismo como um transformador social e como uma ferramenta importante para dar luz e voz para quem não tem voz e visibilidade, abracei a causa com muita seriedade e respeito. Desenvolvi trabalhos dos quais me orgulho, mas hoje posso dizer que sou um ‘urso’ que sofre transfobia. Tenho dezenas de exemplos sobre a dificuldade de manter a ética e o respeito com a fonte, a informação e o leitor.”.

Neto lembra que, ao querer publicar um livro que fala sobre trans no mercado de trabalho, as editoras procuradas disseram que a sociedade não se interessava pelo assunto e o orientaram a escrever sobre a prostituição. Outro exemplo ocorreu em seu último trabalho, um site de celebridades, em que  foi dispensado depois de tentar corrigir vários termos pejorativos de uma editora sobre uma matéria que falava sobre as atrizes transexuais de Salve Jorge. “Para ela, as trans eram homens muito afetados, homossexuais que se passavam por mulher e que eram verdadeiras aberrações. Depois que tentei explicar calmamente sobre as diferenças entre órgão sexual, gênero e sexualidade, ela não gostou e, ao saber do meu trabalho com o grupo, fez minha cabeça rolar".

Ao comentar sobre os apoiadores da página, ele revela que há resistência de empresários e donos de baladas GLS. "Todos elogiam, dizem gostar, mas quando envio um e-mail ou tento conversar, há quem desconverse sobre o assunto ou há a explicação de que o incentivo não é possível, pois “o conteúdo é muito trans”.

Apesar das dificuldades, o jornalista já teve picos de 288 mil acessos mensais e já contou com entrevistas de Rogéria, Conchita, Amanda Lepore, Claudia Celeste, Divina Aloma, Nany People e Natasha Dumont. “Também já pautamos muitos portais grandes e divulgamos alguns nomes para a mídia que trouxeram uma visibilidade extremamente positiva. A diretora, atriz e diretora Laysa Machado, por exemplo, foi convidada para diversos jornais, revistas e programas de tevê depois de uma entrevista que fizemos. Assim como a Patricia Araújo, Felipa Tavares, Bárbara Aires... Mas não é porque é o resultado de um trabalho que fiz sozinho, é um trabalho em conjunto, de uma parceria, de um discurso e de um respeito recíprocos. Eu acredito nelas e algumas acreditam em mim. Espero que um dia o jornalismo que faço saia da margem e seja considerado um exemplo”.

Entre outras curiosidades da entrevista, que pode ser lida na íntegra clicando aqui, o jornalista revela que a entrevista que mais o emocionou foi a da cantora Elza Soares – que lhe rendeu uma indicação a um prêmio de combate ao racismo – e que já passou por grandes apuros nas redações em que trabalhou. “Procuro saber até onde ir e houve casos em que propus algumas reflexões sobre o tipo de informação que estaria levando. Em uma importante empresa que estive,  o editor-chefe pediu para que eu ligasse pela terceira vez para a família de uma atriz baiana que estava em coma e fizesse exatamente essa pergunta: ‘Vocês estão esperando apenas o coração dela parar de bater?’. É claro que não liguei”. 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Rapchaell disse...

Fiquei encantadx com o site, Perceber que existe uma resistência, que existe profissionais dispostxs a contribuir e expor a causa trans.

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