Pride

Trans vão à Secretaria de Segurança Pública cobrar maior segurança e apuração de crimes

Marcia Lima, Demily, Josiane, Fernanda e Brunna

Um grupo de travestis e mulheres transexuais esteve na tarde dessa segunda-feira, 20, em frente à Secretaria Estadual de Segurança Pública, em São Paulo, para reivindicar maior segurança para as trans, políticas públicas mais eficazes no combate a transfobia e que os crimes transfóbicos sejam de fato apurados pela polícia. De acordo com a militante Marcia Lima, a ação foi motivada depois de grande quantidade de casos de violência e morte terem sido relatados nos últimos meses sem que a secretaria se pronunciasse sobre eles, sem que houvesse ações afirmativas no combate a transfobia no Estado de São Paulo e sem o respeito da mídia sobre o tema.  

“A pena de morte está instituída para muitas de nós, pois vemos diariamente crimes transfóbicos serem cometidos sem punições. Na última sexta-feira [17], uma travesti presenciou e denunciou o assassinato de outra com 18 facadas, no ponto de prostituição do Jockey Club [na zona oeste de São Paulo]. Então, depois de ver casos corriqueiros como esse, decidimos nos reunir para fazer essa primeira manifestação. O objetivo é que o secretário estadual [Fernando Grella Vieira] nos receba e que seja feito um GT trans, para que possamos trazer sugestões para polícias públicas, saber as demandas e cobrar para que agilizem programas de combate ao preconceito”. 

Somente em 2013, mais de 150 assassinatos por transfobia foram noticiados no Brasil. Neste ano, pelo menos 10 mortes estamparam as manchetes. 

A assistente social Fernanda Moraes argumenta que o descaso da sociedade como um todo, inclusive do movimento organizado LGBT, ocasiona a repetição da cultura da transfobia, dos crimes contra ao grupo e da consciência de que não há justiça. “Raramente vemos os assassinatos contra trans condenados e os casos solucionados. E, quando falamos de um ato público relacionado às pessoas trans, raramente vemos o movimento LGBT unido. Aqui, viemos reivindicar que sejam apurados os crimes de transfobia, não só relacionados à morte, mas à violência por xingamento e agressão física. Viemos dizer para que as pessoas denunciem e para que relatarem o que passaram. Viemos cobrar que as leis que já existem sejam mais eficazes e que também valham para nós”. 

Para Fernanda, é necessária a criação de um GT específico para trans, pois as necessidades do grupo são diferentes das de gays, lésbicas e bissexuais cisgêneros. “Não adianta colocar LGBT, pois o preconceito que vem contra nós é manifestado de maneira e em lugares diferentes. Além disso, a transfobia é uma via de mão dupla. Acontece tanto fora quanto também dentro da população trans, pois se criou uma cultura de jogá-las na prostituição, da reprodução da cafetinagem, do rufianismo, da extorsão, da prática da facilitação e da morte, exemplos que precisam ser combatidos”. 

O QUE ELAS QUEREM

Após levantarem os cartazes em frente à Secretaria de Segurança Pública, o grupo entrou no local e foi orientado a protocolar um ofício e agendar um horário com o secretário. A ação foi pacífica e não houve qualquer tipo de resistência. Dentre as possíveis pautas levantadas, Marcia diz que espera que haja maior frequência da ronda e patrulhamentos em locais frequentados por trans e nos locais conhecidos por socializarem LGBTT. “Não queremos que haja mais viaturas ou que tirem de um lugar para levar para lá. Queremos que essas viaturas, ao contrário do que fazem hoje, passem realmente de meia em meia hora e façam o seu trabalho. Afinal, é comprovado que onde passam viaturas tem menos assalto, tem menos estupro, tem menos assassinato”. 

A sócio educadora Brunna Valin aponta que o tratamento muitas vezes desrespeitoso da mídia, da polícia, do próprio IML com a identidade das vítimas ajuda a propagar o preconceito e a violência. “Após serem vítimas, as trans são apontadas como homossexual, como homem e essa é mais um problema da desinformação ou do descaso do reconhecimento dos nossos direitos e da nossa identidade feminina. Eu acredito na escadinha: o conceito que não é alterado gera o preconceito, o preconceito automaticamente cai na discriminação, a discriminação bate na transfobia e o crime se estabelece. Acaba sendo uma bandeira não só de morte, mas de exclusão total”. Marcia sugere que seja incluso no cadastro do IML a identidade trans, com a finalidade de ter dados para que o governo tenha a proporção dos crimes e que a “pessoa não seja enterrada como homem”.

Já a estudante Josiane Ferreira de Sousa ressalta que é necessário ainda um trabalho de esclarecimento e sensibilização para a polícia civil e militar, e recorda o tratamento policial muitas vezes desrespeitoso quando há alguma denúncia feita por trans. “Recentemente, a Luisa Marilac [conhecida na internet pelo vídeo dos ‘bons drink’] denunciou uma vizinha que jogou uma pedra nas costas dela, mas a polícia foi tão transfóbica que tentou reverter toda a história, colocar a Luisa como culpada e prendê-la. A todo o momento, eles perguntavam: ‘Me fala o seu nome de verdade. Eu quero é o nome de verdade’. E se esqueceram que a pessoa tem o direito de ser tratada como se sente e quer. Então, não basta apenas explicar. É preciso de uma lei que nos defenda e que seja aplicada. Afinal, há um decreto de que qualquer órgão público deve tratar a pessoa pelo nome social, mas já fui a lugares em que eles se negaram”. 

Em alguns dos cartazes, elas estamparam a foto do jornalista Marcelo Rezende, que apresenta programas policiais e que já deu declarações consideradas transfóbicas.

"PODE SER COMIGO AMANHÃ"

Segurando o cartaz “Além do silicone eu também tenho um coração”, a cabeleireira e maquiadora Demily Nobrega afirma que está assustada com as várias notícias de morte contra trans. “Quando vejo uma notícia de crime por transfobia, penso que a próxima vítima pode ser eu ou uma amiga", defende. 

Afinal, engana-se quem pensa que só são vítimas quem faz programas ou está neste contexto da prostituição. "Eu, que sou cabeleireira, sofro transfobia todos os dias. É só pisar na rua que escuto algum xingamento, alguma piada, alguma ameaça, então é importantíssimo sair nas ruas e reivindicar o nosso direito, falar de respeito à vida e cobrar mudanças. Caso contrário, ninguém falará por nós”. 

Josiane revela que toda vez que presencia um ato homo-transfóbico saca o celular e começa a gravar. “Precisamos de provas para comprovar o preconceito. As pessoas não entendem que a lei não pode ser utilizada para ser excludente ou para escravizar, mas sim para libertar”. O grupo já se mobiliza para voltar com o ofício e promete novas reivindicações no espaço caso não sejam ouvidas. 










About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Ricardo Rocha Aguieiras disse...

As fotos estão lindas. Quem tirou as fotos? Está de parabéns!!! E realmente chegou a hora de travestis e trans* botarem a boca no mundo e reagirem. Concordo totalmente com GTs específicos e com autonomia e discordo de toda negação de protagonismos às trans* e travestis. São , infelizmente e ainda, o segmento mais vulnerável e discriminado da população TLGB (sim, é importante também mudar essa sigla, o "T" na frente!) apesar de elas sempre terem estado na frente das batalhas desde Stonewall, com Sylvia Rivera. E aqui, no enfrentamento com a polícia. Fico triste com o fato de terem ido poucas pessoas, mas talvez tenha sido tudo muito corrido. As coisas parecem começar a acontecer, com o Ato que teve no Center 3, maravilhoso. Aqui em Manaus, a invisibilidade é tanta , que desde que cheguei aqui só vi uma única travesti, numa noite. Isso me dá medo. As pessoas tendem a pensar que todos os avanços atingem todo o território nacional, não é verdade! Aqui parece um outro país, paupérrimo e com os mesmos preconceitos dos anos 50 em São Paulo. Portanto, a luta é árdua! Parabéns, meninas e mulheres maravilhosas que abrem portas para tod@s em suas lutas!!!!
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

Tecnologia do Blogger.