Pride

Bruna Castro, a trans brasileira que venceu ‘Oscar do Pornô’, diz que na cama vale tudo, 'inclusive ser ativa'

"É claro que faço ativa, sou um ser humano normal e tenho prazer em todas as partes do meu corpo"

O nome da trans paulistana Bruna Castro, de apenas 21 anos, causou frisson na 6ª edição do Tranny Awards, considerado o Oscar do Pornô Trans, que ocorreu no dia 16 de fevereiro na Califórnia, Estados Unidos. A atriz pornô, que atualmente está na Itália, teve o seu trabalho reconhecido e venceu a categoria de Melhor Atriz Pornô Estrangeira, desbancando candidatas de outros países.

No evento, Bruna concorreu também com outras duas brasileiras, Bruna Butterfly e Aline Garcia, e levou a melhor na votação feita pelos assinantes dos sites internacionais da Grooby Productions. O diretor brasileiro Louie Damazo – que esteve no evento e também concorreu pela primeira vez na categoria de Melhor Diretor – recebeu e trouxe o troféu de Bruna e comemorou a vitória brazuca.

“O Tranny Awards tem um glamour invejável. Ter sido indicado e estar na mesma categoria de lendas como Boddy Wood [balado diretor de LA] foi ótimo pela razão de ser conhecido. A Bruna também foi bastante elogiada e acredito que tenha vencido porque definitivamente gosta muito de sexo, simples assim. Ela se envolve na cena e faz tudo acontecer”, revela ao NLucon.

Abaixo, Bruna Castro tem uma conversa franca e direta com o NLucon. Confira:

- Pela primeira vez, uma brasileira vence uma categoria do Tranny Awards. Um belo feito, não?

Fiquei muito feliz, pois é acima de tudo o reconhecimento do meu trabalho. Sei que para ganhar um prêmio desse porte a atriz tem que ser muito bonita, muito vaidosa e estar sempre se cuidando. E principalmente ser profissional, pois temos que ser muito competentes para fazer boas cenas de sexo. O prêmio acaba me dando mais empolgação para os próximos. Quem sabe no próximo ano eu não trago o título novamente [risos]?

- Quando você entrou na carreira de filmes adultos?

Comecei no mundo pornô há três anos. Recebi um convite para uma cena de uma produtora quando voltei da Europa pela primeira vez, Topei, fiz o primeiro filme, gostei e estou até hoje na área. Nunca parei para contar, mas estou por volta de setenta e oitenta filmes.

- Só para confirmar, são entre sete e oito filmes ou entre 70 e 80 filmes?

São entre setenta e oitenta filmes, mesmo [risos]. Eu já gravei muuuuito.


 - Conta-me como é transar com um monte de câmera em volta, com diretor em cima e com toda a exposição?

Sempre fui uma pessoa que ama sexo na minha vida pessoal, pois comecei a fazer muito nova. Então, desde o primeiro filme me senti muito a vontade em cena. Nem precisei me inspirar em nenhuma atriz pornô, pois sempre me inspirei em mim mesma [risos]. Os produtores sabem do meu trabalho e da minha dedicação nas filmagens. Sabem que não preciso tomar remédios para ficar excitada e que sempre tive uma ereção natural, o que é difícil para muitas trans. Enfim, gosto muito dos filmes e, quanto à exposição, eu mesma assisto tudo o que fiz.

- Você faz cenas ativas, então?

Faço também, pois me concentro e me animo com facilidade. Isso [ficar excitada em cena] para mim nunca foi difícil, complicado ou um tabu. Sempre encarei como o meu corpo e como mais uma forma de prazer.

- É difícil encontrar meninas que assumem que são ativas publicamente por receio de serem vistas como menos mulheres. Você é ativa inclusive nos seus relacionamentos pessoais?

Com certeza! Sou um ser humano normal, sou muito bem resolvida com o meu corpo e sinto prazer como qualquer pessoa. Fui casada durante um ano e meio e a relação sexual era maravilhosa, tanto ativa quanto passiva. Ele adorava ser passivo e eu amava ser ativa. Isso não me fazia menos feminina ou ele menos masculino. Anjo, na cama vale tudo e o mais importante é ambos se satisfazerem, sempre com segurança e respeito aos limites do outro, claro.

- Rola clima antes da gravação? O que tem de mais curioso nos bastidores de um filme erótico?

Temos toda uma preparação antes de gravar. Às vezes rola certo clima entre a atriz e o ator e, você já sabe né, acaba rolando uns beijos antes da cena. Tem uns que a gente gosta mais, outros não... Sempre tenho muito tesão pelos atores, mas não curto gravar com um ator em específico, que eu não vou dizer o nome, né? [risos] Uma cena é rápida e demora por volta de mais ou menos 1h entre fotos e filmagem. Mas fora isso não tem muito de curioso, pois tudo o que está ali nos meus filmes é muito real.


- Tem algum homem com quem você gostaria de fazer um filme?

Não, não, pois não vou pela fama do homem ou pelo corpo do ator. Vou mais pelo sexo e pelo profissionalismo dele. Já na vida pessoal, gosto de homem que é homem e não um moleque. Gosto dos mais velhos, de 28 a 40, sinceros, educados e que não pensem só em sexo.

- Você faria com uma mulher cis ou com uma mulher trans?

Com mulher, eu ainda tenho dúvidas, mas com trans eu já fiz várias cenas. Não tenho problema, não.

- O que tem de mais prazeroso e qual é a maior dificuldade de ser uma atriz pornô? Este mercado valoriza as atrizes, ou seja, você já ganhou muito dinheiro?

O prazer por essa profissão acontece quando realmente gostamos de sexo, que é o meu caso. E, para mim, até hoje não tive nenhuma dificuldade, nem mesmo em questão da segurança. Sempre faço sexo seguro, sempre carrego a camisinha na bolsa. Então, me sinto satisfeita com a profissão. Quanto à valorização ou ao cachê, prefiro deixar em off.

- Muitas pessoas dizem que trans entram no mercado do sexo por falta de oportunidade. Para você, foi uma escolha?

Sim, sim, falo sobre isso com tranquilidade. Para algumas pode haver falta de oportunidade, mas para mim foi uma escolha, pois tenho uma excelente profissão [ela trabalhava como cabeleireira] e já trabalhei em alguns dos melhores salão de São Paulo. Eu escolhi e gosto desta profissão. Fui criada desde criança com uma vida muito boa e não quis deixar isso de lado. É isso.

- Você já sofreu transfobia? 

Um pouco no início da transição, pois é mais difícil. Mas depois esquecemos de tudo isso. Penso que quanto mais feminina somos menos preconceitos encontramos no nosso cotidiano. Eu lido com os olhares com muita naturalidade e não sofro nem um pouco. Optei por não deixar isso atrapalhar a minha vida. 


- Como é a sua rotina?

Agora estou na Itália e estou trabalhando muito. Fiquei em casa durante um ano e meio e, desde que me separei, só trabalho e vou para algumas baladas. Um romance aqui e outro ali e sigo assim...

- Quais são os seus planos para o futuro?

Para o futuro? Bom, pretendo ter alguém que realmente me ame de verdade e que possamos ter uma vida a dois. Pode parecer inacreditável, mas apesar de gostar do que faço, no futuro quero casar, parar com a profissão e entrar em outro ramo. Penso em ter alguém que me ame acima de tudo, que possa me proporcionar felicidade e tranquilidade. Sou diferente de muitas e procuro apenas uma pessoa. Esse negócio de ter vários homens não é para mim.


- Vi no Facebook que você tem um namorado. Ele sente ciúmes das cenas?

Não, não estamos mais juntos. Ele nunca teve ciúmes e sempre disse que me amava. Mas nunca acreditei de verdade, pois quem ama jamais deixaria a sua mulher se deitar com outro homem. É isso que eu penso sobre relacionamento, então, ele foi uma coisa passageira na minha vida. Não estamos mais juntos e, neste momento, estou tendo um affair com outra pessoa.

- Você separa o “fazer sexo” do “fazer amor”?

Separo, pois para mim existem diferenças gritantes entre o sexo e o amor. O sexo é aquela coisa de momento, pode ser casual, com alguém que você não conhece direito, só por atração, em um filme. Já o fazer amor é quando os dois se gostam de verdade, existe uma relação de troca, uma sintonia única entre os dois que vai além do carnal. Tem sentimento.

- E qual você prefere: o fazer sexo ou o amor? 

Os dois são ótimos em momentos diferentes. Só de pensar nisso, já fico daquele jeito [risos]! Mas hoje prefiro fazer amor, pois sexo eu já faço todos os dias, todas as horas.


Confira o vídeo da cerimônia clicando aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Marcos Ribeiro disse...

Deixou o trabalho formal para ser atriz pornô! Orgulho da família! E depois elas vem dizer que não tem oportunidades e que são obrigadas a entrar no mundo do sexo....

Tecnologia do Blogger.