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Depois de tantas tentativas, por que o beijo gay só ocorreu com Félix e Niko, em 'Amor à Vida'?

Félix e Niko: os verdadeiros protagonistas de "Amor à Vida"

Foi contrariando todas as expectativas negativas - motivadas pelas várias frustrações passadas - que finalmente o beijo gay entre homens foi dado em uma telenovela brasileira nesta sexta-feira, 31 – diga-se de passagem, com grande comemoração do público e dos artistas. "Estou anestesiado", disse Thiago Fragoso, o romântico Niko. "A maioria se rendeu ao casal", comentou e comemorou o ator Mateus Solano, o já icônico Félix

Dentro de um restaurante, em São Paulo, assisti ao fim da novela por meio de um telão e, no momento em que o casal em questão fazia juras de amor, um silêncio absoluto tomou conta do espaço."Ah Félix, eu não vivo sem você", "Eu não vivo sem você, carneirinho", foi a deixa para que o beijo ocorresse no conservador "plim plim". Delicado, simples e tocante.

A reação do público, formado por pessoas de todas as orientações sexuais, foi imediata. Aplausos, gritos, arrepios, vibrações positivas e... Muitas lágrimas. No Facebook, o panorama de uma comemoração nacional, digna de Copa do Mundo. Não que um beijo gay fosse acabar com a homofobia do Brasil. Mas a cena fez desengasgar um sentimento coletivo, por conta da invisibilidade do afeto entre pessoas do mesmo sexo em um dos produtos de maior audiência no país. Como se o beijo gay fosse algo errado, devesse ficar escondido, merecesse ser abafado ou fosse digno de censura. 

Personagens e casais gays já são retratados a revelia, têm seus comportamentos e personalidades variadas, mas nunca aparecem de fato como um casal. Além disso, os dilemas sempre giram em torno da trindade "sexualidade, aceitação ou humor" e os casais são vistos no máximo como amigos íntimos. Na novela América, por exemplo, Junior [Bruno Gagliasso] e Zeca [Erom Cordeiro] caminhavam para dar o aguardado beijo gravado. Porém, antes mesmo de os lábios se tocarem, houve um brusco corte, uma censura. Nesse caso, em 2005, há quem também tenha chorado, mas de tristeza. Sem contar na novela “Torre de Babel”, em que as personagens vividas por Christiane Torloni e Silvia Pfeifer foram mortas, porque o público de 1998 não aprovou o romance lésbico.

A façanha de "Amor à Vida", todavia, não se deve porque houve uma transformação da sociedade: afinal o beijo gay existe há tempos e as pessoas aprovam ou não há tempos também. Deve-se porque Félix e Niko não se tornaram meros personagens gays, que se limitavam ao papel de gay e que estavam fadados ao que o telespectador já achava previamente sobre o grupo, preconceituosamente ou não. Walcyr Carrasco conseguiu entender que, assim como na vida real, tais personagens precisavam que o público os conhecessem de fato, se tornasse íntimo e que eles estivessem cercados de... HISTÓRIAS. Diferentes, variadas, humanizadas, dramáticas, sem vitimismos, com a consciência de que o amor e a pluralidade são os melhores caminhos.

A família do Félix e Niko

O público acompanhou lado a lado o processo do romance [inicialmente impossível], a luta de Félix contra a sexualidade [inclusive em um casamento hétero], o sonho de Niko pela paternidade, a traição sofrida pelo ex, a enganação da amiga, e entendeu que a homossexualidade é apenas uma das várias características de uma pessoa, que existem vários gays na sociedade [assim como na novela, que promoveu pelo menos sete personagens, de vilões, a anjinhos, a homens no armário, a pais] e que todos têm uma história. Ou seja, depois de tantas pelejas, lágrimas e redenções, ficou mais fácil reconhecer Niko e Félix como um verdadeiro casal, a realmente torcer por eles e a aguardar um normalíssimo beijo. Afinal, qual personagem carismático e próximo do telespectador não merece um final feliz?

Com Félix e Niko, Walcyr Carrasco conseguiu ir da Terra a Saturno, percorrer da vilania ao desejo da paternidade, da redenção à busca por um novo amor, do coadjuvante ao protagonista "soberano", do casamento de fachada ao amor pleno e verdadeiro. Conseguiu o mais difícil em um texto que visa ser interpretado por toda a massa: humanizar um personagem caricato, que ao lado do talento de Solano e Fragoso alcançou e colocou facilmente o telespectador no bolso. E, claro, com muito jogo de cintura, conseguiu visibilizar e naturalizar o beijo entre rapazes.

Porém, mais feliz que o beijo em Niko, Félix conquistou na última cena aquilo que ele tanto quis, proporcionando um dos momentos mais lindos de toda a trama: A declaração de amor e a aceitação do pai. Um homofóbico, que metaforicamente só começa a voltar a enxergar depois que consegue aceitar e respeitar o filho gay, que ele tanto rejeitou e que fez de tudo para mudar. Simplesmente emocionante e um marco importante no combate a homofobia. 

Vale lembrar que a história do beijo gay começou em 1963, em Calúnia, da TV Tupi, com Georgia Gomide e Vida Alves, passou por diversas tramas e quase finais felizes, vingou com Luciana Vendramini e Gisele Tigre, em Amor e Revolução, do SBT, e coroou com Mateus e Thiago brilhando em Amor à Vida. Que a novela seja a precursora de uma nova fase para a teledramaturgia, na visibilidade dos casais gays e nas possibilidades de histórias tocantes da comunidade LGBT. E que ocorram novos beijos, desta vez um pouco mais molhados, sem que as palavras tabu e preconceito acompanhem toda a performance. 

Félix e o pai César, interpretado por Antônio Fagundes

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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