Entrevista

Ana Fadigas revela bastidores da G Magazine, capa dos sonhos e diz: 'O amor da minha vida foi um gay'

"Quanto mais informação você tem, mais você sabe o que você é"
Por Neto Lucon
Fotos: Gerson Roldo 

Aos 67 anos, Ana entra no taxi e, comunicativa como é, logo puxa papo com o motorista. Conversam sobre trânsito, leis, prefeito de São Paulo, até que o taxista deixa escapar que considera “um absurdo gays terem direitos como pessoas normais”. Ana respira fundo, ajeita o vibrante cabelo no espelho e diz que pessoas tem o direito de serem felizes. Mais que isso: que tem um filho gay, que ele deve ser amparado pelas leis e que não admite homofobia em sua presença.

O taxista engole a seco, desculpa-se e segue a viagem. O que ele não poderia imaginar é que a passageira em questão é Ana Fadigas, fundadora e ex-editora da revista GMagazine, marco na história da imprensa brasileira direcionada ao público gay de 1997 a 2008, responsável por desnudar pela primeira vez famosos  – dentre eles, jogadores de futebol, ex-BBB, atores e cantores - e se colocar como militante simpatizante LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais]. 

Heterossexual, mãe de dois filhos – e por acaso, nenhum deles é gay -  Ana já foi casada três vezes, sendo que um deles foi com um homem gay. Detalhe: o grande amor de sua vida. Atualmente, a jovem senhora de espírito transgressor escreve o livro “Carne Viva”, que conta a sua história e a íntima relação com a G e que deve ser lançado em 2014.  Abaixo, Ana conversa com o NLucon e revela detalhes de sua carreira, vida, o título de “mãe dos gays” e posa pela primeira vez para um ensaio fotográfico, de Gerson Roldo

Leia:  

Você é considerada “a mãe dos gays”, afinal deu visibilidade para um público específico no mercado de revistas e fez muita gente se autodescobrir. De qual maneira você percebeu que os leitores começaram a te ver como figura materna?

Foi espontâneo e na medida em que os leitores começaram a enviar muitas cartas para a redação. Os adolescentes me pediam ajuda, agradeciam o que eu escrevia no editorial e elogiavam as matérias que saíam na revista.  Até que um leitor me mandou um cartão no Dia das Mães e eu fui pega de surpresa. A partir dali a sensação de maternidade tomou conta e foi como se ele me desse também uma sensação de responsabilidade. Mas uma responsabilidade feliz, muito feliz. Afinal, sem a G eu não entenderia a verdadeira maternidade no sentido mais sagrado  da palavra. Eu tenho dois filhos, que por acaso não são gays, mas a maternidade que tive com a G foi outra. Eu adotei muitos gays com esse verdadeiro carinho de mãe.

-Já que tem esse lado materno, como lida quando vê uma reação homotransfóbica próxima de você?

É exatamente a dor da mãe. É a dor de uma mãe que tem um filho gay, que sabe que ele sofre e que tem que defender. Mas é importante frisar que é a dor da mãe pelo filho, por sentir a violência que ele sofreu e não por ter um filho gay. Ter um filho gay não é dor, é felicidade. Eu sou uma mãe leoa, que já foi pra cima quando vi uma pessoa bater no meu filho.

'Não fui feliz em vender a G, mas sabia que havia finalizado um cíclo'

-Por quase 10 anos, você esteve como editora da revista infantil Recreio. Existia alguma referência sobre a diversidade? Aliás, considera importante este tipo de abordagem na infância?

O conteúdo da Recreio neste início estava protegido pela inteligência das pessoas, como grandes nomes como Ruth Rocha, Ana Maria Machado... E quando a gente fala de inteligência, não fala de preconceito, de divisão entre homens e mulheres. A gente pensava mais no entendimento da criança e em como ela receberia aquela informação, ou seja, pensava mais no ser humano infantil. Hoje, acho muito pobre a abordagem neste universo. A primeira história infantil que vi voltada para a diversidade foi na G, em que a Georgina Martins, uma mãe que sabia escrever bem, havia escrito um livro [O Menino Que Gostava de Ser] e nós a entrevistamos, com trechos do livro na G. Georgina hoje tem uma ONG, a Mães pela Igualdade. Era uma história de uma criança que se enfeitava, que gostava do universo feminino, essas coisas. É importantíssimo um trabalho que fale sobre diversidade para a criança, neste entendimento específico para ela.

- O que você acha de quem diz que ao falar sobre a homossexualidade na infância pode haver algum tipo de influência?

Essa é uma das coisas mais burras e ignorantes que o ser humano fala. É o contrário do que dizem: a informação só agrega.  Quanto mais informação você tem, mais você é o que você é  e também mais sabe o que não é. Por exemplo, eu cresci em uma família que não tinha muito problema com virgindade ou com sexo, mas mesmo assim eu me casei virgem. Mas daí você me pergunta: “Você tinha algum preconceito?”. Não, eu não fiz porque era algo tão normal que não via necessidade de fazer e nem de não fazer. Fiz quando eu quis. E é por isso que digo que a informação liberta, que você é o que você é. E ponto.

- Você aparenta ser uma mulher a frente do seu tempo desde sempre. Como foi você criança e adolescente?

Ai, muito estranha [risos]! Fui criança fui muito madura, pensativa, nasci em fazenda, em uma  família de muita grana, que depois perdeu tudo. Por viver cercada de natureza, garça, tatu, tive muita introspecção, solidão, fui uma criança bucólica e madura demais. Como adolescente, embora não houvesse censura dentro de casa, eu fui bobinha, ingênua, brincava muito e só fui sacar que pessoas faziam algo na cama por volta dos  16 anos. Pois é, com 16 anos fui sacar que os filhos não eram feitos por mágica [risos]. Eu tinha um corpo de mulher, era uma mulherona e tinha um corpo de mulher, mas cabeça de menina, então isso causava uma coisa estranha nas pessoas. Me chamavam de existencialista.

-A fama de brigar, bater o pé e virar a mesa por aquilo que quer é verdadeira?

Sempre vi o mundo de uma maneira muito diferente da maioria e já havia resolvido na minha cabeça algumas coisas que não eram resolvidas para a sociedade em geral. Além disso, gostava muito de trabalhar e brigava muito pelo que eu acreditava. Na revista Contigo!, Em que eu fui diretora por oito anos, briguei muito para a revista deixar de ser vista pelo mercado anunciante e mídia como a revista da empregada para se tornar de A Z, para ser destinada para todas as pessoas. E foi um trunfo conseguir fazer uma grande campanha de comunicação que foi triunfante e inclusive ganhou prêmios na época.  Também,  na revista Carícia, que era para pré-adolescente, quis fazer uma edição “Tudo o que você quer Saber sobre Sexo, Mas não Tem Coragem de Perguntar”, com ilustrações ousadíssimas de Claudia Scatamacchia, desenhos lindos, um texto brilhante e a revisão  e editorial da Marta Suplicy. Foi uma edição moderna até para os dias de hoje e que eu consegui depois de muito bater o pé. Eu brigava até a página dois, já que a decisão final era da Direção da Abril. E eles sempre me apoiaram muito. Já na G, eu conversava sobre tudo com todos, se ficasse dúvida  a decisão final era minha [risos].

- Lembra a primeira vez que se deparou com um homem gay?

Eu tinha 12 anos e ele era inteligentíssimo, interessantíssimo, uma graça e... Era diferente. Não me pergunte se eu entendia essa diferença na época, pois estamos falando de 50 anos atrás, mas sabia que ele parecia fazer parte de outro mundo. Ele se apaixonou por mim e eu achava ele – não sei como posso explicar –tudo! Quando ele chegava aos lugares em que eu estava, sentia uma emoção muito forte. Com o passar dos anos, fui entendendo que ele era gay, inclusive conheci o rapaz com quem ele viveu junto. Ele foi o primeiro gay que eu conheci com uma  ideia de um contato amoroso. Acho que essa paixonite por mim fazia parte de certa, apesar de inconsciente, aceitação do universo diverso dele.

"Primeiro homem gay que conheci foi aos 12 anos. Ele era interessantíssimo e... Diferente"

- Curiosamente, você acabou se casando com um homem gay 10 anos depois. Poderia contar a história de amor que teve com o Jayme Camargo [ex-editor da G, que morreu em 2009]?

Eu tinha 20  anos e fazia cursinho para Ciências Sociais no Cursinho Objetivo. No dia 22 de março de 1969, entrou na classe um professor e, em um lapso de segundo, ao olhar aquele professor, tive uma coisa muito estranha: sabia que ele faria parte da minha vida pelo resto da minha vida. É inacreditável, mas é verdade. Ele era um gênio e foi meu professor de Interpretação de Texto. Nos aproximamos depois que ele começou a dizer que eu escrevia muito bem, embora não usasse ponto, vírgula, nada [risos]. Me dava nota máxima em conteúdo, mas 4 de gramática [risos]. Seis meses depois nos casamos, ou seja, me casei com o gay da minha vida.

- E como foi se casar com um homem gay?

Eu fiquei sabendo que ele era gay depois de três anos de casada. Ele queria separar eu também achava que isso poderia acontecer, mas, muito apaixonada, não queria. Aí ele me contou, na rua, numa esquina, que estava apaixonado por um homem. E não é que eu não me assustei? Eu levei um baque por ele não me amar como eu gostaria, mas o fato de ele estar com um homem não me fez sentir nada muito diferente do esperado. Bom, sinceramente, senti que a traição com um homem foi até mais fácil de ser entendida, porque com mulher estaria lidando com uma igual. Concorrência pura (risos) .  Tanto que a conversa terminou assim: “Mas você não vai continuar comigo mesmo assim?”. Depois, eu não contei para ninguém, isso ficou entre mim e ele.

-Os dias seguintes foram tranquilos? Ele continuou com você? Ou melhor, vocês continuaram juntos?

Os dias seguintes foram de muito sofrimento porque eu achava que ele ia embora. Eu não tinha muita noção – que só fui ter tempos depois - que deveria ajudar ele a se libertar. Mas ao mesmo tempo ele não conseguia ir embora, ao mesmo tempo ele namorou um homem e ao mesmo tempo eu conheci o namorado dele.

- Você conheceu o namorado do seu marido? Conta como foi...

Um dia, estava na rua e fui parada por um homem, que disse: “Você é a Ana, né, é a mulher do Jayme, e eu queria te dar esse presente para você dar para a sua filha”. Quando eu conto essa história, as pessoas falam: “Depois disso, você foi internada, né?”. Não. Eu agradeci o presente e dei para a minha filha. Na verdade, toda vez que aconteciam essas coisas, parecia que eu estava em outra dimensão e que eu não sabia exatamente o que estava se passando...  O que eu queria é ficar com ele, não sei como, mas queria continuar nesta relação.

- Sem querer ser invasivo, depois que ele informou sobre a sexualidade, vocês continuaram...

Eu tive outro filho com o Jayme. Não sei explicar nada, só sei que estávamos sempre juntos, achava que ele ia ficar, que ia namorar outro homem e que eu não tinha que ficar discutindo isso com ninguém.  Até que um dia a gente descobriu que existia uma ligação que não era daqui [da Terra, deste plano],  que não era uma ligação normal de amor daqui. E a gente percebeu que jamais iria se separar como amigos, como pessoas que se gostavam. Eu tenho orgulho de ter meus filhos com ele, pois, para mim, esse amor é o mais lindo do mundo e foi o maior amor da minha vida. Não amor de homem e mulher, foi um amor muito maior que isso. 

- Lembrando a novela “Amor à Vida”, você é uma pessoa anti-Edith? Jamais usou a homossexualidade do seu ex-marido como xingamento?

Totalmente anti-Edith. Até porque ele foi uma das pessoas que certamente mais sofreram nessa história. Ele foi um cara de uma geração em que os homens gays não se assumiam. Eu fui a segunda mulher dele e, depois de mim, ele ainda se casou com outra. Eu dizia: “Por qual motivo?”. E ele: “Eu quero que meus filhos tenham uma casa e...”. E aquilo me entristecia profundamente. Comigo, não deixávamos passar uma semana sem nos falar. Até que, quando eu estava no meu terceiro casamento, falando ao telefone com ele um dia ele  disse que estava doente, velho e que achava que ia morrer. Meu marido falou: vamos falar para o Jayme vir embora de Portugal, porque você é que vai morrer com essa informação. E ele veio morar comigo e com o meu terceiro marido [risos]E com nossos filhos que ainda moravam comigo. Foi um período muito em Paz. Ele namorou sentiu-se muito vivo e um tempo depois seguiu sua vida .

"Foco dos leitores era um só: pênis enorme, grande". 

- E onde a G Magazine entra nessa história?

Bom, nesse período não existiu a G. Ela só chegou anos depois , já no terceiro casamento (risos) .Depois que eu saí da Editora Abril  um amigo meu, que é o [apresentador] Otávio Mesquita, comprou o título  Revista Sexy e eu entrei como sócia, assim como o editor Angelo Rossi também. Quando cogitei ter uma revista de nu masculino, a gente lançou a Banana Louca, baseado em um site que existia de outros parceiros. Porém, depois de cinco edições, a gente foi registrar e viu que aqueles parceiros já haviam registrado a marca na categoria revista. E foi um susto, né? Imagina você investir em uma revista, que estava no nome de outra pessoa? No outro dia, a gente fechou a Banana Louca e lançamos a G Magazine. O Jayme soube do lançamento de uma revista para Homens que Gostam de Homens um tempo depois e, como tudo na nossa relação, recebeu a informação com muita naturalidade.

- É óbvio que ninguém entra em um projeto para perder. Mas você imaginava que, ao lançar uma revista para um público já discriminado, iria marcar a história?

Não. Eu achava que eu ia falar sobre temas que gostava, falar do prazer, mostrar o corpo do homem, mas não tinha muita noção do que iria vir, de como ia ser e do que geraria.  Inclusive, nas primeiras edições eu não coloquei nu frontal, porque eu mesma tinha um certo preconceito do nu frontal. Fui vencida pelos leitores e pela equipe, que disseram: “Ou faz com nu frontal ou não faz”. E eu aprendi que eu, mulher, é que tinha preconceito com o pênis. Daí coloquei o pênis e um tempinho depois o famoso pinto duro [risos]. O [ator] Mateus Carrieri foi o primeiro pênis ereto da G.

- Por que o pênis choca ainda hoje?

Muitas mulheres héteros têm certo distanciamento do pênis, porque  para elas o pênis ainda não é sinônimo de prazer, ainda temos tabus quanto ao sexo, quanto a gostar disso ou daquilo. Já com os homens gay acontece exatamente o contrário: o pênis é objeto de prazer, de beleza, de gosto... Mas sempre achei o pênis muito estético - a beleza guerreira do pênis é imponente, como uma espada, uma lança de um guerreiro - e acabei amiga íntima do falo! Grandes nomes da cultura gay falaram  na G em matérias do tipo: “Quem tem medo do falo?”, em que trazíamos o lado psicológico e até mostrávamos dados históricos em que o pênis sempre foi objeto de adoração. E por que não ser ainda?!

- Uma curiosidade: Já aconteceu de algum famoso não sair na revista por não ter um pênis esteticamente bonito? E o que seria um pênis bonito?

Olha, já houve casos, mas não foram muitos. O que eu sempre pensava era  o seguinte: Faço a revista para o leitor, não faço para mim. Então, é um exercício de observação, do que a maioria gosta, do que não gosta... Às vezes colocávamos, ou tentávamos pelo menos, belezas fora do padrão vigente, mas tínhamos que ir mais vezes ao foco.  E o foco era um só: pênis enorme, grande ( risos). O importante foi que as fotos eram muito bem feitas e a beleza do corpo masculino estava lá.  Então, algumas “ gentes “  quis aparecer, mas como uma precaução inclusive poupando o modelo que poderia sofrer  com a crítica do leitor. Mas foram poucos, a maioria foi um sonho [risos].

- Conseguir que homens famosos héteros levantem a bandeira LGBT não é tão simples ainda hoje. Como foi para você conseguir que famosos tirassem a roupa para os gays?

A equipe era boa pra caramba, ia atrás, conversava e conseguia. Mas a gente sempre teve o cuidado de dizer que a revista era para o público gay, que qualquer ato de homofobia teria uma punição contratual e que não adiantava disfarçar quando desse uma entrevista. Não adiantava dizer que estava posando para mulher e tal. Não, era para o gay. Ou então dizer que não “tinha preconceito porque até tinha amigo gay”. Só faltava, né, um cara que sai em uma revista gay fazer piadas homofóbicas. O advogado da G era atento e já mandamos advertência para alguns...

"Mateus Carrieri foi o primeiro famoso a posar com o pênis ereto e fez quatro G."

- Em 2005, o Jean Wyllys venceu o BBB e houve comentários de que o doutor Gê – uma das pessoas que foram consideradas homofóbicas na edição - seria capa da revista. Isso existiu?

Nunca! Nem que ele pagasse. Os próprios famosos soltavam alguma coisa na mídia, mas quando saiu algo na imprensa sobre ele eu logo desmenti. Nunca houve qualquer tipo de interesse e eu proibi qualquer cogitação desse e de outros nomes. Nunca, jamais, de forma alguma. 

- Das grandes capas históricas, sei que Mateus Carrieri, Alexandre Frota e Vampeta contribuíram muito. Em sua opinião, qual capa foi a cara da G?

Realmente, com essas pessoas a G mudou o patamar de venda e de marca, chegando na época a vender mais de 140 mil exemplares. Quando as vendas eram muito menores . O Mateus foi o primeiro famoso a posar e fez quatro G. O Vampeta foi também marcante porque repercutiu na Europa, já que ele morou na Holanda. Já o Frota foi uma paixão, porque ele investia de verdade, fez quatro edições que tinha tudo a ver com ele. Ele facilitou e acreditou no projeto, tanto que muitas vezes fez parcerias nos ajudando a fazer a edição. Foi um sócio entre aspas.   Eu dizia: “Deixa o Frota fazer o que ele quiser”. E as edições dele sempre foram muito ousadas e competentes. Bonitas. Agora, todos os jogadores contribuíram muito também: o Dinei, o goleiro Roger, Tulio Maravilha, Rafael Cordova ... Os BBBs também foram importantes. Tanto que o Rogério, o jardineiro de cemitério [do Big Brother Brasil 4], foi uma surpresa e um sucesso de vendas. Na edição de um dos BBBs  existiu um que era chamado de “dotadão”, mas na verdade o dotadão era o Rogério [risos].

- Há quem diga que não há gay em capa de revista gay e que, além disso, a preferência é por macho. O que você poderia falar sobre isso?

Eu já fui contra esse discurso e coloquei alguns gays bem femininos na capa, principalmente no início, como alguns dançarinos. Mas, além de não vender muito, os leitores reclamavam. Escreviam que não gostavam de bichinha, que queriam ver homens. Eu reagia: “A bichinha também não é homem?”. Mas as reclamações, os pedidos e as vendas venciam na escolha, né? Eu acabava colocando uma inovação ou outra no recheio. Além disso, quando colocava um negro na capa, tirando alguns ex-BBBs, eu sabia que venderia menos, porque o foco deste leitor é específico: é branco e macho. Então, a discussão não deve ser levada apenas em ser hétero ou gay, mas em um tipo de homem que é valorizado culturalmente.

- E como foi ter o Clodovil na capa, aos 67 anos, apresentando um modelo de cueca? Qual era o contato que você tinha com ele?

Você sabe que foi o próprio Clodovil que apresentou o Júlio [Capeletti, a capa da edição], que trabalhava como garçom em São Paulo em um Bar Chic dos Jardins , e que depois foi para fora do Brasil e foi sucesso .  Clodovil era meu amigo de muitos anos e ele me ligava à noite para reclamar dos meus editoriais, pois eu escrevia sobre Deus e ele ficava bravíssimo , emputecido: “Como é que você mistura pau com Deus? Isso é pecado!” [risos]. E eu respondia: “Clodovil, esse é o meu Deus, ele gosta do corpo humano, gosta de tudo, o seu deus é que é diferente”. Nas entrevistas dele, a gente tinha que polir o discurso, pois muitas vezes raspava na homofobia internalizada.  A relação era ótima e, um dia ele me olhou num restaurante, e falou: “Uma mulher como você eu casava”. Meu Deus, mais um marido gay [risos]. Depois dele, o Ronaldo Ésper quis posar também para G ... E posou! Mas Clodovil era e sempre será um sucesso! Eterno!

- Com tanta valorização no pênis, hoje, daria para fazer uma G com um homem transexual [que tem o genital atribuído feminino e o gênero masculino]?

Naquela G de antes, não, porque um homem com vagina ainda era tabu e caia em diversos outros campos. Tanto que uma vez eu fiz a Sexy com uma travesti com enorme pênis, e houve muita reclamação. Foi diferente de quando colocamos a Roberta Close mostrando tudo depois da operação e, vou te contar, foi a maior venda da história da Sexy. Esgotou. Fizemos duas edições com ela, a primeira eu coloquei um adesivo na capa que, ao ser retirado, se via a “a beuaucetis ” dela inteira. E esse negócio do tire aqui pegou. Não ficou uma revista nas bancas. Voltando a hoje, não sei se um homem transexual posaria. Mas eu faria uma revista virtual ou impressa que, com belos ensaios, valorizassem a  beleza trans . Ou tudo junto e misturado independente de rótulos , gay , hetero, lés, trans e todas as letras. E que aceitem o diverso , aquilo que transgride...

- Hoje, quem seria o famoso dos sonhos a posar nu?

A G não seria mais como ela era. A nudez continuaria, porque eu não conseguiria ver uma G sem a nudez. Mas diferente do que era.  Mas se fossemos fazer uma edição só , escolheria o  jogador Cristiano Ronaldo [risos]. Ele é abusado e com uma cara de não abusado. Seria uma sensualidade muito moderna, garanto.

"A beleza guerreira do pênis é imponente"

- Quando falamos em um conteúdo para um público segmentado e discriminado, muitos jornalistas evitam dar o seus verdadeiros nomes. Quando você resolveu assinar a G, foi por conta desse receio dos pseudônimos dos demais jornalistas?

Exatamente! Quem tinha o nome era eu e o Otávio Mesquita, os demais exigiam um contrato em que eu garantia que só sairia o pseudônimo. E pensava: “Se eu não colocar o meu nome, que sou uma jornalista conhecida, que trabalhei 20 anos na Abril, como vamos fazer?”. O primeiro que assinou com o próprio nome foi Paulo Giacomini, e eu coloquei na capa a entrevista dele: “Matéria tal por Paulo Giacomini”. Achei o máximo, porque já achava ele o máximo e principalmente por ele dar esse passo e aceitar colocar o nome [risos]. Quanto às críticas que eu sofri por ter meu nome na G, eu tirei de letra. Diziam: “Você tem certeza que vai trabalhar com este público?”. E eu dizia: esse público faz parte da minha família. Minha filha perguntou um dia, assim meio divertida , o que diria para o namorado sobre o que eu fazia. Disse: “Faço revista de sacanagem [risos]. Brincadeira, sempre fui muito respeitada pela minha linda família.

- Você já disse em uma entrevista que tem alma gay. O que significa?

Pergunte: por qual motivo me sinto tão participante desta tribo? Talvez por ser alguém muito diversa, meio “gauche” ( fora de rota em francês , não ao pé da letra)   na vida... Mas não é só isso. Essa paixão aos 12 anos, o Jayme, a G, tudo de tem alguma coisa que eu não consigo explicar – inclusive terapeutas já vieram com a pergunta: ‘Você é lésbica’; e eu não sou – eu acho que faz parte dessa construção da minha história e eu não tenho o que responder. Acho que é porque eu tenho uma alma gay.

- A G tinha um público fiel, tinha boa vendagem, era prestigiada e tinha uma marca fortíssima? Por qual motivo você vendeu a revista?

Quando a Sexy saiu da editora, eu não tive a percepção de que se criou outra editora, porque o carro-chefe era a Sexy. E eu continuei fazendo a G como se a 3editora ainda fosse  uma grande editora , não só uma grande revista. Eu investia muito e, enquanto na Sexy a gente conseguia algumas modelo que posavam  por muito pouco na época , na G não. Eu fiquei sozinha, sem sócios, chutando com a direita, com a esquerda, pegando no gol e eu acho que não tinha muito alternativa.  Eu jamais queria que a G diminuísse página, mudasse a qualidade do papel, pois não aguentaria, queria que ela fosse respeitada até o último dia em que eu estivesse nela. Muita gente dizia: “Ana, você não está aguentando mais”, porque eu ficava 24h enlouquecida com dívidas, pagamentos... Então, eu vendi a G por uma questão de grana, eu tinha dívidas, tinha um faturamento bom, mas eu não dava conta, não arranjava parceiros para investir e trabalhar comigo. Foi uma decisão muito dura, pois era a minha alma que estava sendo vendida. Neste mesmo período, eu tive a separação do meu terceiro marido, eu comecei a engordar , deprimir , de ver a editora estar desequilibrando nas  suas lindas perninhas... Mas era ainda um muito bom negócio para investir. Muito bom mesmo.  Houve a proposta para eu vender e eu vendi.

- O que pensa sobre essa decisão? Você chegou a ganhar uma boa grana pela revista?

Em nenhum momento eu fui feliz por vender, mas sabia que tinha cumprido a minha missão durante todos aqueles anos. Materialmente, toda a construção dessa história da G não trouxe nada, inclusive a venda dela me deixou pior materialmente. Coisas não foram cumpridas. Ponto. Os bens que eu tive, tudo o que eu tive, pertenceu ao passado, ao tempo em que trabalhava  na Abril. A G não me trouxe bens materiais, mas trouxe o maior presente que eu já ganhei na vida: eu entendi o sentido de minha vida!  Nada me valeu mais a pena na vida que a G [se emociona].

- Como você está hoje?

Eu tenho a minha missão até hoje, eu milito até hoje e espero contribuir até o final de minha vida.. Atualmente, escrevo um livro , junto com um jornalista o Joao Luiz Vieira , um grande profissional. O livro é  a minha história e a história da G, ou seja, uma coisa única. Joao Luiz é um grande incentivador desse fato. O que significará esse livro? Vai significar a minha herança palpável , porque ela estará escrita. Se uma ou 15 pessoas lerem, ali vai estar a minha missão. Hoje, eu penso 24h na Gmagazine, pois ela é também a minha história e o livro está se construindo.

-O que pode adiantar sobre o livro?

Vai contar a historia  da minha história e a história da G. O título provisório é Carne Viva, terá mais ou menos  200 páginas . E  eu estarei na capa... ( confidenciando sem falar nada ) . Isso é para uma próxima entrevista para você... É aguardar...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

5 comentários:

ana Fadigas disse...

Neto Lucon muito grata pela entrevista , pela força que me deu pra ter coragem de falar o que senti mesmoooo. Você é um guerreiro. Obrigada ao Gerson Roldo e sua Sil Gollmann que nos ofereceram as fotos e a maquiagem . Ficaram lindas. Obrigada a todos que fizeram a G Magazine comigo. um por um!

Anônimo disse...

Ana querida! Qro te maquiar pra capa do teu livro!!!
Obrigada por toda esta transparencia e amor...
Obrigada Neto por nos oferecer esta materia tao rica...
Beijos doces e macios, Sil Gollmann

Letícia Lanz disse...

Parabéns pela belíssima síntese existencial a que bem poucas pessoas têm acesso neste mundo: "até que um dia a gente descobriu que existia uma ligação que não era daqui [da Terra, deste plano], que não era uma ligação normal de amor daqui". Amor é isso. O resto é só sexo, que é bom também, mas não substitui a experiência única de entrar na dimensão do amor.

Ronald Assumpção disse...

Ana querida... vc foi dos grandes presentes da minha vida e que me deu a Fatima Tassinari quem me foi presenteada pelo João Silvério Trevisan... ler esta sua entrevista foi outro enorme presente. Estou lhe esperando aqui em casa, viu... café da manhámã com direito a flores como vc merece. Bravo. Beijos e saudades... muitas Ronald e Daniel

Tadeu disse...

Que máximo a entrevista. Bateu saudades de ler a ana, dei um google e este foi um dos 1os links. Parabéns. Ficou linda. ❤️

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