Entrevista

Edith Modesto fala sobre delicada relação de pais e filhos LGBTT e casos marcantes: 'Vale a pena tentar'

Edith Modesto e o filho Marcello: 'Não vejo muita diferença no processo de aceitação
de pais de filhos LGBT nos últimos anos'
Por Neto Lucon

Ao visualizar uma mulher grávida, a pergunta social que acompanha as dúvidas sobre o bebê é uma só: "Menino ou menina?" -  baseada unicamente no ultrassom que revelou o genital, realizado cada vez mais cedo. Ao saber o sexo, uma infinidade de expectativas ocorrem automaticamente: a divisão das brincadeiras, das roupas e da projeção dx possível parceirx - claro, sempre do sexo oposto.

Mas na vida prática, nem tudo é óbvio, nem todos sentem, gostam, orientam-se ou sentem-se como a maioria... E é aí, dentre outros conflitos, que há o estranhamento entre pais héteros e cis com seus filhos LGBTT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais], pessoas que sequer foram consultadas na barriga da mãe se poderiam corresponder com tais modelos.

Há 22 anos, a escritora, professora e terapeuta, Edith Modesto enfrentou esse dilema dentro da própria casa. O caçula de seus sete filhos - seis homens e uma mulher - revelou ser homossexual. Num primeiro momento, Edith se desesperou, sentiu-se só e procurou em vão outras mães de pais de filhos LGBTTs para conversar. Sem sucesso, decidiu acabar com a dor provocada pelo desconhecimento com... Informação.

Formou, então, o GPH - Grupo de Pais de Homossexuais. De 1997 a 1999, o grupo não passava de quatro mães, que reuniam-se em sua casa. Em 1999, teve a coragem de divulgar o trabalho na grande mídia e viu o número de pais que a procuravam crescer. Hoje, Edith é especialista em diversidade sexual e questões de gênero, ajuda inúmeras famílias a se reestruturarem e é vista como um símbolo das mães de filhos LGBTT. Em conversa exclusiva, com o NLucon, ela fala sobre essa maravilhosa e delicada relação: 

- Em 1992, você descobriu que um de seus filhos é é gay e não encontrou outra mãe para conversar a respeito, trocar experiências e esclarecer o assunto. Pouco mais de 20 anos e à frente do GPH, pode dizer que as mães e pais de filhos LGBT ainda preferem a invisibilidade? Por que isso acontece ainda hoje?

Posso dizer que em todos esses anos não vi muita diferença para melhor no processo de aceitação dos pais de filhos LGBTs, infelizmente. Costumo falar de muros de pedra: o social está abalado, já há algumas mudanças positivas, principalmente se falarmos das diferenças de orientações sexuais. Haja vista que já se fala no assunto em jornais, revistas, nas novelas, como no última da Globo e, principalmente, na web. Em segundo lugar, o muro escolar apresenta somente pequenas trincas, ainda está bem difícil. Por último, o muro doméstico continua inexpugnável. No meu livro “Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais”, organizei as fases do processo de aceitação pelos pais heterossexuais de filhos homossexuais e comprovo o que digo com testemunhos de pais e de filhos.

Falando em “invisibilidade”, o que você perguntou, 
o sentimento da vergonha aparece no início do processo e é o último que some. A vergonha da família favorece a invisibilidade dos LGBTs  e é interessante ouvir mães dizerem: “Eu não tenho preconceito, amo meu filho. Meu filho  é gay, mas parece hétero, não tem trejeitos...  Ou então, os pais proíbem os filhos de “saírem do armário”, “se enturmarem”, porque é muito perigoso e eles não podem se arriscar a serem mortos... Essa é uma fase em que ainda há preconceito, mas está camuflado, está fantasiado de cuidados maternos, o que, às vezes, é pior do que o preconceito declarado, pois são manifestações de homofobia camufladas, algo hipócrita que confunde as pessoas.

- Por que é muito difícil para muitos pais aceitarem ou lidarem com um filho LGBT? Para eles, o principal obstáculo é a desinformação, as expectativas, a religião, o preconceito ou a cobrança social?

É difícil ser pais de LGBT, é difícil ser LGBT, porque eles são pessoas  que fogem às normas do que a gente deve ser. Fazendo uma analogia, é como se o bebê, ainda na barriga da mãe, firmasse um contrato, assinado em cartório, selado e carimbado, de que ele seria cis e heterossexual. Se ele não for, rasgou o contrato que firmou com a mãe e ela ficará muito decepcionada com esse filho sem palavra! O filho também não se sente bem, se sente culpado por ter desrespeitado o contrato. Basta lembrar de que,  mesmo hoje, em 2014, uma mulher grávida pensa, sonha, fantasia muita coisa sobre o bebê que está gerando, mas nunca lembra de que ele pode ser LGBT. E ele pode ser. Os sonhos dos pais são para que os filhos serem o que aprenderam que é positivo, que é bom para eles: serem cis, serem heterossexuais. Talvez eu esteja fugindo do assunto, mas há muito tempo percebi que o processo de autoaceitação de um jovem LGBT é bem semelhante ao processo de aceitação dos pais. Só costuma ser mais rápido.
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Foto: Gerson Roldo /  "Processo de aceitação dos LGBT é o mesmo processo de aceitação dos pais"

- Em um período em que Feliciano quis recentemente aprovar a “cura gay” no Congresso e Bolsonaro diz na televisão que “pai deve bater em filho LGBT como maneira de reverter a orientação sexual”, há pais que a procuram com esta expectativa de mudança?

Você não imagina as coisas que ouço, ainda hoje. Há pais que querem levar filhos em endocrinologistas para que tomem hormônios para deixarem de ser gays/lésbicas. Há pais que pagam profissionais do sexo em dólares, pois o “filho nunca transou com mulher, como sabe que não gosta?” E não adianta eu perguntar a ele se já transou com homem pra saber que não gosta... Sobre “a cura gay”, em trabalhos bem sutis e camuflados, há uma enormidade de profissionais que trabalham com base na reversão, principalmente quando se trata de jovens. Ainda há clínicas que cobram uma fortuna para reverter a orientação sexual das pessoas, com um trabalho camuflado por técnicas terapêuticas várias, místicas, psicológicas, etc. No ano passado, eu tive um paciente que ia servir de testemunha para abrir um processo, mas logo que a mãe dele o aceitou ele desistiu de entrar em um processo tão desgastante.

- Parece óbvio perguntar, mas o apoio familiar é fundamental na vida de um LGBT e para a saúde da família em geral?

Sei por experiência de muitos anos acompanhando pessoas como é difícil ser feliz sem ter o apoio da família, principalmente dos pais. Claro que, se esse apoio se mostrar impossível, a pessoa terá de se preparar para tentar ser feliz sem ele, mas fica uma marca na alma. Na última palestra que fiz, na semana passada, uma das mensagens que levei foi de uma moça que me escreveu esse mês. Ela é independente financeiramente e já mora sozinha. Também está se preparando para morar com a namorada. Mas não consegue ser feliz, por causa dos pais. Outro exemplo interessante é que nunca em todos esses anos, nossos jovens do Projeto Purpurina do GPH quiseram processar seus pais, mesmo quando foram rejeitados, foram feridos física e psicologicamente, e eles têm hoje essa possibilidade. O GPH, nossa ONG, nunca os aconselha a fazer isso, a não ser em casos de pais muito doentes. Finalizando, o que eu posso dizer é que é possível ser feliz, sendo rejeitado pelos pais, mas é bem mais difícil. A marca, o buraco, você leva na alma por toda vida.

- Em linhas gerais, sabe me dizer quando há o “start “de que o amor e a aceitação é o melhor caminho?

O lema do nosso projeto para pais é “O amor vence”. O amor é sempre o melhor caminho. Temos casos de mãe - evangélica fundamentalista - que ficou nove anos sem ver o filho. Foi uma novela. Inclusive, quando eu procurei o filho, ele me disse que não queria mais saber da mãe. Eu fui testemunha do quanto essas pessoas sofreram! Quantas lágrimas derramadas, de parte a parte, algo inexplicável, completamente sem sentido, principalmente por ser em nome da religião! Hoje, mãe e filho são os melhores amigos um do outro. Esse rapaz é ator e também trabalha com telegramas teatrais. Muitas vezes, ele se caracteriza de mulher e a mãe o leva ao local do trabalho.  Imaginem como eu fiquei comovida quando ela me disse: “Vi meu filho vestido de mulher. Que mulher linda ele fica!...” Tratando-se de uma mãe evangélica  e que trabalha na igreja, eu não preciso de mais nenhuma prova de que “o amor vence”.

- Você também tem um trabalho com pais de trans e filhos trans.  Inicialmente, foi complicado abordar essa outra sigla da sopa de letrinhas?

 Sem dúvida, há muito mais desinformação sobre o grupo de pessoas trans. Essas pessoas ainda não têm o status de “sujeitos” na nossa cultura. Dizendo de outro modo, a trans sexualidade ainda não existe para a maioria quase absoluta das pessoas. Basta dizer que eu não posso dizer no site do GPH que trabalho com pais de LGBTs, com jovens LGBTs. Se eu disser, os pais não entram no grupo e eu perco a oportunidade de ajudá-los e a seus filhos. A primeira garota trans, que apareceu no nosso projeto para jovens, tinha 13 anos e também tinha preconceito com os jovens gays. Ela me dizia: “Edith, não sei o que estou fazendo aqui. Eu gosto de garotos, não gosto de viados!” Por outros lado, os rapazes também não escondiam o desconforto para com ela. O início do nosso projeto de jovens foi muito complicado, eu quase desisti dele. Pensei: “Eu estou querendo diminuir o preconceito que os héteros têm contra eles e parece que o preconceito deles, uns com os outros, é igual ou maior ainda...” Pirei total. Custei um pouco para entender que o preconceito, como uma construção social que nos vem de gerações, é transgeracional, é internalizada em todos nós, independentemente do gênero ou orientação sexual da pessoa.
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"Custei um pouco a entender o preconceito é uma construção social internalizada por todos nós"

- Você já disse numa entrevista que para ser “gay tem que ser muito macho”. E para ser trans?

Risos... Pra ser trans, tem de ser mais macho ainda!  Querido, foi só uma força de expressão! É que nossos jovens nos chegam com a autoestima tão baixa, muitos com histórico de tentativas de suicídio, borderlines, se  ferem, com depressão... São muito tímidos, ficam de cabeça abaixada, olhando para o dedão do pé! Não estou exagerando! Então,  tentamos uma estratégia para que elevem a autoestima e brincamos que homos e trans têm de andar de nariz empinado! Na última festa de Natal, um dos nosso coordenadores jovens, que não falava com os outros nem a pau, de repente, não pegou o microfone e com uma voz linda fez um discurso em homenagem às mães? Meu coração subiu à boca e desceu umas 10 vezes... Fiquei muito feliz e emocionada. E o danadinho ainda tem uma voz linda!

- Quais são as questões que aparecem no seu consultório com a população trans? 

Bem, nem vou argumentar para convencer as pessoas que é difícil ser pais de trans, que é difícil ser trans, porque todo mundo já sabe disso. O que eu tenho visto, e vi hoje com uma paciente trans lésbica, é que a mãe fica na fase da negação e é muito difícil sair dela, porque os estereótipos construídos socialmente lhe dão munição. Por exemplo, a filha gosta de andar de skate? Skate é coisa de homem. A filha toca rock? Rock é coisa de homem. A filha gosta de surfar? Surf é coisa de homem. Finalmente, a filha fica brava por não estar sendo aceita? Ficar brava, com raiva, é coisa de homem! Durma-se com um barulho desses!

Mas o mais complicado está sendo a orientação sexual dela. A mãe me diz: “Edith, como meu filho é trans, se ele gosta de mulher?” Como fazer essa mãe entender que ela tem uma filha lésbica? E isso me lembrou de que há algum tempo já conversamos nas sessões sobre cirurgias.  E percebemos juntas que um dos preconceitos também internalizados é que pra ser mulher trans a pessoa precisa fazer a transgenitalização. Mas, Senhor, ela é lésbica e usa o pênis nas relações sexuais com a namorada! Vai fazer a cirurgia e depois vai comprar um “dildo” no sex shop? Além disso, o protocolo transexualizador é de uma violência de tortura da idade média, pior, pois é tortura, além de física, psicológica.

Você tem de provar que é homem, ou que você é mulher, desconsiderando o biológico e quem é o juiz? Quem tem a sabedoria e o poder suficiente pra dizer se você é homem ou mulher, além de você mesma/mesmo? Exames de sangue para contagem hormonal? Exames para ver se os órgãos sexuais masculinos são em menor ou maior quantidade, como ainda fazem no HC com os bebês que nascem com duplo sexo biológico?

- O que os e as trans geralmente desabafam em relação aos seus pais? O que temos que saber nessa relação? 

Filhos trans reclamam o mesmo que filhos homossexuais. Eles sofrem muito com a rejeição dos pais. Mesmo porque também temos o mito do “amor incondicional”, construído socialmente. "Mãe é mãe, não é uma mulher!" Há jovens que me escrevem três páginas de e-mail com “minha mãe, minha mãe...” e terminam com: “Edith, você liga pra minha mãe?” “Mas qual é o nome da sua mãe, querida/o?”. Ela não tem nome, mãe não é uma mulher, com qualidades e defeitos, poderes e fraquezas... Mãe é mãe e “sabe tudo”, “praga de mãe pega”, “tem um amor incondicional”... Conversa! Mãe é um papel construído socialmente, mesmo que o amor de mãe seja muito importante e enorme!

- Teria mais alguns exemplos positivos para contar?

Já dei tantos exemplos, mas posso dar mais um. Há pouco tempo eu tive uma grande alegria. Uma garota trans - enviado a mim pelo João W. Nery, meu grande amigo - de 9 anos, não estava nada bem. Faltando à escola, com depressão, dor de cabeça, os pais chorando... Pra encurtar: os pais a aceitaram, a escola a aceitou, com a capacitação, consegui tudo que solicitei à diretoria e professores, inclusive ela usa o banheiro feminino, a cabine fechada. Hoje, ela está com a equipe Humanus do Hospital das Clínicas, da qual tenho a honra de fazer parte. Não digo que está tudo bem, porque não está, mas foi uma vitória.

Outra alegria foi quando a Defensoria Pública do Estado de São Paulo - depois que fui lá fazer capacitação de funcionários, e historiei as principais dificuldades dos jovens trans -, mandaram um pedido de mudança de protocolo ao Conselho Federal de Medicina, conforme sugeri. Algo muito tímido, um protocolo cópia daquele dos EUA, mas foi uma mudança positiva. Eu nem soube que eles me atenderam. Dois anos depois, veio tudo deferido. Como nos EUA, poderemos bloquear a puberdade a partir dos 12 anos - muito tarde, mas...-  depois, podemos começar a hormonização, a partir de 16 anos - ainda tarde, mas...- e cirurgia de mudança de sexo, a partir dos 18 anos - pra variar, muitas vezes tarde.
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"Temos o mito do amor incondicional, em que mãe é mãe, não é mulher"

- No último ano, recebi o e-mail de uma mãe de uma criança de oito anos do interior de São Paulo pedindo ajuda, pois o seu “filho queria usar vestidos e dizia querer ser uma menina”. O que falar e quais conselhos dar para quem lida com a questão trans na infância e adolescência? Quando permitir, incentivar ou rejeitar tais pedidos?

A moderna pedagogia diz que as crianças devem brincar do que quiserem e do que gostarem. Eu penso que poderíamos estender esse conceito para tudo, mas temos de considerar o preconceito. Às vezes, o preconceito acaba com a criança. Ela está somente fazendo que seu coração manda, está agindo como a pessoa que ela é, e é zoada na escola pelos colegas e percebe as caras e bocas das professoras, sem falar do sofrimento e preocupação da mãe. É muito complicado. Eu conversaria com a criança, como eu tenho feito, falando da ignorância das pessoas na questão da identidade de gênero. Claro que com palavras que ela entenda. O recado é: “não é você que está errada, são os outros e temos de ter piedade deles...” risos

- Também recebo muitas reclamações de trans que foram expulsas de casa, mas que, apesar das várias marcas de preconceito, demonstram sentir saudade do convívio familiar, sobretudo em datas comemorativas. Como estabelecer essa aproximação? Ela pode ser positiva? É possível uma relação sadia entre filhas trans e pais conservadores?

Complicadíssimo, mas como eu já disse, eu penso que vale sempre a pena tentar e eu tento sempre! Raríssimas vezes eu fui vencida. O meu lema é sempre confiar no lado bom, no lado de amor que os seres humanos têm, principalmente em relação a seus filhos/pais. Mas há relação boa entre pais e filhos trans, pois temos na nossa ONG casos assim. Talvez até o mais complicado é quando a pessoa não é nem cis, nem trans, é uma pessoa andrógena. Na verdade, eu trabalho atualmente com gradientes, não acredito nessas caixinhas com etiquetas que existem por aí. O ser humano é muito mais complexo do que isso! Mas nossos jovens andrógenos estão no “nem isso, nem aquilo” e as pessoas dão de cara com o desconhecimento. O não saber amedronta muito as pessoas!

- Agora, a pergunta mais frequente é: “Como contar para os meus pais que sou gay?". Ou então, "como contar que eu não sou gay, como eles pensam e respeitam, mas trans?”. Ou seja, como iniciar essa conversa?

Essa eu vou ficar devendo, pelo seguinte: depende muito da dinâmica familiar, depende inteiramente do tipo de vínculo que esses pais e filha/o construíram. Cada caso é um caso. Mas já tivemos alguns e, até agora, todos estão dando certo, embora o percurso seja de grande sofrimento para ambos os lados.

O que eu posso dizer é que há um macete em relação às mães:

a) Geralmente, é bom começar por elas e não pelo pai.
b) Não vá dizendo, “mãe, eu sou gay”; “mãe, eu sou trans”. Sabe “o gato subiu no telhado?” Sua mãe vai assustar se você falar a verdade de pronto pra ela, vai se desesperar e não vai sobrar espaço pra ela olhar pra você. Ela só vai conseguir olhar pra ela mesma! Lembre-se de que as mães não são deusas do Olimpo, nem a “mulher maravilha”, são simples mulheres!
c) Você diz a sua mãe que ela é importante pra você, que você gosta dela... As mães adoram ouvir que são amadas! É meio constrangedor, principalmente porque ela está te rejeitando, mas você consegue! Eu não digo que gay e trans tem de ser gente muito macha????
d) As mães também adoram se sentirem necessárias. Você diz que não anda bem, está angustiado, que precisa do apoio dela. Se for gay, vc diz que é tímido e que está com dificuldade de relacionamento com as garotas; se for lês, diz o contrário. Se for trans, você diz que anda gostando muito das roupas das meninas (ou dos rapazes),  que você está preocupado com você, está triste, tem medo de ficar com depressão. Se sua mãe perceber que você não está bem, ela fica com medo de te perder e a atenção dela se volta pra você, na maioria dos casos.

- Edith, como você lida com os rótulos “travesti, transexual...” e as cirurgias e modelos que acompanham essas nomenclaturas? Há uma necessidade de encaixe ou você acredita que eles são dispensáveis?

Eu já falei que não gosto dos rótulos, das caixinhas, o ser humano é muito mais complexo do que isso. No entanto, como nada pode ser simples, na nossa vida, na adolescência, nossos jovens precisam de um “pertencimento”. Numa idade em que eles estão em processo de “corte do cordão” de busca da sua própria identidade, eles ficam fragilizados e precisam se identificar com um grupo. É a idade em que os amigos são muito importantes e a moda é fundamental. Todos usam a mesma marca de calça, de tênis, o mesmo tipo de cabelo no grupo.

 Eu tive um caso complicado com um garoto que sofreu muito, inclusive com tentativa de suicídio e que me dizia: “Ok, Edith, eu sou homem, me descobri gay, mas eu não sou igual a ninguém do projeto...” E chorava desesperado. Foi quando eu criei mais uma “caixinha” (veja que contra senso), a “caixinha dos andrógenos”. Esse garoto criou alma nova! E está bem até hoje. As identidades sexuais e de gêneros de algumas pessoas são diferentes das da maioria, e até daquela das minorias. Elas são mais difíceis de descobrir. O que importa é que o ser humano tem o direito de ser quem ele é! Tão simples e tão difícil ao mesmo tempo.

- Você é a favor de que a lei João Nery seja aprovada?

Sou e torço muito por ela! Também pela homenagem a esse homem incrível, maravilhoso, grande amigo meu!
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"Não gosto de rótulos, das caixinhas, pois o ser humano é muito mais complexo que isso"

- Você diz que o Brasil ainda é um país homotransfóbico?

 Digo, afirmo, atesto!!!!

- E você sofre preconceito por trabalhar com o grupo LGBT?

Por incrível que pareça -já que sou cis e hétero - sim. Inclusive eu já fui discriminada em público. Uma vez, em Brasília, há alguns anos, uma funcionária do Mac Donald´s se negou a me vender um sorvete. Ela disse que não tinha e eu não percebi que era mentira. Os jovens do projeto é que perceberam e me alertaram. Foi terrível, me senti muito mal...  Chamamos a gerente, só não denunciamos, porque a pobre infeliz estava grávida de oito meses. Mas vocês imaginam que os meninos lhe desejaram um lindo garotinho gay? Risos

Há poucos dias, fazendo um trabalho numa cidade de interior, eu estava no restaurante com alguns jovens LGBTs e notei o preconceito das funcionárias. Me senti muito mal e torci para que os meninos não tivessem percebido. Como eu sou ingênua! Depois, fiquei sabendo que eles estavam torcendo para que eu não percebesse, porque não queriam que eu ficasse triste. Falei com os superiores das funcionárias e sugeri uma capacitação de todos os funcionários da empresa. Até agora não consegui, mas soube que houve uma reunião de diretoria. Quem sabe?

- Qual é a sua sensação ao conseguir ajudar a família de um filho LGBT? Por esta experiência, mudou um pouco a maneira de enxergar a maternidade, apesar de ter sete filhos?

Neto, você não imagina a minha alegria, como eu fico feliz, quando percebo que consegui ajudar, nem que seja um pouquinho! Agora mesmo, eu acabei de falar com um rapaz gay do interior do Recife, por telefone. Eu não pude fazer nada por ele, mas só o fato de eu conversar com eles, eu  já noto o alívio que sentem. 

Essa experiência, na verdade, se transformou em uma missão de vida pra mim. Na verdade não mudou somente a minha maneira de enxergar a maternidade somente, mudou o meu modo de ser. Eu sinto que me tornou uma pessoa melhor.

- O que você diria para um pai que está lendo esta entrevista agora e que entrou em conflito por conta da orientação sexual ou identidade de gênero do filho ou da filha?

Risos... Eu diria que entre em contato comigo: por e-mail (edithmodesto@uol.com.br), por telefone (11) 3031 2106, se for de São Paulo, pessoalmente.

- E para um filho que acaba de sofrer com a rejeição dos pais por conta da orientação sexual ou identidade de gênero?

A mesma coisa. Entre em contato conosco. Temos um projeto para jovens, maravilhoso, dirigido por jovens (protagonismo juvenil). Você vai fazer amigos, até arrumar namorado/namorada. No Projeto Purpurina, cada um pode ser quem é, pode ter a sua opinião. Nunca você será julgado negativamente por ser quem você é e por dizer o que pensa. Nosso último encontro foi no dia nove de março e os jovens LGBTs escolheram conversar sobre o “Preconceito dentro da Comunidade LGBT”.

- Para finalizar, como lidar com os nossos próprios preconceitos?

Neto, a pergunta mais difícil você deixou para o fim? Risos Tem gente que diz que não tem preconceitos. Isso não existe, é impossível. Como eu disse, nós herdamos os preconceitos, inclusive, transgeracionalmente. O que podemos fazer é lutar contra eles. É uma batalha eterna, enquanto vida você tiver, pois há muitos preconceitos e eles são traiçoeiros, eles se escondem... Mas uma coisa é verdade: vale a pena lutar contar eles. É muito gostoso a gente perceber que, pouco a pouco, está se transformando em uma pessoa melhor.

Abaixo, o vídeo em que Edith conta como foi descobrir que o filho é gay:


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Iris disse...

Ótima a matéria. É tão difícil ficar sabendo de projetos de acolhimento, lugares aos quais as pessoas possam se voltar com dúvidas, inseguranças, espaços que reúnem pais e filhos em situações semelhantes. Muito legal ela ter tido a iniciativa e agora ter o trabalho divulgado.

Rodolfo Alex Galvão disse...

Matéria espetacular! Uma das melhores que já não só no seu blog, mas de uma maneira geral. Realista e encorajadora! Parabens

Ricardo Aguieiras disse...

Gosto muito da Edith Modesto. Ela é extremamente coerente e faz um trabalho magnífico, essencial, único. Belíssima entrevista, queria que todo pai e toda mãe de LGBT lessem, entrevista extraordinária!!! Neto Lucon, você precisa juntar tudo e fazer um livro, você fez História, já, percebe?
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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