Pride

Ex-participante do Big Brother revela ser mulher transexual e faz mídia escorregar na transfobia

Rebeca não "virou nada" e deve ter a sua identidade de gênero respeitada 

Em 2009, um brasileiro fez sucesso no Big Brother Britânico e chamou atenção da revista Gay Times ao posar com o bumbum de fora. Nessa terça-feira, 25, foi noticiado no Huffington Post que a celebridade em questão assumiu ser uma transexual há dois anos, tem o nome social Rebeca Lopes, acaba de passar por uma cirurgia que colocou 440 ml de silicone nos seios e enfrenta dificuldades para adentrar no mercado formal de trabalho.

A mídia brasileira aproveitou a matéria para alavancar a audiência e, mais uma vez, soltar o título: “Brasileiro que participou do Big Brother Inglês vira mulher”, e “Brasileiro que participou do Big Brother inglês vira mulher e se prostitui”. Além de escorregarem na expressão “virar mulher” [que nada mais é que uma desinformação sobre o tema], as reportagens utilizaram desrespeitosamente artigos masculinos – como “afirmou ele” e usando o nome de registro - para se referir à mulher trans.

Mais uma vez - e isso é cansativo, eu sei - esqueceram de pesquisar que uma das maiores reivindicações do movimento de trans* é que se respeite a identidade de gênero. Ou seja, que trate alguém que se veste com trajes femininos, que se identifica como Rebeca, que passa por cirurgias e hormonização para ter um corpo feminino e que tem o gênero feminino com artigos [obviamente] femininos. É uma maneira de reconhecer e respeitar aquela pessoa que tem tal identidade, a autodefinição e não vê-la como alguém que se passa por aquilo que não é.

É A Rebeca, elA...  



Afinal, ser mulher é uma construção social e vai além de alguém ter nascido com determinado genital, como já dizia Simone de Beauvoir [vale a leitura]. Quanto ao “virar mulher”, infelizmente [ou felizmente] ninguém vira nada. Apenas, assume-se ou revela-se o que sempre foi, independente do tempo que leva. A militante Janaina Lima explica: 

“A identidade da pessoa se forma, primeiro, a partir da expectativa do que é exposto e, depois, a partir da própria percepção de mundo e do que é ser homem e mulher. Algumas assumem logo cedo e outras têm um processo mais tardio. Provavelmente, a Rebeca já era mulher e por N questões – família, religião... - demorou um tempo para assumir a transexualidade e a mulher que ela é. Sendo assim, ela sempre foi mulher, não virou”.

Outra observação é quanto a falar que Rebeca – que é formada em Produção de TV pela Universidade de Bradford - encontra dificuldades em conseguir emprego, dando ênfase ao possível trabalho de garota de programa. O moralismo tomou conta. Tanto que ela mesma teve que desmentir em outra matéria e escreveu em seu Twitter: “Não tenho nada para falar com a imprensa. Qualquer difamação, roubo de imagens, entre outros será tratado judicialmente. Na hora que eu mando meus currículos, ninguém me liga. Agora que aparece fofoca, essa mídia nojenta fica atrás de mim”, escreveu ela, que passa pelo luto da avó. 

Revolta mais que entendida...

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Patrick Thiago Bomfim disse...

Suas matérias são ótimas. Mas, fiquei curioso sobre o caso: Ela ainda não mudou o nome nas redes sociais? Após cirurgia está com o nome de batismo?

Caso afirmativo em ambas as questões, me parece um certo oportunismo para estar na mídia. Também não a crítico, caso seja. Tantas outras pessoas fazem o mesmo.

Contudo, neste caso específico, acaba influenciando negativamente a representação social de mulheres trans*. Observe que você partiu em defesa delA, mas elA usa conta de Twitter com foto atual, mas nome no masculinO. O que para mim também não é problema, caso ela queira se apresentar socialmente desta forma.

Não acho que a cirurgia seja marco importante na alteração do nome no registro civil. Também não tenho problemas com a prostituição como profissão, desde que por livre escolha. Concordo que a prática não deve ser associada a nenhum segmento social específico, como forma de desqualificação, ou marginalização. Afinal, qualquer pessoa pode vir a se prostituir, desde necessidade até prazer. Só não vale a escravidão e exploração sexual.

Enfim, meu convite à reflexão é sobre até que ponto estamos inferindo algo ou se essas pessoas realmente precisam de defesa. Em se tratando de pessoa pública, acho que seria ótimo uma entrevista com ela para abordar esses aspectos e sem rodeios. Apoio essa iniciativa e para você acho que será difícil recusar. O que acha?

Patrick Thiago Bomfim disse...

Parabéns pela sua nobre atitude e iniciativa, partindo em defesa dela, mesmo diante de questões em aberto. Admiro seu compromisso com a causa e com o fato de buscar episódios do cotidiano, sempre com o intuito de educar o público com explicações diretas e de fácil compreensão.

Estamos juntos!
Abraços, rapaz!

Janaina Lima disse...

interessante reflexão querido!
esse olhar faz -se necessário também!!!

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