Entrevista

Letícia Lanz comenta Dia da Visibilidade Transgênera: 'Queremos chamar atenção para quem vive no armário'

"A descoberta da condição transgênera pode ocorrer tanto aos 3 quanto aos 30 quanto aos 80 anos"

No dia 31 de março, comemora-se o Dia Internacional da Visibilidade Transgênera. Ou seja, data em que se contempla todas as identidades trans - além [e também] da travesti e transexual - como andróginos, crossdresser, intersexuais, dragqueens, dragkings, transformistas, entre muitas outras. Embora o termo e o guarda-chuva "transgênero" não seja reconhecido pela militância organizada no Brasil, ele ganha força entre ativistas internacionais desde os anos 80, já é utilizado por diversos deles no país e cresce a cada dia.

Para Letícia Lanz, psicanalista e criadora da página Transgente no Facebook,  ser "transgênero é normal e é legal". Ela, que se assumiu trans depois de 50 anos, um enfarto e um casamento, encabeça o grupo que almeja desconstruir o binarismo do sistema [ou cis-tema] e, assim, poupar sofrimentos a quem não consegue se livrar destas amarras. "Neste dia, o alvo da campanha é chamar atenção para o imenso número de pessoas que vivem dentro do armário, temerosas de revelarem publicamente as suas identidade secretas", explica.

+ "Quero mais é que meu neto me chame de vovô", diz Letícia Lanz

Anteriormente, Letícia declarou ao NLucon não buscar rótulos e nem o reconhecimento da identidade de gênero. A psicanalista prefere até que seu neto a chame de vovô, causando polêmica entre os leitores [leia aqui]. Com cabelos platinados, vermelho nos lábios e um piercing no queixo, Letícia é uma senhora boa de briga e defende a revolução. Seu discurso ecoa entre muitos, causa admiração, identificação e também estranhamento. Debates e re-bates nas redes sociais em prol do assunto são comuns - e importantes. 

Abaixo, uma nova entrevista com Letícia Lanz, que recebeu o primeiro prêmio "Claudia Wonder", da SP Escola de Teatro, destinado à pessoa que mais contribuiu com a causa trans em 2013. Agora, abordamos questões importantes sobre o Dia Internacional da Visibilidade Transgênera: 

- No dia 31 de março é Dia Internacional da Visibilidade Transgênera. Qual é a diferença deste dia para o Dia da Visibilidade Trans, que é comemorado no dia 29 de janeiro?

Por uma idiossincrasia que não dá pra entender nem vale a pena discutir aqui, o movimento nacional organizado simplesmente não reconhece legitimidade ao termo transgênero como “container” ou “guarda-chuva” de todas as identidades gênero-divergentes. Sendo assim, dentro do seu exclusivismo identitário, fixou a data de 29 de janeiro como Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais. Ou seja, o resto das identidades debaixo do guarda-chuva transgênero são simplesmente isoladas e invisibilizadas, exatamente como a sociedade cisgênera faz com toda a parcela trans da população. 

Ao contrário, o Dia Internacional da Visibilidade Transgênera é um dia para todas as identidades gênero-divergentes, inclusive travestis e transexuais. Aliás, o grande alvo da campanha pela visibilização não é o enaltecimento de pessoas transgêneras já largamente conhecidas da população, mas justamente chamar a atenção da sociedade para o número imenso de pessoas que vivem dentro de armários, temerosas de revelarem publicamente suas identidades secretas e sofrerem todas as sanções previstas para quem transgride as normas sociais de gênero.      

- O que significa ser uma pessoa transgênera?

Como todo mundo sabe, em função da pessoa nascer “macho” (com um pênis) ou “fêmea” (com uma vagina) ela é respectivamente classificada como “homem” ou como “mulher”(gênero masculino ou gênero feminino), as duas únicas categorias de gênero oficialmente existentes na nossa sociedade. Muita gente vive contente e feliz com a classificação de gênero que recebeu ao nascer, em função da sua genitália. São chamadas de pessoas “cisgêneras” e teoricamente constituem a maioria absoluta da população. Mas muita gente sofre um bocado por ter algum tipo de divergência com os dispositivos de gênero. São chamados de transgêneros e  são definidos como pessoas que, em caráter temporário ou definitivo, de maneira superficial ou profunda, ferem alguma norma de conduta prevista no sistema binário de gênero. 

Por exemplo, querendo vestir-se com roupas e adereços social e culturalmente reservados para membros do gênero oposto ao seu ou, numa hipótese extrema, querendo modificar todo o seu corpo a fim de espelhar o máximo possível a imagem corporal estereotipada do gênero oposto ao seu. Transgênero não é uma identidade de gênero, mas uma circunstância sociopolítica de inadequação às normas sociais de gênero. Dependendo do tipo de inadequação sentido em relação às normas de gênero e/ou da maneira como se lida com ela, as pessoas transgêneras poderão ser socialmente reconhecidas como transexuais, travestis, crossdressers, andróginos, transformistas, dragqueens, dragkings, etc, etc, etc. A série é cada vez mais inesgotável.

"Transgênero não é uma identidade de gênero, mas uma circunstância sociopolítica de inadequação às normas"

- Essa pergunta a parceira do NLucon, Roxelle Lamour, fez: Existe idade específica na vida de uma pessoa para que ela possa se descobrir transgênera? 

Embora as pessoas sejam treinadas para acreditar que gênero (tal como casamento...) é para sempre, gênero não é uma grandeza fixa, mas uma categoria altamente fluída e mutável, que pode sofrer enormes variações ao longo da vida de uma pessoa. Essas variações só não transparecem publicamente com maior frequência devido à imensa repressão social com vistas à conformidade de gênero, permanentemente exercida por todo mundo sobre todo mundo na forma de vigilância e terrorismo de gênero. Aliás, sem esses mecanismos de dissuasão e repressão, gênero já teria ido pro espaço há muito tempo!  A descoberta, portanto, da condição transgênera, pode ocorrer tanto aos 3 anos quanto aos 30 quanto aos 80. A probabilidade, entretanto, é que, aos 30 e mais ainda aos 80, a pessoa simplesmente fuja da sua “descoberta” como o capeta foge da cruz. 

-Para você, o que é masculinidade e feminilidade? 

Meros dispositivos de controle social, habilmente incutidos na cabeça  - e no corpo! -das pessoas desde o útero da mãe e até a cova. Como diz Judith Butler, uma paródia para a qual nem sequer existe um original...

- Existe semelhança entre o movimento transgente com a teoria queer? 

Certamente. A teoria queer é um dos pilares do movimento transgente. Isso quer dizer que, como a teoria Queer, não defendemos as identidades de gênero de unhas e dentes, fazendo disso o nosso tema principal. Seguindo as pegadas deixadas por Foucault, enxergamos as identidades de gênero não como “atributos redentores”, mas como descarados e onipresentes dispositivos de controle social. Nosso foco é a defesa intransigente do direito de cada pessoa ser o que ela é, seja ela o que for, sem a necessidade de estar compulsoriamente atada a essa camisa de força social chamada gênero, construída para limitar e tolher a sua liberdade, a sua criatividade e o seu campo de ação. O direito de eu não TER QUE SER homem nem mulher nem trans, mas apenas Letícia Lanz.

- O que querem as pessoas transgêneras? 

Se nem Freud conseguiu saber o que quer uma mulher (e olha que ele nunca se propôs a entender a “cabeça de homem”...), seria muita pretensão da minha parte dizer o que querem as pessoas transgêneras. Só posso dizer que eu, pessoalmente, como pessoa transgênero, desejo ser livre da camisa de força dos rótulos de gênero que infernaram a maior parte da minha vida, vivendo com alegria, charme e competência a minha personagem feminina que eu tanto amo e que eu sei que é igualmente amada por quase todo mundo que me conhece.

- Numa tabela apresentada por você há uma infinidade de identidades trans dentro do guarda-chuva, dentre elas, homem feminino e mulher masculina. Ora, mas um “homem [cis] feminino” continua sendo cisgênero, assim como uma mulher [cis] masculina, não? Até porque não dá para ter um termômetro de feminilidade ou masculinidade de alguém.

[Risos] “Homem feminino”? Cis? Onde? Esse já transgrediu o dispositivo de gênero há muito tempo, meu querido! Já perdeu inteiramente o direito de ser reconhecido como “cisgênero”! De acordo com o código de gênero, “feminilidade” é um atributo exclusivo da mulher. Assim, todo “homem cis” que apresente, ainda que muito longinquamente, qualquer traço de feminilidade, está com a reputação comprometida para sempre. E como não dá pra ter esse termômetro? Não só dá pra ter quanto ele é o instrumento básico que faz entrar em ação a famigerada “vigilância de gênero”. Piscou que seja de modo suspeito, não previsto no código da categoria de gênero que lhe foi consignada ao nascer e você ta n’água, meu irmão! Adeus cisgênero.
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"Homem feminino já transgrediu o dispositivo de gênero há muito tempo"

- Já me disseram: “Não dá para comparar alguém que faz cirurgias, toma hormônios e vive 24h como mulher com uma artista transformista, que só faz isso para shows, ou com uma crossdresser, que teoricamente se monta esporadicamente”. O que dizer? 

Só tenho a dizer que esse discurso traduz a fortíssima – e nojentíssima – tendência a hierarquizar as pessoas em função dos seus “graus” de transgeneridade, tendência que, infelizmente, como uma praga, está amplamente disseminada dentro do mundo transgênero.  Pra mim essa tendência, como tantas outras demonstrações inúteis de poder, é resquício da bobagem machista do eu sou mais” porque você é “menos”. Por trás da fala mansa da pessoa que se apresenta como “vítima esforçada” - aff! - está o execrável discurso neonazista da “superioridade identitária”. Hoje essa coisa já mudou muito graças, inclusive, aos meus esforços críticos.

Mas até algum tempo atrás, era assim: no topo da hierarquia, como “deusas do Olimpo”, as transexuais operadas NO EXTERIOR e que foram consideradas “LINDAS” pelo movimento; logo abaixo as operadas no país, e que também foram consideradas LINDAS; em seguida as operadas, dentro ou fora do país, mas consideradas feias, velhas, sem brilho, sem charme, etc, etc, pelo movimento.  Daí vinham as travestis de tempo integral, seguidas das travestis de tempo parcial, das crossdressers veteranas, das crossdressers noviças e, lá no final desse insólito “beco sem saída”, a imensa população transgênera ainda armarizada, que de longe constitui a parcela maior e mais completamente invisibilizada do mundo transgênero. Aliás,  um dos grandes medos dessa gente em deixar seus armários é justamente vir a ser julgada de maneira tão reles e vil por suas próprias irmãs . O quadro que mostrei é do segmento MtF, mas no segmento FtM as coisas tendem a funcionar nas mesmas bases de classificação hierárquica e exclusão.


- Você é contra os rótulos, mas briga pela palavra “transgente”. Explica-me essa decisão, que para muita gente aparenta ser uma incoerência? 

A primeira coisa que os nossos detratores buscam são “provas” dos nossos possíveis erros, desvios, equívocos, inconsistências e contradições. Tudo que servir para atestar que eles estão certos e nós, errados, é material estratégico na sua “luta”contra quem ousa defender posições diferentes das deles. Ora, transgente é um rótulo, sim, assim como Neto Lucon, Letícia Lanz, Brasil, democracia, amor e fundamentalismo. As pessoas que estranham o fato de transgente ser um rótulo devem também ter um rótulo – um nome – morar numa cidade que tem um nome, estar numa profissão que tem um nome. Assim como devem ter se esquecido de que a vida em sociedade é inteiramente dependente da linguagem: sem rótulos é impossível haver civilização. Da mesma forma que se esqueceram que há rótulos que “rotulam” as pessoas de forma categórica e definitiva, até mesmo cruel, enquanto há rótulos que libertam as pessoas dos rótulos que as oprimem.

Devíamos  inventar palavras novas todos os dias, em vez de usar as antigas. Assim, seríamos sempre obrigados a descobrir o que essas novas palavras estão tentando rotular. Se essas pessoas não fossem tão apegadas a rótulos, já teriam descoberto que transgente é um é rótulo absolutamente fresco, para pessoas que se recusam a ser designadas por rótulos completamente desgastados, depreciados e estigmatizados na sociedade, como é o caso da maioria dos rótulos existentes dentro do mundo trans. E que, como todo rótulo, transgente também tem um prazo de validade: um dia precisará ser reposto e provavelmente enfrentará as mesmas resistências que está encontrando hoje, ao tentar repor rótulos que ficaram completamente defasados no tempo e no espaço.   

-  Sempre vejo debates de ideias e algumas discussões de transgentes com algumas travestis e transexuais na web. Há algum tipo de rixa com o movimento organizado de travestis e transexuais? 

Claro que há; é impossível não haver. Foucault disse que “onde há poder, há resistência” e o movimento que eu chamo de “tra-trans” implantou uma forma de poder baseada na hegemonia absoluta desses dois rótulos, a partir de definições simplesmente sofríveis, insustentáveis, de cada um desses dois rótulos. Toda e qualquer identidade gênero-divergente que não se enquadre nessa surrada cartilha identária é excluída e discriminada, quando não é publicamente deslegitimada e ridicularizada. O propósito do movimento Transgente nunca foi o de fazer oposição, mas, na ausência quase completa de crítica dentro do mundo transgênero, o está virando um foco de resistência a esse modelo de pretensões hegemônicas baseado na defesa intransigente de identidades cada vez mais inconsistentes no mundo atual.  

- Você não acha que o movimento organizado teve grandes contribuições para a causa trans*? Não seria muito fácil levantar uma nova bandeira nesses últimos anos e ignorar as conquistas que tivemos durante décadas, quando se imperava o desconhecimento? 

Só os regimes totalitários desprezam, rejeitam, perseguem e tentam de todas as formas silenciar a crítica ao seu “modus operandi”. Acontece que  sem a crítica sistemática e bem fundamentada nenhum sistema evolui e, muito pelo contrário, só tende a estagnar e decair por falta da oxigenação proporcionada por novas demandas e ideias. Quando eu critico a eficácia do movimento organizado no presente não estou de maneira nenhuma criticando o processo de evolução histórica do modelo que foi implantado e muito menos jogando pedra nas suas conquistas e realizações. Estou apenas exercendo a crítica para que o movimento continue a ter o mesmo fôlego daquelas travestis históricas que apanhavam da polícia tentando afirmar a sua identidade travesti. Foi a elas, aliás, que dediquei o prêmio Cláudia Wonder, que recebi no ano passado, na cidade de São Paulo. Acredito que o passado foi feito para ser meditado e venerado, mas não para ser cegamente seguido, sem nenhuma correção de rumos.
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"Estamos tendo mais visibilidade do que se podia esperar"

- Por que o movimento transgente não tem a mesma visibilidade que o movimento de travestis e transexuais? Será que não falta justamente essas pessoas transgêneras quererem visibilidade? Explico-me: já tentei fazer várias matérias com crossdresser, andróginos, intersexuais [...], mas não consigo pessoas que queiram falar publicamente. Como querer visibilidade para quem não aparece e não quer aparecer?

Pelo contrário! Para o pouco tempo de vida do movimento Transgente, e pela total inexistência de recursos para realizarmos as coisas mais simples do dia-a-dia, estamos tendo até mais visibilidade do que seria de se esperar. Seja para aplaudir, seja para contestar, de uma forma ou de outra as pessoas estão se importando com o que o movimento está dizendo. O seu próprio interesse jornalístico em fazer essa matéria demonstra que alguma coisa está acontecendo dentro do gueto transgênero. Quanto às identidades que você nominou talvez só não tenha procurado direito, ou não tenha procurado nos lugares certos, porque essas pessoas existem e estão por aí, cada vez mais presentes no cotidiano das nossas cidades. A psicanalista e cineasta Miriam Chneiderman está lançando um filme documentário que eu considero emblemático no processo de revelar à sociedade que o universo transgênero é infinitamente mais amplo e mais complexo do que a dupla tra-trans defendida pelo “movimento organizado”. Dê-nos apenas mais um pouquinho de tempo e mais uns minutos de TV e você verá. 
  
- Para você, os artigos não são tão importantes no tratamento de uma pessoa trans, pois eles podem reforçar a ambiguidade dos gêneros. Porém, grande parte das pessoas transgentes gostam de ter o respeito a identidade de gênero e precisam viver nessa sociedade binária. O que fazer ou o que falar com quem quer se inscrever ao sistema sem culpas?

Eu não sou juíza nem monitora da Febem pra dizer o que as pessoas devem ou não fazer. Cada pessoa sabe onde o seu sapato aperta e se tem ou não condição de trocar por outro ou passar a andar descalça. Há tantos pleitos mais importantes do que lutar pelo “uso correto” de artigos e pronomes que estrategicamente eu prefiro desconhecer essa demanda – pelo menos por enquanto. É preciso ter foco em demandas maiores e essas miudezas nos roubam a pouca energia que temos para lutas muito mais importantes, como a aceitação da pessoa transgênera na família, na escola e na comunidade. Eu não me importo nem um pouquinho quando minhas amizades de longa data me chamam de Geraldo em vez de Letícia, e tenho até orgulho de que eles consigam me ver como uma única “entidade”. Mas  sou capaz de virar uma leoa faminta se alguém se aventurar a me chamar de Geraldo com o objetivo de tirar sarro. Artigos e pronomes não vão fazer de mim a pessoa que eu sou e muito menos impedir que eu seja quem eu estou sendo. Mas sei perfeitamente defender o meu espaço e vou defender, sempre que precisar.   

- Você é a favor de que a Lei João Nery seja aprovada? O respeito a identidade de gênero não facilitaria a vida de muita gente? Ou seja, o primeiro passo não seria ampliar as possibilidades, incluir as transgentes [que até então estão na margem] e, depois, num processo, desconstruir? Querer desconstruir o binarismo numa primeira conversa não acaba com a discussão mais cedo – sem nenhuma transformação?  

Sou a favor, sim, da Lei João Nery. Se por mais não fosse, por trazer o nome de um excelente amigo, que trago aqui, o tempo todo, do lado esquerdo do peito. E minha meta é, sim, detonar com gênero enquanto sistema de classificação e hierarquização dos seres humanos, produtor e mantenedor de sérias desigualdades sociopolítico-culturais. Mas essa é uma etapa lá na frente. Que a Lei João Nery, uma vez aprovada, vai ajudar muito a pavimentar. 

- Muita gente reclama da visibilidade de Conchita [o artista que se veste de mulher e tem barba] e de Tereza Brant, que toma hormônios e tem uma aparência masculina, mas que não abdica do nome feminino. Por qual motivo você acredita que elas ajudam na desconstrução do cis-tema?

Exatamente na medida em que incomodam e até assustam, gerando dúvida e mal-estar nas pessoas pelo desprezo que têm por sagrados estereótipos de gênero. Eles são exemplos ao vivo e em cores de como as pessoas transgêneras “transgridem” as rígidas fronteiras do gênero, escapando com charme e elegância à vigilância e ao terrorismo de gênero. Eles são o futuro, um tempo ainda muito distante quando cada pessoa puder personificar quem ou o que ela quiser. Quando o gênero deixar de ser “camisa de força” social para ser um delicioso playground onde todos possam brincar, livre e criativamente. 

- Quem são as pessoas que mais representam o movimento transgente? 

São aquelas que não representam – nem se deixam representar – por isso-tudo-que-ta-aí, essas estruturas falidas e capengas que “posam” de defensoras de seja lá o que for mas no fundo só estão sendo capazes de defender a si mesmas. Ta lá no facebook, naquela descrição do que é o movimento transgente: “gente fora das medidas, dos processos, dos sistemas. Gente fora-de-si, fora-do-mundo, fora-da-lei. Gente posta pra fora no meio da festa, porque estava com o peito de fora, com as ideias de fora, com o coração e a inteligência à mostra. Gente fora-de-órbita, cansada de levar foras dissotudoqueaíestá. Gente que transgride, que transpõe, que ultrapassa todos os limites para combater um mundo injusto, careta, cansado e cansativo. Um mundo que mais do já deu o que tinha que dar, mas continua aí, firme feito rocha, insistindo em marcar sua presença machistapatriarcal, cisgênera e heteronormativa.”
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"Conchita e Tereza são exemplos de como as pessoas transgêneras transgridem as rígidas fronteiras de gênero"

- Recentemente, você ganhou um prêmio que leva o nome da Claudia Wonder, que foi uma ativista do movimento organizado de travestis e transexuais e que por sua vez também propunha a liberdade de ser. Qual é a sua relação com a Cláudia?

Não a conheci pessoalmente, mas senti uma grande força, vinda diretamente dela, no dia em que recebi o prêmio que leva o seu nome. O prêmio, aliás, está aqui, bem na frente do meu desktop, para me fortalecer cada vez que eu leio o nome Cláudia Wonder escrito na placa. 

- Letícia, e se você tivesse certeza de que a sociedade brasileira – que ainda está tão atrasada em muitos aspectos sociais - não vai deixar de ser binária? E que, se já não respeita a identidade e os direitos de travestis e transexuais, certamente vai descartar a entender as transgentes? Se soubesse disso, quais seriam os seus passos? 

[Risos] Exatamente os mesmos que eu estou dando, mesmo porque não tenho outros pés e tudo que posso fazer é exatamente o que estou fazendo, com muita consciência, rigor e disposição. E no fim  não se trata de ganhar ou perder, mas de avançar. Isso-tudo-que-taí pode até adiar as nossas conquistas, atrasando a nossa jornada. Mas a história também está aí demonstrando que, no final da história, os direitos humanos acabam sempre triunfando.

- O que há para se comemorar nesta data?

Essa data, que trata de visibilidade, nos convida a pensar como é que nós, pessoas transgêneras, enquanto coletividade, desejamos ser apresentad@s e representad@s  na mídia, bem como nas providências que devemos tomar para deixarmos de ser vistas meramente como gays e lésbicas “mais afetadas”,  palhaç@s, piranhas e “bonecas deslumbradas”. Somos, antes de mais nada, trabalhador@s, estudantes, profissionais das mais diversas áreas  e precisamos resgatar os nossos direitos civis. Para tanto, é muito importante que a mídia nos reconheça e nos represente como cidadã@s dign@s e responsáveis, não como objetos de curiosidade circense. Uma coisa que você faz por nós, como jornalista, há muito tempo.

- O que você acha do feminismo? 

O feminismo é ó do borogodó, a fina flor do samba, o supra-sumo do pensamento do século XX! Sou feminista até debaixo d’água, mesmo sabendo que tem muita feminista que não gosta de pessoas transgêneras. Mas a verdade é que, sem as reflexões e as ações feministas, o mundo de hoje seguramente estaria atrasado em mais de cem anos. É graças ao feminismo que hoje podemos ter o movimento Transgente.

- Qual livro e qual vídeo você indica para as pessoas lerem e assistirem hoje? 

O livro “My Gender Workbook”, da minha “ídola” Kate Bornstein, transexual, artista e ativista norte-americana, transgente de primeira hora. Esse é um livro que eu considero indispensável pra quem quer entender o imbróglio do gênero, escrito numa linguagem acessível a Deus e ao povo, dentro do mais sincero e honesto espírito queer. O vídeo “Normal”, uma produção da HBO que mostra a dura saída do armário de uma pessoa transgênera depois de 25 anos de casamento. Com Jessica Lange e Tom Wilkinson. 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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